19.12.16

17.12.16

Waiting to Face



















A Mulher da Esfrega

25 de Março

Do sonho que revolve o mundo cabe também uma parte à mulher da esfrega. Arrasta tudo consigo. Cai o Inverno dentro da Primavera. Engrandece-a, espalma-lhe os pés, esfarrapa-lhe os vestidos.
Está aqui a figura – está aqui outra coisa. Muda de expressão, como se fosse possível as lágrimas usarem por dentro figuras humanas, como a chuva ou os passos gastam a pedra. Aquilo dura um momento, transparece um minuto, mas esse minuto chega. Logo à submissão e à humildade se mistura um nada de entontecimento. Quase nada. Trouxe sempre consigo debaixo do xaile um resto de sonho amargo. Remoeu-o transida de frio pela vida fora, quando fez recados, aqueceu a água e rachou a lenha. É um nada e ampara-a. Atreve-se... Toda a gente precisa de qualquer estonteamento para suportar a vida. Sonho gasto que andou por todos os caminhos, com pés espalmados como recoveira. Há sonhos humildes que ninguém quer sonhar: servem à Joana que quando os usa os vira do avesso.

/Húmus, Raul Brandão/

7.12.16

telefone

“Outrora, as pessoas viam-se. Podiam perder a cabeça, esquecer as suas promessas, arriscar o impossível, convencer aqueles que adoravam beijando-os, agarrando-se a eles. Um simples olhar podia mudar tudo. Mas com este aparelho o que acabou, acabou.”

A Voz Humana

O que?…………………………. Oh! sim, mil vezes melhor. Se não tivesses telefonado morreria………………………… Não……………………… espera…………………………….. espera……………………………… encontremos uma saída…………………………… Perdoa-me. Eu sei que é uma cena intolerável, e muita paciência tens tu, mas compreende-me, querido; sofro, sofro como nunca. Este fio é a única coisa que me liga ainda à nossa vida………………………….. Anteontem à noite? Dormi. Deitei-me com o telefone……………………… Não, não. Levei-o para a cama………………. Claro, fui ridícula, mas se levei o telefone para a cama é porque ele, apesar de tudo, nos une ainda. Liga esta casa à tua casa e não te esqueças que me tinhas prometido falar. Imagina que mergulhei numa confusão de sonhos. A tua chamada transformava a campainha do telefone num som mortal e eu caía; depois, vi um pescoço branco que alguém estrangulava; depois ainda, achei-me no fundo dum mar que se parecia com o apartamento de Auteuil, ligada a ti por um tubo de escafandro e a suplicar-te que não o cortasses. Enfim, sonhos estúpidos quando se contam; mas o pior é que durante o sono eram demasiado vivos. Terrível, meu amor…………………………………………….. Porque tu me falas. Há cinco anos que vivo de ti, que és o único ar que posso respirar, que levo o tempo à tua espera, a julgar-te morto quando te demoras, a morrer porque te julgo morto, a reviver quando entras e te vejo, a morrer com medo de partires. Neste momento, respiro porque tu me falas. O meu sonho, afinal, não é assim tão falso; se desligares agora, morrerei afogada naquele mar que parecia o teu apartamento……………………………………………………………………… De acordo, meu amor; dormi. Dormi porque era a primeira vez. O médico bem disse: é uma intoxicação. Mal ele sabia… A primeira noite, dorme-se. O sofrimento distrai, é uma novidade, suportamo-lo. O que não se suporta é a segunda noite, a de ontem, e a terceira, a de hoje, a que vai começar dentro de alguns minutos, e amanhã e depois de amanhã, dias sobre dias, a fazer o que, meu Deus?



2.12.16

love

 Leonora Carrington with Max Ernst by Lee Miller, 1937




mais info aqui: artsy

sobre o nada eu tenho profundidades

A poesia é a lógica mais simples.
Isso surpreende
Aos que esperam ser um gato
Drama maior que o meu sapato.
Ou aos que esperam ser o meu sapato,
Drama tanto mais duro que andar descalço
E ainda aos que pensam não ser o meu andar descalço
Um modo calmo.

(Maior surpresa terão passado
Os que julgam que me engano:
Ah, não sabem o quanto quero o sapato
Nem sabem o quanto trago de humano
Nesse desespero escasso.
Não sabem mesmo o que falo
Em teorema tão claro.

Como não se cansariam ao me buscar os passos
Pois tenho os pés soltos e ando aos saltos
E, se me alcançassem, como se chocariam ao saber que faço
A lógica da verdade pelos pontos falsos)

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.


Manoel de Barros

20.11.16

Atlas

Descubrir lo desconocido no es una especialidad de Simbad, de Erico el Rojo o de Copérnico. No hay un solo hombre que no sea un descubridor. Empieza descubirendo lo amargo, lo salado, lo cóncavo, lo liso, lo áspero, los siete colores del arco y las veintitantas letras del alfabeto; pasa por los rostros, los mapas, los animales y los astros; concluye por la duda o por la fe y por la certidumbre casi total de su propia ignorancia.

/Jorge Luis Borges, Atlas/

12.11.16

cinza

Alina Negoita

5.11.16

El desierto

Antes de entrar en el desierto
los soldados bebieron largamente el agua de la cisterna.
Hierocles derramó en la tierra
el agua de su cántaro y dijo:
Si hemos de entrar en el desierto,
ya estoy en el desierto.
Si la sed va a abrasarme,
que ya me abrase.

Esta es una parábola.
Antes de hundirme en el infierno
los lictores del dios me permitieron que mirara una rosa.
Esa rosa es ahora mi tormento
en el oscuro reino.
A un hombre lo dejó una mujer.
Resolvieron mentir un último encuentro.
El hombre dijo:
Si debo entrar en la soledad
ya estoy solo.
Si la sed va a abrasarme,
que ya me abrase.

