![]() |
| orgasm, Jessie Hughes |
15.6.16
Lunes, 12 de mayo.
Me dijo que Borges no estaba muy bien, que oía mal y que le hablara en voz alta. Apareció la voz de Borges y le pregunté cómo estaba. «Regular, nomás», respondió. «Estoy deseando verte», le dije. Con una voz extraña, me contestó: «No voy a volver nunca más». La comunicación se cortó. Silvina me dijo: «Estaba llorando». Creo que sí. Creo que llamó para despedirse.
[Borges, de Adolfo Bioy Casares]
11.6.16
...
“A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não apresentam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade […] são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros”
10.6.16
...
The basic principle of equality does not require equal or identical treatment; it requires equal consideration.
[Animal Liberation, Peter Singer]
8.6.16
Posteridade
Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
Rui Knopfli
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
Rui Knopfli
4.6.16
PURA GENÉTICA
Mi madre se fue.
Me buscaron otra.
Mi padre lo hizo después.
Me buscaron otro.
El amor me abandonó.
Lo busqué yo.
Todo por sustitución,
así me enseñaron,
para que nadie
me hiciera daño.
Es verdad que los hijos
se parecen a los padres:
a ti ya te he cambiado
por un coche verde.
Cecilia Quílez Lucas
Me buscaron otra.
Mi padre lo hizo después.
Me buscaron otro.
El amor me abandonó.
Lo busqué yo.
Todo por sustitución,
así me enseñaron,
para que nadie
me hiciera daño.
Es verdad que los hijos
se parecen a los padres:
a ti ya te he cambiado
por un coche verde.
Cecilia Quílez Lucas
1.6.16
«Os três últimos dias de Fernando Pessoa»
![]() |
| Fernando Pessoa descendo o Chiado com Augusto Ferreira Gomes |
28 de Novembro de 1935
A minha vida foi mais forte do que eu
Primeiro tenho de fazer a barba, disse ele, não quero ir para o hospital com uma barba de três dias, faça-me o favor de chamar o barbeiro, é o senhor Manacés, que mora na esquina.
Mas não temos tempo, senhor Pessoa, replicou a porteira, o táxi já ali está, os seus amigos já chegaram e estão à sua espera na entrada.
Não tem importância, respondeu ele, há sempre tempo.
Instalou-se no pequeno sofá onde habitualmente o senhor Manacés lhe fazia a barba e pôs-se a ler as poesia de Sá-Carneiro.
31.5.16
30.5.16
disso dos animais
«Caçar faz de nós animais, mas a morte de um animal torna-nos humanos.»
[A de Açor, Helen Macdonald]
[A de Açor, Helen Macdonald]
26.5.16
Estrume ou os "Escrúpulos de Bem-Falante"
Abril, 1874.
Recebemos pela posta o seguinte bilhete:
"Desejo que o crítico das Farpas que ultimamente traduziu para o teatro de D. Maria o Marquês de Villemer, queria ter o incómodo de informar-me se acha que seja permitido na boa sociedade de Lisboa, a uma menina tão bemeducada como Mademoiselle de Saint-Railles na comédia aludida, proferir a palavra estrumes. Espero resposta. — Sua leitora."
Respondemos.
Minha leitora. — Não sei se na boa sociedade as meninas querem ou não permitir-se empregar na conversa as mais nobres palavras que tem uma língua — as que se referem à cultura da terra e aos fenómenos da criação.
Em Caneças sei que os saloios têm nesse ponto umas reservas cheias de pudicícia e que pedem licença prévia para falarem num cavalo ou num porco. Não posso dizer até que ponto os usos da sociedade de Caneças penetram na sociedade de Lisboa.
A minha opinião particular é: que uma menina bem-educada está autorizada a proferir em toda a parte os nomes claros, técnicos, insubstituíveis das coisas, que ela tem obrigação de saber. Ora, dessas coisas, as primeiras que deve aprender uma senhora são a arte da jardinagem e a arte da cozinha — os dois princípios rudimentares da grande ciência de criar e de alimentar o homem.
Michelet, de todos os grandes pensadores modernos aquele que mais amou as mulheres e que deu na terra o paraíso àquelas que tiveram a ventura de serem a sua mulher, a sua filha e a sua neta, concebeu a regeneração da humanidade pela educação da mulher e começou a instruí-la fazendo-a penetrar os altos segredos da natureza e da vida por meio do estudo tão moralizador e tão elevado da jardinagem e da cozinha.
O estrume é o ponto de união entre a cozinha e o jardim, os dois sagrados domínios da inteligência da mulher superior, da esposa, da mãe, da nobre criadora, da alimentadora, da protectora do homem.
O estrume é um dos factos mais interessantes e mais curiosos da grande história profunda da terra e da natureza. É o objecto mais digno da atenção do nosso espírito.
O estrume é a história toda da química, da geologia, da biologia, da botânica.
O estrume, de per si só, explica-nos a grande e sublime evolução que constitui a vida nos vegetais, nos animais e no homem.
O estrume é a base, a origem, a condição primitiva e essencial de todas as coisas e de todos os seres sobre a superfície da Terra. É o grande legado imenso, portentoso, sucessivamente deixado de geração em geração ao género humano. Tudo o mais desaparece diante do roer do tempo, o eterno verme.
Desaparecem as obras da arte, as do talento, as das civilizações mais fortes e mais firmes. Somente se não aniquila, antes de dia para dia se acrescenta e se renova, o estrume, no qual lentamente se convertem todos os destroços, todas as ruínas e todos os monumentos que vai deixando em volta de si a passagem do homem.
Tudo passa.
O estrume fica eternamente.
Fica para que reverdeça a relva, para que se desdobrem os vinhedos pelas colinas, para que ondeiem as searas pelas planícies, para que cantem as cotovias por entre as laranjeiras e os lilases, para que os rebanhos se alastrem por baixo dos olivedos, para que as crianças continuem a rir, para que as mulheres continuem a amar, para que os homens continuem a aprender, e para que a minha leitora me dirija no bilhete mais doce a pergunta mais estranha.
Suprimindo o estrume, soçobraria o mundo.
Na vida moral o estrume é uma lição ainda mais importante do que na vida física. O estrume explica-nos a lei moral da solidariedade universal. Nele aprendemos que é nosso destino pertencermos fatalmente aos nossos semelhantes e à grande mãe Natureza. Que a vida individual é um empréstimo divino feito pela vida universal a que eternamente pertencemos. Que a morte, finalmente, não é outra coisa senão a doce restituição à suprema vitalidade da terra dos elementos que absorvemos dela.
Se, todavia, apesar destas singelas e passageiras reflexões, que submeto à consideração da minha leitora, S. Exª entender que se deve abster de proferir a palavra estrume, fica S. Exª autorizada para a substituir, em todo o decurso destas linhas que lhe consagro, por qualquer outra que lhe pareça mais curial e mais idónea. Onde se ler estrume, S. Exª poderá dizer, por exemplo: o arrebol, a brisa, a toilette à Rabagas ou a valsa a dois tempos. E Caneças aplaudirá.
[in As Farpas]
A Escavação
-- Ainda que me alegre! - respondeu Kozlov. -- Mas quem é que gostou de mim ao menos uma vez? Aguenta, dizem-me, até que o velho capitalismo morra... Agora ele acabou, mas eu continuo a viver sozinho debaixo do cobertor, e sinto-me triste!
Voschev comoveu-se de amizade por Kozlov.
-- A tristeza não é nada, camarada Kozlov - disse ele -, isso significa que a nossa classe sente o mundo inteiro, mas a felicidade é em todo o caso um conceito burguês... A felicidade só nos leva à vergonha!
A seguir, Voschev e os outros levantaram-se de novo para ir trabalhar. O sol ainda ia alto e, no ar iluminado, os pássaros cantavam lamentosamente, não triunfantes, mas porque procuravam alimento no espaço: as andorinhas voavam baixo por cima dos homens curvados que cavavam, silenciavam as asas de fadiga e, por baixo da penugem e das penas, havia o suor da necessidade - voavam desde o alvorecer, atormentando-se incessantemente para alimentar os filhotes e os companheiros. Certa vez, Voschev apanhou do chão um pássaro que morrera instantaneamente em pleno voo: estava coberto de suor, e quando o depenou para lhe ver o corpo, nas suas mãos ficou uma criatura exígua e lastimável, morta pela fadiga do seu trabalho. E agora Voschev não se poupava para desfazer o solo nodoso: aqui vai haver um prédio onde as pessoas se abrigarão das adversidades, e das janelas atirarão migalhas aos pássaros que vivem no exterior.
[A Escavação, Andrei Platónov]
24.5.16
Paráfrase
Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.
A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.
Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.
Pedro Mexia
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.
A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.
Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.
