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8.3.16

MÃOTÓTEM


            Existe, lá, entre as sombras e o declinar dos vazios um homem deitado. Este alonga-se pelas estradas macias e a sua sombra persegue-o no seu repouso pela eternidade.
            Outrora, quando os caminhos eram possuídos de lama, o sangue que jorrava das crateras que contorcem os céus tinha o sabor mais puro que um seio de mãe pode ter.
            Assim, deitado, ele ergueu-se levemente apoiando-se no cotovelo direito e pôs-se a espreitar a eternidade. Esta era feita de si mesma sem direito algum a qualquer recompensa.
            Falou em surdina, quase com medo de acordar as trevas que sugam no povoado:

            «Aqui estou, semiconsciente, como morto que de repente acorda e que sente a sua insensibilidade projectar-se monótona no dia a dia infindável.
            Aqui estou, semimorto, como uma vela automática que se apaga na escuridão e se acende quando a luz do sol rompe ruidosa. Meu lamento não é raiva nem certeza. Espreitei na fechadura dos horizontes e o que eu julgava ser vácuo e raiva emplumada mostrou-se-me coalhado de cogumelos e de lagartas. Notei, em seguida, um perfume esquisito, cheiro forte de coxas queimadas que eu soube depois ser o excremento do sexo dos Deuses».

            A estrada interminável persegue-o. Um automóvel move-se interrompendo-lhe a locomovidade dos pensamentos.

            «Agora compreendo porque o vazio é uma ideia compacta e esta, inversamente, um conjunto de Deuses. Expulsei-os! Meu lamento não é raiva nem certeza. Sou eu, expulso dos meus pensamentos.»

Ergueu-se. Levantou e sacudiu as espáduas. Era mais alto que os montes.
Adiantou-se.
A sua sombra infindável persegue-o nos horizontes.


7.1.16

era uma vez...

Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve.
Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem a couve
passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando
o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a
sua própria alimentação. O coelhinho, que tinha um coração
muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava
considerava-a como sua verdadeira mãe. A mãe couve e o seu
filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia
uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras. O
coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam
tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo
da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco
dano lhe fizessem. Quando aqueles insectos daninhos levantaram
voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de
areias e pedra. O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas
proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos
quilómetros de distância a fim de procurar comida. Mas já
nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras. Passaram
muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro
mais magro e faminto. Então a mãe couve disse-lhe assim:
“Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar
o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu
viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser
eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu
quero dizer?” O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande
tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.