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3.7.16

Coração de Cão (iii)




– Não é de admirar! Veja-se o que aconteceu com os gatos. É um homem com coração de cão! 
– Oh não, oh não! – refutou Filipe Filipovitch numa voz arrastada – Meu caro doutor, está a cometer um enorme erro. Por amor de Deus, não difame o cão. Os gatos são um caso temporário… é uma questão de disciplina, bastam duas ou três semanas. Asseguro-lhe. Mais um mês e ele deixa de se atirar aos gatos. 
– Por que não já, então? 
– Ivan Arnaldovitch, isso é elementar, não percebo por que é que me pergunta. A hipófise não fica suspensa no ar, pois não? Foi implantada no cérebro do cão, e precisa de tempo para se adaptar. Agora Charikov está a mostrar o que resta do seu ser canino, e você tem de entender que os gatos são o menor dos males. Todo o horror está no facto de Charikov já não ter coração de cão, mas de homem! E um dos piores… Compreende? 
Muito excitado, Bormental cerrou as suas mãos magras e fortes, encolheu os ombros e anunciou, decidido: 
– Vou matá-lo de certeza.

[Coração de Cão, Mikhaíl Bulgákov]

2.7.16

Coração de Cão (ii)




Não vale a pena aprender a ler quando se consegue cheirar a carne à distância. Então quando se vive em Moscovo, e se tem dois dedos de testa, aprende-se quase sem querer, mesmo não indo à escola. Dos 40 mil cães moscovitas, só um ou dois, completamente idiotas, não conseguem unir as letras da palavra “chouriço”. Charik começou a aprender através das cores. Tinha ele apenas quatro meses quando, por toda a cidade, apareceram placas azuis e verdes com a inscrição “VC – venda de carne”. O que, repita-se, era completamente desnecessário. A carne sente-se pelo cheiro, ninguém precisa de inscrições. 

Certo dia, houve uma pequena confusão: Charik estava sem olfacto por causa do fumo da gasolina dos carros e, orientando-se pela cor azul do cartaz, sem receio algum, entrou no armazém de material eléctrico dos irmãos Golubizner, na rua Miasnitskaia, em vez de entrar no talho. Aí, o infeliz cão levou com o cabo eléctrico, que é pior do que levar com um chicote de cocheiro. Pode considerar-se este momento histórico como o início da aprendizagem de Charik. De volta ao passeio, Charik apercebeu-se de que “azul” nem sempre significava “carne”. Com a cauda entre as pernas, e uivando de dor, o cão lembrou-se que, nos talhos, a primeira letra era dourada ou cor de laranja, parecida com uma lua – “C”. 

A partir daí, tudo lhe correu melhor. O “E” aprendeu na Central de Peixe, na esquina da rua Mokhovaia (tendo aprendido não com o início da palavra, mas com o fim, que era o lado por onde se aproximava da loja, pois havia sempre um polícia por baixo do placar, onde começava a palavra).

[Coração de Cão, Mikhaíl Bulgákov]

Coração de Cão



Já alguma vez me deram pontapés? Sim. Já alguma vez levei com tijolos nas costelas? Várias vezes. Já sofri tudo isso e passei por outro tanto, mas aceito o meu destino. Se agora choro é pela dor física e pela fome, porque a minha alma ainda não foi vencida. A alma de um cão é resistente. O meu corpo, porém, está estropiado, magoado, maltratado. Mas o pior é que a água a ferver entranhou-se no meu pêlo, e agora tenho o lado esquerdo a descoberto, sem protecção. Posso facilmente apanhar uma pneumonia e, aí, caros cidadãos, estou feito, morro à fome.


[Coração de Cão, Mikhaíl Bulgákov]