E se o corpo não for a alma, o que será a alma?
Walt Whitman
21.3.19
19.3.19
...
narrar é um sistema de escolhas para lidar com determinado acontecimento, tema ou memória
sound + vision
sound + vision
18.3.19
Viaje al centro de la Tierra
En el fondo del hombre más apacible duermen los asesinos ojo
alerta.
En el fondo reposa una tumba de hierba nunca hollada,
occidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos del humo que brota de la tierra, tus ojos
dibujantes maestros de la palabra.
En el fondo del hombre, en sus costas lejanas, duermevela
intranquilo el estratega
un plan para albergar los escondidos.
En el fondo del hombre una entrada señala el inicio descenso caída
vuelo al centro
de la tierra.
|José Miguel Gómez Acosta|
alerta.
En el fondo reposa una tumba de hierba nunca hollada,
occidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos del humo que brota de la tierra, tus ojos
dibujantes maestros de la palabra.
En el fondo del hombre, en sus costas lejanas, duermevela
intranquilo el estratega
un plan para albergar los escondidos.
En el fondo del hombre una entrada señala el inicio descenso caída
vuelo al centro
de la tierra.
|José Miguel Gómez Acosta|
16.3.19
«Sanur, o mistério»
A religião é o tema mais delicado do mundo. Não que Deus seja uma entidade vulnerável mas não há nada mais sensível que um homem religioso.
Mami Pereira, ECO
15.3.19
Um pássaro riscou o céu cinza
«Depois reflecti que todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora. Séculos de séculos e apenas no presente ocorrem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e mar, e tudo o que realmente sucede, sucede a mim...»
Jorge Luis Borges, Ficções
14.1.19
Arte de cerrar una ventana
Cerrar una ventana sin
apretarse los dedos es
un arte
Cerrar una ventana y
no morir de asfixia
un prodigio
Cerrar una ventana y
no morir de pena
una proeza
pero cerrar esta ventana
con los dedos atrapados
sin huir por la puerta de salida o
de entrada y
decir adiós tras el cristal
con la mano ensangrentada
me conmueve hasta las lágrimas
/María Inés Zaldívar/
apretarse los dedos es
un arte
Cerrar una ventana y
no morir de asfixia
un prodigio
Cerrar una ventana y
no morir de pena
una proeza
pero cerrar esta ventana
con los dedos atrapados
sin huir por la puerta de salida o
de entrada y
decir adiós tras el cristal
con la mano ensangrentada
me conmueve hasta las lágrimas
/María Inés Zaldívar/
5.1.19
28.12.18
Vinte Mil Léguas Submarinas
Com efeito, havia já algum tempo que vários navios tinham avistado no alto‑mar “uma coisa enorme”, um objecto comprido, fusiforme, por vezes rodeado por uma espécie de fosforescência, muito mais corpulento e rápido do que uma baleia.
/Vinte Mil Léguas Submarinas, Jules Verne |ed. Relógio D'Água/
/Vinte Mil Léguas Submarinas, Jules Verne |ed. Relógio D'Água/
27.12.18
24.12.18
O Tchekista (a "minha" segunda história de natal para este ano)
Mas uma qualquer força o atraía na direcção dos cinco homens nus, e virou para eles a cara e os olhos. O lume no cachimbo estremeceu. Um choque doloroso atingiu-lhe os ouvidos. As peças de carne branca e crua abateram-se no chão. Os tchekistas, com os revólveres fumegantes, afastaram-se logo para trás e fizeram estalar os cães das armas. As pernas dos fuzilados agitavam-se convulsivamente. O gordo, com um guincho sonoro, respirou pela última vez. Srúbov pensou: «A alma existirá ou não? Será talvez a alma que sai assim com um guincho?»
/Vladimír Zazúbrin, O Tchekista/
23.12.18
O Tchekista (a "minha" segunda história de natal para este ano)
Srúbov sentia com toda a clareza, dolorosamente, a situação desesperada dos condenados. Achava que a medida máxima da violência não era o fuzilamento, mas aquela maneira de os obrigar a despirem-se. Sem roupa interior, sobre o chão de terra nua. Nus entre pessoas vestidas. Humilhação extrema. O peso da esperada morte era agravado pelo corriqueiro da situação.
/Vladimír Zazúbrin, O Tchekista/
20.12.18
Um artista da fome (a "minha" história de natal para este ano)
O interesse por artistas da fome diminuiu muito nas últimas décadas. Se antigamente a organização por conta própria deste tipo de espetáculos trazia o seu lucro, hoje em dia isso seria absolutamente impossível. Os tempos eram outros. Na altura toda a cidade seguia o artista da fome; a cada dia do seu jejum aumentava a afluência; todos queriam ver o artista da fome ao menos uma vez por dia; nos últimos dias inscreviam-se pessoas para poderem ficar sentadas o dia inteiro em frente à pequena jaula; até durante a noite, à luz de archotes que intensificavam o efeito, apareciam visitantes; em dias de sol trazia-se a jaula para o exterior para que o artista da fome fosse mostrado às crianças; se para os adultos o espetáculo não passava de um divertimento no qual participavam porque estava na moda, as crianças, por seu lado, estarrecidas, as bocas abertas, segurando as mãos umas das outras para se sentirem mais seguras, observavam a palidez do artista da fome, o maiô preto dentro do qual sobressaíam poderosas as suas costelas, observavam-no sentado na palha, visto que rejeitava qualquer cadeira, a acenar de tempos a tempos por cortesia, viam-no responder a perguntas com um sorriso forçado, a esticar o braço para que lhe pudessem sentir a magreza, mas logo se afundando em si próprio, porque todos lhe eram indiferentes, até mesmo o bater, para ele tão importante, do relógio, única mobília da jaula, limitava-se a olhar em frente, de olhos quase fechados e a bebericar aqui e ali de um minúsculo copito de água para humedecer os lábios.
[cont.]
/Franz Kafka, Um Artista da Fome e outros textos/
13.12.18
Nome de Guerra
![]() |
| A Vaca Amarela, Franz Marc |
Das duas uma: ou as pessoas se fazem ao nome que lhes deram no baptismo, ou ele tem de seu o bastante para marcar a cada um. Será imprudente deduzir o nome próprio através de fisionomias ou dos caracteres; no entanto, uma vez conhecido o nome próprio de uma pessoa, ficamos logo convencidos de que este lhe assenta muito bem. Jules Renard tirou um esplêndido retrato da vaca em tamanho natural: «On l'appelle la vache et c'est le nom qui lui va le mieux.». Como vedes, este corpo-inteiro está extraordinariamente parecido, é vaca por todos os lados.
10.12.18
11.11.18
Aplastamiento de las gotas
Yo no sé, mira, es terrible cómo llueve. Llueve todo el tiempo, afuera tupido y gris, aquí contra el balcón con goterones cuajados y duros, que hacen plaf y se aplastan como bofetadas uno detrás de otro, qué hastío. Ahora aparece una gotita en lo alto del marco de la ventana; se queda temblequeando contra el cielo que la triza en mil brillos apagados, va creciendo y se tambalea, ya va a caer y no se cae, todavía no se cae. Está prendida con todas las uñas, no quiere caerse y se la ve que se agarra con los dientes, mientras le crece la barriga; ya es una gotaza que cuelga majestuosa, y de pronto zup, ahí va, plaf, deshecha, nada, una viscosidad en el mármol.
Pero las hay que se suicidan y se entregan enseguida, brotan en el marco y ahí mismo se tiran; me parece ver la vibración del salto, sus piernitas desprendiéndose y el grito que las emborracha en esa nada del caer y aniquilarse. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adiós gotas. Adiós.
Historias de Cronopios y de Famas, Julio Cortazar
6.11.18
5.11.18
27.10.18
O Matadouro
Eu tinha oito anos, oito anos e meio. A França acabava de ganhar, depois de Félix Faure, um novo Presidente da República, o senador Émile Loubet. Eram férias da Páscoa. O feliz eleito, como brinde pelo alegre advento, concedeu-nos mais um dia feriado. Foi nesse dia que, saltando de cima de um celeiro para vender o desafio de um colega, quebrei uma perna.
Os médicos, nesses tempos distantes, em vez de engessarem em série os coxos dos desportos de inverno, procediam à silicatização das pernas partidas. Quer dizer, após a fractura ter sido atenuada, envolvem a perna lesada com uma espessa camada de algodão, depois enrolam uma ligadura abundantemente embebida numa solução de silicato de soda. Este invólucro, quando seca, torna-se duro como um calhau, como sílex. Chegado o momento de o retirar, não era uma tarefa fácil. Era necessário cortá-lo, penosamente, com uma grande tesoura, e como era sólido! No meu caso, o que se viu aparecer, depois desse trabalho árduo, foi uma lastimável pernita, completamente definhada, magra e pálida como uma endívia. Oh, Oh, disse o médico. Vai ser preciso fortalecê-la. O que falta a este pequeno são banhos de sangue, de sangue fresco. Para isso tem de ir ao matadouro.
Na realidade, deveria ter dito escaldadouro. Todos os açougueiros das cidadezinhas, nessa altura, faziam as suas próprias matanças nos seus escaldadouros particulares. Era um celeiro ao fundo do pátio, com o chão parcialmente cimentado. Mesmo lá ao fundo adivinhavam-se alguns estábulos na sombra. Era para ali que eu ia.
O homem do talho chamava-se Parendeau. Pusera ali uma cadeira para mim. Sentava-me nela muito bem comportado. No fundo do seu recinto o animal mugia já: alguma vaca, vazia de leite ou estéril, engordada para o talho. Mugia muito, lugubremente; pressentia a morte, eu sabia-o, sabia-o até nas minhas entranhas. O homem içava-a na ponta de uma corda, eu escutava o passo insubmisso, os cascos resistindo um a um, que se fincavam a cada puxão, procurando escorar-se de qualquer maneira. Eu desviava o olhar, observava as traves lá em cima, os falsos veios de mármore, nas paredes devoradas pelo salitre.
Entretanto, o açougueiro passava a corda por dentro de uma argola presa solo. E puxava. A cabeça da vaca inclinava-se, inclinava-se até tocar no comente com o focinho. (...)
/Terno Bestiário, Maurice Genevoix/
Os médicos, nesses tempos distantes, em vez de engessarem em série os coxos dos desportos de inverno, procediam à silicatização das pernas partidas. Quer dizer, após a fractura ter sido atenuada, envolvem a perna lesada com uma espessa camada de algodão, depois enrolam uma ligadura abundantemente embebida numa solução de silicato de soda. Este invólucro, quando seca, torna-se duro como um calhau, como sílex. Chegado o momento de o retirar, não era uma tarefa fácil. Era necessário cortá-lo, penosamente, com uma grande tesoura, e como era sólido! No meu caso, o que se viu aparecer, depois desse trabalho árduo, foi uma lastimável pernita, completamente definhada, magra e pálida como uma endívia. Oh, Oh, disse o médico. Vai ser preciso fortalecê-la. O que falta a este pequeno são banhos de sangue, de sangue fresco. Para isso tem de ir ao matadouro.
Na realidade, deveria ter dito escaldadouro. Todos os açougueiros das cidadezinhas, nessa altura, faziam as suas próprias matanças nos seus escaldadouros particulares. Era um celeiro ao fundo do pátio, com o chão parcialmente cimentado. Mesmo lá ao fundo adivinhavam-se alguns estábulos na sombra. Era para ali que eu ia.
O homem do talho chamava-se Parendeau. Pusera ali uma cadeira para mim. Sentava-me nela muito bem comportado. No fundo do seu recinto o animal mugia já: alguma vaca, vazia de leite ou estéril, engordada para o talho. Mugia muito, lugubremente; pressentia a morte, eu sabia-o, sabia-o até nas minhas entranhas. O homem içava-a na ponta de uma corda, eu escutava o passo insubmisso, os cascos resistindo um a um, que se fincavam a cada puxão, procurando escorar-se de qualquer maneira. Eu desviava o olhar, observava as traves lá em cima, os falsos veios de mármore, nas paredes devoradas pelo salitre.
Entretanto, o açougueiro passava a corda por dentro de uma argola presa solo. E puxava. A cabeça da vaca inclinava-se, inclinava-se até tocar no comente com o focinho. (...)
/Terno Bestiário, Maurice Genevoix/
Num País Livre
Eram gregos do Egipto. Iam de viagem para o Egipto mas o Egipto já não era a sua terra. Tinham sido expulsos; eram refugiados. Os invasores tinham saído do Egipto; depois de muitas humilhações, o Egipto estava livre; e aqueles gregos, os pobres, os que, graças a uns ofícios simples, se tinham tornado menos pobres que os pobre egípcios, eram vitimas dessa libertação.
/V. S. Naipaul, Num País Livre/
22.10.18
O Prémio
Sentia-se cansado como se tivesse um milhão de anos e o peso da cabeça, que parecia oca, incomodava-o. Todos os seus nervos dormentes exigiam descanso. Esticou os braços por cima da mesa, posou neles a testa e tentou alhear-se dos acontecimentos que estavam a desenrolar-se. Mas o seu cérebro fatigado recusava-se a adormecer. E ia pensando: «O que eu desejava era morrer devagar, em paz, sem dar nas vistas, como uma velha planta no escuro. Por que demónio se teriam aqueles malditos suecos lembrado de me pôr em evidência e de me humilhar, forçando-me a morrer em público? Agora sou imortal, nos livros oficiais, mas continuo a ser tão dolorosamente mortal como quando acordei esta manhã.» E recordou-se da observação sardónica de Bernard Shaw quando recebera o Prémio Nobel, aos sessenta e nove anos: «Este dinheiro é um cinto de salvação que se atira a um nadador depois de ele já ter chegado à praia.» E cogitava: «No meu caso, eu diria... um cinto de salvação que se atira a um afogado.» Depois não pensou em mais nada.
/O Prémio, Irving Wallace/
/O Prémio, Irving Wallace/
20.10.18
16.10.18
A Arte de Caminhar - Houve um dia em que a minha avó deixou de andar. Nesse mesmo dia morreu.
You're walking. And you don't always realize it
But you're always falling
With each step, you fall forward slightly
And then catch yourself from falling
Over and over, you're falling
And then catching yourself from falling
And this is how you can be walking and falling
At the same time
{O pé de uma criança não sabe o que é um pé / E quer ser uma borboleta ou uma maçã - Pablo Neruda}
15.10.18
Solar
Ele pertencia a essa classe de homens — de aparência vagamente desagradável, muitas vezes calvos, baixos, gordos, inteligentes — que são inexplicavelmente atraentes para certas mulheres belas. Ou ele julgava que o era, e pensá-lo parecia fazer com que assim fosse. E ajudava o facto de certas mulheres estarem convencidas de que ele era um génio a precisar que o socorressem.
(início de) Solar, Ian McEwan
5.10.18
HUMAN
HUMAN is a collection of stories and images of our world, offering an immersion to the core of what it means to be human. Through these stories full of love and happiness, as well as hatred and violence, HUMAN brings us face to face with the Other, making us reflect on our lives. From stories of everyday experiences to accounts of the most unbelievable lives, these poignant encounters share a rare sincerity and underline who we are – our darker side, but also what is most noble in us, and what is universal. Our Earth is shown at its most sublime through never-before-seen aerial images accompanied by soaring music, resulting in an ode to the beauty of the world, providing a moment to draw breath and for introspection.
HUMAN is a politically engaged work which allows us to embrace the human condition and to reflect on the meaning of our existence.
daqui
25.9.18
24.9.18
1.9.18
a pele
A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
/Luís Miguel Nava/
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
/Luís Miguel Nava/
O frio é a porta do desaparecimento, a proximidade do não-ser
«A poesia portuguesa da sua geração teve relações próximas com a espanhola, uma ligação que depois se atenuou e que agora talvez esteja a regressar com os autores mais novos. Manteve, ou mantém, contacto com poetas portugueses?
Conheci alguns. Na minha longínqua juventude, até tive Miguel Torga em Leão. E dedicou-me um livro, ele que nunca fazia dedicatórias. Escreveu: “a António” e assinou “T.”.
Dedicatória, sim, mas não exageremos…
[Risos]. Mas também conheci pessoalmente Mário Cesariny. E embora nunca o tenha encontrado, troquei correspondência com Herberto Helder: uma pessoa talvez um pouco difícil, mas um grande, grande poeta. E há o caso muito triste do Luís Miguel Nava, que era visita de minha casa.»
|entrevista a Antonio Gamoneda in Público - 22.02.2014|
31.8.18
L'Athéisme de Jesus
![]() |
| Nicolas Rivals |
Je suis athée et cela n’a pas de sens.
