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14.11.15

* * *

CAPÍTULO 62

1. Na cave do Elijah-o-impossível havia um mapa do mundo inteiro.

2. Para mim, olhar para ele era uma oração.

3. Uma oração que era do tamanho do mundo inteiro.

4. Quando cheguei a casa, fiz a mala, pus as minhas roupas lá dentro, a roupa interior, os sapatos, toalhas, o bilhete de autocarro de Houston (será que daria para viajar?), e peguei nela e andei pelo meu quarto.

5. Era uma viajante.


* * *

Mar - Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, p. 72

31.10.15

«Baleia Branca»

«Um dos meus passatempos favoritos é caçar baleias brancas. Desde que li Moby Dick que consigo ver cachalotes em muitos lugares e consigo perceber que também sou um bocadinho Ahab, que também tenho algumas monomanias. Tem a sua ciência, caçar baleias, pois é uma actividade exegética e sujeita a inúmeras interpretações, já que um cetáceo metafórico não se esgota facilmente. Saber ou conhecer é matar com um arpão, é destruir a selvajaria do desconhecido e torná-la objecto de museu. Moby Dick é cheio de metáforas e não me parece que a sua leitura possa ser fruída sem que o leitor saia do livro a coxear um pouco da alma como Ahab coxeava a andar com a sua perna de pau. Dantes, tinha o hábito de dobrar as pontas das páginas dos livros onde encontrava frases que valia a pena serem arpoadas*. Moby Dick é o livro que tenho com mais pontas de páginas dobradas, algo que não passa de mais uma forma de caçar baleias.»

(Hemingway, sobre Moby Dick) in Mar - Enciclopédia da Estória Universal -, de Afonso Cruz, p. 16

*eu também...

4.10.15

/E a donzela ainda consegue escapar-lhe.

1.
Há quem diga que, quanto voltamos a ler um livro, anos depois, não é o mesmo livro. É um fenómeno caro a Heraclito. A teoria diz que nós mudamos, aprendemos mais e quando relemos, fazemo-lo com outros olhos, mais experientes, mais sábios. Mas há a possibilidade, é só uma teoria, de, quando se fecha um livro numa prateleira, ele, febrilmente, trocar as suas próprias letras, tal como nós renovamos o sangue e vamos crescendo. Reescreve frases e parágrafos, acrescenta texto, elimina períodos, sublinha ideias. Ou como é que um objecto que pode conter tanta sabedoria, pode ter a vida de uma pedra, em vez da dum ancião de barbas? Ou como é que aquilo que contém inteligência pode não ser inteligente?

 O Cavaleiro Ainda Persegue/ A Mesma Donzela, Afonso Cruz

6.9.15

flores

Estava junto aos escombros do meu pai, com os restos dos nossos sentimentos à deriva. O meu corpo ainda dizia o nome dele muito baixinho, como se fosse sangue a correr nas veias. As lágrimas não caíam, ficavam suspensas numa antecâmara qualquer do coração ou lá de que lugar é esse onde as lágrimas são laboriosamente fabricadas.

   A Clarisse estava ao meu lado. Estávamos de braço dado, ela tinha a cabeça encostada ao meu ombro.

   Atrás dos meus óculos escuros via as pessoas no enterro, a Carla estava tão bonita, de preto, com a dor no rosto, os cabelos lisos e as coxas a sair do vestido curto, mas não podia pensar naquilo, era o enterro do pai, ainda por cima a Carla é minha prima direita. Os destroços da morte por todo o lado, nas caras das pessoas, nas recordações. A mãe gritou algumas vezes, Zé, Zé, Zé, era o nome do meu pai, e foi nessa altura que me caíram umas lágrimas, não tanto por ele, naquela serenidade de cadáver, mas pela dor da mãe, tão pungente e catártica, tão siciliana na sua forma de se manifestar, cada Zé que ela gritava era uma facada no ar, Zé, Zé, Zé.

   O calor era tanto, o suor escorria-me pelas costas abaixo, não, não era suor, era a língua da morte a lamber-me a coluna de cima para baixo, a arrastar-me para o chão, a língua quente dessa estranha entidade que nos transforma em terra, que transforma tudo em terra. Sentia-lhe o hálito a flores, porque ela não fede como seria crível, tem o bafo das coroas de rosas e margaridas e gladíolos com que enfeitamos os caixões e mais tarde as campas. Cheira tudo a flores, o fim das coisas cheira a flores, não é a esgoto e a podre. Zé, Zé, Zé, gritava a mãe, e a morte a lamber-nos as costas, sem parar, com a ponta da língua muito fina a passar pelos corpos dos vivos, como quem toma um aperitivo.

   E, enquanto o padre mandava o pó voltar ao pó, eu abençoava Deus com blasfémias.

Flores, Afonso Cuz


28.3.15

O que cresce no Deserto






Perto de Ispaão há uma ameixeira que dá dois tipos de frutos: as ameixas que são doces e os espaços entre as ameixas que são silenciosos. São estes últimos que, ao fim da tarde, exibem o pôr-do-sol através dos ramos.

(Peter Stamboliski, Poesia)

Afonso Cruz, Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria