Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Gabriela Llansol. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Gabriela Llansol. Mostrar todas as mensagens

17.8.19

"um não-romance"

A Morte de Assafora

Prólogo

__________ prendeu a cabra a um castanheiro que se via da janela
mas estava longe; a cabra não deixava de se ouvir e, mesmo depois
do pôr do sol, balia; disse que ia cortar-lhe o som, e dirigiu-se
para ela com a mão direita e uma faca; o pêlo agitou-se sem balir, e
ficou a sangrar; mais nenhum ruído atravessou o nosso sossego,
mas uma segunda língua, com parte no céu-da-boca, principiou a
nascer-lhe, e foi ela a voz.

O lugar da intersecção da língua arrancada com a outra língua
transparente é herança da rapariga que temia a impostura da língua.
Por isso, eu tenho de encontrá-la, e trazê-la para fora da sua nostal-
gia infinita. E não só. Da intersecção das duas línguas — a que se
ouvia balindo, e a que nasceu do sangue — voou o Falcão, ou
Aossê* feito ave.


|Um beijo dado mais tarde, Maria Gabriela Llansol| 


*Fernando Pessoa Llansoliano



De Maria Gabriela disse Eduardo Lourenço que seria "o próximo grande mito literário a seguir a Fernando Pessoa". Infelizmente, não acredito, a sua leitura exige tempo e espaço, ambos escassos, no momento actual e, vaticino, no futuro que se avizinha.

9.5.16

não escrever ii

«Não há literatura: Quando se escreve só importa saber em que real se entra e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.»


[Um falcão no punho, Maria Gabriela Llansol]


21.12.15

Amar um Cão*

«Estreia a 24 de Dezembro nos cinemas. 
A partir da sua própria experiência e das suas memórias, marcadas pelas perdas recentes da mãe e do marido Lou Reed, a realizadora Laurie Anderson traça uma pequena reflexão sobre temas como a vida, o amor e a morte. »



[*lembrei-me do livro maravilhoso de Maria Gabriela Llansol e de Jade]


15.9.15

escrever?

Eu não espero para escrever, nem deixo de escrever para passar pelo exercício que produz a escrita; tudo é simultâneo e tem as mesmas raízes, escrever é o duplo de viver; poderia dar como explicação que é da mesma natureza que abrir a porta da rua, dar de comer aos animais, ou encontrar alguém que tem o lugar de sopro no meu destino.


4.9.15

O encontro inesperado do diverso / O ensaio de música

- Eleanora,           o que pensas, já o deixei de pensar. Não te deixes iludir porque pequenas palavras podem ter a sombra de grandes. Provavelmente, o movimento dessa força, que julgas imensa, é ainda quase inexistente.

- Não posso, Anna. Há uma voz, no exterior, que se cruzou com a minha,           a minha pobre voz sem lugar, e ainda tem força para           «onde estás, meu amor», perguntei, mas a minha intenção firme, e silenciosa, era deixar de pronunciar, definitivamente, qualquer destas palavras porque são um véu transparente que asfixia o meu discernimento,           mas não posso, Anna.

Lisboaleipzig

2.2.15

letra

Cerne, caroço, coração da língua. Em seu âmago, é pele sobre o corpo. Matéria árida, resistente, indivisível. Nó: Imagem-visual-sonora-impulso-orgânico-morte-vidamatéria-traço-opaco-resto. Traço entre uma e outra palavra. Intervalo mínimo entre a ponta dos dedos e o objeto: toque, grão da voz, centelha do olhar. Litoral entre o traço singular e seu modelo: na abstração da letra A (inexistente), infinitizam-se grafias de pequenos a. A letra concernida no risco. Em sua intimidade de letra escrita – a –, há sua exterioridade indiscernível: A, modelo de todas as outras. Unidade indestrutível, Aleph. Nó: de fora para dentro, superfície; de dentro para fora, centro.