Esta es otra parábola.
Nadie en la tierra
tiene el valor de ser aquel hombre.

blue

Nastia Sleptsova

22.10.16

CIRCUM-NAVEGAÇÃO

Em volta da flor fez
          a abelha
a primeira viagem
circum-navegando
          a esfera
Achado o perímetro
suicidou-se, LÚCIDA
no rio de pólen
          descoberto.


17.10.16

Hija del viento

Han venido.
Invaden la sangre.
Huelen a plumas,
a carencias,
a llanto.
Pero tú alimentas al miedo
y a la soledad
como a dos animales pequeños
perdidos en el desierto.

Han venido
a incendiar la edad del sueño.
Un adiós es tu vida.
Pero tú te abrazas
como la serpiente loca de movimiento
que sólo se halla a sí misma
porque no hay nadie.

Tú lloras debajo del llanto,
 tú abres el cofre de tus deseos
 y eres más rica que la noche.

Pero hace tanta soledad
que las palabras se suicidan.

23.9.16

(don't) Knock the whale out


Chia-Chi Yu

18.9.16

há colares que são coleiras

há colares que são coleiras
há mulheres que são cadelas
certos homens, cães raivosos

os cães propriamente ditos

não foram para aqui chamados
embora metam o nariz em todo o lado
farejando coisas imaginárias
e, de resto, não falam, ladram
têm com certeza razão

/Vida: Variações/

21.8.16

aço

é o aço do fracasso o que entope a goela nua. tusso. é erro crasso tentar. continuar. vilipendio minha sola do pé toda vez que ando. raspo a pegada do chão ralo. cuspo meu passo e manco. engulo o choro rascante ácido. paro. olhos bordejam o fato. pulmões inférteis sem ar.

/Vivian Pizzinga/


20.8.16

destinos #3


Saltholm island (in the Baltic sea), Sandra Šarkūnaitė



2.8.16

cavalo alado





26.7.16

A Roda

Já não tinha dores e as recordações de outros tempos pareciam
vir juntar-se à ampola que a enfermeira lhe injectara na veia.
Acomodou a cabeça na almofada, fechou os olhos, um
sono estranho andava ali por perto.
Viu-se recém-nascido na roda. A mãe a afastar-se.
– Não vás, mãe! Não vás.
Ficou dentro de um cesto. Era Fevereiro, tê-lo-ia ao menos
embrulhado nuns farrapos?
Não, era um berço de baloiço, com véus de cassa azuis,
mantinhas de lã com passarinhos bordados e as mãos finas
da mãe sempre atentas.
Mas era um cesto e diante dele desfilavam sombreados os
berços cuidados dos seus filhos, chiu, dormem!
– Esta gente o que faz aqui?
– Não está aqui ninguém. São horas de descansar!
Eram eles, eram elas. Devia ser cega aquela grafonola! O
quarto estava cheio. Todos ali à sua volta, os heróis de todas
as suas façanhas, as mulheres que devassara como um lobo
faminto, os amigos, os inimigos. Os invejosos e as putas, os
cornudos e as velhacas.

Filho de pais incógnitos, ouviste? Incógnitos!
– Fora daqui, canalha infame! – Se pudesse voltar a cabeça
para o outro lado… Mas não tinha forças. – Pulhas!
– Tem muita goela o Sr. Venâncio!
Gornem de inveja!
Ele, que nunca fora filho de ninguém, fez-se o Sr. Venâncio.
Não era cá mestre isto ou aquilo, compadre ou tiozinho. Alto
lá! Sr. Venâncio, comerciante e fiador de muito soberbo que
lhe ferrou o calote.
– Tanto filho, Sr. Venâncio!
Tanto filho. Para ele que não se importaria de ter doze,
ia a meio!
Os seus filhos! Deus os abençoasse de bons que eram. E
escorreitos. Sem vaidades, e tão lindos! Adiante, saíam à mãe,
que tinha sido uma boneca nos seus tempos.
– Está agitado! Assim vou ter que o prender à cama!
Ela outra vez, a toleirona! E ele era lá um cão para aquela
grandessíssima porca o ameaçar com cordas? Camela!
Aquietou-se, fingiu dormir e fugiu dali pra fora. Foi sentar-se
no jardim do coreto a ouvir os pássaros.

Que dias, que lágrimas, que fome. Mas que pagodes também!
Tudo tão longe e tudo ali à mão. Embaciavam-se-lhe os
olhos e aí vinha o tempo a devolvê-lo moço à força da meninice.
Sem sapatos, rotos os calções, puída a única camisola.
Filho? Filho da puta era o que lhe chamavam. A princípio
chorava, depois as lágrimas foram endurecendo como a rocha
onde secam as fontes. E fez-se um homem da raça das fragas
que não temem as intempéries mas escondem no fundo das
cafurnas a piedade sempre pronta a acolher aves e ninhos.
Começou a trabalhar na fábrica da conserva aos cinco
anos. A sua tarefa era enrolar os cigarros aos homens que não
podiam perder tempo.

– Ó fumam, ó trabalham. Vá!
E ele, com os seus dedos de passarinho, enrolava os Águia
com todo o esmero, acendia-os, puxava a fumaça e lá os
distribuía de boca em boca.
– Venâncio, saca-me daqui a beata antes que me quême
os beços.
E ele acudia sempre a correr, fumando o que restava da
saliva amarelada dos outros.


