21.8.19

17.8.19

"um não-romance"

A Morte de Assafora

Prólogo

__________ prendeu a cabra a um castanheiro que se via da janela
mas estava longe; a cabra não deixava de se ouvir e, mesmo depois
do pôr do sol, balia; disse que ia cortar-lhe o som, e dirigiu-se
para ela com a mão direita e uma faca; o pêlo agitou-se sem balir, e
ficou a sangrar; mais nenhum ruído atravessou o nosso sossego,
mas uma segunda língua, com parte no céu-da-boca, principiou a
nascer-lhe, e foi ela a voz.

O lugar da intersecção da língua arrancada com a outra língua
transparente é herança da rapariga que temia a impostura da língua.
Por isso, eu tenho de encontrá-la, e trazê-la para fora da sua nostal-
gia infinita. E não só. Da intersecção das duas línguas — a que se
ouvia balindo, e a que nasceu do sangue — voou o Falcão, ou
Aossê* feito ave.


|Um beijo dado mais tarde, Maria Gabriela Llansol| 


*Fernando Pessoa Llansoliano



De Maria Gabriela disse Eduardo Lourenço que seria "o próximo grande mito literário a seguir a Fernando Pessoa". Infelizmente, não acredito, a sua leitura exige tempo e espaço, ambos escassos, no momento actual e, vaticino, no futuro que se avizinha.

15.8.19

7.8.19

culto

The cult of youth is, at heart, a very sad one. It implies that the peak of life is reached early and thenceforward it is downhill all the way.

Theodore Dalrymple, in The Oldie

Tu Vuo' Fa' L'Americano




home [A Nossa Casa é Onde Está o Coração]






30.7.19

Uma Fábula


Não deixo nem testamento
nem memória do que vi
as vozes que me habitaram
os corpos que me queimaram
não sei que sorte tomaram
nem que levaram de mim
É certo, julgamos sempre
olhar de frente o futuro
mas o que vemos é só
um braço de rio parado
muro de gruta pintado
a fazer vez de presente

António Franco Alexandre

23.7.19

ninguém

[...]
Sempre soube que nunca me conheci
pois também nunca pude conhecer o mundo.
Tive de inventar-me quem era para, de vez em quando,
me julgar em posse de um pouco de realidade.
[...]
Tenho os meus próprios paraísos químicos aqui junto da lareira,
os meus dias e as minhas noites dedico-os a regressar a uma qualquer longínqua província
do silêncio onde possa encontrar dentro da minha loucura
um pouco de serenidade.
[...]

Diego Doncel
poesia vim buscar te

9.7.19

God's Own Country





Blue Lights




Época de Migração para Norte







Época de Migração para Norte, Tayeb Salih

21.6.19

A Date in 2025

Sci-Fi Short Film "A Date in 2025" | Presented by DUST


:)

15.6.19

HOPE



                    Hopemagnolia leaf, cotton thread 42 H x 31.5 W cm (framed) 2019

13.6.19

I felt an urgent need to get this story out but I wanted to do it in a way that would be gentle and not hurtful.


uma taça de chá, diz Setsuko Sato, porque the philosophy of tea is all about celebrating humanity. A tea bowl fits in the palm of your hand. It is human in scale. It is an attempt to find beauty in the everyday. A hand-pinched tea bowl may not be perfect, but it has soul. No two are the same and yet they share a common purpose. It seemed a natural way to bring together, art, history and a personal journey to tell a story about the human condition.



daqui (+ entrevista)






|curiosidade: Setsuko é casada com Simon Winchester, autor do livro «O Professor e o Louco», que recentemente foi adaptado para o cinema.|

11.5.19

o teu amor


Your love
Is all gone, away

4.5.19

Uma ilha selvagem no sul do Alasca...

O mundo no princípio era um campo enorme, e a Terra era plana. E todos os animais erravam pelo campo e não tinham nomes, e os que eram maiores comiam os mais pequenos, e ninguém se sentia mal com isso. Depois apareceu o homem nos confins do mundo, encurvado, peludo, estúpido e fraco, e multiplicou-se e tornou-se tão numeroso e retorcido e sanguinário com a inactividade que os confins do mundo começaram a deformar-se. Os confins dobraram-se e recurvaram-se lentamente, homens, mulheres e crianças esbracejando uns por cima dos outros para se manterem em cima do mundo e agarrando-se aos pêlos das costas uns dos outros ao treparem até ficarem todos pelados e nus e enregelados e sanguinários e suspensos dos confins do mundo.
O pai fez uma pausa, e Roy disse: E depois?

David Vann, A Ilha de Sukkwan

24.4.19

Revelação

Hoje só fotografei árvores,

Dez, cem, mil.

