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8.4.21

plan para un poema

..., que el viento aguce los lápices de plomo del escriba sentado, o atrás de enredaderas centenarias aparezca escrita una mañana esta frase convincente: No hay enredaderas centenarias, la botánica es una ciencia, al diablo los inventores de imágenes presuntas.

Historias de cronopios y de famas, Julio Cortazar


2.4.21

conversas em carreiro


  «… mares paralelos (¿ríos?). El agua infinita (¿un mar?) crece en ciertos


momentos como una hiedra-hiedra-hiedra (¿idea de una pared muy alta, que


expresaría la marea?). Si se va-va-va-va (noción análoga aplicada a la distancia)


se llega a la Gran Sombra Verde (¿un campo sembrado, un soto, un bosque?)


donde el Gran Dios alza el granero continuo para sus Mejores Obreras. En esta


región abundan los Horribles Inmensos Seres (¿hombres?) que destrozan


nuestros senderos. Al otro lado de la Gran Sombra Verde empieza el Cielo Duro


(¿una montaña?). Y todo es nuestro, pero con amenazas».



«Geografías» in Historias de cronopios y de famas, Julio Cortazar



|conversa retirada do Grande Livro das Formigas :)|

11.11.18

Aplastamiento de las gotas

    Yo no sé, mira, es terrible cómo llueve. Llueve todo el tiempo, afuera tupido y gris, aquí contra el balcón con goterones cuajados y duros, que hacen plaf y se aplastan como bofetadas uno detrás de otro, qué hastío. Ahora aparece una gotita en lo alto del marco de la ventana; se queda temblequeando contra el cielo que la triza en mil brillos apagados, va creciendo y se tambalea, ya va a caer y no se cae, todavía no se cae. Está prendida con todas las uñas, no quiere caerse y se la ve que se agarra con los dientes, mientras le crece la barriga; ya es una gotaza que cuelga majestuosa, y de pronto zup, ahí va, plaf, deshecha, nada, una viscosidad en el mármol. 


    Pero las hay que se suicidan y se entregan enseguida, brotan en el marco y ahí mismo se tiran; me parece ver la vibración del salto, sus piernitas desprendiéndose y el grito que las emborracha en esa nada del caer y aniquilarse. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adiós gotas. Adiós.


Historias de Cronopios y de Famas, Julio Cortazar

7.4.18

Axolotl

Hubo un tiempo en que yo pensaba mucho en los axolotl. Iba a verlos al acuario del Jardín des Plantes y me quedaba horas mirándolos, observando su inmovilidad, sus oscuros movimientos. Ahora soy un axolotl.

|cont. aqui | em pt aqui|

Julio Cortazar

18.11.17

«Três viagens numa só, o real mas já passado, o imaginário mas presente na palavra, e aquilo que outro indivíduo fará no futuro ao seguir os traços do passado e à base de conselhos do presente,»

«A memória tece-nos e apanha-nos simultaneamente através de um esquema no qual não se participa de forma lúcida; nunca deveríamos falar da nossa memória porque se existe algo que a distingue, esse algo é o facto de ela não ser nossa; trabalha por sua conta, ajuda-nos ao enganar-nos ou quiçá nos engane para nos ajudar; seja como for, de Atenas viaja-se até ao Cabo Súnion num autocarro desengonçado, e isso foi-me explicado em Paris pelo meu amigo Carlos Courau, cronópio infatigável se é que eles existem. 
Explicou-mo à mistura com outros itinerários gregos, cedendo ao prazer de qualquer viajante que, ao contar o seu périplo, o refaz (é por isso que Penélope esperará eternamente) e ao mesmo tempo saboreia uma viagem de substituição, a mesma que esse amigo ao qual lhe está agora a explicar como se vai de Atenas a Cabo Súnion fará. Três viagens numa só, o real mas já passado, o imaginário mas presente na palavra, e aquilo que outro indivíduo fará no futuro ao seguir os traços do passado e à base de conselhos do presente, isto é, que o autocarro saía de uma praça ateniense por volta das dez das manhã e convinha chegar algum tempo antes porque a carripana se enchia rapidamente de passageiros locais e de turistas. 
Já nessa noite, nesse inventário de andanças e de monumentos, a aranha fez uma escolha estranha, porque ao fim e ao cabo, que demónios, o relato que Carlos me tinha feito da sua chegada a Delfos, ou a viagem por mar até às Cíclades, ou a praia de Mikonos ao entardecer, qualquer um dos cem episódios que abarcam Olímpia e Mistra, a visão do canal de Corinto e a hospitalidade dos pastores, tudo era mais interessante e incitador do que o modesto conselho de chegar algum tempo antes a uma praça poeirenta para apanhar um autocarro sem correr o risco de não encontrar um assento livre por entre cestas de galinhas e marines de queixadas paleolíticas. 
A aranha ouviu tudo, e a partir dessa sequência de imagens, perfumes e plintos fixou para sempre a visão imaginária que eu me fazia de uma praça à qual era preciso chegar cedo, de um autocarro à espera por baixo das árvores.»


