18.5.18

O medo

Uma manhã, ofereceram-nos um porquinho-da-índia. Chegou a casa numa gaiola. À tarde, abri-lhe a porta da gaiola. Voltei a casa ao anoitecer e encontrei-o tal como o deixara: no fundo da gaiola, encostado às grades, a tremer do susto da liberdade.

 /Eduardo Galeano, O livro dos Abraços/

6.5.18

No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro.

Fiona Sami

Allégeance

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n’est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l’aima?

Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L’espace qu’il parcourt est ma fidélité. Il dessine l’espoir et léger l’éconduit. Il est prépondérant sans qu’il y prenne part.

Je vis au fond de lui comme une épave heureuse. A son insu, ma solitude est son trésor. Dans le grand méridien où s’inscrit son essor, ma liberté le creuse.

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n’est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l’aima et l’éclaire de loin pour qu’il ne tombe pas?

23.4.18

Cléo de 5 à 7

Agnès Varda eloquently captures Paris in the sixties with this real-time portrait of a singer (Corinne Marchand) set adrift in the city as she awaits test results of a biopsy. A chronicle of the minutes of one woman’s life, Cléo from 5 to 7 is a spirited mix of vivid vérité and melodrama (daqui)


15.4.18

do Belo e do Azul

 Eiko Ojala 


do Belo

autor desconhecido

Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola


«Porque é que ‘tão a olhar para mim?
Não vim para ficar…»

Não é que me tivesse propriamente esquecido, não conseguia era lembrar-me. Havia outras coisas mais importantes.

«Porque é que ‘tão a olhar para mim?
Não vim para ficar…»

Se me conseguia lembrar do resto do poema ou não era irrelevante. A verdade daquela afirmação era como um lenço amassado, encharcado nos meus punhos, e quanto mais cedo aceitassem isso, mais depressa eu poderia abrir as mãos e deixar o ar arrefecer-me as palmas.

«Porque é que ‘tão a olhar para mim…?»

Os meninos da ala infantil da Igreja Metodista Episcopal de Pessoas de Cor contorciam-se de riso por causa do meu proverbial esquecimento.
Levava um vestido de tafetá alfazema e, sempre que inspirava, o tecido restolhava e, como eu estava a sorver ar e a expirar vergonha, o ruído fazia lembrar o papel crepe que se usa na traseira dos carros funerários.
Enquanto observava a Mãezinha a pôr folhos na bainha e umas preguinhas bonitas na cintura, soube que, assim que o vestisse, iria parecer uma estrela de cinema. (Era de seda, o que compensava a cor horrorosa.) Eu ia parecer uma daquelas meninas brancas e graciosas, que encarnavam tudo o que havia de bom no mundo, o ideal de toda a gente. Delicadamente pousado em cima da máquina de costura Singer preta, o vestido era mágico, e, quando as pessoas me vissem com ele, viriam ter comigo a correr e diriam: «Marguerite [às vezes, era “querida Marguerite”], por favor perdoa-nos, não sabíamos quem eras», e eu responderia, generosamente: «Não, não podiam saber. É claro que vos perdoo.»


/Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola, Maya Angelou/

11.4.18

De Numeral / Nomimal

Escrever é arriscar tigres
ou algo que arranhe, ralando
o peito na borda do limite
com a mão estendida
até a cerca impossível e farpada
até o erro — é rezar com raiva.

***

Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.

7.4.18

Na Memória dos Rouxinóis

1.

Nasceu para ser um número primo


Jorge Rousinol nem sempre foi Jorge Rousinol. Até 5 de agosto de 1945, era o Sete, um número primo.
Jorge foi o sexto neto a nascer e o avô Rousinol, matemático galego próximo de Franco, apenas decorou o nome dos primeiros cinco. Quando Jorge nasceu, desperto e sem chorar, fitou o avô com os seus olhos cinzento-espelho, que, até aos dias de hoje, pareciam as águas de duas bacias que devolvem ao mundo o que o mundo lhes dá, mas num tom mais sombrio -- ou, como Jorge dirá, mais realista.
O avô viu-se refletido nos olhos do neto e, talvez pelo seu narcisismo, concedeu que seis era pouco para a importância absoluta daquele recém-nascido. Saltou um algarismo e atribuiu-lhe a posição sete, um número primo. Sinal de reconhecimento de que este era apenas divisível por ele próprio ou pela unidade. Traço de personalidade que cedo se manifestou em Jorge Rousinol: não ter outro divisor natural, ser ele a única referência do seu sistema de medida.


