27.1.20

A história arredonda os esqueletos para zero.


Steven Frank (centre) and family



Steven Frank, aged 84, originally from Amsterdam, who survived multiple concentration camps as a child, pictured alongside his granddaughters Maggie and Trixie Fleet, by Kate Middleton




25.1.20

transcendentalismo

I found myself suddenly neighbor to the birds; not by having imprisoned one, but having caged myself near them.

|Walden, Henry David Thoreau|

22.1.20

O pássaro da cabeça

Marg Skogland

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
 dentro da tua cabeça.

O Pássaro da Cabeça
e mais versos para crianças
de Manuel António Pina e Ilda David' 

3.1.20

(( ( útero ~ incubadora ) ))

( hábitos aquáticos no estágio embrionário – ( ~ mar ~  matre ~ mater ~ ) a placenta atravessada a nado por alguma criatura inicial – ( ~ girino ~ feto ~ enguia ~ ) cujo único exercício preparatório é o respiro amniótico nesta antessala líquida do mundo ( a câmara salina na bolha viva da barriga ) | o que da ova retida leva o solitário ovócito confortado, do óvulo revelado eva adentro, é toda fértil a terra materna | o filho, no início, bicho tão mínimo, indistinguível de qualquer outro seixo modelado sob o rio sanguíneo ( do íntimo nilo ao assomo do amazonas ), grão humano aguardando subir tantos degraus quanto necessário para tornar-se um corpo, na manjedoura dos ovários, do zigoto ao todo, gomo por gomo ( diagrama, fractal ), mandala gráfica o amálgama dos gametas | ( da nutrição pelo umbílico o bebê é dependente, umbrívago ), ossos desenvolvem-se, órgãos, cérebro, segue-se o desenvolvimento de todos os membros ) desde o sêmen [ do pai, macho da espécie, apenas o mero remetente de seus genes ] e dentro por nove meses [ da mãe,

tenro invólucro amoroso, tendo sob sua guarda algo novo ] a cápsula carnal que alargará o canal vaginal, túnel extremo do músculo, porque se haverá de abandonar (a qualquer momento) essa hospedagem ( quando nascer começa a doer ) será outro o destinatário neste parto – o pai não pare –, a porta (exaurida na expulsão) serão duas pernas abertas ) ao espetáculo dá-se o nome: “nascimento” ( no clímax, destaca-se o ticket ) ansioso o silêncio ) o primeiro choro interrompe o suspense ) “não há defeito congênito!”, celebram os obstetras, aos berros ] ESTE É O LADO DE FORA! [ o ar arranha ] é áspero o primeiro oxigênio [ a partir de agora, sob uma sequência de choques, somente interrompida pela morte, serão muitas auroras de fuligem e pólvora! ] a menos que este neonato, acometido por estranhíssima epifania pré-natal, (o caso mais raro!) escolhesse enforcar-se no cordão umbilical | mas ao recém-nascido saudável restará, desde já, [ a verdade ainda indisponível ],   revoltar-se /
((   ,   )) <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   <   < ou voltar!

Alexandre Guarnieri, Corpo de Festim

31.12.19

deusa

Lisa Zappe

27.12.19

azul



One Breath Around The World, Guillaume Néry

[tem som]

18.12.19

«If God gives us free will, we are responsible for what we do or what we fail to do.»




a música, sinfonia das lamentações, é de Henryk Górecki

a Cidade do Tempo interrompido

...escrevo-lhe da Cidade do Tempo interrompido. A lenta catástrofe não termina. A nossa vida escoa-se, a nossa vida desfia-se, e aguardamos ainda «o momento que franqueie o muro». (...) Cada um é pobre em si, não ocupando sequer a sua cama. É a preocupação que a ocupa.

Henri Michaux, Antologia, Relógio D'Água 



as palavras não têm tempo nem sítio, pois se assim fosse, como poderia eu ler Portugal ali?

16.12.19

Rose Rouge, St Germain



What makes this a beautiful song:

1. The opening loop. It’s a cut-up and sped-up sample of “Take Five,” from the same Brubeck album I’d heard so many times as a child. But it’s so different from the original that I didn’t make the connection until years later. Such a groovy loop. It makes me want to dance while leaning casually against a dimly-lit lamppost, if that’s even possible.

