4.9.17

Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera,

...y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano por tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua.


/Rayuela, cap. 7/

27.8.17

Mar de Ninguém

No mar de ninguém
o navio fantasma e a sua hélice de sangue
à distância de um tiro
onde é a entrada abrupta dando para o torso adolescente
o de sempre quando é preciso procurar uma passagem
entre fios esticados de garganta a garganta
e um tambor estilhaçado à altura do peito

/António José Forte - Uma Faca Nos Dentes/

3.8.17

O Espelho
















 (1975, dir. Andrei Tarkovsky)


6.7.17

recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer -- vai por esse campo
de crateras extintas -- vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo -- deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração -- ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna -- o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira -- não esqueças o ouro
o marfim -- os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


/al berto, horto de incêndio/

5.7.17

- Queres ver o que inventei, Avô?

- Não achas que podem ficar tristes, esses pirilampos dentro de uma gaiola que fica dentro do teu quintal?
- Se estivessem tristes, acho que não brilhavam assim.
- E se estiverem a brilhar de tristeza? - perguntou o Avô.
- Não tinha pensado nisso.


/O Convidador de Pirilampos, Ondjaki e António Jorge Gonçalves/

24.6.17

How to Deal with the Police | Parents Explain





The burkini debate: Is female nudity empowering?


"The difference between the burkini and the bikini is that the burkini is not a choice. It is a mandatory thing, dictated by societal pressure," said one Farsi reader.
"We cannot stand for freedom and be selective about it - either you support her choice to say whatever she wants or you don't," wrote a reader of our English pages.

22.6.17

Onde se conta o que sucedeu a D. Quixote quando ia ver a sua senhora Dulcineia do Toboso


Onde se conta o que nele se verá


Era meia noite em ponto, pouco mais ou menos, quando D. Quixote e Sancho deixaram o monte e entraram em Toboso. Estava a aldeia num sossegado silêncio, porque todos os seus habitantes dormiam e repousavam à perna solta, como costuma dizer-se. Na noite havia uma frouxa claridade, embora Sancho preferisse que fosse completamente escura, para achar na escuridão desculpa para a sua patetice. 

Não se ouvia em toda a povoação senão ladridos de cães, que atroavam os ouvidos de D. Quixote e perturbavam o coração de Sancho. De vez em quando um jumento zurrava, grunhiam porcos, miavam gatos, cujas vozes, de sons diferentes, aumentavam com o silêncio da noite, o que o enamorado cavaleiro considerava um mau agoiro; mas, apesar de tudo isto, disse a Sancho:

— Sancho, filho, dirige-te para o palácio de Dulcineia; talvez ainda achemos acordada.

— Para que palácio tenho de seguir, diabo do raio — respondeu Sancho —, que naquele onde a vi a sua grandeza não era mais que a de uma casa muito pequena?

— Devia então estar retirada — respondeu D. Quixote — em algum pequeno aposento do se alcácer, a espairecer com as suas donzelas, como é uso e costume das altas senhoras e princesas.

— Senhor — disse Sancho —, já que vossa mercê quer, contra minha vontade, que seja alcácer a casa da minha senhora Dulcineia — esta é porventura a hora de achar a porta aberta? E será conveniente que demos aldrabas para que nos ouçam e venham abrir a porta, pondo em alvoroço e barulho toda a gente? Vamos acaso nater à porta das nossas concubinas, como fazem os amancebados, que chegam, e chamam e entram a qualquer hora, por tarde que seja?

— Achemos primeiro o alcácer — replicou D. Quixote —; que então te direi o que será conveniente que façamos. E repara, Sancho, que eu vejo mal, ou aquele volume enorme e sombra que daqui se descobre deve ser do palácio de Dulcineia.

— Pois vá vossa mercê adiante — respondeu Sancho —; talvez seja isso que diz; ainda que eu o veja com os olhos e o toque com as mãos, hei-de acreditar tanto nisso como acredito que agora é de dia.

D. Quixote foi à frente e, tendo andado uns duzentos passos deu com o vulto que fazia sombra e viu uma grande torre, e depois reconheceu que o tal edifício não era um alcácer mas a igreja principal da povoação. E disse:

— Encontramos a igreja, Sancho.

— Já vejo — respondeu Sancho. — E praza a Deus que não achemos a nossa sepultura, que não é bom indício andar pelos cemitérios a uma hora destas, e mais tendo eu dito a vossa mercê, se não me lembro mal, que a casa desta senhora há-de ficar num beco sem saída.

