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2.4.16

A Morte de um Apicultor: frases soltas ii

«E agora, principalmente quando as dores voltam, sinto muita falta dela.
E ao mesmo tempo, é perfeitamente claro que aquilo era impossível entre nós. Foi por puro milagre que a nossa história durou tanto tempo.
Tudo, toda a nossa vida estava baseada num só principio muito simples, um acordo:
Proibição de nos vermos. Quero dizer, proibido vermo-nos verdadeiramente um ao outro.
É um jogo bastante complicado, o de tentar manter um tal acordo durante doze ou treze anos sem nunca deixar cair a máscara, mesmo quando estamos zangados ou muito tristes. É como se vivêssemos fechados numa sala exígua com alguém, com a condição de lhe virar sempre as costas.
É preciso perceber, claro, o que há por trás de um tal acordo.
A meu ver, é a dor. Uma espécie de sofrimento original, que carregamos desde a infância e que não deve ser mostrado. O facto de o sofrimento estar escondido é bem mais importante do que a sua existência.»


A Morte de um Apicultor: frases soltas

suspeito que não tenho nenhum outro livro com tantos cantos dobrados...


«Notei que na cara dela havia pequenas borbulhas ou pequenas verrugas, como se tivesse tido uma estranha doença de pele, o que me fez repentinamente mudar de ideias. Apesar desta sensação, continuei a falar, e ela respondeu, conversando comigo de forma agradável e educada. Pode ser que a tenha conhecido num daqueles dias inconvenientes em que é proibido ter sexo. Ela, nas redondezas, tem fama de ser bonita.
No entanto, senti uma espécie de alívio depois daquele encontro. Ela libertou-me de uma sensação que estava a querer transformar-se uma espécie de desassossego, e de um mau hábito que tenho, que consiste em apegar-me a tudo aquilo que me atrai de forma inquietante.»


«Quando deixamos por instantes o subconsciente à solta, ele começa naturalmente a criar enredos. Cria uma identidade, adapta-se ao meio, inventa novas formas para preencher o vazio que entretanto se faz quando esquecemos a nossa vida imediata.
Não há nada pior para o subconsciente, parece, do que a sensação de não ser ninguém


«Não sei porquê, talvez por causa da minha ansiedade, mas só me interessava a sedução.
A palavra pode parecer um pouco solene, é verdade... mas tratava-se disso mesmo, sedução.
Queria provar a mim próprio que realmente existia. E isso só acontece quando exercemos efeito noutra pessoa.»


«Ainda hoje penso que ela gostava mesmo de mim, sim, quase me amava, havia pelo menos algo em mim que a fascinava. Mas também acho que nunca conheci ninguém que tivesse tanto medo de mim como ela.»



A Morte de um Apicultor

As páginas que se seguem são as notas que ele próprio deixou. É efectivamente nesta primavera de 1975, no exacto momento do degelo, que ele descobre que deixará de existir antes da chegada do outono. Tem um cancro mortal, tardiamente localizado no baço, com metástases nos tecidos circundantes.
A voz que ouvirão a seguir é a dele, não a minha, e por isso me despeço.

...


Encontrei o cão em casa dos Sundblad. Passara ali toda a tarde; tinham-lhe dado biscoitos e água. O que mais me embaraçou foi que, quando o quis trazer de volta, ele se recusou. Resistia, fincava as patas no tapete da cozinha.
Que vergonha. Os Sundblad devem ter pensado que o trato tão mal que ele se nega a acompanhar-me de volta. Mas isso não é verdade.
É qualquer outra coisa, que no entanto não consigo explicar claramente. Diria que o cão, inexplicavelmente, ganhou medo, ...


(...)


Não há nada a fazer. Sempre foi um bom cão, e espero que ainda viva muito tempo.
Não consigo compreender o que se passou. Porta-se, na verdade, como se não me reconhecesse. Ou melhor: reconhece-me, mas a uma distância muito curta, quando me pode ver e ouvir sem ter de se guiar exclusivamente pelo olfacto.
Claro que há ainda uma outra explicação, mas tão absurda que não a posso levar a sério.
Que eu, de repente, tenha mudado de cheiro, de uma maneira tão subtil que apenas o cão consiga perceber.  


[Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor]