19.9.15

Gonçalo e Alexandra

(...)

-- Nunca te passou pela cabeça que eu, um dia, te enganasse?

Quantas vezes terei de ouvir isto durante a vida? As mulheres serão todas iguais? Nós, os homens, temos o nosso trabalho, a nossa vida, o nosso mundo. Para nós, o amor é uma de muitas coisas, como o trabalho, a política, o clube. As mulheres não fazem nada, e para elas o amor é tudo. Tudo o que têm. Atribuem-lhe um valor exagerado. Odeiam o nosso trabalho e tudo o que nos afasta delas. Ameaçam de nos retirar o amor... de nos enganar. Não percebem que sem o amor delas continuaríamos a nossa vida... Nada seria alterado. Julgam que o amor tem para nós a importância que tem para elas... 

Alexandra, sem tirar os olhos de Gonçalo, insistiu:
-- Diz lá, Gonçalo, já alguma vez admitiste a hipótese de eu, um dia, te enganar?

As regras do jogo ordenam que eu responda que não, que nunca admiti a hipótese de ela me enganar. As regras do jogo ordenam que eu fale agora na confiança que tenho nela. A Alexandra é uma pega e por isso o amor não está em causa. O que se discute é a aparência do amor. É um jogo pequeno dentro dum jogo grande. Nestas circunstancias as regras do jogo são inalteráveis: «há que tratar a aparência do amor como se de amor se tratasse».

-- Que farias tu se eu te enganasse, Gonçalo?

As mulheres raras vezes percebem que os homens que se entregam inteiramente ao amor, que fazem do amor e da mulher a sua vida, são precisamente aqueles que nada têm para dar, que nem têm vida nenhuma. É por isso que as paixões poéticas duram pouco. Os grandes amorosos são homens de segunda ordem, e ao fim de certo tempo as mulheres começam a compreender que fizeram um mau negócio.

-- Nunca pensei nisso.

(...)


Angústia para o jantar, Luis de Sttau Monteiro, p. 144, 145, 146