Vou revelá-las à noite.

Quando a alma for câmara escura.

Depois vou classificá-las:

Segundo as folhas, os anéis dos troncos,

Segundo as suas sombras.

Ah, como as árvores

Entram facilmente umas nas outras!

Vejam, agora só me resta uma.

É esta que vou fotografar outra vez

E vou observar com assombro

Que se parece comigo.

Ontem só fotografei pedras.

E a pedra afinal

Parecia-se comigo.

Anteontem - cadeiras -

E a que resultou

Parecia-se comigo.



Todas as coisas se parecem terrivelmente

Comigo...



Tenho medo.



Marin Sorescu
roubado da casa dos poetas

ligações

«é no movimento incessante de quem viaja que encontrarás a imobilidade que desejas.»

  al berto


«Há uma frase de Toynbee que me toca: "Os nómadas são aqueles que não se movem, tornam-se nómadas porque recusam partir."»

Gilles Deleuze
(daqui: sound+vision)

19.4.19

«Lembre-se de que tem outra filha com que se ocupar»



Javier Marías, Berta Isla

Berta Isla



Javier Marías, Berta Isla

17.4.19

Embargo

Meio depósito. Se encontrasse um posto de abastecimento a funcionar, aproveitaria. Pelo seguro, com todas as voltas que tinha de dar nesse dia antes de ir para o escritório, melhor de mais que de menos. Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, em filas de dezenas e dezenas de carros. Diz-se que a indústria irá sofrer as consequências. Meio depósito. Outros andam a esta hora com muito menos, mas se for possível atestar. O carro fez uma curva balançada, e, no mesmo movimento, lançou-se numa subida íngreme sem esforço. Ali perto havia uma bomba pouco conhecida, talvez tivesse sorte. Como um perdigueiro que acode ao cheiro, o carro insinuou-se por entre o trânsito, voltou duas esquinas e foi ocupar lugar na fila que esperava. Boa lembrança.

José Saramago
(clicar para ler conto completo)


13.4.19

desinfecção de escolas*



roubado descaradamente ao Capitão Napalm

*

28.3.19

Are you Uncle Vanya?

PRIMEIRO ACTO 

Jardim. Está à vista uma parte da casa com terraço. Na alameda, debaixo do álamo velho, está posta a mesa para o chá. Bancos, cadeiras; num dos bancos, está a guitarra. Perto da mesa há um baloiço. — Passa das duas, o céu está carregado. 

........................................ 

Marina (velha gorda, de poucos movimentos, está sentada ao lado do samovar, a tricotar uma meia) e Ástrov (passeia ao lado). 


MARINA (enche um copo) — Toma, paizinho. 

ÁSTROV (aceita o copo com pouca vontade) — Não me apetece. 

MARINA — Talvez queiras um copinho de vodca? 

ÁSTROV — Não. Nem todos os dias bebo vodca. Além disso, está abafado.

   Pausa. 

Mãe Marina, há quanto tempo nos conhecemos? 

MARINA (reflectindo) — Há quanto? Deixa cá ver... Chegaste aqui, a esta terra... quando?... Ainda    era viva a Vera Petrovna, a mãe da Sónia. Com ela viva, ainda cá vieste ver-nos durante dois  invernos... Pois bem, devem ter passado então onze anos, ou coisa assim. (Pensa um pouco.) Ou  mais... 

ÁSTROV — Mudei muito desde então? 

MARINA — Muito. Naquela altura eras um rapaz novo e bonito, agora envelheceste. Já não és aquele rapaz bonito. Já se sabe: bebes vodca, é também por isso. 

ÁSTROV — Pois... Em dez anos tornei-me outra pessoa. Mas porquê? Trabalho demais, mãe Marina. Estou a pé de manhã à noite, não tenho sossego, e à noite, quando me meto debaixo dos cobertores, tenho medo que me obriguem a ir ver um doente. Desde que me conheces, este tempo todo, ainda não tive um único dia de folga. Então, envelheci... pudera não! E a vida, também, é um tédio, uma estupidez, é cá uma porcaria de vida... Atola-nos. À nossa volta é só gente esquisita, todos, sem excepção; vivemos ao pé deles dois ou três anos e, sem darmos por isso, ficamos também uns esquisitões. É fatal como o destino. (Retorce os bigodes compridos.) Olha só que bigode  enorme... Bigode estúpido. Tornei-me um esquisitão, mãe Marina... Aparvalhar não me aparvalhei, Deus é misericordioso, ainda tenho a cabeça no lugar, mas os sentimentos é como se ficassem embotados. Não quero nada, não preciso de nada, não gosto de ninguém... Talvez só de ti.  (Beija-a na cabeça.) Na infância tinha uma ama como tu. 

