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23.7.15

Ab imo corde

Uma última palavra. Para Keats, o desafio da poesia do futuro era «thinking into the human heart». Os cientistas deste e do próximo século sabem que a tarefa é « thinking into the human brain», pois continuamos todos sem saber porque é que o «binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo». Mas como dizia o personagem do nosso Eça, certas coisas não se sabem e é preferível não se saberem. Não será melhor assim?

Ab imo corde.

João Lobo Antunes
Páscoa de 1997
[Carta a um amigo-novo (Prefácio ao livro de José Cardoso Pires, De profundis, Valsa lenta)]


22.7.15

De profundis, Valsa lenta

Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido.

[José Cardoso Pires, De profundis, Valsa lenta, Leya Editora, p. 31]