/A Volta ao Dia em 80 Mundos, Julio Cortázar/

4.9.17

Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera,

...y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano por tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua.


/Rayuela, cap. 7/

16.7.16

cefaleia (iv)

...

Quem pode pensar em tais insignificâncias se o trabalho espera nos currais, na estufa, nos estábulos? Leonor e Chango já se ouvem lá fora e, quando saímos com os termómetros e as tinas para o banho, atiram-se ambos ao trabalho como se quisessem cansar-se bem depressa, preparando o descanso da tarde. Sabemos isso muito bem, por isso alegra-nos ter saúde para podermos cumprir cada tarefa. Enquanto for assim e não aparecerem as cefaleias, podemos continuar. Agora é Fevereiro, em Maio estarão as mancúspias vendidas e nós a salvo por todo o Inverno. Ainda se pode continuar.

As mancúspias distraem-nos muito, em parte porque são cheias de sagacidade e malevolência, em parte porque a sua criação é um trabalho subtil, necessitando uma exactidão incessante e minuciosa. Não é preciso enumerar, mas isto é um exemplo: um de nós tira as mancúspias fêmeas das jaulas aquecidas - são 6:30 da manhã - e reúne-as no curral do pasto seco. Deixa-as retouçar vinte minutos, enquanto o outro tira as crias dos cacifos numerados, onde cada uma tem a sua história clínica, verifica rapidamente a temperatua rectal, repõe nos cacifos as que excedem os 37,1º e, por uma caleira de folha, leva as restantes a reunirem-se às mães, para a lactação.

Talvez seja este o momento mais belo da manhã, comove-nos o alvoroço das pequenas mancúspias e das mães, o seu rumorejante falatório sustido. Apoiados na grade do curral esquecemo-nos da figura do meio-dia que se aproxima, da dura tarde inadiável. Por instantes, temos um certo medo de olhar para o chão do curral - um quadro Onosmodium marcadíssimo -, mas passa e a luz salva-nos do sintoma complementar, da cefaleia, que aumenta com a escuridão.

(cont)

Julio Cortazar, in Bestiário

12.7.16

cefaleia (iii)

...

Pensámos se não será antes um quadro de Phosphorus, porque além disso aterra-o o perfume das flores (ou o das mancúspias pequenas, que cheiram levemente a lilás) e coincide fisicamente com o quadro fosfórico: é alto, magro, gosta de bebidas frias, geladas e sal.

De noite não tanto, ajudam-nos a fadiga e o silêncio -- porque a ronda das mancúspias respeita levemente este silêncio da pampa -- e às vezes dormimos até ao amanhecer, e desperta-nos um esperançado sentimento de melhoras. Se um de nós salta da cama antes do outro, pode suceder que assistamos consternados à representação dum fenómeno Camphora monobromata, pois julga-se estar a caminhar para um certo sítio quando na realidade se está a caminhar em sentido oposto. É terrível, vamos com toda a segurança para o quarto de banho, e de repente sentimos na cara a pele despida do espelho alto. 

Rimo-nos quase sempre, pois há que pensar no trabalho que espera e de nada serviria desanimarmos tão cedo. Procuram-se os comprimidos, cumprem-se sem comentários nem desalentos as instruções do doutor Harbin. (Talvez em segredo sejamos um pouco Natrum muriaticum. Tipicamente, um natrum chora, mas ninguém deve observá-lo. É triste, reservado; gosta de sal.)


(cont)

Julio Cortazar, in Bestiário

7.7.16

Cefaleia (ii)

... 

Andamos então sem reflectir, cumprindo, um atrás de outro, os actos que o hábito ordena, detendo-nos apenas para comer (há bocados de pão na mesa e no estrado da sala) ou ver-nos no espelho que duplica o quarto. À noite, caímos repentinamente na cama e a tendência para lavar os dentes antes de dormir cede perante a fadiga, consegue apenas substituir-se por um gesto dirigido ao candeeiro ou aos remédios. Lá fora ouvem-se andar e andar em circulo as mancúspias adultas.