MARINA — Se calhar estás com fome? 

ÁSTROV — Não. Na terceira semana da Quaresma fui a Malítskoe, uma epidemia... Tifo  exantemático... As isbás a abarrotar de doentes. Imundície, um fedor, aquela fumarada, os vitelos pelo chão misturados com os doentes... Recos... Passei lá o dia todo a trabalhar, sem comer, sem uma  pausa, depois voltei para casa, e olha, também não me deixaram descansar: trouxeram o  agulheiro do caminho de ferro; ponho-o em cima da mesa para lhe fazer a operação, morre-me nas  mãos de repente, na anestesia. Pois, e foi nesse momento, o mais inoportuno, que os meus sentimentos despertaram, fiquei com remorsos, como se o tivesse matado eu, de propósito... Sentei- me, fechei os olhos... assim... e pus-me a pensar: quem viver daqui a cem ou duzentos anos, aqueles  para quem nós agora estamos a abrir o caminho, será que eles se vão lembrar de nós com palavras de  carinho? Não, mãe Marina, não se vão lembrar de nós! 

MARINA — Se as pessoas não se lembram, lembra-se Deus. 

ÁSTROV — Obrigado. Disseste bem.



/O Tio Vânia, Anton Tchéckhov/


A Mula, Clint e eu









ao contrário do último filme de Robert Redford [The old man & The gun], que, de tão focado na homenagem, parece perdido na narrativa, de certa forma, condescendente, The Mule é o verdadeiro filme tributo. Clint é fabuloso.

da crítica, em tudo havia beleza




dos pais, existência.


Em tudo havia beleza, Manuel Vilas

23.3.19

da dor, intrínseca.

Em tudo havia beleza, Manuel Vilas

22.3.19

da morte, certa.


Em tudo havia beleza, Manuel Vilas

do amor, construção, ilusão, encantamento, fé. da vida, curta.



Estou a falar desses seres, dos fantasmas, dos mortos, dos meus pais mortos, do amor que senti por eles, desse amor que não se vai embora.
Ninguém sabe o que é o amor.

Em tudo havia beleza, Manuel Vilas

Moçambique de Mia, que se chama Mia porque achava que era um gato.*

Chamo-me Imani. Este nome que me deram não é um nome. Na minha língua materna «Imani» quer dizer «quem é?». Bate-se a uma porta e, do outro lado, alguém indaga:
- Imani?
Pois foi essa indagação que me deram como identidade. Como se eu fosse uma sombra sem corpo, a eterna espera de uma resposta.
Diz-se em Nkokolani, a nossa terra, que o nome do recém-nascido vem de um sussurro que se escuta antes de nascer. Na barriga da mãe, não se tece apenas um outro corpo. Fabrica-se a alma, o moya.

Mulheres de Cinza, Mia Couto


*Mia à conversa com Anabela Mota Ribeiro




|ajudar Moçambique é urgente.|

21.3.19

De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma [Fernando Pessoa]

E se o corpo não for a alma, o que será a alma?

Walt Whitman

19.3.19

...

narrar é um sistema de escolhas para lidar com determinado acontecimento, tema ou memória

sound + vision

18.3.19

Viaje al centro de la Tierra

En el fondo del hombre más apacible duermen los asesinos ojo
alerta.
En el fondo reposa una tumba de hierba nunca hollada,
occidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos del humo que brota de la tierra, tus ojos
dibujantes maestros de la palabra.
En el fondo del hombre, en sus costas lejanas, duermevela
intranquilo el estratega
un plan para albergar los escondidos.
En el fondo del hombre una entrada señala el inicio descenso caída
vuelo al centro
de la tierra.


|José Miguel Gómez Acosta|

16.3.19

«Sanur, o mistério»

A religião é o tema mais delicado do mundo. Não que Deus seja uma entidade vulnerável mas não há nada mais sensível que um homem religioso.

Mami Pereira, ECO

15.3.19

Um pássaro riscou o céu cinza

«Depois reflecti que todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora. Séculos de séculos e apenas no presente ocorrem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e mar, e tudo o que realmente sucede, sucede a mim...»