 /Na Memória dos Rouxinóis, Filipa Martins/

Axolotl

Hubo un tiempo en que yo pensaba mucho en los axolotl. Iba a verlos al acuario del Jardín des Plantes y me quedaba horas mirándolos, observando su inmovilidad, sus oscuros movimientos. Ahora soy un axolotl.

|cont. aqui | em pt aqui|

Julio Cortazar

1.4.18

A Dança da Victória

- Que tal, Marín? Como vai isso?
- Como sempre, director.
- É uma pena que não tenhas beneficiado da amnistia.
- Eu não sou um simples ladrão de galinhas, senhor. A mim têm-me aqui dentro por assassínio.
- Deve ter sido muito grave, para te darem prisão perpétua.
- Sim.
- Foram muitos generosos contigo. Quantos assassínios cometeste?
- Mais de um, director.
- De modo que as possibilidades de saíres por bom comportamento daqui a uns anos são escassas.
- Diga antes nulas. Explicitamente, não me fuzilaram com a recomendação rigorosa de que por nenhum motivo me deviam baixar a pena.
- E tu não preferirias o pelotão? Porque, ao fim ao cabo, isto não é vida, pois não?
- Não é vida, mas a vida é a vida. Seja qual for. Nem um verme gosta que o esmaguem.


/A Dança da Victória, Antonio Skármeta/

31.3.18

...

Pierdo la razón si hablo, pierdo los años si callo.

23.3.18

Concordância de género

Por detrás de cada grande homem,
ouvira dizer,
estava sempre uma grande mulher. Por detrás
de cada grande mulher, seria provável,
haveria sempre um grande homem.
Olhava em volta e não via nenhum,
nem antes nem após.
Ninguém para a empurrar, ninguém
atrás de quem se pudesse esconder.
Era apenas ela,
tão crua quanto a roupa que tinha despido.
Baça, suja e sem
valer o trabalho de a apanhar do chão.

(Ou talvez,
e esse seria o seu problema,
não houvesse nela nada de grande.
Nem as mãos, nem as mamas,
nem a boca, nem a cona,
nem o tempo, nem a escrita.
A mediocridade, sabia-se,
tem-se sempre a si mesma
como termo de comparação.)


/Madalena de Castro Campos, aqui/

22.3.18

é-papel, sim senhor.

mais coisa, menos coisa, o idoso sou eu.


Gerhard Haderer

/roubado no Panda/

21.3.18

Uma faca só lâmina

Uma faca só lâmina

Assim como uma bala

enterrada no corpo,

fazendo mais espesso

um dos lados do morto;

assim como uma bala

do chumbo mais pesado,

no músculo de um homem

pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse

um vivo mecanismo,

bala que possuísse

um coração ativo

igual ao de um relógio

submerso em algum corpo,

ao de um relógio vivo

e também revoltoso,

relógio que tivesse

o gume de uma faca

e toda a impiedade

de lâmina azulada;

assim como uma faca

que sem bolso ou bainha

se transformasse em parte

de vossa anatomia;

qual uma faca íntima

ou faca de uso interno,

habitando num corpo

como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,

e sempre, doloroso

de homem que se ferisse

contra seus próprios ossos.

Seja bala, relógio,

ou a lâmina colérica,

é contudo uma ausência

o que esse homem leva.

Mas o que não está

nele está como bala:

tem o ferro do chumbo,

mesma fibra compacta.

Isso que não está

nele é como um relógio

pulsando em sua gaiola,

sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está

nele está como a ciosa

presença de uma faca,

de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor

dos símbolos usados

é a lâmina cruel

(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica

essa ausência tão ávida

como a imagem da faca

que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica

aquela ausência sôfrega

que a imagem de uma faca

reduzido à sua boca;

que a imagem de uma faca

entregue inteiramente

à fome pelas coisas

que nas facas se sente.


/João Cabral de Melo Neto/

6.3.18

[Quando os dias são iguais e tristes]

Quando os dias são iguais e tristes
gosto de beber
para galgar a distância
que me separa do ser.
As veias levam o álcool
e o álcool embebeda-se no tanto que percorre.

Sabendo no corpo os caminhos todos
mistura-lhes o fora
dos quartos
das salas
da paisagem casa
da atmosfera inteira.

Fico tonta de universo,
e vibro               e julgo
que os dias já não são iguais nem tristes.


Salette Tavares

/obrigada, Vício/

3.3.18

Biblioteca Pessoal - Eça de Queirós

"No ano final do século XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde. Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente."

/Biblioteca PessoalJorge Luis Borges/

20.2.18

19.2.18

Silêncio na Era do Ruído




«O desconforto de estarmos sós, contendo a língua e limitando-nos simplesmente a ser, não começou com o advento da televisão nos anos 50, nem com a chegada da Internet nos anos 90 ou com os smartphones dos nossos dias; foi sempre um problema e Pascal foi provavelmente o primeiro a escrever sobre essa sensação.»


/Silêncio na Era do Ruído, Erling Kagge/

18.2.18

O Imortal

Este palácio é obra dos deuses, pensei, antes de tudo. Explorei os desabitados recintos e corrigi: Os deuses que o construíram já morreram. Notei suas características e disse: Os deuses que o construíram estavam loucos. Disse-o, bem sei, com uma incompreensível reprovação que era quase  um remorso, mais de horror intelectual do que de medo sensível. À impressão da enorme antiguidade juntaram-se outras: a do interminável, a do atroz, a do complexamente insensato.


Jorge Luis Borges

Quando sair daqui,

arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro,
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei,
sua puta, pensei,
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais.
Tens sorte, pensei.
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades.
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti,
assim obesa e malcheirosa como andas,
o móbil de um crime passional.


/Golgona Anghel, Nadar na Piscina dos Pequenos/

12.2.18

Biblioteca Pessoal

«Que outros se gabem dos livros que lhes foi dado escrever; eu gabo-me daqueles que me foi dado ler», disse eu uma vez. Não sei se sou um bom escritor; penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor. Desejo que esta biblioteca seja tão diversa como a não saciada curiosidade que me induziu, e continua a induzir-me, à exploração de tantas linguagens e de tantas literaturas. Sei que o romance não é menos artificial do que a alegoria ou a ópera, mas incluirei romances porque também eles entraram na minha vida. Esta série de livros heterogéneos é, repito, uma biblioteca de preferências.

María Kodama e eu errámos pelo globo da terra e da água. Chegámos ao Texas e ao Japão, a Genebra, a Tebas e, agora para juntar os textos que foram essenciais para nós, percorreremos as galerias e os palácios da memória, como escreveu Santo Agostinho.

Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram. «A rosa é sem porquê», disse Angelus Silesius; séculos depois Whistler declararia «A arte acontece».

Oxalá que sejas o leitor que este livro aguardava.


           

                                                                                                        J.L.B.


/Biblioteca Pessoal, Jorge Luis Borges/

5.2.18

In the Mood for Love




/pintura de Gao Xingjian/

mãe

Fiona Sami

«Gritamos palavras, tesos como falos a fornicar o caos.»

E a própria Paulette acompanhava uma Internacional descabelada com voz de falsete. Divertidos, contentes de viver, e era tudo. Cada um com as suas opiniões obscuras e pessoais, intraduzíveis e mais além.
Muitas vezes fazíamos política a sério, discutindo conjecturas impossíveis, indignando-nos ferozmente com as enormes desigualdades, sem ideias claras, desnorteados, sôfregos, ignorantes. Éramos demasiado verdadeiros para sermos sólidos. Um sofisma nas trombas e ficávamos KO.


/Golpes, Jean Meckert/

4.2.18

Bukowski escreveu ao editor:

«Tenho duas hipóteses — ficar nos Correios e enlouquecer… ou ficar aqui a brincar aos escritores e morrer de fome. Decidi morrer de fome.» 

