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24.12.15

7

Um certo Dezembro, os tios chegaram muito mais tarde do que o costume. Só conseguiram subir a montanha no dia de São Misham e, quando chegaram a casa, encontraram-na em silêncio. Não havia sinais de alegria nem do alvoroço habituais.

A Avó percebeu nesse instante que algo de errado se passava.

--Onde está o meu filho Mark? - perguntou ela. - Porque não o ouço entre vós? - e o tio Acraud teve de lhe dizer a verdade:

--Mãe, ele morreu. O seu filho Mark não voltará para casa nunca mais.

[...]

O seu desgosto contagiou toda a aldeia. Era como se a pedra central de uma abóbada tivesse sido retirada; não havia nada que mantivesse as pessoas unidas.


(cont., mas eu fico por aqui. se quiserem saber um pouco mais da escritora, cliquem.)


23.12.15

6

[--devagar rapariga, não as fures, era assim que ela me falava. eu, a princípio, era sempre pelo tudo ou nada, o sim ou o não sem pestanejar, infantil, maniqueísta. depois percebi que entre a passividade da planura e a agressividade do rasgo, havia a perfeita concavidade da filhós. a minha mãe, acérrima defensora do reforço positivo, elogiava-me então a perícia. e eu, nesses momentos, era feliz. muito feliz.]

...

Mas aos primeiros sinais da Primavera, os tios tornavam a ficar inquietos e começavam a verificar o equipamento, discutindo mapas e rotas, consertando alforjes e botas e observando os picos das montanhas em busca de sinais de que a neve estava em retirada.

Nessa altura, a Avó começava a ficar cada vez mais calada. Nunca lhes pedia que ficassem mais tempo em casa, nunca fomentava controvérsias sobre a sua partida, mas o seu rosto parecia murchar e encolher, tornando-me mais pequeno e enrugado, enquanto ela se aconchegava na sua manta de retalhos.

No dia de São Petrag, quando os tios partiam, feitas as despedidas, e desciam ruidosamente a montanha por entre a neve derretida e as árvores cobertas de botões cor-de-rosa reluzentes, a Avó mergulhava num silêncio que durava, por vezes, cinco ou seis semanas; passava os dias sentada com o rosto virado a leste, sem dizer uma palavra e sem se mexer, bebendo o seu leite e retirando-se para o quarto à noite, sempre em silêncio e abatida; era necessário que viesse o sol quente e os jacintos doces e selvagens de Maio para que ela se alegrasse.

Depois, pouco a pouco, começava a ficar mais animada e dizia:
--Agora já só faltam seis meses para eles regressarem.

Mas o jovem Mark comentava com a prima Sammle:
--A cada ano que passa, a Avó demora mais tempo a acostumar-se.

E Sammle retorquia, a tremer, apesar do tempo quente de Maio:
--Talvez um ano, quando eles voltarem, ela já cá não esteja. Está a ficar tão pequenina e tão magrinha; dá para ver à transparência das mãos, como se fossem folhas. - e Sammle levantava a sua mão jovem e esguia contra a luz do sol para ver o sangue a brilhar por baixo da pele translúcida.

--Não sei como é que eles iriam suportar - dizia Mark, pensativo - se, quando voltassem, tivéssemos que lhes dizer que ela tinha morrido.

Mas não foi isso que aconteceu.

(cont.)

5

[tenho de fazer batota e saltar umas linhas, que daqui a pouco é hora de almoço e ainda tenho de ir fazer as filhós. como antigamente, a minha mãe, delicada, estica-as suavemente na palma da mão, para depois as lançar com jeitinho na panela de óleo a ferver, e eu, endiabrada, espeto-lhes a colher de pau no bandulho, para lhes dar a concavidade.]

... ... ...

Os meses a seguir ao Natal eram a altura mais feliz da vida da Avó. De bem consigo mesma, agradecida, com os filhos em casa sãos e salvos, sentava-se ao canto da lareira, na grande sala de madeira da família. O vento podia uivar, a neve podia amontoar-se lá fora cada vez mais, que nada disso a preocupava, pois a sua família e toda a aldeia estavam bem abastecidas de farinha, petróleo, lenha, carne, ervas medicinais e raízes. As crianças tinham os seus livros e brinquedos, aprendiam as suas lições com o velho padre, faziam teares e rocas de fiar ou esculpiam bancos e cadeiras e arcas com as ferramentas que os tios lhe tinham trazido. Os tios descansavam e contavam histórias das suas viagens; o Tio Mark tocava a sua flauta horas a fio, o Tio Acraud fazia desenhos a carvão dos locais que tinha visitado e a Avó, passando os dedos pelo papel repleto de linhas, ia explicando os desenhos enquanto tio Mark tocava:

--Uma grande cordilheira, como linhas castanhas e enrugadas na linha do horizonte; uma vasta planície de loira areia prateada, com áreas de um azul muito, muito pálido; não me parece que seja água. Aqui há linhas estranhas pela areia, onde os homens outrora lavraram muito há muito, muito tempo; e uma grande mancha verde cristalino, atravessada por aquilo que parece ser uma estrada. E aqui há uma pequena região tom de ameixa, encostada a uma área vermelho ferrugem. Acho que são as cores da terra nestas paragens; ficam situadas muito alto nas montanhas, em zonas de grande secura devido à altitude e o solo brilha com pequenas partículas de metal.