— Maldito sejas por Deus, mentecapto! — disse D. Quixote. — Onde achaste que os alcáceres e palácios reais estejam edificados em becos sem saida?

— Senhor — respondeu Sancho —, cada terra tem seu uso; talvez se use aqui no Toboso edificar em becos os palácios e os grandes edifícios; e assim suplico a vossa mercê que me deixe buscar por estas ruas ou becos que se me oferecem: poderia ser que nalgum canto topasse com esse alcácer, que o veja eu comido pelos cães, que assim nos obriga a correr e procurar por caminhos e carreiros.

— Fala com respeito, Sancho, das coisas da minha senhora — disse D. Quixote —, gozemos a nossa festa em paz, e não atiremos a corda atrás do caldeiro.

— Eu conter-me-ei — respondeu Sancho —; mas — com que paciência poderei aguentar que vossa mercê queira que com uma única vez que vi a casa da nossa senhora a tenha de saber sempre e achá-la à meia-noite, não a achando vossa mercê, que deve tê-la visto milhares de vezes?

— Tu fazes-me irritar, Sancho — disse. — Vem cá, herege. Não te disse mil vezes que em todos os dias da minha vida nunca vi a sem par Dulcineia, nem ultrapassei jamais os umbrais do seu palácio, e que estou enamorado só por ter ouvido falar dela e pela grande fama que tem de formos e fina?

— Agora ouço-o — respondeu Sancho —; e digo que vossa mercê nunca a viu, nem eu tão-pouco.

— Isso não pode ser — replicou D. Quixote —; que, pelo menos, já me disseste que a viste crivar trigo, quando me trouxeste a resposta da carta que lhe enviei por tua mão.

— Não faça caso disso, senhor — respondeu Sancho —; porque lhe faço saber que também foi por ouvir falar dela a imagem e a resposta que lhe trouxe; porque sei tanto quem é a senhora Dulcineia como dar um soco no céu.

— Sancho, Sancho — respondeu D. Quixote —, há ocasiões que são boas para brincar e ocasiões onde caem e parecem mal as brincadeiras. Não porque eu diga que nunca vi nem falei à senhora da minha alma hás-de tu dizer também que nunca lhe falaste nem a viste, sendo tão o contrário disso, como sabes.


/O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, Miguel Cervantes, Relógio D'Água, p. 524 - p. 528/


16.6.17

al berto, poeta dos espelhos

«Um corpo que nunca parou de se encenar, de re(a)presentar, porque nunca parou de sofrer por essa impossibilidade de sair de si mesmo, com a escrita a querer fazer-se ex-crita. No limiar, parece ser essa a grande utopia de Al Berto: transformar o corpo em palavras, transformar a carne em linguagem, para assim se libertar da solidão ontológica, que é sempre a marca da nossa fragilidade e a omnipresença de um perigo.»


/Joana Emídio Marques, num belíssimo artigo aqui/

11.6.17

I Am Not Your Negro




What white people have to do, is try and find out in their own hearts why it was necessary to have a nigger in the first place, because I'm not a nigger, I'm a man, but if you think I'm a nigger, it means you need it.


James Baldwin

Paolo Cognetti | Dar nomes às coisas nas montanhas


Henry David Thoreau defendeu, em Walden (uma referência importante no seu romance): “A maior parte das pessoas tem vidas de desespero resignado. Aquilo a que chamamos resignação não passa de desespero crónico. Da cidade desesperada ao país desesperado, não nos resta senão procurar consolo na coragem das martas e dos ratos-almiscareiros.” Concorda?


Essa passagem é ainda mais verdadeira hoje do que no tempo de Thoreau. Os meios de comunicação atuais são sobretudo meios de entretenimento. Tenho horror à nossa obsessão por preencher cada minuto com qualquer coisa. Porque acredito que o silêncio e a solidão escondem verdadeiros tesouros. O meu maior tesouro é a escrita, que nasce do rumor e do silêncio. O maior prémio que este livro me deu foi o encontro com a solidão na montanha. Hoje, a cidade, real ou virtual, está cheia de ruído, que nos suga e nunca nos deixa ficar a sós.




“La simple compañía del otro, en las situaciones adversas, es tan necesaria como la propia vida.”