Pedro Mexia
23.5.16
a ler
com o abraço para a querida NM, que se referiu a ela no post desta manhã, aqui replico, também eu, a crónica que se deve tornar viral:
19.5.16
18.5.16
As gavetas
Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.
Pedro Mexia
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.
Pedro Mexia
17.5.16
plágios
mas por que razão não há uma única referência a Borges e ao seu conto «O grosseiro mestre de cerimónias Kotsuké no Suké» (in História Universal da Infâmia) na ficha técnica deste filme?!
Last Knights - (ver trailer) é um plágio tão mal embrulhado, que dá dó. (Kodama, estás a dormir?! logo tu!)
se não acredita, caro leitor, atente na correspondência:
Morgan Freeman ("Bartok") é o senhor da Torre de Ako
Clive Owen ("Raiden") é Oishi Kuranosuké
Aksel Hennie ("Geza Mott") é Kotsuké no Suké
Last Knights - (ver trailer) é um plágio tão mal embrulhado, que dá dó. (Kodama, estás a dormir?! logo tu!)
se não acredita, caro leitor, atente na correspondência:
Morgan Freeman ("Bartok") é o senhor da Torre de Ako
Clive Owen ("Raiden") é Oishi Kuranosuké
Aksel Hennie ("Geza Mott") é Kotsuké no Suké
[um plágio filme medíocre, que nem Morgan Freeman consegue salvar.]
15.5.16
15 de Maio
«Curiosa sensação, a dos aniversários. Ver-me velho quando tenho tão presente a memória do tempo em que os trinta e três anos que Cristo contava quando o crucificaram me pareciam a idade de Matusalém.»
Pó, Cinza e Recordações
parabéns!
Papa Francisco, porque não te calas?
E afinal, parece que não somos todos criaturas de Deus. O Ser Humano, na sua infinita grandeza, é um ser superior, face à restante bicharada, que veio ao mundo para o servir. Um antropocentrismo raquítico ao serviço do teocentrismo iluminado.
Pergunta o Papa Francisco, por quem nutro alguma simpatia, fazendo um dos paralelismos mais infantis, idiotas e injustos que conheço: «Quantas vezes vemos pessoas que cuidam de gatos e cães e depois deixam sem ajuda o vizinho que passa fome?»
Quem quer ajudar o vizinho, fá-lo-á, independentemente de ajudar os animais, acredito eu, que não ajudo o vizinho, mas - tanto quanto sei - alguns idosos, (ex-)toxicodependentes e sem-abrigo de Lisboa. Talvez a Igreja Católica - essa belíssima instituição com telhados de cristal - pudesse dar o exemplo, repartindo alguma da sua riqueza com o meu vizinho e os vizinhos do mundo inteiro, liderando assim a "piedade" por exemplo. Três famílias de refugiados, Francisco, equivale a uma moedinha das minhas, por alturas do natal. Vá lá, consegues melhor do que isso!
13.5.16
12.5.16
Bronco Angel, o cow-boy analfabeto [ó coisa boa!]
Os meus primeiros tempos como ajudante do xerife Jimmy Cicatriz não foram isentos de dificuldades. Rigoroso em todas as voltas da vida, o meu boss exigia na mínima circunstância, mesmo com dois ss (circunstânssia), aquilo que se poderia chamar competência na decisão (com z ou com s, agora estou um bocadinho indeciso; por acaso decisão não fica mal, e melhor ainda dessizão!), Bem, isto sou eu a ver sse asserto.
«Sabes ler, escrever e contar?», perguntou-me o xerife quando apareci ao trabalho na primeira inolvidável manhã da nossa colaboração.
«Sei apanhar gafanhotos à palmada», respondi. «E sei jogar à macaca. E sei quem foi o primeiro rei de Portugal».
“Quem foi?”
“Dom João V.”
«Óptimo. Não quero cá analfabetos.»
[Bronco Angel, O Cow-Boy Analfabeto, Fernando Assis Pacheco]
CARTA A FÁTIMA
Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...
Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.
Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!
Luiz Pacheco, 1992
MANUAL DE DESPEDIDA PARA MULHERES SENSÍVEIS
Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.
É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.
[Vem à quinta-feira, Filipa Leal]
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.
É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.
