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5.12.15

Piccolino, meu pequeno, que nasceste tão velho, como todos os anões.

Fiquei ali nu, desarmado, sem mais poder do que espumar de raiva. E a alguns passos de mim, impassível, ele pôs-se a estudar-me, a observar a minha deformidade com uma frieza implacável. Vi-me entregue sem defesa ao seu olhar cínico, que se apoderava da minha pessoa como se eu pudesse ser propriedade sua. Ser assim exposto aos olhos de outrem pareceu-me de um tão grande aviltamento, que ainda sinto a vergonha de o ter suportado. Recorda-me sempre o ruído que fazia no papel o seu lápis de prata, o mesmo talvez com que ele desenha as cabeças dissecadas dos criminosos e tantas outras abomináveis coisas. O seu olhar estava transformado, penetrante como a ponta duma faca, e dir-se-ia que ele me atravessava. 
Nunca odiei tanto os homens como nessa hora horrível. O meu ódio exerceu uma tal acção em mim que me julguei prestes a desmaiar. Por momentos, tudo escureceu diante dos meus olhos.

O Anão  - Pär Lagerkvist - Antígona Editora

2.12.15

o meu anão

Tenho vinte e seis polegadas de altura, sou perfeitamente consistido e, proporcionado, salvo no que respeita à cabeça, que é um pouco grande. Os meus cabelos são ruivos, em vez de negros como os da maior parte das pessoas, e além disso muitas espessos e crespos; uso-os repuxados para trás nas fontes e ao alto da testa, que se evidencia mais pela largura do que pela altura. O meu rosto é imberbe; afora isso, parece-se com o de todos os homens. As minhas sobrancelhas unem-se. Tenho uma força física considerável, sobretudo se me encolerizo. Quando me obrigaram a lutar com Josaphat, alcei-o sobre as minhas costas, ao fim de vinte minutos, e estrangulei-o. Desde então, sou o único anão da corte.

A maior parte dos anões são bobos. Têm por obrigação dizer gracinhas e executar facécias que provocam o riso dos seus senhores. Nunca me rebaixei a semelhantes manifestações. Ninguém mesmo mo chegou a propor. Só o meu aspecto proíbe que façam semelhante uso de mim! A minha fisionomia não se presta a chalaças ridículas. E não me rio nunca.

Não sou um bobo. Sou apenas um anão, nada mais.

Além disso, tenho uma língua mordaz, que pode agradar a certas pessoas do meu convívio. Não é a mesma coisa que ser o seu bobo.


O Anão  - Pär Lagerkvist - Antígona Editora