--A Mãe descreveu-o melhor do que eu próprio alguma vez o conseguiria fazer! - exclamava o Tio Acraud, enquanto as crianças, sustendo a respiração, tal o fascínio e a curiosidade, se sentavam de pernas cruzadas à volta da sua cadeira.

--Sim, mas não o consigo ver, de todo, Acraud, a não ser que os teus olhos o tenham visto primeiro, e não o consigo ver sem a música do Mark para me ajudar.

--Como é que a Avó consegue ver? - perguntavam as crianças às mães, e Argilla, Grippa e Tassy respondiam:

--Ninguém sabe. É um dom da Avó. Só ela o consegue.

(cont.)

[é bonito, não é?]  

4

...

Os pequenos presentes que tinham trazido eram distribuídos pela aldeia: tesouras, ferramentas, medicamentos, plantas, peças de tecido, lingotes de metal, bebidas, armas de fogo e instrumentos musicais, e só depois tinha lugar uma grande festa com banquete.

Mas só na manhã do dia de Natal é que a Avó e as crianças recebiam os presentes especiais que lhe tinham sido trazidos pelos tios; e esta oferta obedecia sempre ao mesmo cerimonial.

O Tio Mark ficava atrás da cadeira da Avó a tocar uma pequena flauta que tinha adquiridos algures durante as suas viagens; era feita de madeira polida, escura e maciça, com orifícios em prata e o bocal em âmbar. O Tio Mark tocava sempre a mesma melodia nestas alturas, muito suavemente. Era uma melodia que tinha ouvido pela primeira vez, dizia ele, quando ainda era muito jovem, numa altura em que escapara por pouco de cair numa fenda da encosta, e uma voz lhe tinha falado, ou assim lhe parecera, das entranhas da própria montanha, alertando-o para ver onde punha os pés e para ter cuidado, já que a família dependia dele. Era uma melodia doce e suave, que lembrava a Sandri, a neta do meio, os sons primaveris: o vento cálido, a neve derretida a pingar dos espigões do telhado, os pássaros e os seus chamamentos de acasalamento.

Enquanto o Tio Mark tocava a flauta, o Tio Emer entregava os presentes à Avó. E ela - e aqui está a parte estranha - ela, que era totalmente cega durante todo o ano, que nem conseguia ver a própria mão à frente da cara, pegava no objecto com os dedos e identificava-o no mesmo instante.
--Um pente de madrepérola com tachas de prata, para a Tassy... vem da Babilónia. Um xaile de seda azul e rosa, da Índia, para a Argila. Um jogo de madeira, com cavilhas de marfim, para o pequeno Emer, de Damasco. Um broche de ouro, de Hangku, para a Grippa. Um livro de rimas, de Paris, para a Sammle, com encadernação de couro escarlate.

(cont.)


3

[na verdade, se bem me lembro, era precisamente com esta ânsia, que eu, noutros tempos, esperava a madrinha, em Agosto...]

...

--Sim, sim, tenham calma, não nos ensurdeçam... pobres e cansados viajantes que nós somos! Deixem-nos em paz para podermos escalar este monte infernal! Está tudo ali, descansem, o xaile, a caixa e os livros, além de outras coisas, alfinetes e agulhas, fruta e uma garrafa ou duas de vinho, e algumas lembranças para distribuir pela aldeia. E agora tenham a bondade de nos dar uns minutos para recuperamos o fôlego - diziam eles, enquanto as crianças dançavam à sua volta, ajudando-se mutuamente a carregar os pacotes mais pequenos, sem darem tréguas à torrente de perguntas:
--Viu o Grande Cã? O Akond de Swat? O Fon de Bikom? O Sultanato de Rum? Foi ao Catai? À cidade antiga de Moscovo? Foi ao distrito de Dalai, na Tanzânia? Andou de barco, de camelo, de lama, de elefante?

E, no cimo do monte, a Avó esperava-os no seu alpendre, indiferente ao tempo que fizesse ou à hora tardia a que chegassem, majestosamente sentada, envolta mas suas peles e na manta de retalhos, enquanto as tias corriam de um lado para o outro trazendo pedras quentes para lhe colocarem debaixo dos pés. Os tios iam sempre abraçá-la primeiro, com muito afecto e respeito, e só depois se viravam para as suas mulheres e cunhadas.

(cont.)


[sogra difícil?...]


2

...

