22.10.18

O Prémio

Sentia-se cansado como se tivesse um milhão de anos e o peso da cabeça, que parecia oca, incomodava-o. Todos os seus nervos dormentes exigiam descanso. Esticou os braços por cima da mesa, posou neles a testa e tentou alhear-se dos acontecimentos que estavam a desenrolar-se. Mas o seu cérebro fatigado recusava-se a adormecer. E ia pensando: «O que eu desejava era morrer devagar, em paz, sem dar nas vistas, como uma velha planta no escuro. Por que demónio se teriam aqueles malditos suecos lembrado de me pôr em evidência e de me humilhar, forçando-me a morrer em público? Agora sou imortal, nos livros oficiais, mas continuo a ser tão dolorosamente mortal como quando acordei esta manhã.» E recordou-se da observação sardónica de Bernard Shaw quando recebera o Prémio Nobel, aos sessenta e nove anos: «Este dinheiro é um cinto de salvação que se atira a um nadador depois de ele já ter chegado à praia.» E cogitava: «No meu caso, eu diria... um cinto de salvação que se atira a um afogado.» Depois não pensou em mais nada.


/O Prémio, Irving Wallace/