30.4.16

«quintas e domingos»



Em Portugal, existem cerca de trezentos mil homens (são praticamente todos homens) que, às quintas e domingos, entre Agosto e Fevereiro, saem pelos campos para matar animais. Imaginemos que um deus vingativo decretava que, nessas mesmas quintas e domingos, era permitido a outros homens caçar os caçadores. Imaginemos portanto que um destes caçadores de caçadores escrevia a seguinte página de diário:

«Acertei‑lhe na omoplata. Costumo apontar para o ventre,
porque o recuo da arma às vezes faz com o que o tiro lhes esfacele
a cabeça e depois não me servem para nada (pois: gosto de ter as
cabeças embalsamadas na sala, é cada um com a sua mania e esta
é a minha). Deu uma espécie de guincho agudo quando o tiro lhe
acertou. Muitos caem sem fazer barulho, mas eu prefiro sentir
que acertei, dá mais pica. Os cães saltaram de trás de mim e foram
por ali abaixo numa barulheira desenfreada, as narinas esbuga‑
lhadas com o cheiro a sangue. Estava deitado de lado a rebolar‑se
para aqui e para ali, a espingarda caída, um braço levantado com
a mão a acenar. Tinha graça, parecia que estava a chamar um táxi.
Gemia qualquer coisa, não percebi, talvez fosse: «Mãe, mãe...».

Os cães ferraram‑lhe o braço ferido e também uma das pernas e
começaram a arrastá‑lo. Foi uma carga de trabalhos para os afastar
dali, já com pedaços de carne e de camuflado metidos nos dentes.
As gemidelas dele começaram a chatear‑me, é melhor quando 
consigo matá‑los à primeira, fazem menos barulho e confusão, e
não fica a cabeça estragada com terra, folhas e sangue de andarem
a esfregar‑se por causa das dores. Ainda por cima, ter de lhes cor‑
tar o pescoço com a faca é uma porcaria, sangram mais que javalis.
Foi então que reparei que havia uma criança acocorada ao lado
dele na moita. É raro virem caçar com crianças. O miúdo tremia
todo e estava de bruços, a cabeça praticamente enfiada no chão.
Podia ter‑lhe acertado mesmo na espinha e pronto, mas acho
uma estupidez matar crianças, depois não crescem e ficamos com
menos peças para abater. O melhor é deixá‑los procriar. Dei um
pontapé no miúdo e mandei‑o embora, foi‑se a correr, aos trope‑
ções contra os ramos, chorava como um desalmado. Aquilo devia
ser medo, mas passa‑lhes depressa. Acabei com o caçador com
um golpe na garganta, ficou tudo sujo mas a cabeça era boa. Não
foi mau domingo. Consegui um abate, estava‑se bem, não chovia
nem fazia muito frio, o ar puro e o exercício abriram‑me o ape‑
tite para o almoço. Na quinta‑feira não posso vir, mas no próximo
domingo estou aqui caído outra vez.»

Os caçadores não matam animais por necessidade, mas por prazer, e não sentem qualquer empatia em relação ao sofrimento que causam, em relação à dor, ao susto, à agonia. A caça será um dia encarada com o mesmo espanto com que hoje olhamos para coisas horríveis que a humanidade fazia antigamente, como as execuções públicas, a tortura pública ou o tráfico de escravos, mas hoje é designada «desporto» e a maior parte das pessoas acha que não tem mal nenhum.


Ouro e Cinza
de Paulo Varela Gomes 
[que esteja em paz]


21.4.16

«todo o amor é um grito desesperado que apenas ouve o eco»*





[o vídeo é tão bonito]



*Miguel Torga, Esperança


20.4.16

é a isto que se chama a Pornochanchada?...

agora sim, estou mais descansada. andava sem perceber a razão do aumento da conta da edp. os moços do call-center bem me diziam que era dos acertos, nada havia de errado, mas 250€ de luz, num tão curto mês, nunca me pareceu a quantia acertada. felizmente, neste belo país, tudo tem uma boa razão. que seja muito feliz, com o seu aumento, Sr. Dr. António Mexia (e afins). bom saber, que pude (e continuarei a) contribuir.