2. The vocal sample. From Marlena Shaw. I love that while the rest of the song builds up around her, she remains calm, relaxed and insistent. She just wants you to get together, and she’s not going to yell about it.

3. The song has the perfect build. The progression of solos runs from the high-frequency squeak of the muted trumpet, to the mid-range tenor sax, to the deep baritone sax. And while all this is happening, the electronic beat fades in, but you don’t even notice, because you’re too busy putting your hands together one time.

daqui

3.11.19

140

Uma  extraordinária flor procura com o seu cheiro
a reanimação de um corpo,
mas o corpo está morto e o nariz perdeu capacidades
em conjunto com o coração e a inteligência. Morre-se
no fundamental, mas também em cada um dos pormenores
que existiam no corpo vivo.

Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares

30.10.19

20.10.19

O Insecto e Outras Histórias de Mães e Filhas

[um livro que atordoa, magoa, capaz de desconcertar o arquétipo da maternidade]





O Insecto e Outras Histórias de Mães e Filhas, Claire Castillon

11.9.19

Filicídio

lembro-me da expressão zangada da minha avó paterna, quando descobria que alguma das gatas comia as crias recém-nascidas. a partir daí, passava a controlá-la e logo que voltava a parir tirava-lhe os gatinhos. se houvesse outra gata parida, juntava as crias, se não houvesse, era ela mesma que os criava com leite de cabra. não havia temor a deus na sua conduta, a minha avó era pouco dada às sacristias, a ternura e o instinto maternal eram lhe inatos e tal como criou os filhos criava também os gatos.

Adrian Hirschi fotografou um hipopótamo matando a concorrência no Lago Kariba (WPY)



2.9.19

Some say the world will end in fire, Some say in ice.

a morte da flor







fotografias de Bruce Boyd & Tharien Smith 
colossal

1.9.19

O Falcão Manteiga de Amendoim

Tom Sawyer & Huckeberry Finn



21.8.19

17.8.19

"um não-romance"

A Morte de Assafora

Prólogo

__________ prendeu a cabra a um castanheiro que se via da janela
mas estava longe; a cabra não deixava de se ouvir e, mesmo depois
do pôr do sol, balia; disse que ia cortar-lhe o som, e dirigiu-se
para ela com a mão direita e uma faca; o pêlo agitou-se sem balir, e
ficou a sangrar; mais nenhum ruído atravessou o nosso sossego,
mas uma segunda língua, com parte no céu-da-boca, principiou a
nascer-lhe, e foi ela a voz.

O lugar da intersecção da língua arrancada com a outra língua
transparente é herança da rapariga que temia a impostura da língua.
Por isso, eu tenho de encontrá-la, e trazê-la para fora da sua nostal-
gia infinita. E não só. Da intersecção das duas línguas — a que se
ouvia balindo, e a que nasceu do sangue — voou o Falcão, ou
Aossê* feito ave.


|Um beijo dado mais tarde, Maria Gabriela Llansol| 


*Fernando Pessoa Llansoliano



De Maria Gabriela disse Eduardo Lourenço que seria "o próximo grande mito literário a seguir a Fernando Pessoa". Infelizmente, não acredito, a sua leitura exige tempo e espaço, ambos escassos, no momento actual e, vaticino, no futuro que se avizinha.

15.8.19

7.8.19

culto

The cult of youth is, at heart, a very sad one. It implies that the peak of life is reached early and thenceforward it is downhill all the way.

Theodore Dalrymple, in The Oldie

Tu Vuo' Fa' L'Americano




home [A Nossa Casa é Onde Está o Coração]






30.7.19

Uma Fábula


Não deixo nem testamento
nem memória do que vi
as vozes que me habitaram
os corpos que me queimaram
não sei que sorte tomaram
nem que levaram de mim
É certo, julgamos sempre
olhar de frente o futuro
mas o que vemos é só
um braço de rio parado
muro de gruta pintado
a fazer vez de presente

António Franco Alexandre

23.7.19

ninguém

[...]
Sempre soube que nunca me conheci
pois também nunca pude conhecer o mundo.
Tive de inventar-me quem era para, de vez em quando,
me julgar em posse de um pouco de realidade.
[...]
Tenho os meus próprios paraísos químicos aqui junto da lareira,
os meus dias e as minhas noites dedico-os a regressar a uma qualquer longínqua província
do silêncio onde possa encontrar dentro da minha loucura
um pouco de serenidade.
[...]