/a arte subtil de saber dizer que se f*da, Mark Manson/

31.1.18

28.1.18

Fado

Alberto, meu primo, bateu na porta. Abri. Ele estava branco e disse: aconteceu uma coisa horrível, ligaram lá pra casa. Eu sentei. Ele explicou: o carro capotou. Um vapor tomou meu peito e logo em seguida um gelo absurdo pareceu-me pausar os batimentos. Fiquei um pouco surdo. Olhei fundo para seus olhos afogueados. Ele só balançou a cabeça e disse: ninguém. Num acesso, arranquei o telefone com fio e tudo. Depois coloquei no lugar. Ele tentou me segurar e eu fiz sinal de silêncio. Corri para o quarto e desliguei o celular. Tudo era câmera lenta, pesadelo com serpentes. Alberto perguntou onde estava a mãe. Eu disse que no jardim dos fundos tratando as flores. Ele perguntou se eu queria que chamasse o padre. Eu disse que não. Que ficasse feito um pastor alemão na porta e não deixasse ninguém entrar. Ninguém. Eu me incumbiria de dar a notícia. Empurrei-o para o portão da frente. Tranquei as portas e janelas. E fui para os fundos da casa. Lá estava ela. Cabelos algodão. Sorrindo para os pés de brincos de princesa e retirando as ervas daninhas com suas mãos delicadas. Numa paz sem-par.

A mãe que perde um filho, se não for firme, perde também a razão.

Fiquei do basculante tremendo e com medo que ela olhasse pra mim. Ela falava sozinha. Talvez conversasse com as plantas. Sorria continuamente.

Uma senhora quando perde a nora amada, se não for sensata, perde também o rumo da pouca vida que lhe resta.

O dia era de julho e o sol morno a fez tirar o chapéu de palha e jogá-lo ao seu lado. Ela olhou para o astro. E sorriu. Ficou assim por uns cinco minutos. E eu tinha que ser o terrível mensageiro; eu de nome angelical. Entrar naquele ato e destruir o final feliz. Dei dois passos em direção à porta dos fundos e me urinei todo. Meu corpo entrara em colapso.

Uma avó que perde três netos, possivelmente perde a fé em qualquer santo, em qualquer deus.

Ela estava sentada no chão feito criança que brinca no barro. Sequei o assoalho. Corri até o quarto e troquei a bermuda. Minha carne tremia descontroladamente. Alberto socou a porta. Mandei que parasse. Ele disse que os vizinhos queriam saber de coisas. Exigi que dissesse a eles que eu precisava de mais um tempo. Que se calassem também.

Uma morte é um despropósito. Cinco, uma aberração.

Ela estava radiante de feliz. E eu faria qualquer coisa para que aquele sorriso durasse mais um, quinze, trinta minutos que fossem. Que fossem os últimos trinta minutos de felicidade de sua vida. Nunca mais eu teria a oportunidade de vê-la assim: serena. Tratando de seu jardim. Ela mirou a porta da cozinha e subitamente desfez o sorriso. Ficou olhando-me tensa com uma interrogação de: ‘tudo bem? Apesar desta tua cara de espanto e horror…’. Desci as escadas lentamente. Cada minuto a mais de uma dor só minha era uma eternidade de alegria no pouco tempo que lhe restava. E ela se levantou, limpou as mãos barrentas no avental. Pegou o grande chapéu de palha e saiu me puxando para o orquidário. Sentou-se. Segurou minha mão e pediu que eu me sentasse também. Perguntou-me o que me afligia. Disse que nada grave. Então ela me pediu para ajudar a retirar as folhas secas e alguns fungos de suas mil orquídeas. Assim o fiz. Alguém arranjaria um jeito de arrombar a porta. De vir gritando. De pular o muro. De chamar um chaveiro.

E eu a todo momento engolindo o horror. Mas o tempo de paz, este eu esticaria e daria a ela ainda que custasse uma eternidade para meus olhos que ansiavam virar mar.


Fado, Angelo Pessoa

3.1.18

nude


Hugues Erre

16.12.17

un gran 1958 para ti y los tuyos

La relación entre Borges y Petit ha sido larga y discutida. En cierta oportunidad, este último muy enfermo y consecuentemente abatido, Borges lo tomó de las solapas y mientras lo zamarreaba le decía: “Quién sos vos para no discutirme”. A fines de 1957, Petit se entera de que Borges ha muerto en París. La noticia fue difundida por Le Figaro y reproducida por Time, en los Estados Unidos. Pese a la seriedad profesional de su fuente de información, Petit rechaza la veracidad de la noticia y sin titubeos escribe a su amigo.