Continua aqui:edita-me


Porta Sim Porta Não, Julieta Lima 




24.7.16

das coisas belas: Ilustrações do conto: “A Salvação de Wang-Fô”, de Marguerite Yourcenar, por Joana Pinheiro


O velho pintor Wang-Fô e o seu discípulo Ling erravam pelas estradas do reino de Han.

Avançavam devagar, pois Wang-Fô parava de noite para contemplar os astros, de dia, para olhar as libélulas. Iam pouco carregados, pois Wang-Fô amava a imagem das coisas e não as próprias coisas, e nenhum objecto do mundo lhe parecia digno de ser adquirido, excepto pincéis, boiões de laca e de tinta-da-china, rolos de seda e papel de arroz. Eram pobres, pois Wang-Fô trocava as suas pinturas por um caldo de milho-miúdo e desprezava as moedas de prata. 

O seu discípulo Ling, vergado ao peso de um saco cheio de esboços, curvava respeitosamente as costas como se carregasse a abóbada celeste, pois aquele saco, aos olhos de Ling, ia cheio de montanhas sob a neve, de rios pela Primavera e do rosto da lua no Verão.
(...)


Joana Pinheiro

daqui

17.7.16

do que me faz (sempre) sorrir






Manel, és tu?

daqui

16.7.16

cefaleia (iv)

...

Quem pode pensar em tais insignificâncias se o trabalho espera nos currais, na estufa, nos estábulos? Leonor e Chango já se ouvem lá fora e, quando saímos com os termómetros e as tinas para o banho, atiram-se ambos ao trabalho como se quisessem cansar-se bem depressa, preparando o descanso da tarde. Sabemos isso muito bem, por isso alegra-nos ter saúde para podermos cumprir cada tarefa. Enquanto for assim e não aparecerem as cefaleias, podemos continuar. Agora é Fevereiro, em Maio estarão as mancúspias vendidas e nós a salvo por todo o Inverno. Ainda se pode continuar.

As mancúspias distraem-nos muito, em parte porque são cheias de sagacidade e malevolência, em parte porque a sua criação é um trabalho subtil, necessitando uma exactidão incessante e minuciosa. Não é preciso enumerar, mas isto é um exemplo: um de nós tira as mancúspias fêmeas das jaulas aquecidas - são 6:30 da manhã - e reúne-as no curral do pasto seco. Deixa-as retouçar vinte minutos, enquanto o outro tira as crias dos cacifos numerados, onde cada uma tem a sua história clínica, verifica rapidamente a temperatua rectal, repõe nos cacifos as que excedem os 37,1º e, por uma caleira de folha, leva as restantes a reunirem-se às mães, para a lactação.

Talvez seja este o momento mais belo da manhã, comove-nos o alvoroço das pequenas mancúspias e das mães, o seu rumorejante falatório sustido. Apoiados na grade do curral esquecemo-nos da figura do meio-dia que se aproxima, da dura tarde inadiável. Por instantes, temos um certo medo de olhar para o chão do curral - um quadro Onosmodium marcadíssimo -, mas passa e a luz salva-nos do sintoma complementar, da cefaleia, que aumenta com a escuridão.

(cont)

Julio Cortazar, in Bestiário

Red

Tamara Kvesitadze, Red

12.7.16

roubado à LEBRE DO ARROZAL*

Quando M. me enviou sms
a perguntar plo programa de fim-de-semana
senti a angústia da página em branco de sexta-feira
do cronista de domingo
mas depois lá esbocei este plano,
mais uma mnemónica, diria:
1.º mastigar a angústia como uma chiclete
ao som dos Táxi da altura em que a cuspia
sem qualquer preocupação com a pegada ecológica;
2.º passar pela secção dos Perdidos e Achados da PSP,
do Metro e dos STCP para ver se encontraram um
coração que há dias que não sinto o meu;
3.º listar todas as músicas de língua inglesa
que expõem um broken heart no refrão;
4.º desfazer a máxima:
«Toi, tu est un blogueur.
Moi, je suis une blagueuse.» (que construí a pensar no O'Neill)
sentindo-me digna de uma serviçal de Penélope, que as devia ter,
escondidas nas dobras da história, como escrevi a Z;
5.º rever o filme de Eris Riklis e deixar-te
sobre a tua mesinha de cabeceira este bilhete:
«Não verei o limoeiro crescer!»


Aviso ao leitor: pode começar pelo último ponto, passar ao terceiro, eliminar o segundo e acabar no primeiro. Pode mesmo não sair do primeiro. Ou passar todo o tempo no terceiro. E, se chegou até aqui, pode mesmo ignorar este poema.

Ana Paula Inácio 


*there's only 1 alice

cefaleia (iii)

...

Pensámos se não será antes um quadro de Phosphorus, porque além disso aterra-o o perfume das flores (ou o das mancúspias pequenas, que cheiram levemente a lilás) e coincide fisicamente com o quadro fosfórico: é alto, magro, gosta de bebidas frias, geladas e sal.

De noite não tanto, ajudam-nos a fadiga e o silêncio -- porque a ronda das mancúspias respeita levemente este silêncio da pampa -- e às vezes dormimos até ao amanhecer, e desperta-nos um esperançado sentimento de melhoras. Se um de nós salta da cama antes do outro, pode suceder que assistamos consternados à representação dum fenómeno Camphora monobromata, pois julga-se estar a caminhar para um certo sítio quando na realidade se está a caminhar em sentido oposto. É terrível, vamos com toda a segurança para o quarto de banho, e de repente sentimos na cara a pele despida do espelho alto. 

Rimo-nos quase sempre, pois há que pensar no trabalho que espera e de nada serviria desanimarmos tão cedo. Procuram-se os comprimidos, cumprem-se sem comentários nem desalentos as instruções do doutor Harbin. (Talvez em segredo sejamos um pouco Natrum muriaticum. Tipicamente, um natrum chora, mas ninguém deve observá-lo. É triste, reservado; gosta de sal.)


