5.2.21

simília similibus

Quem deita sal na carne crua deixa

a lua entrar pela oficina e encher o barro forte:

vasos redondos, os quadris

das fêmeas - e logo o meu dedo se poe a luzir

ao fôlego da boca: onde

o gargalo se estrangula e entre as coxas a fenda

é uma queimadura

vizinha

do coração - toda a minha mão se assusta, 

transmuda,

se torna transparente e viva, por essa força que a traga

até dentro,

onde o sangue mulheril queimado

a arrasta pelos rins e aloja, brilhando

como um coração,

na garganta - o sal que se deita cresce sempre

ao enredo dos planetas: com unhas

frias e nuas

retrato as lunações, talho a carne límpida

- porque eu sou o teu nome quando

te chamas a toda a altura

dos espelhos e até ao fundo, se teus dedos abertos tocam

a estrela

como uma pedra fechada no seu jardim selvagem

entre a água: tu tocas

onde te toco, e os remoinhos da luz e do sal se tocam

na carne profunda: como em toda a olaria o movimento

toca a argila e a torna

atenta

à translação da casa pela paisagem rodando sobre si

mesma - a teia sensível,

que se fabrica no mundo entre a mão no sal

e a potência

múltipla de que esta escrita é a simetria,

une

tudo boca a boca: o verbo que estás a ser cada

tua morte

ao que ouço, quando a luz se empina e a noite inteira

se despenha

para dentro do dia: ou a mão que lanço sobre

esse cabelo animal

que respira no sono, que transpira

como barro ou madeira ou carne salgada

exposta

a toda a largura da lua: o que é grave, amargo, sangrento.

16.1.21

inspirações


 

 

12.1.21

botânica

 Three Pears and Their Leaves Held by a String

Stone Roberts

8.1.21

30.12.20

morrer

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida. Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes
... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...


José Gomes Ferreira

22.12.20

o namoro de Júpiter e Saturno

 saturno e júpiter simbolizam energias opostas, era normal que acabassem por se apaixonar. 

Francisco Sojuel

notícia do sapo

21.12.20

#respect

Se

nem

for

terra


Se

trans

for

mar.


1.12.20

Eduardo Lourenço

 «O paradoxo do Instante não é o de acabar quando surge. Esse dever o impomos nós ao «banal instante», talhando na peça imaginariamente substancial do Tempo. O paradoxo do Instante é o de nunca ter principiado e não poder ter fim.»

Tempo e Poesia, Eduardo Lourenço [1923 - 2020]


23.10.20

The Love Song of J. Alfred Prufrock


Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono

Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas

Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.


|completo e original aqui|


29.9.20

subterrâneo


Giuseppe Licari, Humus

As Cidades e os Mortos. 4.

O que torna Árgia diferente das outras cidades é que em vez de ar tem terra. As ruas estão completamente cobertas de terra, as salas cheias de argila até ao tecto, sobre as escadas assenta outra escada em negativo, por cima dos telhados das casas pairam camadas de terreno rochoso como céus com nuvens. Se os habitantes poderão andar pela cidade alargando os cunículos dos vermes e as fendas em que se insinuam as raízes, não o sabemos: a humidade quebra os corpos e deixa-lhes poucas forças; convém que fiquem quietos e deitados, de tão escura que é.

De Árgia, cá de cima, não se vê nada; há quem diga: "É lá em baixo" e só nos resta acreditar; os lugares são desertos. De noite, encostando o ouvido ao chão, às vezes ouve-se bater uma porta.


As Cidades Invisíveis, Italo Calvino 


28.9.20

a máscara ou o martelo

Stasys Eidrigevičius

 


o martelo

o papa quando morre

leva uma

marteladinha

na testa eu nunca

martelei

ninguém

nem papa nem príncipe nem rei

quando a procissão

tem que seguir

o capataz dá três

marteladas

no andor e os

costaleiros seguem

martelo

é um decassílabo heroico

com tônicas nas posições

três seis e dez quando

o atleta termina o

molinete três voltinhas

em torno de si mesmo

pode lançar o

martelo

que pesa sete kilos

duzentos e sessenta gramas

marx nunca falou sobre

martelo

algum quem já viu

escola de pensamento ter

símbolo qual seria o símbolo

da escola de frankfurt se

adorno tivesse escolhido um?

quando thor bate seu

martelo

é sinal de chuva e trovão

mas é a flor do mandacaru

que anuncia chuva no

sertão para o tubarão-martelo o

martelo

funciona como uma asa

estabilizando seus

movimentos além disso

o ritual de acasalamento

dos tubarões-martelo

é muito violento

na bandeira da albânia

comunista substituíram o

martelo

por um fuzil o

martelo

é um objeto ótimo

que serve pra dormir bem

ou pregar pregos.


