Philip Muir cruza o Atlântico em seu navio.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
Pele de nácar, pintas de ouro, cabelo ruivo.
Philip Muir, de brancas unhas, correto e esguio,
é um puro lorde, pelo silêncio e pela altivez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Espera as ordens. Não fita os olhos em ninguém.
Após dois dias, conhece todos os meus gostos
à mesa. E apenas corre com o olhar a lista inteira
da sopa à fruta. Nunca se esquece do chow mein.
Do lado do Norte, há sangue nas águas do Oceano.
E do lado de Leste. E nas terras. Sangue inglês.
E por baixo do mar andam as sombras sem passos…
Philip Muir, no meio do desastre humano,
serve champanhe, hoje. Amanhã, seu sangue, talvez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Mais tarde, na noite, acende seu cachimbo e vem
ver as estrelas nascendo do amargo horizonte,
– ilhas dormentes, que o vento embala a noite inteira…
e muitas cenas – tão diferentes! – mais além.
Nenhum soldado será mais grave nem mais frio
que Philip Muir, se ainda chega a sua vez.
Coberto de lama, sangue, injúria, dor e morte,
Philip Muir partirá num outro navio,
navio de nuvem, mas com mastro de altivez.
Nem duque nem lorde: um simples homem da Britânia.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
De Poemas de viagem (1940-1964)
daqui: Autores e Livros
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28.11.15
12.8.15
Quem me quiser maltratar
Quem me quiser maltratar;
maltrate-me agora,
pois é tarde, e cansado
de trabalhos e penas,
quem se defende a esta hora?
Quem me quiser renegar,
renegue-me agora,
porque o meu sono é tão grande
que tudo aceito - nem sinto
se alguém se for embora.
Quem me quiser esquecer,
esqueça-me agora:
que eu não lamento nem sofro,
tonta do dia excessivo.
Tão sem força, quem chora?
(Noite imóvel, noite escura,
forrada de sedas suaves,
pequeno mundo sem chaves,
quase como a sepultura.)
maltrate-me agora,
pois é tarde, e cansado
de trabalhos e penas,
quem se defende a esta hora?
Quem me quiser renegar,
renegue-me agora,
porque o meu sono é tão grande
que tudo aceito - nem sinto
se alguém se for embora.
Quem me quiser esquecer,
esqueça-me agora:
que eu não lamento nem sofro,
tonta do dia excessivo.
Tão sem força, quem chora?
(Noite imóvel, noite escura,
forrada de sedas suaves,
pequeno mundo sem chaves,
quase como a sepultura.)
29.1.15
A Pombinha da Mata
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com fome",
disse o primeiro,
"e não tem nada para comer."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha carpir.
"Eu acho que ela ficou presa",
disse o segundo,
"e não sabe como fugir."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com saudade",
disse o terceiro,
"e com certeza vai morrer."
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