23.5.17

22.5.17

SAFO OU O SUICÍDIO

Acabo de ver no fundo dos espelhos de um camarim uma mulher que se chama Safo. É pálida como a neve, a morte, ou o rosto claro dos leprosos. E como ela se maquilha para esconder a sua palidez, tem o ar do cadáver de uma mulher assassinada, tendo sobre as maças do rosto um pouco do seu próprio sangue.
Os seus olhos cavados escondem-se para escapar ao dia, longe das suas pálpebras áridas que já nem sequer lhes fazem sombra. Os seus longos caracóis caem em madeixas, como as folhas das florestas sob tempestades precoces; todos os dias arranca a si própria novos cabelos brancos, e esses fios de seda clara em breve serão suficientemente numerosos para tecer a sua mortalha. Chora a sua juventude como uma mulher que a tivesse traído, a sua infância como uma filhinha que tivesse perdido.
É magra: na hora do banho afasta-se do espelho para não ver os seus seios tristes. Erra de cidade em cidade com três grandes malas cheias de pérolas falsas e restos de aves. É acrobata como nos tempos antigos era poetisa, porque a forma especial dos seus pulmões a obriga a exercer uma profissão que se exerça a meia altura.
Todas as noites, entregue às feras do Circo que a devoram com os olhos, ela cumpre num espaço repleto de polés e de mastros as suas obrigações de estrela. O seu corpo colado à parede, cortado pelas letras dos anúncios luminosos, faz parte desse grupo de fantasmas em voga que planam sobre as cidades cinzentas.
...

in Fogos, de Marguerite Yourcenar


28.2.17

26.2.17

«Iran's blogfather: Facebook, Instagram and Twitter are killing the web»

«Sometimes I think maybe I’m becoming too strict as I age. Maybe this is all a natural evolution of a technology. But I can’t close my eyes to what’s happening: a loss of intellectual power and diversity. In the past, the web was powerful and serious enough to land me in jail. Today it feels like little more than entertainment. So much that even Iran doesn’t take some – Instagram, for instance – serious enough to block.

I miss when people took time to be exposed to opinions other than their own, and bothered to read more than a paragraph or 140 characters. I miss the days when I could write something on my own blog, publish on my own domain, without taking an equal time to promote it on numerous social networks; when nobody cared about likes and reshares, and best time to post.

That’s the web I remember before jail. That’s the web we have to save.»



11.2.17

abismos

«Vistos de tão perto, os olhos dela pareciam-lhe aumentados, sobretudo quando ela abria várias vezes seguidas as pálpebras ao acordar; negros à sombra e azul-escuros à claridade do dia, tinham uma espécie de camadas de cores sucessivas que, mais espessas no fundo, iam clareando à medida que se aproximavam da superfície brilhante. O olhar dele perdia-se nesses abismos onde se via em miniatura até aos ombros, com o lenço que lhe cobria a cabeça e o alto da camisa entreaberta.»

Charles, o tolo apaixonado, em Madame Bovary, de Gustave Flaubert

29.1.17

Ouro

Cremaram o poeta e, com mercúrio, extraíram, das suas cinzas, ouro. Começaram então a caçar os poetas, que se esconderam no mato, que se jogaram no mar, que se abismaram nas crateras dos vulcões. Finalmente haviam descoberto uma utilidade para os poetas. Mas, quando o último deles, num grotão profundo da Cochinchina, engasgou com o próprio sangue, varado por uma lança de bambu…
 …a Lua começou a cair na Terra.

muito antes de eu sonhar com eles, centenas, em fila indiana, nas traseiras da casa grande, em noites iluminadas pela neve, descobri há dias, que já a artista os tinha avistado.


18.1.17

Uma Faca Nos Dentes: Reservado Ao Veneno

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

12.1.17

Libro de las preguntas

Si todos los ríos son dulces
de dónde saca sal el mar?



/Pablo Neruda, Livro das Perguntas/

8.1.17

Esquecer Fausto

Contra a cultura como leitura pobre do mundo, o sujeito de Photomaton & Vox opta por uma cosmovisão relativista e proclama a necessidade de reinventar o real: "É preciso inventar de novo o edifício palpável das convenções". A formulação é ambígua: as convenções não podem ser inventadas de novo, se inventar é negar convenções; por outro lado, considerar que toda a convenção está destinada à destruição e à renovação implica que o texto se apresente como transitoriedade: o "edifício palpável das convenções" nunca atinge consistência. Seria preciso saber se o humor "negro" herbertino alvança a criação de valores, se a empresa crítica de Photomaton & Vox se transcende numa etapa construtiva.


/Esquecer Fausto: a fragmentação do sujeito em Raul Brandão, Fernando Pessoa, Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol, de Pedro Eiras [que adquiri primeiramente, porque continha quatro dos meus]/