Adelaide Ivànova, O martelo, 2017


27.9.20

quem disse que os poetas não podiam ser atraentes?

 

Ezra Pound sitting in car, 1930


You can spot the bad critic when he starts by discussinq the poet and not the poem.


O Viajante no Tempo

 

A Máquina do Tempo, H. G. Wells

15.9.20

Os anjos do corpo


Meu infatigável

anjo,

da guarda de meu corpo

São os anjos quem
guardam
os orgasmos

Pastores

Dos rebanhos
– dos ardores
Dos odores do corpo

Hei-de confessar-te
um dia
o meu desejo:

um anjo

que me acaricie devagar o clitóris
as pernas entreabertas
ao meu beijo

Quantas vezes te digo
que te dispo
e depois te lambo

primeiros as asas
e o pénis

e em seguida: o ânus

E o anjo
debaixo
ficou a acariciar o pénis
do anjo que voava
por cima

de manso procurando
o fundo
da vagina

Sou eu que te transformo
de prazer
em anjo do orgasmo

infatigável
suco
da língua

Naquilo que te faço

Com o teu clitóris
de ouro,
és o anjo

mamilos à flor da pele
que tapas com as asas

Os anjos descobrem
a vulva
no mesmo instante

em que sabem
do pénis:

com
as pernas ligeiramente
abertas
e desviando as asas

Despir os anjos
um por um

passando-lhes a língua...

lentamente,
pelo sal do pénis
Sorvendo-lhes em seguida
os sucos da vagina

Penteio com os dedos
os cabelos
deste arcanjo

respirando baixo
o interior macio
das suas pernas

o púbis
deste anjo

O sabor do esperma
dos anjos que imaginam

a-mar

as águas
uterinas

Lambe-me devagar
o céu da boca

como se a voasses

É um púbis de anjo
com pequenas asas

sob:
sobre a doce matiz
matriz
do clitóris

Viro-te anjo
debaixo do meu corpo

cubro-te:
voando – vogando
pelo nada

o teu pénis
direito
no meu púbis

e mais abaixo
a tua vagina alada

Adormeço de ventre
em tuas
asas

deitada ao comprido
no espaço
das tuas pernas

pernas

Cisterna
posta à beira
da sede dos teus braços

Primeiro roço-te
as asas
suspensas pelos teus ombros

imaginando apenas

aquilo que depois
mergulho
e faço:

Traz o anjo
o arrepio
ao corpo todo

um aperto nos
seios
e na vagina

Uma febre incerta
que vagueia
nas asas, nas coxas
e nas veias

Tinha um corpo de
lua
pelo lado da cor e do frio

em desiquilibrio no fio da faca
do orgasmo

O teu corpo,
neste envolvimento
de voo

e de vulva

Meu amor que mergulhas
de vertigem:

Anjo expectante
da vagina

A mistura de mim
com o teu corpo

asas pequenas que estremecem
debaixo do desejo

Não tens noção
de quanto é corpo o corpo
nem desejo

Anjo

Voando sobre
o que é baixo

Sob

Voando sob
o que é por baixo

Tocar-te apenas com
a língua
a cabeça do pénis

como se devagar
lambesse
o meu clitóris

até sentir o orgasmo
trepar-me pelas pernas

Bebem os anjos
a saliva
dos anjos

Pela taça
– exposta –
da vagina

São raríssimas as
asas
que não partem dos seios

a florir nos
ombros

Como um manso púbis
com os seios veios
de sombra

Quando
o clitóris toca
o clitóris dos anjos...

Lambe-me as asas
– disse o anjo
ao anjo mais perto...

dos seus pulsos

29.8.20

Icarus – on the move with animals



animals

“[animals] are not brethren, they are not underlings: they are other nations, caught with ourselves in the net of life and time, fellow prisoners of the splendour and travail of the earth.”

Henry Beston, The Outermost House

24.8.20

17.8.20

Tribute to La Bata

 Lucia Herrero

“Estas mulheres de bata fizeram parte da minha infância”, recorda Lucia em videoconferência, a partir de Barcelona. “Pertencem a uma espécie de última geração. São matriarcas no seio de sociedades fortemente patriarcais. A sua missão sempre foi cuidar da família e raramente tiveram oportunidade de pensar em si próprias ou nos seus sonhos.” Lucia quer dar voz a estas mulheres, que ainda são “pouco e mal representadas em sociedade”, por isso criou Tribute to La Bata, um projecto que representa essa “mulher-símbolo” e que recorda “o quanto ela significa”. 


23.6.20

Become Ocean





grata ao Martim Sousa Tavares e à Lira de Orfeu.