“Fui de México a Nueva York y allí –mi muy querido Georgie– me enteré, por un telegrama proveniente de Francia que publicó Time, de tu muerte. Como sé lo exagerada que es la gente, no lo creí; de lo contrario, no te hubiera escrito, porque no mantengo, por lo general, correspondencia con los ectoplasmas. Lo hago en primer término para desearte lo mejor del mundo para ti y a Leonorcita en el año que se aproxima, y en segundo término para que unas líneas tuyas me ratifiquen la seguridad de tu permanencia en forma rotunda. Un abrazo de Ulyses Petit de Murat, México, 1957”.

Días después, con alivio recibe esta esquela:

“Querido Ulyses: Aquí estoy vivito y coleando a pesar de Le Figaro. La noticia no era falsa, sino (como siempre ocurre en tales casos) prematura y profética. Mientras tanto mis mejores deseos y los de madre por un gran 1958 para ti y los tuyos. Un abrazo de Jorge Luis Borges.”


8.12.17

para este inverno, quero Felix Salten

-- A quem pertence este caminho, mamã?
A mãe respondeu:
-- Pertence-nos a nós.
-- A ti e a mim?
-- Sim.
-- Só a nós dois?
-- Não -- disse a mãe --, a nós, corças.
-- Corças, o que é isso? -- perguntou Bambi, que se pôs a rir.


/Bambi - Uma Vida nos Bosques, de Felix Salten/

--
a culpa deste desejo nasceu aqui

18.11.17

«Três viagens numa só, o real mas já passado, o imaginário mas presente na palavra, e aquilo que outro indivíduo fará no futuro ao seguir os traços do passado e à base de conselhos do presente,»

«A memória tece-nos e apanha-nos simultaneamente através de um esquema no qual não se participa de forma lúcida; nunca deveríamos falar da nossa memória porque se existe algo que a distingue, esse algo é o facto de ela não ser nossa; trabalha por sua conta, ajuda-nos ao enganar-nos ou quiçá nos engane para nos ajudar; seja como for, de Atenas viaja-se até ao Cabo Súnion num autocarro desengonçado, e isso foi-me explicado em Paris pelo meu amigo Carlos Courau, cronópio infatigável se é que eles existem. 
Explicou-mo à mistura com outros itinerários gregos, cedendo ao prazer de qualquer viajante que, ao contar o seu périplo, o refaz (é por isso que Penélope esperará eternamente) e ao mesmo tempo saboreia uma viagem de substituição, a mesma que esse amigo ao qual lhe está agora a explicar como se vai de Atenas a Cabo Súnion fará. Três viagens numa só, o real mas já passado, o imaginário mas presente na palavra, e aquilo que outro indivíduo fará no futuro ao seguir os traços do passado e à base de conselhos do presente, isto é, que o autocarro saía de uma praça ateniense por volta das dez das manhã e convinha chegar algum tempo antes porque a carripana se enchia rapidamente de passageiros locais e de turistas. 
Já nessa noite, nesse inventário de andanças e de monumentos, a aranha fez uma escolha estranha, porque ao fim e ao cabo, que demónios, o relato que Carlos me tinha feito da sua chegada a Delfos, ou a viagem por mar até às Cíclades, ou a praia de Mikonos ao entardecer, qualquer um dos cem episódios que abarcam Olímpia e Mistra, a visão do canal de Corinto e a hospitalidade dos pastores, tudo era mais interessante e incitador do que o modesto conselho de chegar algum tempo antes a uma praça poeirenta para apanhar um autocarro sem correr o risco de não encontrar um assento livre por entre cestas de galinhas e marines de queixadas paleolíticas. 
A aranha ouviu tudo, e a partir dessa sequência de imagens, perfumes e plintos fixou para sempre a visão imaginária que eu me fazia de uma praça à qual era preciso chegar cedo, de um autocarro à espera por baixo das árvores.»


/A Volta ao Dia em 80 Mundos, Julio Cortázar/

5.10.17

amo-te, Boris Vian!