Absurde.
Absurde, comme si Jésus avait renoncé.
Absurde comme si Jésus avait dépassé 33 ans.
Absurde comme si notre monde athée
avait pu se construire sans lui.
À mon image paradoxale et incohérente,
Jésus ne peut pas avoir et n’aura jamais,
plus de 33 ans.
27.8.18
25.8.18
#MeToo: a ressaca
4. A complexidade do que está em jogo obriga-nos a superar qualquer maniqueísmo, seja ele descritivo ou moral, que não consiga ver/pensar o mundo para além dos "homens" e das "mulheres" como entidades globais, unívocas, definitivamente estabelecidas e operantes. O inegável mal-estar nasce de uma verdade muito básica que, não poucas vezes, algumas militâncias feministas resistem a encarar. A saber: não é possível pensar a sexualidade omitindo a sua inscrição em sistemas de relações que envolvem poder. Do mesmo modo, é preciso tentar compreender como os poderes inerentes às relações se inscrevem em todas as regiões do comportamento humano, incluindo a sexualidade.
João Lopes
24.8.18
Forest Man
Since the 1970's Majuli islander Jadav Payeng has been planting trees in order to save his island. To date he has single handedly planted a forest larger than Central Park NYC. His forest has transformed what was once a barren wasteland, into a lush oasis.
Humble yet passionate and philosophical about his work. Payeng takes us on a journey into his incredible forest.
28.5.18
18.5.18
O medo
Uma manhã, ofereceram-nos um porquinho-da-índia. Chegou a casa numa gaiola. À tarde, abri-lhe a porta da gaiola. Voltei a casa ao anoitecer e encontrei-o tal como o deixara: no fundo da gaiola, encostado às grades, a tremer do susto da liberdade.
/Eduardo Galeano, O livro dos Abraços/
6.5.18
Allégeance
Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n’est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l’aima?
Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L’espace qu’il parcourt est ma fidélité. Il dessine l’espoir et léger l’éconduit. Il est prépondérant sans qu’il y prenne part.
Je vis au fond de lui comme une épave heureuse. A son insu, ma solitude est son trésor. Dans le grand méridien où s’inscrit son essor, ma liberté le creuse.
Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n’est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l’aima et l’éclaire de loin pour qu’il ne tombe pas?
23.4.18
Cléo de 5 à 7
Agnès Varda eloquently captures Paris in the sixties with this real-time portrait of a singer (Corinne Marchand) set adrift in the city as she awaits test results of a biopsy. A chronicle of the minutes of one woman’s life, Cléo from 5 to 7 is a spirited mix of vivid vérité and melodrama (daqui)
15.4.18
Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola
«Porque é que ‘tão a olhar para mim?
Não vim para ficar…»
Não é que me tivesse propriamente esquecido, não conseguia era lembrar-me. Havia outras coisas mais importantes.
«Porque é que ‘tão a olhar para mim?
Não vim para ficar…»
Se me conseguia lembrar do resto do poema ou não era irrelevante. A verdade daquela afirmação era como um lenço amassado, encharcado nos meus punhos, e quanto mais cedo aceitassem isso, mais depressa eu poderia abrir as mãos e deixar o ar arrefecer-me as palmas.
«Porque é que ‘tão a olhar para mim…?»
Os meninos da ala infantil da Igreja Metodista Episcopal de Pessoas de Cor contorciam-se de riso por causa do meu proverbial esquecimento.
Levava um vestido de tafetá alfazema e, sempre que inspirava, o tecido restolhava e, como eu estava a sorver ar e a expirar vergonha, o ruído fazia lembrar o papel crepe que se usa na traseira dos carros funerários.
