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22.8.20
26.4.20
quando a morte se apaixonou e deixou o mundo ao contrário
Abriu o caderno sobre o atril, respirou fundo, colocou a mão esquerda no braço do violoncelo, a mão direita conduziu o arco até quase roçar as cordas, e começou. De mais sabia ele que não era rostropovitch, que não passava de um solista de orquestra quando o acaso de um programa assim o exigia, mas aqui, perante esta mulher, com o seu cão deitado aos pés, a esta hora da noite, rodeado de livros, de cadernos de música, de partituras, era o próprio johann sebastian bach compondo em cöthen o que mais tarde seria chamado opus mil e doze, obras elas quase tantas como foram as da criação. A passagem difícil foi transposta sem que ele se tivesse apercebido da proeza que havia cometido, mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher.
Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, ascendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma implacável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.
[Fim]
|As Intermitências da Morte, José Saramago|
13.3.20
pecadora
A atitude de Anna Sergeyevna - «a senhora do cão» - perante o que aconteceu foi de certa forma peculiar, muito séria, como se fosse a sua queda. Assim parecia, e era estranha e inapropriada. O semblante caiu e ensombrou-se, e o seu longo cabelo pendia em cascatas; meditou com uma postura abatida como «a mulher que era pecadora» num quadro fora de moda.
- Não está certo - disse ela. - Agora serás o primeiro a desprezar-me.
Anton Tchekhov, A Senhora do Cãozinho de Salão
12.3.20
3.11.19
140
Uma extraordinária flor procura com o seu cheiro
a reanimação de um corpo,
mas o corpo está morto e o nariz perdeu capacidades
em conjunto com o coração e a inteligência. Morre-se
no fundamental, mas também em cada um dos pormenores
que existiam no corpo vivo.
Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares
a reanimação de um corpo,
mas o corpo está morto e o nariz perdeu capacidades
em conjunto com o coração e a inteligência. Morre-se
no fundamental, mas também em cada um dos pormenores
que existiam no corpo vivo.
Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares
20.10.19
O Insecto e Outras Histórias de Mães e Filhas
[um livro que atordoa, magoa, capaz de desconcertar o arquétipo da maternidade]
O Insecto e Outras Histórias de Mães e Filhas, Claire Castillon
17.8.19
"um não-romance"
A Morte de Assafora
Prólogo
__________ prendeu a cabra a um castanheiro que se via da janela
mas estava longe; a cabra não deixava de se ouvir e, mesmo depois
do pôr do sol, balia; disse que ia cortar-lhe o som, e dirigiu-se
para ela com a mão direita e uma faca; o pêlo agitou-se sem balir, e
ficou a sangrar; mais nenhum ruído atravessou o nosso sossego,
mas uma segunda língua, com parte no céu-da-boca, principiou a
nascer-lhe, e foi ela a voz.
O lugar da intersecção da língua arrancada com a outra língua
transparente é herança da rapariga que temia a impostura da língua.
Por isso, eu tenho de encontrá-la, e trazê-la para fora da sua nostal-
gia infinita. E não só. Da intersecção das duas línguas — a que se
ouvia balindo, e a que nasceu do sangue — voou o Falcão, ou
Aossê* feito ave.
|Um beijo dado mais tarde, Maria Gabriela Llansol|
*Fernando Pessoa Llansoliano
Prólogo
__________ prendeu a cabra a um castanheiro que se via da janela
mas estava longe; a cabra não deixava de se ouvir e, mesmo depois
do pôr do sol, balia; disse que ia cortar-lhe o som, e dirigiu-se
para ela com a mão direita e uma faca; o pêlo agitou-se sem balir, e
ficou a sangrar; mais nenhum ruído atravessou o nosso sossego,
mas uma segunda língua, com parte no céu-da-boca, principiou a
nascer-lhe, e foi ela a voz.
O lugar da intersecção da língua arrancada com a outra língua
transparente é herança da rapariga que temia a impostura da língua.
Por isso, eu tenho de encontrá-la, e trazê-la para fora da sua nostal-
gia infinita. E não só. Da intersecção das duas línguas — a que se
ouvia balindo, e a que nasceu do sangue — voou o Falcão, ou
Aossê* feito ave.
|Um beijo dado mais tarde, Maria Gabriela Llansol|
*Fernando Pessoa Llansoliano
De Maria Gabriela disse Eduardo Lourenço que seria "o próximo grande mito literário a seguir a Fernando Pessoa". Infelizmente, não acredito, a sua leitura exige tempo e espaço, ambos escassos, no momento actual e, vaticino, no futuro que se avizinha.
7.8.19
9.7.19
4.5.19
Uma ilha selvagem no sul do Alasca...