(cont)

Julio Cortazar, in Bestiário

11.7.16

«What is my life but preference for the ginger biscuit?»


A page from Beckett’s notebooks.


férias grandes #1




20 April 2016 to 18 July 2016
Galeries nationales, Grand Palais

fronteiras

Nas suas memórias, Stephan Zweig recorda a dimensão dos direitos dos cidadãos livres. «Antes de 1914, a Terra era de todos. Cada um ia para onde queria e ficava o tempo que quisesse. Não havia autorizações, permissões e divirto-me sempre ao ver o espanto dos mais jovens quando lhes conto que, antes de 1914, andei pela Índia e pela América sem passaporte e sem nunca sequer ter visto um passaporte.»

António José Teixeira. FFMS Ter opinião XXI 2016

9.7.16

férias.


Julien Lavallée


7.7.16

Cefaleia (ii)

... 

Andamos então sem reflectir, cumprindo, um atrás de outro, os actos que o hábito ordena, detendo-nos apenas para comer (há bocados de pão na mesa e no estrado da sala) ou ver-nos no espelho que duplica o quarto. À noite, caímos repentinamente na cama e a tendência para lavar os dentes antes de dormir cede perante a fadiga, consegue apenas substituir-se por um gesto dirigido ao candeeiro ou aos remédios. Lá fora ouvem-se andar e andar em circulo as mancúspias adultas.

Não nos sentimos bem. Um de nós é Aconitum, quer dizer que deve medicamentar-se com aconitum altamente diluído se, por exemplo, o medo lhe provoca vertigens. Aconitum é uma violenta tempestade que passa depressa. De que outra forma descrever o contra-ataque a uma ansiedade que nasce de qualquer insignificância, do nada. Uma mulher depara bruscamente com um cão e começa a sentir-se fortemente enojada. Então aconitum e daí a pouco só fica um enjoo suave, com tendência a andar para trás (aconteceu-nos isto, mas era um caso Bryonia, o mesmo que sentir que nos afundávamos com, ou através da cama).

O outro, ao contrário, é nitidamente Nux Vomica. Depois de levar a aveia malteada às mancúspias, talvez por se baixar demasiado ao encher a escudela, sente de repente como se o cérebro lhe girasse, não que gire tudo à volta - a vertigem em si -, mas a vista é que gira, a consciência gira dentro dele mesmo como um giroscópio no seu aro, e lá fora está tudo tremendamente imóvel, só que a fugir e inacessível. 

(cont)

Julio Cortazar, in Bestiário


6.7.16

Cefaleia (i)

quero partilhar consigo, estimado leitor, na eventualidade de ainda por aqui passar, um conto de Julio Cortázar, Cefaleia (in Bestiário), que me deixou maravilhada - o que talvez não seja difícil, tendo em conta que eu amo o Julio e foi aqui, neste ninho de palha, que nasceram as mancúspias.


«Devemos à doutora Margaret L. Tyler as imagens mais belas deste conto. O seu admirável poema, «Sintomas orientadores dos remédios mais comuns da vertigem e cefaleia», apareceu na revista Homeopatia, publucada pela Associação Médica Homeopática Argentina, ano XIV, nº 32, Abril de 1946, p. 33 e segs.
Agradecemos do mesmo modo a Ireneu Fernando Cruz, por nos ter iniciado, durante uma viagem a San Juan, no conhecimento das mancúspias.


Tratamos das mancúspias até bastante tarde; agora com o calor do Verão, enchem-se de caprichos e volubilidades, as mais atrasadas reclamam alimentação especial, e levamos-lhes aveia com malte, em grandes taças de barro; as maiores estão a mudar o pêlo do lombo, de modo que é preciso pô-las de parte, amarrar-lhes uma capa de protecção e fazer com que não se juntem de noite às mancúspias que dormem nas jaulas e recebem alimentos todas as oito horas.

Não nos sentimos bem. Isto já desde manhã, talvez devido ao vento quente que soprava ao amanhecer, antes de ter nascido este sol alcatroado que bateu na casa o dia inteiro. Custa-nos tratar dos animais doentes - isso faz-se às onze - e vigiar as crias depois da sesta. Parece-nos cada vez mais difícil andar, seguir a rotina; suspeitamos de que uma só noite de desatenção seria funesta para as mancúspias, a ruína irreparável da nossa vida.

(cont.)

3.7.16

Coração de Cão (iii)




– Não é de admirar! Veja-se o que aconteceu com os gatos. É um homem com coração de cão! 
– Oh não, oh não! – refutou Filipe Filipovitch numa voz arrastada – Meu caro doutor, está a cometer um enorme erro. Por amor de Deus, não difame o cão. Os gatos são um caso temporário… é uma questão de disciplina, bastam duas ou três semanas. Asseguro-lhe. Mais um mês e ele deixa de se atirar aos gatos. 
– Por que não já, então? 
– Ivan Arnaldovitch, isso é elementar, não percebo por que é que me pergunta. A hipófise não fica suspensa no ar, pois não? Foi implantada no cérebro do cão, e precisa de tempo para se adaptar. Agora Charikov está a mostrar o que resta do seu ser canino, e você tem de entender que os gatos são o menor dos males. Todo o horror está no facto de Charikov já não ter coração de cão, mas de homem! E um dos piores… Compreende? 
Muito excitado, Bormental cerrou as suas mãos magras e fortes, encolheu os ombros e anunciou, decidido: 
– Vou matá-lo de certeza.