13.6.20

al berto, meu amor

e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

26.4.20

quando a morte se apaixonou e deixou o mundo ao contrário

Abriu o caderno sobre o atril, respirou fundo, colocou a mão esquerda no braço do violoncelo, a mão direita conduziu o arco até quase roçar as cordas, e começou. De mais sabia ele que não era rostropovitch, que não passava de um solista de orquestra quando o acaso de um programa assim o exigia, mas aqui, perante esta mulher, com o seu cão deitado aos pés, a esta hora da noite, rodeado de livros, de cadernos de música, de partituras, era o próprio johann sebastian bach compondo em cöthen o que mais tarde seria chamado opus mil e doze, obras elas quase tantas como foram as da criação. A passagem difícil foi transposta sem que ele se tivesse apercebido da proeza que havia cometido, mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher.
Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, ascendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma implacável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.

[Fim]


|As Intermitências da Morte, José Saramago|

18.4.20

soundtrack




Sometimes
The congregation takes the other side
An inquisition of familiar lies
A grave distraction from a quiet rite

Sometimes
The congregation can't make up its mind
Incarceration creeps up from behind
The implication is its own device
In the middle of a salient fight

Sometimes
The congregation can't be satisfied
Can't be bothered with the ways and whys
Generations like their ways and times

   

13.4.20

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te


A ridícula ideia de não voltar a ver-te, Rosa Montero 

Viagens

Antony Sojka

7.4.20

Viagens

Também acho que o mundo se encontra no interior de nós próprios, nos sulcos do cérebro e na glândula pineal. É um globo entalado na garganta e, a bem dizer, poderíamos tossir e desengasgar-nos, cuspindo-o.

Viagens, Olga Tokarczuk
|daqui: ilcviagens|

equilibro precisa-se, respeito por ambas as partes também, mas acima de tudo ser humano, sem géneros.

a última vaga feminista traz me muita apreensão. o tom agressivo e acusatório, às vezes meramente provocativo, a escarrar manifestos para marcar presença e manter financiamento. exigem o empoderamento com uma barra de metal nas mãos. discursam com violência e barulho, em monólogo gritado.

para quem tenha tempo e curiosidade, há um excelente documentário, The Red Pill (2016), de Cassie Jaye, e, muito interessante também, este TEDx, posterior, também de Cassie Jaye. 

+++

Mieko Kawakami, também ela escritora, mais suave do que as jovens do documentário acima, a determinada altura, na sua entrevista a Haruki Murakami (que, a propósito, já começou a ser referenciado como sexista), faz-lhe a seguinte observação:

A common reading is that your male characters are fighting their battles unconsciously, on the inside, leaving the women to do the fighting in the real world. For example, in The Wind-Up Bird Chronicle, it’s Kumiko who pulls the plug on the life support system, kills Noboru Wataya, and ultimately pays the price. And in 1Q84, the Leader is killed by Aomame. Granted, it isn’t necessary to apply a feminist critique to every single novel, and a pursuit of rectitude is not why any writer turns to fiction, but reading these books from a feminist perspective, the common reaction would likely be: “Okay, here’s another woman whose blood has been shed for the sake of a man’s self-realization.”

Most women in the real world have had experiences where being a woman made life unlivable. Like victims of sexual assault, who are accused of asking for it. It comes down to the fact that making a woman feel guilty for having a woman’s body is equivalent to negating her existence. There are probably some women out there who have never thought this way, but there’s an argument to be made that they’ve been pressured by society into stifling their feelings. Which is why it can be so exhausting to see this pattern show up in fiction, a reminder of how women are sacrificed for the sake of men’s self-realization or sexual desire.


Haruki Murakami, temeroso da guilhotina social, lá se vai tentando justificar das interpretações feministas, leituras forçadas, porque os tempos assim o obrigam.

I think that any pattern is probably coincidental. At a minimum, I never set things up like that on purpose. I guess it’s possible for a story to work out that way, on a purely unconscious level. Not to sound dismissive, but my writing doesn’t follow any kind of clear-cut scheme. Take Norwegian Wood, where Naoko and Midori are respectively grappling with their subconscious and conscious existences. The first-person male narrator is captivated by them both. And it threatens to split his world in two. Then there’s After Dark. The story is propelled almost exclusively by the will of the female characters. So I can’t agree that women are always stuck playing the supporting role of sexual oracles or anything along those lines. Even once I’ve forgotten the storylines, these women stay with me. Like Reiko or Hatsumi in Norwegian Wood. Even now, thinking about them makes me emotional. These women aren’t just novelistic instruments for me. Each individual work calls for its own circumstances. I’m not making excuses. I’m speaking from feeling and experience.


entrevista in Literary Hub


que pobreza de luta, caras (e caros) senhoras.