O mundo no princípio era um campo enorme, e a Terra era plana. E todos os animais erravam pelo campo e não tinham nomes, e os que eram maiores comiam os mais pequenos, e ninguém se sentia mal com isso. Depois apareceu o homem nos confins do mundo, encurvado, peludo, estúpido e fraco, e multiplicou-se e tornou-se tão numeroso e retorcido e sanguinário com a inactividade que os confins do mundo começaram a deformar-se. Os confins dobraram-se e recurvaram-se lentamente, homens, mulheres e crianças esbracejando uns por cima dos outros para se manterem em cima do mundo e agarrando-se aos pêlos das costas uns dos outros ao treparem até ficarem todos pelados e nus e enregelados e sanguinários e suspensos dos confins do mundo.
O pai fez uma pausa, e Roy disse: E depois?
David Vann, A Ilha de Sukkwan
28.3.19
Are you Uncle Vanya?
PRIMEIRO ACTO
/O Tio Vânia, Anton Tchéckhov/
Jardim. Está à vista uma parte da casa com terraço.
Na alameda, debaixo do álamo velho, está posta a mesa
para o chá. Bancos, cadeiras; num dos bancos, está a
guitarra. Perto da mesa há um baloiço. — Passa das
duas, o céu está carregado.
........................................
Marina (velha gorda, de poucos movimentos, está
sentada ao lado do samovar, a tricotar uma meia) e
Ástrov (passeia ao lado).
MARINA (enche um copo) — Toma, paizinho.
ÁSTROV (aceita o copo com pouca vontade) — Não me
apetece.
MARINA — Talvez queiras um copinho de vodca?
ÁSTROV — Não. Nem todos os dias bebo vodca. Além
disso, está abafado.
Pausa.
Mãe Marina, há quanto tempo nos conhecemos?
MARINA (reflectindo) — Há quanto? Deixa cá ver...
Chegaste aqui, a esta terra... quando?... Ainda era viva
a Vera Petrovna, a mãe da Sónia. Com ela viva, ainda
cá vieste ver-nos durante dois invernos... Pois bem,
devem ter passado então onze anos, ou coisa assim.
(Pensa um pouco.) Ou mais...
ÁSTROV — Mudei muito desde então?
MARINA — Muito. Naquela altura eras um rapaz novo
e bonito, agora envelheceste. Já não és aquele rapaz
bonito. Já se sabe: bebes vodca, é também por isso.
ÁSTROV — Pois... Em dez anos tornei-me outra pessoa.
Mas porquê? Trabalho demais, mãe Marina. Estou a
pé de manhã à noite, não tenho sossego, e à noite,
quando me meto debaixo dos cobertores, tenho medo
que me obriguem a ir ver um doente. Desde que me
conheces, este tempo todo, ainda não tive um único
dia de folga. Então, envelheci... pudera não! E a vida,
também, é um tédio, uma estupidez, é cá uma porcaria
de vida... Atola-nos. À nossa volta é só gente esquisita, todos, sem excepção; vivemos ao pé deles dois ou
três anos e, sem darmos por isso, ficamos também uns
esquisitões. É fatal como o destino. (Retorce os bigodes compridos.) Olha só que bigode enorme... Bigode
estúpido. Tornei-me um esquisitão, mãe Marina...
Aparvalhar não me aparvalhei, Deus é misericordioso,
ainda tenho a cabeça no lugar, mas os sentimentos é
como se ficassem embotados. Não quero nada, não preciso de nada, não gosto de ninguém... Talvez só de ti. (Beija-a na cabeça.) Na infância tinha uma ama
como tu.
MARINA — Se calhar estás com fome?
ÁSTROV — Não. Na terceira semana da Quaresma fui a
Malítskoe, uma epidemia... Tifo exantemático... As isbás a abarrotar de doentes. Imundície, um fedor, aquela fumarada, os vitelos pelo chão misturados com os
doentes... Recos... Passei lá o dia todo a trabalhar, sem
comer, sem uma pausa, depois voltei para casa, e olha,
também não me deixaram descansar: trouxeram o agulheiro do caminho de ferro; ponho-o em cima da
mesa para lhe fazer a operação, morre-me nas mãos
de repente, na anestesia. Pois, e foi nesse momento, o
mais inoportuno, que os meus sentimentos despertaram, fiquei com remorsos, como se o tivesse matado
eu, de propósito... Sentei- me, fechei os olhos... assim... e pus-me a pensar: quem viver daqui a cem ou
duzentos anos, aqueles para quem nós agora estamos a
abrir o caminho, será que eles se vão lembrar de nós
com palavras de carinho? Não, mãe Marina, não se
vão lembrar de nós!
MARINA — Se as pessoas não se lembram, lembra-se
Deus.
ÁSTROV — Obrigado. Disseste bem.
/O Tio Vânia, Anton Tchéckhov/
23.3.19
22.3.19
do amor, construção, ilusão, encantamento, fé. da vida, curta.
Estou a falar desses seres, dos fantasmas, dos mortos, dos meus pais mortos, do amor que senti por eles, desse amor que não se vai embora.
Ninguém sabe o que é o amor.
Em tudo havia beleza, Manuel Vilas
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