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5.2.21

simília similibus

Quem deita sal na carne crua deixa

a lua entrar pela oficina e encher o barro forte:

vasos redondos, os quadris

das fêmeas - e logo o meu dedo se poe a luzir

ao fôlego da boca: onde

o gargalo se estrangula e entre as coxas a fenda

é uma queimadura

vizinha

do coração - toda a minha mão se assusta, 

transmuda,

se torna transparente e viva, por essa força que a traga

até dentro,

onde o sangue mulheril queimado

a arrasta pelos rins e aloja, brilhando

como um coração,

na garganta - o sal que se deita cresce sempre

ao enredo dos planetas: com unhas

frias e nuas

retrato as lunações, talho a carne límpida

- porque eu sou o teu nome quando

te chamas a toda a altura

dos espelhos e até ao fundo, se teus dedos abertos tocam

a estrela

como uma pedra fechada no seu jardim selvagem

entre a água: tu tocas

onde te toco, e os remoinhos da luz e do sal se tocam

na carne profunda: como em toda a olaria o movimento

toca a argila e a torna

atenta

à translação da casa pela paisagem rodando sobre si

mesma - a teia sensível,

que se fabrica no mundo entre a mão no sal

e a potência

múltipla de que esta escrita é a simetria,

une

tudo boca a boca: o verbo que estás a ser cada

tua morte

ao que ouço, quando a luz se empina e a noite inteira

se despenha

para dentro do dia: ou a mão que lanço sobre

esse cabelo animal

que respira no sono, que transpira

como barro ou madeira ou carne salgada

exposta

a toda a largura da lua: o que é grave, amargo, sangrento.

8.1.17

Esquecer Fausto

Contra a cultura como leitura pobre do mundo, o sujeito de Photomaton & Vox opta por uma cosmovisão relativista e proclama a necessidade de reinventar o real: "É preciso inventar de novo o edifício palpável das convenções". A formulação é ambígua: as convenções não podem ser inventadas de novo, se inventar é negar convenções; por outro lado, considerar que toda a convenção está destinada à destruição e à renovação implica que o texto se apresente como transitoriedade: o "edifício palpável das convenções" nunca atinge consistência. Seria preciso saber se o humor "negro" herbertino alvança a criação de valores, se a empresa crítica de Photomaton & Vox se transcende numa etapa construtiva.


/Esquecer Fausto: a fragmentação do sujeito em Raul Brandão, Fernando Pessoa, Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol, de Pedro Eiras [que adquiri primeiramente, porque continha quatro dos meus]/

26.3.16

...

bom é ser odiado simetricamente por gregos e troianos
que se matem entre eles
a ver quem me odeia mais extenso e fundo:
e eu fora, citando os astros mudos:
os clássicos!


23.3.16

23.03.15

...
¿que coisa é esta que nem se move,
que não é um planeta,
que buraco é este por onde tudo se some?
  -- e eu pedi ao balcão: dê-me um poema,
e o empregado olhou para mim estupefacto:
  -- isto aqui é o mundo, monsieur, aqui não se servem bebidas alcoólicas
  -- mas -- ia eu para dizer, mas calei-me de repente
e pensei muito longe:
quero voltar depressa aos modos do mundo dos assombros
(ó mundo, pesa inteiro sobre ti mesmo!)


[Letra Aberta]


17.10.15

«A menstruação quando na cidade passava»

A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos - e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.

As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado - alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos - era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.

O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos - e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.

As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.

E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio -
na noite, na neve -
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.

As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.

Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam - e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação - falava alguém. O ar passava -
e pela noite, em silêncio,

a menstruação escorria pela neve.

3.10.15

- topas?

esfolo-te vivo, vadio, se me trazes outra vez versos desses,
assim tão às ordens de um modelo civil:
adorar a ginástica dos exemplos, ser diligente,
montar o seu negócio das tendências,
das trocas baldrocas das dedicatórias sempre óbvias,
assim tão presto prestáveis,
fortes não da sua profundeza e verdade primeiras
mas daquilo que convém à digestão,
ao optimismo ou pessimismo do mundo,
regras da realidade,
?mas o que é a realidade - perguntava o mais extremo de todos,
...


Poemas Canhotos, Herberto Helder

24.1.15

«devolve-me o coração»

In the desert
I saw a creature, naked, bestial,
Who, squatting upon the ground,
Held his heart in his hands,
And ate of it.
I said, “Is it good, friend?”
“It is bitter—bitter,” he answered;

“But I like it
“Because it is bitter,
“And because it is my heart.”

[Stephen Crane, The Black Riders and Other Lines]

-//-

No deserto
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo -- respondeu --,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»

[Herberto Helder, As Magias: Poemas Mudados Para Português, Assírio & Alvim, p. 35]