28.2.17

26.2.17

«Iran's blogfather: Facebook, Instagram and Twitter are killing the web»

«Sometimes I think maybe I’m becoming too strict as I age. Maybe this is all a natural evolution of a technology. But I can’t close my eyes to what’s happening: a loss of intellectual power and diversity. In the past, the web was powerful and serious enough to land me in jail. Today it feels like little more than entertainment. So much that even Iran doesn’t take some – Instagram, for instance – serious enough to block.

I miss when people took time to be exposed to opinions other than their own, and bothered to read more than a paragraph or 140 characters. I miss the days when I could write something on my own blog, publish on my own domain, without taking an equal time to promote it on numerous social networks; when nobody cared about likes and reshares, and best time to post.

That’s the web I remember before jail. That’s the web we have to save.»



11.2.17

abismos

«Vistos de tão perto, os olhos dela pareciam-lhe aumentados, sobretudo quando ela abria várias vezes seguidas as pálpebras ao acordar; negros à sombra e azul-escuros à claridade do dia, tinham uma espécie de camadas de cores sucessivas que, mais espessas no fundo, iam clareando à medida que se aproximavam da superfície brilhante. O olhar dele perdia-se nesses abismos onde se via em miniatura até aos ombros, com o lenço que lhe cobria a cabeça e o alto da camisa entreaberta.»

Charles, o tolo apaixonado, em Madame Bovary, de Gustave Flaubert

29.1.17

Ouro

Cremaram o poeta e, com mercúrio, extraíram, das suas cinzas, ouro. Começaram então a caçar os poetas, que se esconderam no mato, que se jogaram no mar, que se abismaram nas crateras dos vulcões. Finalmente haviam descoberto uma utilidade para os poetas. Mas, quando o último deles, num grotão profundo da Cochinchina, engasgou com o próprio sangue, varado por uma lança de bambu…
 …a Lua começou a cair na Terra.

muito antes de eu sonhar com eles, centenas, em fila indiana, nas traseiras da casa grande, em noites iluminadas pela neve, descobri há dias, que já a artista os tinha avistado.


18.1.17

Uma Faca Nos Dentes: Reservado Ao Veneno

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

12.1.17

Libro de las preguntas

Si todos los ríos son dulces
de dónde saca sal el mar?



/Pablo Neruda, Livro das Perguntas/

8.1.17

Esquecer Fausto

Contra a cultura como leitura pobre do mundo, o sujeito de Photomaton & Vox opta por uma cosmovisão relativista e proclama a necessidade de reinventar o real: "É preciso inventar de novo o edifício palpável das convenções". A formulação é ambígua: as convenções não podem ser inventadas de novo, se inventar é negar convenções; por outro lado, considerar que toda a convenção está destinada à destruição e à renovação implica que o texto se apresente como transitoriedade: o "edifício palpável das convenções" nunca atinge consistência. Seria preciso saber se o humor "negro" herbertino alvança a criação de valores, se a empresa crítica de Photomaton & Vox se transcende numa etapa construtiva.


/Esquecer Fausto: a fragmentação do sujeito em Raul Brandão, Fernando Pessoa, Herberto Helder e Maria Gabriela Llansol, de Pedro Eiras [que adquiri primeiramente, porque continha quatro dos meus]/