[Vem à quinta-feira, Filipa Leal]
11.5.16
Pai
Na minha estante, no outro extremo da sala, havia um telescópio portátil com uma capa de Cordura verde. Pedira-o emprestado ao meu pai para ir observar aves e não o tinha devolvido. Esquecera-me de o levar na última visita que lhe fiz. «Fica para a próxima», dissera ele, abanando a cabeça com uma exasperação bem-humorada. Não houve próxima vez. Não o pude restituir. Também não lhe pude pedir desculpa. Houve uma vez, talvez no dia a seguir à sua morte, ou no dia a seguir a esse, em que ia sentada num comboio com a minha mãe e o meu irmão. Íamos buscar o carro dele. Foi uma viagem desesperada. As minhas mãos agarravam com força o ferro áspero do assento até os nós dos dedos ficarem brancos. Recordo-me de buddleia, de escória ao lado da linha, de um gasómetro verde e da central nuclear de Battersea quando o comboio abrandou. E só quando já nos encontrávamos na estação de Queenstown Road, numa plataforma desconhecida sob uma cobertura de madeira branca, só quando já nos dirigíamos para a saída, me apercebi, pela primeira vez, de que nunca mais voltaria a ver o meu pai.
Nunca. Detive-me e fiquei imóvel. E gritei. Chamei-o em voz alta. Pai. E depois, a palavra Não saiu num uivo longo, decrescente. O meu irmão e a minha mãe abraçaram-me, e eu a eles. Um facto brutal. Nunca mais tornaria a falar com ele. Nunca mais voltaria a vê-lo.
10.5.16
Paupéria revisitada
Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
Ricardo Aleixo
9.5.16
não escrever ii
«Não há literatura: Quando se escreve só importa saber em que real se entra e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.»
[Um falcão no punho, Maria Gabriela Llansol]
[Um falcão no punho, Maria Gabriela Llansol]
não escrever
«Até hoje não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente, até que de repente a descoberta muito tímida: quem sabe, também eu poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável.»
[Para Não Esquecer, Clarice Lispector]
6.5.16
«a de açor»
Uma pessoa aprende. Hoje, pensei, já não com nove anos e sem estar aborrecida, era paciente e as aves de rapina apareciam.
Levantei-me lentamente, com as pernas um pouco entorpecidas por ter estado imóvel durante tanto tempo, e vi que tinha na mão uma pequena quantidade de musgo-das-renas, um pedacinho desse líquen ramificado de um cinzento-esverdeado pálido que pode sobreviver do quase nada que o mundo lhe fornece. É um exemplo de paciência. Se o guardarmos no escuro, se o congelarmos, se o secarmos até ficar estaladiço, o musgo-das-renas não morre. Fica em estado latente à espera de que as coisas melhorem.
É um ser impressionante. Sopesei a pequena esfera ramosa. Era quase como se não a tivesse na mão. E, num impulso súbito, enfiei no bolso de dentro do colete essa pequena recordação roubada ao dia em que vi as aves de rapina, e fui para casa. Pu-la numa prateleira perto do telefone.
Três semanas mais tarde, era para o musgo-das-renas que olhava quando a minha mãe ligou a dizer que o meu pai tinha morrido.
Helen Macdonald
4.5.16
30.4.16
«quintas e domingos»
Em Portugal, existem cerca de trezentos mil homens (são praticamente todos homens) que, às quintas e domingos, entre Agosto e Fevereiro, saem pelos campos para matar animais. Imaginemos que um deus vingativo decretava que, nessas mesmas quintas e domingos, era permitido a outros homens caçar os caçadores. Imaginemos portanto que um destes caçadores de caçadores escrevia a seguinte página de diário:
«Acertei‑lhe na omoplata. Costumo apontar para o ventre,
porque o recuo da arma às vezes faz com o que o tiro lhes esfacele
a cabeça e depois não me servem para nada (pois: gosto de ter as
cabeças embalsamadas na sala, é cada um com a sua mania e esta
é a minha). Deu uma espécie de guincho agudo quando o tiro lhe
acertou. Muitos caem sem fazer barulho, mas eu prefiro sentir
que acertei, dá mais pica. Os cães saltaram de trás de mim e foram
por ali abaixo numa barulheira desenfreada, as narinas esbuga‑
lhadas com o cheiro a sangue. Estava deitado de lado a rebolar‑se
para aqui e para ali, a espingarda caída, um braço levantado com
a mão a acenar. Tinha graça, parecia que estava a chamar um táxi.
Gemia qualquer coisa, não percebi, talvez fosse: «Mãe, mãe...».
Os cães ferraram‑lhe o braço ferido e também uma das pernas e
começaram a arrastá‑lo. Foi uma carga de trabalhos para os afastar
dali, já com pedaços de carne e de camuflado metidos nos dentes.