«Estas onze formigas - o número fetiche de Boris Vian - são contos onde a farsa surge do drama, a raiva se junta ao que é pungente e o humor mantém as emoções à distância. (...)»

in contracapa de As Formigas, Boris Vian, Relógio D'Água



XV
Continuo de pé em cima da mina.Tínhamos partido esta manhã em patrulha e eu ia em último como de costume, todos passaram ao lado, mas eu senti o clique debaixo do pé e parei logo. Elas só rebentam quando se tira o pé. Atirei para os outros o que trazia nos bolsos e disse-lhes para se irem embora. Estou sozinho. Devia esperar que eles voltem, mas disse-lhes que não voltassem. Podia tentar atirar-me de barriga para o chão, mas teria horror a viver sem pernas. Fiquei apenas com o meu bloco e o lápis. Vou atirá-los para longe antes de mudar o peso para a outra perna, é que tenho mesmo que o fazer porque estou farto da guerra e estou a sentir um formigueiro.

As Formigas, Boris Vian, Relógio D'Água

4.9.17

Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera,

...y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano por tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua.


/Rayuela, cap. 7/

27.8.17

Mar de Ninguém

No mar de ninguém
o navio fantasma e a sua hélice de sangue
à distância de um tiro
onde é a entrada abrupta dando para o torso adolescente
o de sempre quando é preciso procurar uma passagem
entre fios esticados de garganta a garganta
e um tambor estilhaçado à altura do peito

/António José Forte - Uma Faca Nos Dentes/

3.8.17

O Espelho
















 (1975, dir. Andrei Tarkovsky)


6.7.17

recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer -- vai por esse campo
de crateras extintas -- vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo -- deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração -- ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna -- o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira -- não esqueças o ouro
o marfim -- os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


/al berto, horto de incêndio/

5.7.17

- Queres ver o que inventei, Avô?

- Não achas que podem ficar tristes, esses pirilampos dentro de uma gaiola que fica dentro do teu quintal?
- Se estivessem tristes, acho que não brilhavam assim.
- E se estiverem a brilhar de tristeza? - perguntou o Avô.
- Não tinha pensado nisso.


/O Convidador de Pirilampos, Ondjaki e António Jorge Gonçalves/

24.6.17

How to Deal with the Police | Parents Explain





The burkini debate: Is female nudity empowering?


"The difference between the burkini and the bikini is that the burkini is not a choice. It is a mandatory thing, dictated by societal pressure," said one Farsi reader.
"We cannot stand for freedom and be selective about it - either you support her choice to say whatever she wants or you don't," wrote a reader of our English pages.

22.6.17

Onde se conta o que sucedeu a D. Quixote quando ia ver a sua senhora Dulcineia do Toboso


Onde se conta o que nele se verá


Era meia noite em ponto, pouco mais ou menos, quando D. Quixote e Sancho deixaram o monte e entraram em Toboso. Estava a aldeia num sossegado silêncio, porque todos os seus habitantes dormiam e repousavam à perna solta, como costuma dizer-se. Na noite havia uma frouxa claridade, embora Sancho preferisse que fosse completamente escura, para achar na escuridão desculpa para a sua patetice. 

Não se ouvia em toda a povoação senão ladridos de cães, que atroavam os ouvidos de D. Quixote e perturbavam o coração de Sancho. De vez em quando um jumento zurrava, grunhiam porcos, miavam gatos, cujas vozes, de sons diferentes, aumentavam com o silêncio da noite, o que o enamorado cavaleiro considerava um mau agoiro; mas, apesar de tudo isto, disse a Sancho:

— Sancho, filho, dirige-te para o palácio de Dulcineia; talvez ainda achemos acordada.

— Para que palácio tenho de seguir, diabo do raio — respondeu Sancho —, que naquele onde a vi a sua grandeza não era mais que a de uma casa muito pequena?

— Devia então estar retirada — respondeu D. Quixote — em algum pequeno aposento do se alcácer, a espairecer com as suas donzelas, como é uso e costume das altas senhoras e princesas.