[Coração de Cão, Mikhaíl Bulgákov]

Venezuela

o inferno.

o tabu.

2.7.16

guardo-te no coração


Paul Gilmore


Coração de Cão (ii)




Não vale a pena aprender a ler quando se consegue cheirar a carne à distância. Então quando se vive em Moscovo, e se tem dois dedos de testa, aprende-se quase sem querer, mesmo não indo à escola. Dos 40 mil cães moscovitas, só um ou dois, completamente idiotas, não conseguem unir as letras da palavra “chouriço”. Charik começou a aprender através das cores. Tinha ele apenas quatro meses quando, por toda a cidade, apareceram placas azuis e verdes com a inscrição “VC – venda de carne”. O que, repita-se, era completamente desnecessário. A carne sente-se pelo cheiro, ninguém precisa de inscrições. 

Certo dia, houve uma pequena confusão: Charik estava sem olfacto por causa do fumo da gasolina dos carros e, orientando-se pela cor azul do cartaz, sem receio algum, entrou no armazém de material eléctrico dos irmãos Golubizner, na rua Miasnitskaia, em vez de entrar no talho. Aí, o infeliz cão levou com o cabo eléctrico, que é pior do que levar com um chicote de cocheiro. Pode considerar-se este momento histórico como o início da aprendizagem de Charik. De volta ao passeio, Charik apercebeu-se de que “azul” nem sempre significava “carne”. Com a cauda entre as pernas, e uivando de dor, o cão lembrou-se que, nos talhos, a primeira letra era dourada ou cor de laranja, parecida com uma lua – “C”. 

A partir daí, tudo lhe correu melhor. O “E” aprendeu na Central de Peixe, na esquina da rua Mokhovaia (tendo aprendido não com o início da palavra, mas com o fim, que era o lado por onde se aproximava da loja, pois havia sempre um polícia por baixo do placar, onde começava a palavra).

[Coração de Cão, Mikhaíl Bulgákov]

Coração de Cão



Já alguma vez me deram pontapés? Sim. Já alguma vez levei com tijolos nas costelas? Várias vezes. Já sofri tudo isso e passei por outro tanto, mas aceito o meu destino. Se agora choro é pela dor física e pela fome, porque a minha alma ainda não foi vencida. A alma de um cão é resistente. O meu corpo, porém, está estropiado, magoado, maltratado. Mas o pior é que a água a ferver entranhou-se no meu pêlo, e agora tenho o lado esquerdo a descoberto, sem protecção. Posso facilmente apanhar uma pneumonia e, aí, caros cidadãos, estou feito, morro à fome.


[Coração de Cão, Mikhaíl Bulgákov]

24.6.16

o Brexit à portuguesa

sr. Feliz e sr. Contente

-- tristezas não pagam dívidas. - diz Marcelo, feliz.
-- nós também não! - responde, Costentão.

«I hate boredom. I choose to see the beauty in everything.»


(adoro o Adrien Brody)



Cameron, rapaz, e agora?

Global banks eye Frankfurt offices in Brexit contingency plan

...

Should a Brexit take place, how much business would move would depend on the terms of the new relationship between the UK and EU. However, rival financial centres are already positioning themselves to benefit if business does leave the city.


Two weeks ago, Paris’s financial elite hosted a conference where they promised to “roll out the red carpet” for London’s bankers. On Monday, the chief executive of Euronext warned that jobs would move to Dublin, Paris or Amsterdam if Britain left the EU.


23.6.16

Portuguese from SoHo




[obrigada.]

15.6.16

«a dor o fogo a flor a vibração»

orgasm, Jessie Hughes

Lunes, 12 de mayo.

Me dijo que Borges no estaba muy bien, que oía mal y que le hablara en voz alta. Apareció la voz de Borges y le pregunté cómo estaba. «Regular, nomás», respondió. «Estoy deseando verte», le dije. Con una voz extraña, me contestó: «No voy a volver nunca más». La comunicación se cortó. Silvina me dijo: «Estaba llorando». Creo que sí. Creo que llamó para despedirse.

[Borges, de Adolfo Bioy Casares]

destinos #2

Laguna de los Tres, Patagónia, Flávio Varricchio

11.6.16

destinos #1

Lago Baikal, Sibéria, Matthieu Paley

...

“A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não apresentam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade […] são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros”


10.6.16

...

The basic principle of equality does not require equal or identical treatment; it requires equal consideration

[Animal Liberation, Peter Singer]

8.6.16

Posteridade

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:

Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.

Nessa altura estarei esquecido.

Rui Knopfli

4.6.16

PURA GENÉTICA

Mi madre se fue.
Me buscaron otra.

Mi padre lo hizo después.
Me buscaron otro.

El amor me abandonó.
Lo busqué yo.

Todo por sustitución,
así me enseñaron,
para que nadie
me hiciera daño.

Es verdad que los hijos
se parecen a los padres:
a ti ya te he cambiado
por un coche verde.

Cecilia Quílez Lucas

1.6.16

«Os três últimos dias de Fernando Pessoa»


Fernando Pessoa descendo o Chiado com Augusto Ferreira Gomes



28 de Novembro de 1935
A minha vida foi mais forte do que eu

Primeiro tenho de fazer a barba, disse ele, não quero ir para o hospital com uma barba de três dias, faça-me o favor de chamar o barbeiro, é o senhor Manacés, que mora na esquina.
Mas não temos tempo, senhor Pessoa, replicou a porteira, o táxi já ali está, os seus amigos já chegaram e estão à sua espera na entrada.
Não tem importância, respondeu ele, há sempre tempo.
Instalou-se no pequeno sofá onde habitualmente o senhor Manacés lhe fazia a barba e pôs-se a ler as poesia de Sá-Carneiro.

[Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa, Antonio Tabucchi]

30.5.16

disso dos animais

«Caçar faz de nós animais, mas a morte de um animal torna-nos humanos.»

[A de Açor, Helen Macdonald]

29.5.16

a lua



28.5.16

stop





26.5.16

Estrume ou os "Escrúpulos de Bem-Falante"

Abril, 1874.

Recebemos pela posta o seguinte bilhete:

"Desejo que o crítico das Farpas que ultimamente traduziu para o teatro de D. Maria o Marquês de Villemer, queria ter o incómodo de informar-me se acha que seja permitido na boa sociedade de Lisboa, a uma menina tão bemeducada como Mademoiselle de Saint-Railles na comédia aludida, proferir a palavra estrumes. Espero resposta. — Sua leitora."


Respondemos.

Minha leitora. — Não sei se na boa sociedade as meninas querem ou não permitir-se empregar na conversa as mais nobres palavras que tem uma língua — as que se referem à cultura da terra e aos fenómenos da criação.
Em Caneças sei que os saloios têm nesse ponto umas reservas cheias de pudicícia e que pedem licença prévia para falarem num cavalo ou num porco. Não posso dizer até que ponto os usos da sociedade de Caneças penetram na sociedade de Lisboa.

A minha opinião particular é: que uma menina bem-educada está autorizada a proferir em toda a parte os nomes claros, técnicos, insubstituíveis das coisas, que ela tem obrigação de saber. Ora, dessas coisas, as primeiras que deve aprender uma senhora são a arte da jardinagem e a arte da cozinha — os dois princípios rudimentares da grande ciência de criar e de alimentar o homem.
Michelet, de todos os grandes pensadores modernos aquele que mais amou as mulheres e que deu na terra o paraíso àquelas que tiveram a ventura de serem a sua mulher, a sua filha e a sua neta, concebeu a regeneração da humanidade pela educação da mulher e começou a instruí-la fazendo-a penetrar os altos segredos da natureza e da vida por meio do estudo tão moralizador e tão elevado da jardinagem e da cozinha.

O estrume é o ponto de união entre a cozinha e o jardim, os dois sagrados domínios da inteligência da mulher superior, da esposa, da mãe, da nobre criadora, da alimentadora, da protectora do homem.

O estrume é um dos factos mais interessantes e mais curiosos da grande história profunda da terra e da natureza. É o objecto mais digno da atenção do nosso espírito.

O estrume é a história toda da química, da geologia, da biologia, da botânica.

O estrume, de per si só, explica-nos a grande e sublime evolução que constitui a vida nos vegetais, nos animais e no homem.

O estrume é a base, a origem, a condição primitiva e essencial de todas as coisas e de todos os seres sobre a superfície da Terra. É o grande legado imenso, portentoso, sucessivamente deixado de geração em geração ao género humano. Tudo o mais desaparece diante do roer do tempo, o eterno verme.
Desaparecem as obras da arte, as do talento, as das civilizações mais fortes e mais firmes. Somente se não aniquila, antes de dia para dia se acrescenta e se renova, o estrume, no qual lentamente se convertem todos os destroços, todas as ruínas e todos os monumentos que vai deixando em volta de si a passagem do homem.

Tudo passa.

O estrume fica eternamente.

Fica para que reverdeça a relva, para que se desdobrem os vinhedos pelas colinas, para que ondeiem as searas pelas planícies, para que cantem as cotovias por entre as laranjeiras e os lilases, para que os rebanhos se alastrem por baixo dos olivedos, para que as crianças continuem a rir, para que as mulheres continuem a amar, para que os homens continuem a aprender, e para que a minha leitora me dirija no bilhete mais doce a pergunta mais estranha.

Suprimindo o estrume, soçobraria o mundo.

Na vida moral o estrume é uma lição ainda mais importante do que na vida física. O estrume explica-nos a lei moral da solidariedade universal. Nele aprendemos que é nosso destino pertencermos fatalmente aos nossos semelhantes e à grande mãe Natureza. Que a vida individual é um empréstimo divino feito pela vida universal a que eternamente pertencemos. Que a morte, finalmente, não é outra coisa senão a doce restituição à suprema vitalidade da terra dos elementos que absorvemos dela.

Se, todavia, apesar destas singelas e passageiras reflexões, que submeto à consideração da minha leitora, S. Exª entender que se deve abster de proferir a palavra estrume, fica S. Exª autorizada para a substituir, em todo o decurso destas linhas que lhe consagro, por qualquer outra que lhe pareça mais curial e mais idónea. Onde se ler estrume, S. Exª poderá dizer, por exemplo: o arrebol, a brisa, a toilette à Rabagas ou a valsa a dois tempos. E Caneças aplaudirá.


[in As Farpas]

A Escavação

-- Ainda que me alegre! - respondeu Kozlov. -- Mas quem é que gostou de mim ao menos uma vez? Aguenta, dizem-me, até que o velho capitalismo morra... Agora ele acabou, mas eu continuo a viver sozinho debaixo do cobertor, e sinto-me triste!

Voschev comoveu-se de amizade por Kozlov.

-- A tristeza não é nada, camarada Kozlov - disse ele -, isso significa que a nossa classe sente o mundo inteiro, mas a felicidade é em todo o caso um conceito burguês... A felicidade só nos leva à vergonha!