As gemidelas dele começaram a chatear‑me, é melhor quando
consigo matá‑los à primeira, fazem menos barulho e confusão, e
não fica a cabeça estragada com terra, folhas e sangue de andarem
a esfregar‑se por causa das dores. Ainda por cima, ter de lhes cor‑
tar o pescoço com a faca é uma porcaria, sangram mais que javalis.
Foi então que reparei que havia uma criança acocorada ao lado
dele na moita. É raro virem caçar com crianças. O miúdo tremia
todo e estava de bruços, a cabeça praticamente enfiada no chão.
Podia ter‑lhe acertado mesmo na espinha e pronto, mas acho
uma estupidez matar crianças, depois não crescem e ficamos com
menos peças para abater. O melhor é deixá‑los procriar. Dei um
pontapé no miúdo e mandei‑o embora, foi‑se a correr, aos trope‑
ções contra os ramos, chorava como um desalmado. Aquilo devia
ser medo, mas passa‑lhes depressa. Acabei com o caçador com
um golpe na garganta, ficou tudo sujo mas a cabeça era boa. Não
foi mau domingo. Consegui um abate, estava‑se bem, não chovia
nem fazia muito frio, o ar puro e o exercício abriram‑me o ape‑
tite para o almoço. Na quinta‑feira não posso vir, mas no próximo
domingo estou aqui caído outra vez.»
Os caçadores não matam animais por necessidade, mas por prazer, e não sentem qualquer empatia em relação ao sofrimento que causam, em relação à dor, ao susto, à agonia. A caça será um dia encarada com o mesmo espanto com que hoje olhamos para coisas horríveis que a humanidade fazia antigamente, como as execuções públicas, a tortura pública ou o tráfico de escravos, mas hoje é designada «desporto» e a maior parte das pessoas acha que não tem mal nenhum.
Ouro e Cinza
de Paulo Varela Gomes
[que esteja em paz]
21.4.16
«todo o amor é um grito desesperado que apenas ouve o eco»*
[o vídeo é tão bonito]
*Miguel Torga, Esperança
20.4.16
é a isto que se chama a Pornochanchada?...
agora sim, estou mais descansada. andava sem perceber a razão do aumento da conta da edp. os moços do call-center bem me diziam que era dos acertos, nada havia de errado, mas 250€ de luz, num tão curto mês, nunca me pareceu a quantia acertada. felizmente, neste belo país, tudo tem uma boa razão. que seja muito feliz, com o seu aumento, Sr. Dr. António Mexia (e afins). bom saber, que pude (e continuarei a) contribuir.
15.4.16
por minha culpa, minha tão grande culpa
![]() |
| Sofia Bonati |
não me tivesse eu deixado tentar pela gula dos trapos primaveris...
[hão-de ser comidos pelo bolor da humidade, antes mesmo da estreia.]
13.4.16
12.4.16
nós, virtuais, também fenecemos.
não somos mais do que as palavras que decidimos partilhar.
é neste pensamento que me firmo, enquanto vou apagando o endereço de vários blogs que entretanto decidiram morrer. nunca conheci os seus autores, tão pouco senti tal vontade, - regra sagrada da blogosfera, sei-o agora, nunca confundir autores com personagens - e, no entanto, mentiria, se negasse que cada delete não me traz uma estranha tristeza.
roubando palavras à Martha colombinana [pero rogando que no llueva]
Cansados de inventar palabras
de dar nombre al silencio
para ahuyentar tristezas
Cansados de mirar al cielo
rogando que llueva
Que el agua o el viento
traigan un gesto que nos vuelva la vida
Cansados de pedir a los muertos
que colmen nuestras horas
que inunden con sus voces nuestro lecho oscuro
Cansados por fin de creer
en laberintos
Optamos por dejar de interrogar esquinas
por ignorar promesas
Optamos al fin por esa eternidad
que es el olvido.
7.4.16
6.4.16
a europa hipócrita e as suas brincadeirinhas didácticas...
e se fosse eu
a princípio, julguei que fosse apenas um role play tolinho, o faz de conta do politicamente correcto. mas depois de ler as participações de algumas figuras públicas, tão ímpares na sociedade portuguesa, fiquei com a dúvida se não se trataria de um novo concurso numa ilha deserta ou se antes de um anúncio a malas de viagem.