Diego Doncel
poesia vim buscar te

9.7.19

God's Own Country





Blue Lights




Época de Migração para Norte







Época de Migração para Norte, Tayeb Salih

21.6.19

A Date in 2025

Sci-Fi Short Film "A Date in 2025" | Presented by DUST


:)

15.6.19

HOPE



                    Hope, magnolia leaf, cotton thread 42 H x 31.5 W cm (framed) 2019

13.6.19

I felt an urgent need to get this story out but I wanted to do it in a way that would be gentle and not hurtful.


uma taça de chá, diz Setsuko Sato, porque the philosophy of tea is all about celebrating humanity. A tea bowl fits in the palm of your hand. It is human in scale. It is an attempt to find beauty in the everyday. A hand-pinched tea bowl may not be perfect, but it has soul. No two are the same and yet they share a common purpose. It seemed a natural way to bring together, art, history and a personal journey to tell a story about the human condition.



daqui (+ entrevista)






|curiosidade: Setsuko é casada com Simon Winchester, autor do livro «O Professor e o Louco», que recentemente foi adaptado para o cinema.|

11.5.19

o teu amor


Your love
Is all gone, away

4.5.19

Uma ilha selvagem no sul do Alasca...

O mundo no princípio era um campo enorme, e a Terra era plana. E todos os animais erravam pelo campo e não tinham nomes, e os que eram maiores comiam os mais pequenos, e ninguém se sentia mal com isso. Depois apareceu o homem nos confins do mundo, encurvado, peludo, estúpido e fraco, e multiplicou-se e tornou-se tão numeroso e retorcido e sanguinário com a inactividade que os confins do mundo começaram a deformar-se. Os confins dobraram-se e recurvaram-se lentamente, homens, mulheres e crianças esbracejando uns por cima dos outros para se manterem em cima do mundo e agarrando-se aos pêlos das costas uns dos outros ao treparem até ficarem todos pelados e nus e enregelados e sanguinários e suspensos dos confins do mundo.
O pai fez uma pausa, e Roy disse: E depois?

David Vann, A Ilha de Sukkwan

24.4.19

Revelação

Hoje só fotografei árvores,

Dez, cem, mil.

Vou revelá-las à noite.

Quando a alma for câmara escura.

Depois vou classificá-las:

Segundo as folhas, os anéis dos troncos,

Segundo as suas sombras.

Ah, como as árvores

Entram facilmente umas nas outras!

Vejam, agora só me resta uma.

É esta que vou fotografar outra vez

E vou observar com assombro

Que se parece comigo.

Ontem só fotografei pedras.

E a pedra afinal

Parecia-se comigo.

Anteontem - cadeiras -

E a que resultou

Parecia-se comigo.



Todas as coisas se parecem terrivelmente

Comigo...



Tenho medo.



Marin Sorescu
roubado da casa dos poetas

ligações

«é no movimento incessante de quem viaja que encontrarás a imobilidade que desejas.»

  al berto


«Há uma frase de Toynbee que me toca: "Os nómadas são aqueles que não se movem, tornam-se nómadas porque recusam partir."»

Gilles Deleuze
(daqui: sound+vision)

19.4.19

«Lembre-se de que tem outra filha com que se ocupar»



Javier Marías, Berta Isla

Berta Isla



Javier Marías, Berta Isla

17.4.19

Embargo

Meio depósito. Se encontrasse um posto de abastecimento a funcionar, aproveitaria. Pelo seguro, com todas as voltas que tinha de dar nesse dia antes de ir para o escritório, melhor de mais que de menos. Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, em filas de dezenas e dezenas de carros. Diz-se que a indústria irá sofrer as consequências. Meio depósito. Outros andam a esta hora com muito menos, mas se for possível atestar. O carro fez uma curva balançada, e, no mesmo movimento, lançou-se numa subida íngreme sem esforço. Ali perto havia uma bomba pouco conhecida, talvez tivesse sorte. Como um perdigueiro que acode ao cheiro, o carro insinuou-se por entre o trânsito, voltou duas esquinas e foi ocupar lugar na fila que esperava. Boa lembrança.