A seguir, Voschev e os outros levantaram-se de novo para ir trabalhar. O sol ainda ia alto e, no ar iluminado, os pássaros cantavam lamentosamente, não triunfantes, mas porque procuravam alimento no espaço: as andorinhas voavam baixo por cima dos homens curvados que cavavam, silenciavam as asas de fadiga e, por baixo da penugem e das penas, havia o suor da necessidade - voavam desde o alvorecer, atormentando-se incessantemente para alimentar os filhotes e os companheiros. Certa vez, Voschev apanhou do chão um pássaro que morrera instantaneamente em pleno voo: estava coberto de suor, e quando o depenou para lhe ver o corpo, nas suas mãos ficou uma criatura exígua e lastimável, morta pela fadiga do seu trabalho. E agora Voschev não se poupava para desfazer o solo nodoso: aqui vai haver um prédio onde as pessoas se abrigarão das adversidades, e das janelas atirarão migalhas aos pássaros que vivem no exterior.   

[A Escavação, Andrei Platónov]


24.5.16

Paráfrase

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.
A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.
Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

Pedro Mexia

23.5.16

a ler

com o abraço para a querida NM, que se referiu a ela no post desta manhã, aqui replico, também eu, a crónica que se deve tornar viral:



19.5.16

18.5.16

As gavetas

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

Pedro Mexia

«When the world keeps testing me»



17.5.16

plágios

mas por que razão não há uma única referência a Borges e ao seu conto «O grosseiro mestre de cerimónias Kotsuké no Suké» (in História Universal da Infâmia) na ficha técnica deste filme?!
Last Knights - (ver trailer) é um plágio tão mal embrulhado, que dá dó. (Kodama, estás a dormir?! logo tu!)

se não acredita, caro leitor, atente na correspondência:

Morgan Freeman ("Bartok") é o senhor da Torre de Ako
Clive Owen ("Raiden") é Oishi Kuranosuké
Aksel Hennie ("Geza Mott") é Kotsuké no Suké

[um plágio filme medíocre, que nem Morgan Freeman consegue salvar.]


15.5.16

15 de Maio

«Curiosa sensação, a dos aniversários. Ver-me velho quando tenho tão presente a memória do tempo em que os trinta e três anos que Cristo contava quando o crucificaram me pareciam a idade de Matusalém.»

Pó, Cinza e Recordações

parabéns!


Papa Francisco, porque não te calas?

E afinal, parece que não somos todos criaturas de Deus. O Ser Humano, na sua infinita grandeza, é um ser superior, face à restante bicharada, que veio ao mundo para o servir. Um antropocentrismo raquítico ao serviço do teocentrismo iluminado.

Pergunta o Papa Francisco, por quem nutro alguma simpatia, fazendo um dos paralelismos mais infantis, idiotas e injustos que conheço: «Quantas vezes vemos pessoas que cuidam de gatos e cães e depois deixam sem ajuda o vizinho que passa fome?» 

Quem quer ajudar o vizinho, fá-lo-á, independentemente de ajudar os animais, acredito eu, que não ajudo o vizinho, mas - tanto quanto sei - alguns idosos, (ex-)toxicodependentes e sem-abrigo de Lisboa. Talvez a Igreja Católica - essa belíssima instituição com telhados de cristal - pudesse dar o exemplo, repartindo alguma da sua riqueza com o meu vizinho e os vizinhos do mundo inteiro, liderando assim a "piedade" por exemplo. Três famílias de refugiados, Francisco, equivale a uma moedinha das minhas, por alturas do natal. Vá lá, consegues melhor do que isso!


13.5.16

12.5.16

Bronco Angel, o cow-boy analfabeto [ó coisa boa!]

Os meus primeiros tempos como ajudante do xerife Jimmy Cicatriz não foram isentos de dificuldades. Rigoroso em todas as voltas da vida, o meu boss exigia na mínima circunstância, mesmo com dois ss (circunstânssia), aquilo que se poderia chamar competência na decisão (com z ou com s, agora estou um bocadinho indeciso; por acaso decisão não fica mal, e melhor ainda dessizão!), Bem, isto sou eu a ver sse asserto.

«Sabes ler, escrever e contar?», perguntou-me o xerife quando apareci ao trabalho na primeira inolvidável manhã da nossa colaboração.

«Sei apanhar gafanhotos à palmada», respondi. «E sei jogar à macaca. E sei quem foi o primeiro rei de Portugal».

“Quem foi?”

“Dom João V.”

«Óptimo. Não quero cá analfabetos.»


[Bronco Angel, O Cow-Boy Analfabeto, Fernando Assis Pacheco

CARTA A FÁTIMA

Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...


Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.


Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!


Luiz Pacheco, 1992


MANUAL DE DESPEDIDA PARA MULHERES SENSÍVEIS

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),

três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,

mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.


[Vem à quinta-feira, Filipa Leal]

11.5.16

Pai

Na minha estante, no outro extremo da sala, havia um telescópio portátil com uma capa de Cordura verde. Pedira-o emprestado ao meu pai para ir observar aves e não o tinha devolvido. Esquecera-me de o levar na última visita que lhe fiz. «Fica para a próxima», dissera ele, abanando a cabeça com uma exasperação bem-humorada. Não houve próxima vez. Não o pude restituir. Também não lhe pude pedir desculpa. Houve uma vez, talvez no dia a seguir à sua morte, ou no dia a seguir a esse, em que ia sentada num comboio com a minha mãe e o meu irmão. Íamos buscar o carro dele. Foi uma viagem desesperada. As minhas mãos agarravam com força o ferro áspero do assento até os nós dos dedos ficarem brancos. Recordo-me de buddleia, de escória ao lado da linha, de um gasómetro verde e da central nuclear de Battersea quando o comboio abrandou. E só quando já nos encontrávamos na estação de Queenstown Road, numa plataforma desconhecida sob uma cobertura de madeira branca, só quando já nos dirigíamos para a saída, me apercebi, pela primeira vez, de que nunca mais voltaria a ver o meu pai.
Nunca. Detive-me e fiquei imóvel. E gritei. Chamei-o em voz alta. Pai. E depois, a palavra Não saiu num uivo longo, decrescente. O meu irmão e a minha mãe abraçaram-me, e eu a eles. Um facto brutal. Nunca mais tornaria a falar com ele. Nunca mais voltaria a vê-lo.