Jorge Luis Borges, Ficções

14.1.19

Arte de cerrar una ventana

Cerrar una ventana sin
apretarse los dedos es
un arte

Cerrar una ventana y
no morir de asfixia
un prodigio

Cerrar una ventana y
no morir de pena
una proeza

pero cerrar esta ventana
con los dedos atrapados
sin huir por la puerta de salida o
de entrada y
decir adiós tras el cristal
con la mano ensangrentada
me conmueve hasta las lágrimas

/María Inés Zaldívar/

5.1.19

28.12.18

Vinte Mil Léguas Submarinas


 Mil oitocentos e sessenta e seis foi um ano marcado por um acontecimento estranho, um fenómeno inexplicado e inexplicável, de que ainda ninguém certamente se esqueceu. Sem falar dos rumores que agitavam as populações dos portos e alvoroçavam os espíritos no interior dos continentes, a gente do mar andava particularmente emocionada. Negociantes, armadores, capitães de navios, skippers e masters, tanto da Europa como da América, oficiais das marinhas de guerra de todos os países e, por fim, governantes dos dois continentes inquietavam‑se com o fenómeno.
Com efeito, havia já algum tempo que vários navios tinham avistado no alto‑mar “uma coisa enorme”, um objecto comprido, fusiforme, por vezes rodeado por uma espécie de fosforescência, muito mais corpulento e rápido do que uma baleia.


/Vinte Mil Léguas Submarinas, Jules Verne |ed. Relógio D'Água/

27.12.18

25.12.18

24.12.18

O Tchekista (a "minha" segunda história de natal para este ano)

Mas uma qualquer força o atraía na direcção dos cinco homens nus, e virou para eles a cara e os olhos. O lume no cachimbo estremeceu. Um choque doloroso atingiu-lhe os ouvidos. As peças de carne branca e crua abateram-se  no chão. Os tchekistas, com os revólveres fumegantes, afastaram-se logo para trás e fizeram estalar os cães das armas. As pernas dos fuzilados agitavam-se convulsivamente. O gordo, com um guincho sonoro, respirou pela última vez. Srúbov pensou: «A alma existirá ou não? Será talvez a alma que sai assim com um guincho?»


/Vladimír Zazúbrin, O Tchekista/


23.12.18

O Tchekista (a "minha" segunda história de natal para este ano)

Srúbov sentia com toda a clareza, dolorosamente, a situação desesperada dos condenados. Achava que a medida máxima da violência não era o fuzilamento, mas aquela maneira de os obrigar a despirem-se. Sem roupa interior, sobre o chão de terra nua. Nus entre pessoas vestidas. Humilhação extrema. O peso da esperada morte era agravado pelo corriqueiro da situação.  

/Vladimír Zazúbrin, O Tchekista/

20.12.18

Um artista da fome (a "minha" história de natal para este ano)

O interesse por artistas da fome diminuiu muito nas últimas décadas. Se antigamente a organização por conta própria deste tipo de espetáculos trazia o seu lucro, hoje em dia isso seria absolutamente impossível. Os tempos eram outros. Na altura toda a cidade seguia o artista da fome; a cada dia do seu jejum aumentava a afluência; todos queriam ver o artista da fome ao menos uma vez por dia; nos últimos dias inscreviam-se pessoas para poderem ficar sentadas o dia inteiro em frente à pequena jaula; até durante a noite, à luz de archotes que intensificavam o efeito, apareciam visitantes; em dias de sol trazia-se a jaula para o exterior para que o artista da fome fosse mostrado às crianças; se para os adultos o espetáculo não passava de um divertimento no qual participavam porque estava na moda, as crianças, por seu lado, estarrecidas, as bocas abertas, segurando as mãos umas das outras para se sentirem mais seguras, observavam a palidez do artista da fome, o maiô preto dentro do qual sobressaíam poderosas as suas costelas, observavam-no sentado na palha, visto que rejeitava qualquer cadeira, a acenar de tempos a tempos por cortesia, viam-no responder a perguntas com um sorriso forçado, a esticar o braço para que lhe pudessem sentir a magreza, mas logo se afundando em si próprio, porque todos lhe eram indiferentes, até mesmo o bater, para ele tão importante, do relógio, única mobília da jaula, limitava-se a olhar em frente, de olhos quase fechados e a bebericar aqui e ali de um minúsculo copito de água para humedecer os lábios.

[cont.]


/Franz Kafka, Um Artista da Fome e outros textos/

13.12.18

Nome de Guerra

A Vaca Amarela, Franz Marc


Das duas uma: ou as pessoas se fazem ao nome que lhes deram no baptismo, ou ele tem de seu o bastante para marcar a cada um. Será imprudente deduzir o nome próprio através de fisionomias ou dos caracteres; no entanto, uma vez conhecido o nome próprio de uma pessoa, ficamos logo convencidos de que este lhe assenta muito bem. Jules Renard tirou um esplêndido retrato da vaca em tamanho natural: «On l'appelle la vache et c'est le nom qui lui va le mieux.». Como vedes, este corpo-inteiro está extraordinariamente parecido, é vaca por todos os lados.