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2.2.16

a morte


[...] - Nós, os Mentirosos, tal como os outros de todas as religiões temos diversas verdades que aceitamos como fé. A Fé é sempre exigida. Algumas coisas não podem ser provadas. Acreditamos que a vida vale a pena ser vivida. Isso é um acto de fé. O objectivo da vida é viver, resistir à morte, talvez desafiar a entropia.

- Continue - disse, interessado, apesar de tudo.

- Também acreditamos que a felicidade é uma coisa boa, algo que vale a pena procurar.

- A Igreja não se opõe à felicidade - disse secamente.

- Pergunto-me se será mesmo assim - disse Lukyan. - Mas não sejamos picuinhas. Qualquer que seja a posição da Igreja sobre a felicidade, ela prega a crença na vida depois da morte, num ser supremo e num complexo código moral.

- Verdade.

- Os Mentirosos não acreditam na vida depois da morte, em Deus. Vemos o universo como ele é, Padre Damien, e estas verdades nuas, são verdades cruas. Nós, que acreditamos na vida, que a estimamos, vamos morrer. Depois disso não haverá nada, vazio eterno, escuridão, não-existência. Não houve uma finalidade na nossa vida, nenhuma poesia, nenhum significado. Nem as nossas mortes possuem características. Quando nos formos embora, o universo não se lembrará de nós por muito tempo, e em breve será como se nunca tivéssemos sequer vivido. 

[...]

O Caminho da Cruz e do Dragão, George R. R. Martin






Não te esqueças de viver! - Maria Filomena Molder
[Ciclo de Conferências da Culturgest]


22.11.15

Poeira

[Eduardo Jorge]: Poeira. Das cinzas saltamos à poeira. Certa vez a senhora comentou que a poeira a acompanha desde a infância. Seria a poeira uma espécie de convidada estrangeira?

[Maria Filomena Molder]: Poeira era a dedada do sol quando entrava na casa da minha infância. Percebi logo que ela era também de origem cósmica, quer dizer, pertencia a tudo o que estava em redor muito longe, longíssimo (traduzido agora, incontáveis anosluz): hostes de seres minúsculos que habitavam, trémulos, instáveis, o raio de sol numa agitação constante. Dizia para mim: “está tudo cheio de poeira e eu não sabia antes deste raio de sol entrar pela janela”, maravilhada e ao mesmo tempo perto de um terror que não provocava paralisia. Era uma coisa de infância, um anúncio, tanta coisa que existe sempre ao nosso lado, que enche a nossa boca quando a abrimos, penetra nos cabelos, rodopia à nossa volta e nós sem darmos dela. A luz descobriu-a. Esta poeira também pousava nos móveis, nas vidraças das janelas, mas aí não dançava, esperava pelos nosso dedos que abriam sulcos, desenhos, nesse estado chamava-se pó e limpava-se. Nunca tive a certeza de que fossem a mesma.