 [A de Açor, Helen Macdonald]


10.5.16

Paupéria revisitada


Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.

Ricardo Aleixo

9.5.16

não escrever ii

«Não há literatura: Quando se escreve só importa saber em que real se entra e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.»


[Um falcão no punho, Maria Gabriela Llansol]


não escrever

«Até hoje não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente, até que de repente a descoberta muito tímida: quem sabe, também eu poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável.»


[Para Não Esquecer, Clarice Lispector]


6.5.16

...


Henri Cartier Bresson


«a de açor»

Uma pessoa aprende. Hoje, pensei, já não com nove anos e sem estar aborrecida, era paciente e as aves de rapina apareciam.

Levantei-me lentamente, com as pernas um pouco entorpecidas por ter estado imóvel durante tanto tempo, e vi que tinha na mão uma pequena quantidade de musgo-das-renas, um pedacinho desse líquen ramificado de um cinzento-esverdeado pálido que pode sobreviver do quase nada que o mundo lhe fornece. É um exemplo de paciência. Se o guardarmos no escuro, se o congelarmos, se o secarmos até ficar estaladiço, o musgo-das-renas não morre. Fica em estado latente à espera de que as coisas melhorem.

É um ser impressionante. Sopesei a pequena esfera ramosa. Era quase como se não a tivesse na mão. E, num impulso súbito, enfiei no bolso de dentro do colete essa pequena recordação roubada ao dia em que vi as aves de rapina, e fui para casa. Pu-la numa prateleira perto do telefone. 

Três semanas mais tarde, era para o musgo-das-renas que olhava quando a minha mãe ligou a dizer que o meu pai tinha morrido. 

Helen Macdonald

4.5.16

Congo

liga do Congo. não vai conseguir.

Michael Christopher Brown, Congo

30.4.16

«quintas e domingos»



Em Portugal, existem cerca de trezentos mil homens (são praticamente todos homens) que, às quintas e domingos, entre Agosto e Fevereiro, saem pelos campos para matar animais. Imaginemos que um deus vingativo decretava que, nessas mesmas quintas e domingos, era permitido a outros homens caçar os caçadores. Imaginemos portanto que um destes caçadores de caçadores escrevia a seguinte página de diário:

«Acertei‑lhe na omoplata. Costumo apontar para o ventre,
porque o recuo da arma às vezes faz com o que o tiro lhes esfacele
a cabeça e depois não me servem para nada (pois: gosto de ter as
cabeças embalsamadas na sala, é cada um com a sua mania e esta
é a minha). Deu uma espécie de guincho agudo quando o tiro lhe
acertou. Muitos caem sem fazer barulho, mas eu prefiro sentir
que acertei, dá mais pica. Os cães saltaram de trás de mim e foram
por ali abaixo numa barulheira desenfreada, as narinas esbuga‑
lhadas com o cheiro a sangue. Estava deitado de lado a rebolar‑se
para aqui e para ali, a espingarda caída, um braço levantado com
a mão a acenar. Tinha graça, parecia que estava a chamar um táxi.
Gemia qualquer coisa, não percebi, talvez fosse: «Mãe, mãe...».

Os cães ferraram‑lhe o braço ferido e também uma das pernas e
começaram a arrastá‑lo. Foi uma carga de trabalhos para os afastar
dali, já com pedaços de carne e de camuflado metidos nos dentes.
As gemidelas dele começaram a chatear‑me, é melhor quando 
consigo matá‑los à primeira, fazem menos barulho e confusão, e
não fica a cabeça estragada com terra, folhas e sangue de andarem
a esfregar‑se por causa das dores. Ainda por cima, ter de lhes cor‑
tar o pescoço com a faca é uma porcaria, sangram mais que javalis.
Foi então que reparei que havia uma criança acocorada ao lado
dele na moita. É raro virem caçar com crianças. O miúdo tremia
todo e estava de bruços, a cabeça praticamente enfiada no chão.
Podia ter‑lhe acertado mesmo na espinha e pronto, mas acho
uma estupidez matar crianças, depois não crescem e ficamos com
menos peças para abater. O melhor é deixá‑los procriar. Dei um
pontapé no miúdo e mandei‑o embora, foi‑se a correr, aos trope‑
ções contra os ramos, chorava como um desalmado. Aquilo devia
ser medo, mas passa‑lhes depressa. Acabei com o caçador com
um golpe na garganta, ficou tudo sujo mas a cabeça era boa. Não
foi mau domingo. Consegui um abate, estava‑se bem, não chovia
nem fazia muito frio, o ar puro e o exercício abriram‑me o ape‑
tite para o almoço. Na quinta‑feira não posso vir, mas no próximo
domingo estou aqui caído outra vez.»

Os caçadores não matam animais por necessidade, mas por prazer, e não sentem qualquer empatia em relação ao sofrimento que causam, em relação à dor, ao susto, à agonia. A caça será um dia encarada com o mesmo espanto com que hoje olhamos para coisas horríveis que a humanidade fazia antigamente, como as execuções públicas, a tortura pública ou o tráfico de escravos, mas hoje é designada «desporto» e a maior parte das pessoas acha que não tem mal nenhum.


Ouro e Cinza
de Paulo Varela Gomes 
[que esteja em paz]