José Saramago
(clicar para ler conto completo)


13.4.19

desinfecção de escolas*



roubado descaradamente ao Capitão Napalm

*

28.3.19

Are you Uncle Vanya?

PRIMEIRO ACTO 

Jardim. Está à vista uma parte da casa com terraço. Na alameda, debaixo do álamo velho, está posta a mesa para o chá. Bancos, cadeiras; num dos bancos, está a guitarra. Perto da mesa há um baloiço. — Passa das duas, o céu está carregado. 

........................................ 

Marina (velha gorda, de poucos movimentos, está sentada ao lado do samovar, a tricotar uma meia) e Ástrov (passeia ao lado). 


MARINA (enche um copo) — Toma, paizinho. 

ÁSTROV (aceita o copo com pouca vontade) — Não me apetece. 

MARINA — Talvez queiras um copinho de vodca? 

ÁSTROV — Não. Nem todos os dias bebo vodca. Além disso, está abafado.

   Pausa. 

Mãe Marina, há quanto tempo nos conhecemos? 

MARINA (reflectindo) — Há quanto? Deixa cá ver... Chegaste aqui, a esta terra... quando?... Ainda    era viva a Vera Petrovna, a mãe da Sónia. Com ela viva, ainda cá vieste ver-nos durante dois  invernos... Pois bem, devem ter passado então onze anos, ou coisa assim. (Pensa um pouco.) Ou  mais... 

ÁSTROV — Mudei muito desde então? 

MARINA — Muito. Naquela altura eras um rapaz novo e bonito, agora envelheceste. Já não és aquele rapaz bonito. Já se sabe: bebes vodca, é também por isso. 

ÁSTROV — Pois... Em dez anos tornei-me outra pessoa. Mas porquê? Trabalho demais, mãe Marina. Estou a pé de manhã à noite, não tenho sossego, e à noite, quando me meto debaixo dos cobertores, tenho medo que me obriguem a ir ver um doente. Desde que me conheces, este tempo todo, ainda não tive um único dia de folga. Então, envelheci... pudera não! E a vida, também, é um tédio, uma estupidez, é cá uma porcaria de vida... Atola-nos. À nossa volta é só gente esquisita, todos, sem excepção; vivemos ao pé deles dois ou três anos e, sem darmos por isso, ficamos também uns esquisitões. É fatal como o destino. (Retorce os bigodes compridos.) Olha só que bigode  enorme... Bigode estúpido. Tornei-me um esquisitão, mãe Marina... Aparvalhar não me aparvalhei, Deus é misericordioso, ainda tenho a cabeça no lugar, mas os sentimentos é como se ficassem embotados. Não quero nada, não preciso de nada, não gosto de ninguém... Talvez só de ti.  (Beija-a na cabeça.) Na infância tinha uma ama como tu. 

MARINA — Se calhar estás com fome? 

ÁSTROV — Não. Na terceira semana da Quaresma fui a Malítskoe, uma epidemia... Tifo  exantemático... As isbás a abarrotar de doentes. Imundície, um fedor, aquela fumarada, os vitelos pelo chão misturados com os doentes... Recos... Passei lá o dia todo a trabalhar, sem comer, sem uma  pausa, depois voltei para casa, e olha, também não me deixaram descansar: trouxeram o  agulheiro do caminho de ferro; ponho-o em cima da mesa para lhe fazer a operação, morre-me nas  mãos de repente, na anestesia. Pois, e foi nesse momento, o mais inoportuno, que os meus sentimentos despertaram, fiquei com remorsos, como se o tivesse matado eu, de propósito... Sentei- me, fechei os olhos... assim... e pus-me a pensar: quem viver daqui a cem ou duzentos anos, aqueles  para quem nós agora estamos a abrir o caminho, será que eles se vão lembrar de nós com palavras de  carinho? Não, mãe Marina, não se vão lembrar de nós! 

MARINA — Se as pessoas não se lembram, lembra-se Deus. 

ÁSTROV — Obrigado. Disseste bem.



/O Tio Vânia, Anton Tchéckhov/


A Mula, Clint e eu









ao contrário do último filme de Robert Redford [The old man & The gun], que, de tão focado na homenagem, parece perdido na narrativa, de certa forma, condescendente, The Mule é o verdadeiro filme tributo. Clint é fabuloso.