E então, toda a família e toda a aldeia entravam em alvoroço, tal qual um formigueiro quando a pá destrói o montículo de terra. As mulheres atiçavam o fogo e iam buscar a melhor toalha de linho, vinho, carne-seca e ovos de conserva; deixavam a massa do pão a levedar, faziam bolos de mel e aveia e traziam das despensas os potes de grés com a compota de morangos; e as crianças, com os criados e metade da aldeia atrás, desciam a correr os perigosos trilhos ziguezagueantes, ao encontro da caravana.

O caminho era demasiado íngreme para as pesadas carroças, que eram dispensadas, e os salários pagos aos carroceiros, que, assim, podiam ir à sua vida. Depois, entre risos, gritos e milhões de perguntas feitas pelas crianças, as cargas eram divididas e levadas encosta acima por mulas ou ombros humanos. Por vezes, os tios voltavam para casa de noite, debaixo de um nevão, guiados pela luz enfumarada dos archotes; mas as crianças e toda a família sabiam da sua chegada com antecedência, e estavam sempre lá, prontos para os receber.

--Tio Mark, trouxe o xaile chinês para a Avó? Tio Emer trouxe a caixa envernizada para o rapé da Tia Grippa, que tanto lhe pediu? Tio Acraud, encontrou os castiçais de vidro? Tio Gonfil, trouxe os livros?

(cont.)


[e então, acham muito consumista? não sejam assim, as crianças são iguais em todo o lado. a critica do machismo até entendo, as mulheres a trabalhar no duro e os heróis a correr mundo... mas a história continua, não sejam tão intolerantes, é quase natal.]


Se eu tivesse um filho,

esta seria a história que hoje lhe iria contar.


A DÁDIVA -- Joan Aiken


As semanas que antecediam o Natal eram sempre vividas com grande emoção e, também tremenda expectativa, enquanto a família esperava ansiosa  que os tios, que tinham partido na Primavera, regressassem das suas viagens desse Verão pelas rotas dos mercadores: o Tio Emer, o Tio Acraud, o Tio Gonfil e o Tio Mark. Partiam sempre juntos, descendo a encosta alcantilada, mas depois, chegados ao sopé da montanha, seguiam caminhos diferentes ao longo do vale profundo e estreito. O Tio Mark e o Tio Acraud dirigiam-se para leste, em direcção às grandes planícies, enquanto o Tio Emer e o Tio Gonfil viravam para oeste, para as cidades, os rios e o mar a ocidente.

Em seguida, e antes de se despedirem das montanhas, separavam-se uma vez mais, seguindo o Tio Acraud para sul e o Tio Emer rumo ao norte, o que levava as crianças a pensar que a sua família estava espalhada pelo mundo inteiro, em constante expansão como a teia de uma aranha.

A Primavera e o Verão eram passados entre as actividades habituais, cavando e semeando as parcelas na encosta íngreme, pescando, caçando lebres, apanhando morangos silvestres, usando o tempo da melhor maneira. Depois, perto do Dia de São Drimma, quando os ventos começavam a soprar e a neve a cair nos picos mais altos, descendo cada vez mais rumo ao vale, a Avó começava a ficar mais inquieta.

Passava o Verão calma e em silêncio, sentada na sua cadeira de baloiço no grande alpendre de madeira, enrolada numa manta de retalhos, com os olhos cegos virados para leste, em direcção às terras para onde Mark, o seu filho mais velho e o mais querido, tinha ido. Mas quando os ventos dos finais de Setembro começavam a soprar, por alturas do Michaelmas, a Festa de São Miguel, e os lobos se tornavam mais ousados e o gado era trazido para o estábulo por baixo da casa, a Avó começava realmente a ficar inquieta.

Quando Sammle, a neta mais velha, lhe trazia o leite quente, ela agarrava o pulso magro da menina e perguntava: 
--Diz-me, filha, quantos dias faltam para o Dia de São Froida? - (que é o primeiro dia de Dezembro).
--Dezoito, Avó - respondia Sammle, beijando-lhe a face enrugada.
--Tantos, ainda? Tantos até ao dia em que temos a esperança de os voltar a ver?
--Não se preocupe, Avozinha, de certeza que os Tios vão voltar sãos e salvos. Talvez cheguem mais cedo este ano. Talvez voltem ainda antes da Festa de São Melin - (que é a 14 de Dezembro).

E então, algures pelos meados de Dezembro, lá se ouvia o eco das suas grandes carroças a tilintar e a rolar pelos vales serpenteados. O jovem Mark (filho do Tio Elmer), postado no seu ponto de vigia no cimo de um grande pinheiro no alto de um penhasco, vislumbrava o reflexo da medalha de bronze na cabeça de uma mula de carga ou o sol a luzir no cano de uma carabina, e vinha a correr trazer a boa nova.
--Avozinha! Avozinha! Os Tios estão quase a chegar!


(continua)