5.4.20

the world after coronavirus

The emergency pudding 
One of the problems we face in working out where we stand on surveillance is that none of us know exactly how we are being surveilled, and what the coming years might bring. Surveillance technology is developing at breakneck speed, and what seemed science-fiction 10 years ago is today old news. As a thought experiment, consider a hypothetical government that demands that every citizen wears a biometric bracelet that monitors body temperature and heart-rate 24 hours a day. The resulting data is hoarded and analysed by government algorithms. The algorithms will know that you are sick even before you know it, and they will also know where you have been, and who you have met. The chains of infection could be drastically shortened, and even cut altogether. Such a system could arguably stop the epidemic in its tracks within days. Sounds wonderful, right?

The downside is, of course, that this would give legitimacy to a terrifying new surveillance system.


Yuval Noah Harari 20/03/2020, Financial Times

13.3.20

pecadora

A atitude de Anna Sergeyevna - «a senhora do cão» - perante o que aconteceu foi de certa forma peculiar, muito séria, como se fosse a sua queda. Assim parecia, e era estranha e inapropriada. O semblante caiu e ensombrou-se, e o seu longo cabelo pendia em cascatas; meditou com uma postura abatida como «a mulher que era pecadora» num quadro fora de moda.
  - Não está certo - disse ela. - Agora serás o primeiro a desprezar-me.

Anton Tchekhov, A Senhora do Cãozinho de Salão

12.3.20

A Peste

Clique na imagem para aumentar

A Peste, Albert Camus

3.3.20

Instruções para Salvar o Mundo


Rosa Montero, Instruções para Salvar o Mundo 

13.2.20

Love & Feeling



Sexual attraction is confusing, maddening, euphoric, even dangerous.

27.1.20

A história arredonda os esqueletos para zero.


Steven Frank (centre) and family



Steven Frank, aged 84, originally from Amsterdam, who survived multiple concentration camps as a child, pictured alongside his granddaughters Maggie and Trixie Fleet, by Kate Middleton




25.1.20

transcendentalismo

I found myself suddenly neighbor to the birds; not by having imprisoned one, but having caged myself near them.

|Walden, Henry David Thoreau|

22.1.20

O pássaro da cabeça

Marg Skogland

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
 dentro da tua cabeça.

O Pássaro da Cabeça
e mais versos para crianças
de Manuel António Pina e Ilda David' 

3.1.20

(( ( útero ~ incubadora ) ))

( hábitos aquáticos no estágio embrionário – ( ~ mar ~  matre ~ mater ~ ) a placenta atravessada a nado por alguma criatura inicial – ( ~ girino ~ feto ~ enguia ~ ) cujo único exercício preparatório é o respiro amniótico nesta antessala líquida do mundo ( a câmara salina na bolha viva da barriga ) | o que da ova retida leva o solitário ovócito confortado, do óvulo revelado eva adentro, é toda fértil a terra materna | o filho, no início, bicho tão mínimo, indistinguível de qualquer outro seixo modelado sob o rio sanguíneo ( do íntimo nilo ao assomo do amazonas ), grão humano aguardando subir tantos degraus quanto necessário para tornar-se um corpo, na manjedoura dos ovários, do zigoto ao todo, gomo por gomo ( diagrama, fractal ), mandala gráfica o amálgama dos gametas | ( da nutrição pelo umbílico o bebê é dependente, umbrívago ), ossos desenvolvem-se, órgãos, cérebro, segue-se o desenvolvimento de todos os membros ) desde o sêmen [ do pai, macho da espécie, apenas o mero remetente de seus genes ] e dentro por nove meses [ da mãe,

tenro invólucro amoroso, tendo sob sua guarda algo novo ] a cápsula carnal que alargará o canal vaginal, túnel extremo do músculo, porque se haverá de abandonar (a qualquer momento) essa hospedagem ( quando nascer começa a doer ) será outro o destinatário neste parto – o pai não pare –, a porta (exaurida na expulsão) serão duas pernas abertas ) ao espetáculo dá-se o nome: “nascimento” ( no clímax, destaca-se o ticket ) ansioso o silêncio ) o primeiro choro interrompe o suspense ) “não há defeito congênito!”, celebram os obstetras, aos berros ] ESTE É O LADO DE FORA! [ o ar arranha ] é áspero o primeiro oxigênio [ a partir de agora, sob uma sequência de choques, somente interrompida pela morte, serão muitas auroras de fuligem e pólvora! ] a menos que este neonato, acometido por estranhíssima epifania pré-natal, (o caso mais raro!) escolhesse enforcar-se no cordão umbilical | mas ao recém-nascido saudável restará, desde já, [ a verdade ainda indisponível ],   revoltar-se /
((   ,   )) <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   < ou voltar!

Alexandre Guarnieri, Corpo de Festim