Não nos sentimos bem. Um de nós é Aconitum, quer dizer que deve medicamentar-se com aconitum altamente diluído se, por exemplo, o medo lhe provoca vertigens. Aconitum é uma violenta tempestade que passa depressa. De que outra forma descrever o contra-ataque a uma ansiedade que nasce de qualquer insignificância, do nada. Uma mulher depara bruscamente com um cão e começa a sentir-se fortemente enojada. Então aconitum e daí a pouco só fica um enjoo suave, com tendência a andar para trás (aconteceu-nos isto, mas era um caso Bryonia, o mesmo que sentir que nos afundávamos com, ou através da cama).

O outro, ao contrário, é nitidamente Nux Vomica. Depois de levar a aveia malteada às mancúspias, talvez por se baixar demasiado ao encher a escudela, sente de repente como se o cérebro lhe girasse, não que gire tudo à volta - a vertigem em si -, mas a vista é que gira, a consciência gira dentro dele mesmo como um giroscópio no seu aro, e lá fora está tudo tremendamente imóvel, só que a fugir e inacessível. 

(cont)

Julio Cortazar, in Bestiário


6.7.16

Cefaleia (i)

quero partilhar consigo, estimado leitor, na eventualidade de ainda por aqui passar, um conto de Julio Cortázar, Cefaleia (in Bestiário), que me deixou maravilhada - o que talvez não seja difícil, tendo em conta que eu amo o Julio e foi aqui, neste ninho de palha, que nasceram as mancúspias.


«Devemos à doutora Margaret L. Tyler as imagens mais belas deste conto. O seu admirável poema, «Sintomas orientadores dos remédios mais comuns da vertigem e cefaleia», apareceu na revista Homeopatia, publucada pela Associação Médica Homeopática Argentina, ano XIV, nº 32, Abril de 1946, p. 33 e segs.
Agradecemos do mesmo modo a Ireneu Fernando Cruz, por nos ter iniciado, durante uma viagem a San Juan, no conhecimento das mancúspias.


Tratamos das mancúspias até bastante tarde; agora com o calor do Verão, enchem-se de caprichos e volubilidades, as mais atrasadas reclamam alimentação especial, e levamos-lhes aveia com malte, em grandes taças de barro; as maiores estão a mudar o pêlo do lombo, de modo que é preciso pô-las de parte, amarrar-lhes uma capa de protecção e fazer com que não se juntem de noite às mancúspias que dormem nas jaulas e recebem alimentos todas as oito horas.

Não nos sentimos bem. Isto já desde manhã, talvez devido ao vento quente que soprava ao amanhecer, antes de ter nascido este sol alcatroado que bateu na casa o dia inteiro. Custa-nos tratar dos animais doentes - isso faz-se às onze - e vigiar as crias depois da sesta. Parece-nos cada vez mais difícil andar, seguir a rotina; suspeitamos de que uma só noite de desatenção seria funesta para as mancúspias, a ruína irreparável da nossa vida.

(cont.)

14.11.15

Paris, je t'aime.

Jean-Philippe Charbonnier, Les Amourex, Paris, 1950


Así habían empezado a andar por un París fabuloso, dejándose llevar por los signos de la noche, acatando itinerarios nacidos de una frase de clochard, de una bohardilla iluminada en el fondo de una calle negra, deteniéndose en las placitas confidenciales para besarse en los bancos o mirar las rayuelas, los ritos infantiles del guijarro y el salto sobre un pie para entrar en el Cielo.


11.9.15

Famas, Cronópios e Esperanças

Quando os famas vão de viagem, têm por costume, ao pernoitar numa cidade, fazer o seguinte: o primeiro fama chega ao hotel e cautelosamente pergunta os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo vai à esquadra da polícia e lavra uma acta declarando móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital copiar a lista dos médicos de serviço e respectivas especialidades.
Terminadas estas diligências, reúnem-se os viajantes na praça principal da cidade, trocam as observações obtidas, entram num café para tomar um aperitivo. Mas antes dão-se as mãos e dançam. Esta dança tem o nome de ‘Alegria dos famas’.
Quando os cronópios vão de viagem, encontram os hotéis cheios, os comboios já partiram, chove a potes, os táxis não os querem levar ou querem imenso dinheiro. Os cronópios não desanimam, pois julgam que isto acontece a toda a gente e, quando se vão deitar, dizem uns aos outros: ‘Bela cidade, belíssima cidade.’ E toda a noite sonham que há grandes festas na cidade e que foram convidados. No dia seguinte levantam-se todos satisfeitos, e é assim que os cronópios viajam.
Sedentárias, as esperanças deixam-se viajar pelas coisas e homens, e são como as estátuas que é preciso ir ver porque elas não se incomodam.
Histórias de Cronópios e de Famas, Julio Cortázar