— Senhor — disse Sancho —, já que vossa mercê quer, contra minha vontade, que seja alcácer a casa da minha senhora Dulcineia — esta é porventura a hora de achar a porta aberta? E será conveniente que demos aldrabas para que nos ouçam e venham abrir a porta, pondo em alvoroço e barulho toda a gente? Vamos acaso nater à porta das nossas concubinas, como fazem os amancebados, que chegam, e chamam e entram a qualquer hora, por tarde que seja?

— Achemos primeiro o alcácer — replicou D. Quixote —; que então te direi o que será conveniente que façamos. E repara, Sancho, que eu vejo mal, ou aquele volume enorme e sombra que daqui se descobre deve ser do palácio de Dulcineia.

— Pois vá vossa mercê adiante — respondeu Sancho —; talvez seja isso que diz; ainda que eu o veja com os olhos e o toque com as mãos, hei-de acreditar tanto nisso como acredito que agora é de dia.

D. Quixote foi à frente e, tendo andado uns duzentos passos deu com o vulto que fazia sombra e viu uma grande torre, e depois reconheceu que o tal edifício não era um alcácer mas a igreja principal da povoação. E disse:

— Encontramos a igreja, Sancho.

— Já vejo — respondeu Sancho. — E praza a Deus que não achemos a nossa sepultura, que não é bom indício andar pelos cemitérios a uma hora destas, e mais tendo eu dito a vossa mercê, se não me lembro mal, que a casa desta senhora há-de ficar num beco sem saída.

— Maldito sejas por Deus, mentecapto! — disse D. Quixote. — Onde achaste que os alcáceres e palácios reais estejam edificados em becos sem saida?

— Senhor — respondeu Sancho —, cada terra tem seu uso; talvez se use aqui no Toboso edificar em becos os palácios e os grandes edifícios; e assim suplico a vossa mercê que me deixe buscar por estas ruas ou becos que se me oferecem: poderia ser que nalgum canto topasse com esse alcácer, que o veja eu comido pelos cães, que assim nos obriga a correr e procurar por caminhos e carreiros.

— Fala com respeito, Sancho, das coisas da minha senhora — disse D. Quixote —, gozemos a nossa festa em paz, e não atiremos a corda atrás do caldeiro.

— Eu conter-me-ei — respondeu Sancho —; mas — com que paciência poderei aguentar que vossa mercê queira que com uma única vez que vi a casa da nossa senhora a tenha de saber sempre e achá-la à meia-noite, não a achando vossa mercê, que deve tê-la visto milhares de vezes?

— Tu fazes-me irritar, Sancho — disse. — Vem cá, herege. Não te disse mil vezes que em todos os dias da minha vida nunca vi a sem par Dulcineia, nem ultrapassei jamais os umbrais do seu palácio, e que estou enamorado só por ter ouvido falar dela e pela grande fama que tem de formos e fina?

— Agora ouço-o — respondeu Sancho —; e digo que vossa mercê nunca a viu, nem eu tão-pouco.

— Isso não pode ser — replicou D. Quixote —; que, pelo menos, já me disseste que a viste crivar trigo, quando me trouxeste a resposta da carta que lhe enviei por tua mão.

— Não faça caso disso, senhor — respondeu Sancho —; porque lhe faço saber que também foi por ouvir falar dela a imagem e a resposta que lhe trouxe; porque sei tanto quem é a senhora Dulcineia como dar um soco no céu.

— Sancho, Sancho — respondeu D. Quixote —, há ocasiões que são boas para brincar e ocasiões onde caem e parecem mal as brincadeiras. Não porque eu diga que nunca vi nem falei à senhora da minha alma hás-de tu dizer também que nunca lhe falaste nem a viste, sendo tão o contrário disso, como sabes.


/O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, Miguel Cervantes, Relógio D'Água, p. 524 - p. 528/


16.6.17

al berto, poeta dos espelhos

«Um corpo que nunca parou de se encenar, de re(a)presentar, porque nunca parou de sofrer por essa impossibilidade de sair de si mesmo, com a escrita a querer fazer-se ex-crita. No limiar, parece ser essa a grande utopia de Al Berto: transformar o corpo em palavras, transformar a carne em linguagem, para assim se libertar da solidão ontológica, que é sempre a marca da nossa fragilidade e a omnipresença de um perigo.»


/Joana Emídio Marques, num belíssimo artigo aqui/