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6.6.15

Deve ser terrível enterrar alguém que se ama nos princípios de Maio, quando o solo começa a descongelar e a espreguiçar-se, transformando-se num verde-vivo e o cheiro dos lilases desce em cascatas dos arbustos como uma pequena bênção. Ou em Setembro, quando o sol do meio-dia ainda aquece os rostos, mas as noites são suficientemente frescas para se usar uma camisa de noite de flanela e um cobertor extra puxado para cima a meio da noite.
Ou o Natal. Deve ser horrível no Natal.
Fevereiro é o mês adequado para se morrer. Tudo em redor está morto, as árvores negras e geladas, de maneira que o aparecimento dos rebentos verdes daí a dois meses parece uma coisa inconcebível, o solo duro e frio, a neve suja, o vento odioso, prolongando-se demasiado tempo.

[Anna Quindlen, A Única Verdade, Quetzal, 1999]

31.5.15

   – Lembro-me deste livro. Estava a lê-lo quando conheci o teu pai. Lembro-me de ter gostado dele, mas de ser um pouco irritada por ele também, porque fazia aquela coisa reles que as pessoas fazem, a irmã doce, doméstica e boa é afastada em prol da outra, esperta e bem-falante. Jane e Elizabeth. Lembro-me delas agora. Não me parecia justo que Jane fosse tão boa e, no entanto, Elizabeth é que era admirada. Suponho que é Austen ripostando. Ela era essa espécie de mulher e sabia que era a rapariga doce e boa que é estimada pela sociedade, não uma como Elizabeth, que diz o que tem a dizer. Mas Jane Austen tinha obrigação de não catalogar as mulheres, umas uma coisa, outras outra.   – Pensa na verdade que ela faz isso?
  – Penso. Acontece noutro livro, também. - Ela olhou outra vez para lá do rio. – Mulherzinhas –  disse ela após um momento. - Havia a irmã que era escritora e a outra, que tinha bebés.
   – Jo e Meg - disse eu.
  – É a mesma coisa - disse ela. – Mulheres escritoras deviam fazer melhor do que compartimentar mulheres, colocá-las em pequenos grupos, o das espertas e o das dóceis. As mulheres dos professores fazem isso na Universidade, também, nos chás das faculdades e noutras ocasiões.

[Anna Quindlen, A Única Verdade, Quetzal, 1999]

21.5.15

Prólogo

A cadeia não é tão má como se imagina. Quando digo cadeia, não quero dizer prisão. Prisão é uma espécie de lugar que se vê em filmes antigos ou em documentários de uma televisão de serviço público, enormes espaços cinzentos com torres de vigia em cada canto e rolos de arame farpado que cercam os muros altos a toda a volta como um caracol. Prisão é onde os presos batem nas grades com colheres de metal, planeiam insurreições no pátio e levam o mais novo de todos - e que cumpre a primeira pena - para o chuveiro, enquanto os guardas viram as costas e o deixam por sua conta, o sangue escorrendo palidamente, carmesim misturado com branco leitoso escorrendo pela parte de trás das coxas isentas de pelos, o brilho dos olhos transformado para sempre.

[Anna Quindlen, A Única Verdade, Quetzal, 1999]