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livros com mais de mil e quinhentas páginas são uma excelente ideia, não só podem ser usados como banco ou mesa, como ainda nos ajudam a manter em forma e com uma postura correcta, enquanto caminhamos. além disso, duram: não vá dar-se o caso dos políticos lá da ilha se estarem nas tintas para nós e nos manterem à espera no barco, durante vários meses.
4.4.16
2.4.16
A Morte de um Apicultor: frases soltas ii
«E agora, principalmente quando as dores voltam, sinto muita falta dela.
E ao mesmo tempo, é perfeitamente claro que aquilo era impossível entre nós. Foi por puro milagre que a nossa história durou tanto tempo.
Tudo, toda a nossa vida estava baseada num só principio muito simples, um acordo:
Proibição de nos vermos. Quero dizer, proibido vermo-nos verdadeiramente um ao outro.
É um jogo bastante complicado, o de tentar manter um tal acordo durante doze ou treze anos sem nunca deixar cair a máscara, mesmo quando estamos zangados ou muito tristes. É como se vivêssemos fechados numa sala exígua com alguém, com a condição de lhe virar sempre as costas.
É preciso perceber, claro, o que há por trás de um tal acordo.
A meu ver, é a dor. Uma espécie de sofrimento original, que carregamos desde a infância e que não deve ser mostrado. O facto de o sofrimento estar escondido é bem mais importante do que a sua existência.»
A Morte de um Apicultor: frases soltas
suspeito que não tenho nenhum outro livro com tantos cantos dobrados...
«Notei que na cara dela havia pequenas borbulhas ou pequenas verrugas, como se tivesse tido uma estranha doença de pele, o que me fez repentinamente mudar de ideias. Apesar desta sensação, continuei a falar, e ela respondeu, conversando comigo de forma agradável e educada. Pode ser que a tenha conhecido num daqueles dias inconvenientes em que é proibido ter sexo. Ela, nas redondezas, tem fama de ser bonita.
No entanto, senti uma espécie de alívio depois daquele encontro. Ela libertou-me de uma sensação que estava a querer transformar-se uma espécie de desassossego, e de um mau hábito que tenho, que consiste em apegar-me a tudo aquilo que me atrai de forma inquietante.»
«Quando deixamos por instantes o subconsciente à solta, ele começa naturalmente a criar enredos. Cria uma identidade, adapta-se ao meio, inventa novas formas para preencher o vazio que entretanto se faz quando esquecemos a nossa vida imediata.
Não há nada pior para o subconsciente, parece, do que a sensação de não ser ninguém.»
«Não sei porquê, talvez por causa da minha ansiedade, mas só me interessava a sedução.
A palavra pode parecer um pouco solene, é verdade... mas tratava-se disso mesmo, sedução.
Queria provar a mim próprio que realmente existia. E isso só acontece quando exercemos efeito noutra pessoa.»
«Ainda hoje penso que ela gostava mesmo de mim, sim, quase me amava, havia pelo menos algo em mim que a fascinava. Mas também acho que nunca conheci ninguém que tivesse tanto medo de mim como ela.»
A Morte de um Apicultor
As páginas que se seguem são as notas que ele próprio deixou. É efectivamente nesta primavera de 1975, no exacto momento do degelo, que ele descobre que deixará de existir antes da chegada do outono. Tem um cancro mortal, tardiamente localizado no baço, com metástases nos tecidos circundantes.
A voz que ouvirão a seguir é a dele, não a minha, e por isso me despeço.
...
Encontrei o cão em casa dos Sundblad. Passara ali toda a tarde; tinham-lhe dado biscoitos e água. O que mais me embaraçou foi que, quando o quis trazer de volta, ele se recusou. Resistia, fincava as patas no tapete da cozinha.
Que vergonha. Os Sundblad devem ter pensado que o trato tão mal que ele se nega a acompanhar-me de volta. Mas isso não é verdade.
É qualquer outra coisa, que no entanto não consigo explicar claramente. Diria que o cão, inexplicavelmente, ganhou medo, ...
(...)
Não há nada a fazer. Sempre foi um bom cão, e espero que ainda viva muito tempo.
Não consigo compreender o que se passou. Porta-se, na verdade, como se não me reconhecesse. Ou melhor: reconhece-me, mas a uma distância muito curta, quando me pode ver e ouvir sem ter de se guiar exclusivamente pelo olfacto.
Claro que há ainda uma outra explicação, mas tão absurda que não a posso levar a sério.
Que eu, de repente, tenha mudado de cheiro, de uma maneira tão subtil que apenas o cão consiga perceber.
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