«Caçar faz de nós animais, mas a morte de um animal torna-nos humanos.»
[A de Açor, Helen Macdonald]
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30.5.16
11.5.16
Pai
Na minha estante, no outro extremo da sala, havia um telescópio portátil com uma capa de Cordura verde. Pedira-o emprestado ao meu pai para ir observar aves e não o tinha devolvido. Esquecera-me de o levar na última visita que lhe fiz. «Fica para a próxima», dissera ele, abanando a cabeça com uma exasperação bem-humorada. Não houve próxima vez. Não o pude restituir. Também não lhe pude pedir desculpa. Houve uma vez, talvez no dia a seguir à sua morte, ou no dia a seguir a esse, em que ia sentada num comboio com a minha mãe e o meu irmão. Íamos buscar o carro dele. Foi uma viagem desesperada. As minhas mãos agarravam com força o ferro áspero do assento até os nós dos dedos ficarem brancos. Recordo-me de buddleia, de escória ao lado da linha, de um gasómetro verde e da central nuclear de Battersea quando o comboio abrandou. E só quando já nos encontrávamos na estação de Queenstown Road, numa plataforma desconhecida sob uma cobertura de madeira branca, só quando já nos dirigíamos para a saída, me apercebi, pela primeira vez, de que nunca mais voltaria a ver o meu pai.
Nunca. Detive-me e fiquei imóvel. E gritei. Chamei-o em voz alta. Pai. E depois, a palavra Não saiu num uivo longo, decrescente. O meu irmão e a minha mãe abraçaram-me, e eu a eles. Um facto brutal. Nunca mais tornaria a falar com ele. Nunca mais voltaria a vê-lo.
6.5.16
«a de açor»
Uma pessoa aprende. Hoje, pensei, já não com nove anos e sem estar aborrecida, era paciente e as aves de rapina apareciam.
Levantei-me lentamente, com as pernas um pouco entorpecidas por ter estado imóvel durante tanto tempo, e vi que tinha na mão uma pequena quantidade de musgo-das-renas, um pedacinho desse líquen ramificado de um cinzento-esverdeado pálido que pode sobreviver do quase nada que o mundo lhe fornece. É um exemplo de paciência. Se o guardarmos no escuro, se o congelarmos, se o secarmos até ficar estaladiço, o musgo-das-renas não morre. Fica em estado latente à espera de que as coisas melhorem.
É um ser impressionante. Sopesei a pequena esfera ramosa. Era quase como se não a tivesse na mão. E, num impulso súbito, enfiei no bolso de dentro do colete essa pequena recordação roubada ao dia em que vi as aves de rapina, e fui para casa. Pu-la numa prateleira perto do telefone.
Três semanas mais tarde, era para o musgo-das-renas que olhava quando a minha mãe ligou a dizer que o meu pai tinha morrido.
Helen Macdonald
20.1.16
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