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13.6.20

al berto, meu amor

e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

24.4.19

ligações

«é no movimento incessante de quem viaja que encontrarás a imobilidade que desejas.»

  al berto


«Há uma frase de Toynbee que me toca: "Os nómadas são aqueles que não se movem, tornam-se nómadas porque recusam partir."»

Gilles Deleuze
(daqui: sound+vision)

6.7.17

recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer -- vai por esse campo
de crateras extintas -- vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo -- deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração -- ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna -- o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira -- não esqueças o ouro
o marfim -- os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


/al berto, horto de incêndio/

16.6.17

al berto, poeta dos espelhos

«Um corpo que nunca parou de se encenar, de re(a)presentar, porque nunca parou de sofrer por essa impossibilidade de sair de si mesmo, com a escrita a querer fazer-se ex-crita. No limiar, parece ser essa a grande utopia de Al Berto: transformar o corpo em palavras, transformar a carne em linguagem, para assim se libertar da solidão ontológica, que é sempre a marca da nossa fragilidade e a omnipresença de um perigo.»


/Joana Emídio Marques, num belíssimo artigo aqui/

24.7.15

Equinócios de Tangerina

nos dentes amachuco a folha de papel escrita, mordo noite adiante o ombro decotado e literário de Tangerina. invento-o e mordo-o, como sempre fiz, esfrego o sexo nas palavras, meto-lhes nas mãos sujas da literatura, viro-a, enrabo Tangerina ainda mal acordada no fundo da memória, mordo-lhe a nuca, mordo-a até não sentir em mim absolutamente mais nada (...)