Enquanto observava a Mãezinha a pôr folhos na bainha e umas preguinhas bonitas na cintura, soube que, assim que o vestisse, iria parecer uma estrela de cinema. (Era de seda, o que compensava a cor horrorosa.) Eu ia parecer uma daquelas meninas brancas e graciosas, que encarnavam tudo o que havia de bom no mundo, o ideal de toda a gente. Delicadamente pousado em cima da máquina de costura Singer preta, o vestido era mágico, e, quando as pessoas me vissem com ele, viriam ter comigo a correr e diriam: «Marguerite [às vezes, era “querida Marguerite”], por favor perdoa-nos, não sabíamos quem eras», e eu responderia, generosamente: «Não, não podiam saber. É claro que vos perdoo.»
/Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola, Maya Angelou/
11.4.18
De Numeral / Nomimal
Escrever é arriscar tigres
ou algo que arranhe, ralando
o peito na borda do limite
com a mão estendida
até a cerca impossível e farpada
até o erro — é rezar com raiva.
***
Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.
ou algo que arranhe, ralando
o peito na borda do limite
com a mão estendida
até a cerca impossível e farpada
até o erro — é rezar com raiva.
***
Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.
7.4.18
Na Memória dos Rouxinóis
1.
Nasceu para ser um número primo
Jorge Rousinol nem sempre foi Jorge Rousinol. Até 5 de agosto de 1945, era o Sete, um número primo.
Jorge foi o sexto neto a nascer e o avô Rousinol, matemático galego próximo de Franco, apenas decorou o nome dos primeiros cinco. Quando Jorge nasceu, desperto e sem chorar, fitou o avô com os seus olhos cinzento-espelho, que, até aos dias de hoje, pareciam as águas de duas bacias que devolvem ao mundo o que o mundo lhes dá, mas num tom mais sombrio -- ou, como Jorge dirá, mais realista.
O avô viu-se refletido nos olhos do neto e, talvez pelo seu narcisismo, concedeu que seis era pouco para a importância absoluta daquele recém-nascido. Saltou um algarismo e atribuiu-lhe a posição sete, um número primo. Sinal de reconhecimento de que este era apenas divisível por ele próprio ou pela unidade. Traço de personalidade que cedo se manifestou em Jorge Rousinol: não ter outro divisor natural, ser ele a única referência do seu sistema de medida.
/Na Memória dos Rouxinóis, Filipa Martins/
Axolotl
Hubo un tiempo en que yo pensaba mucho en los axolotl. Iba a verlos al acuario del Jardín des Plantes y me quedaba horas mirándolos, observando su inmovilidad, sus oscuros movimientos. Ahora soy un axolotl.
Julio Cortazar
1.4.18
A Dança da Victória
- Que tal, Marín? Como vai isso?
- Como sempre, director.
- É uma pena que não tenhas beneficiado da amnistia.
- Eu não sou um simples ladrão de galinhas, senhor. A mim têm-me aqui dentro por assassínio.
- Deve ter sido muito grave, para te darem prisão perpétua.
- Sim.
- Foram muitos generosos contigo. Quantos assassínios cometeste?
- Mais de um, director.
- De modo que as possibilidades de saíres por bom comportamento daqui a uns anos são escassas.
- Diga antes nulas. Explicitamente, não me fuzilaram com a recomendação rigorosa de que por nenhum motivo me deviam baixar a pena.
- E tu não preferirias o pelotão? Porque, ao fim ao cabo, isto não é vida, pois não?
- Não é vida, mas a vida é a vida. Seja qual for. Nem um verme gosta que o esmaguem.
/A Dança da Victória, Antonio Skármeta/
- Como sempre, director.
- É uma pena que não tenhas beneficiado da amnistia.
- Eu não sou um simples ladrão de galinhas, senhor. A mim têm-me aqui dentro por assassínio.
- Deve ter sido muito grave, para te darem prisão perpétua.
- Sim.
- Foram muitos generosos contigo. Quantos assassínios cometeste?
- Mais de um, director.
- De modo que as possibilidades de saíres por bom comportamento daqui a uns anos são escassas.
- Diga antes nulas. Explicitamente, não me fuzilaram com a recomendação rigorosa de que por nenhum motivo me deviam baixar a pena.
- E tu não preferirias o pelotão? Porque, ao fim ao cabo, isto não é vida, pois não?
- Não é vida, mas a vida é a vida. Seja qual for. Nem um verme gosta que o esmaguem.
/A Dança da Victória, Antonio Skármeta/
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