15.4.16

por minha culpa, minha tão grande culpa


Sofia Bonati



não me tivesse eu deixado tentar pela gula dos trapos primaveris...


[hão-de ser comidos pelo bolor da humidade, antes mesmo da estreia.]


13.4.16

12.4.16

nós, virtuais, também fenecemos.


não somos mais do que as palavras que decidimos partilhar.

é neste pensamento que me firmo, enquanto vou apagando o endereço de vários blogs que entretanto decidiram morrer. nunca conheci os seus autores, tão pouco senti tal vontade, - regra sagrada da blogosfera, sei-o agora, nunca confundir autores com personagens - e, no entanto, mentiria, se negasse que cada delete não me traz uma estranha tristeza.

roubando palavras à Martha colombinana [pero rogando que no llueva]


Cansados de inventar palabras

de dar nombre al silencio

para ahuyentar tristezas

Cansados de mirar al cielo

rogando que llueva

Que el agua o el viento

traigan un gesto que nos vuelva la vida

Cansados de pedir a los muertos

que colmen nuestras horas 

que inunden con sus voces nuestro lecho oscuro

Cansados por fin de creer

en laberintos

Optamos por dejar de interrogar esquinas

por ignorar promesas

Optamos al fin por esa eternidad

                                          que es el olvido.


6.4.16

a europa hipócrita e as suas brincadeirinhas didácticas...

e se fosse eu

a princípio, julguei que fosse apenas um role play tolinho, o faz de conta do politicamente correcto. mas depois de ler as participações de algumas figuras públicas, tão ímpares na sociedade portuguesa, fiquei com a dúvida se não se trataria de um novo concurso numa ilha deserta ou se antes de um anúncio a malas de viagem.



-------------

livros com mais de mil e quinhentas páginas são uma excelente ideia, não só podem ser usados como banco ou mesa, como ainda nos ajudam a manter em forma e com uma postura correcta, enquanto caminhamos. além disso, duram: não vá dar-se o caso dos políticos lá da ilha se estarem nas tintas para nós e nos manterem à espera no barco, durante vários meses.




2.4.16

a todos os intrépidos meninos, com um beijinho especial para o traquinas do meu coração.



2 de Abril, Dia Mundial da Consciencialização do Autismo


Joey Chou


A Morte de um Apicultor: frases soltas ii

«E agora, principalmente quando as dores voltam, sinto muita falta dela.
E ao mesmo tempo, é perfeitamente claro que aquilo era impossível entre nós. Foi por puro milagre que a nossa história durou tanto tempo.
Tudo, toda a nossa vida estava baseada num só principio muito simples, um acordo:
Proibição de nos vermos. Quero dizer, proibido vermo-nos verdadeiramente um ao outro.
É um jogo bastante complicado, o de tentar manter um tal acordo durante doze ou treze anos sem nunca deixar cair a máscara, mesmo quando estamos zangados ou muito tristes. É como se vivêssemos fechados numa sala exígua com alguém, com a condição de lhe virar sempre as costas.
É preciso perceber, claro, o que há por trás de um tal acordo.
A meu ver, é a dor. Uma espécie de sofrimento original, que carregamos desde a infância e que não deve ser mostrado. O facto de o sofrimento estar escondido é bem mais importante do que a sua existência.»


A Morte de um Apicultor: frases soltas

suspeito que não tenho nenhum outro livro com tantos cantos dobrados...


«Notei que na cara dela havia pequenas borbulhas ou pequenas verrugas, como se tivesse tido uma estranha doença de pele, o que me fez repentinamente mudar de ideias. Apesar desta sensação, continuei a falar, e ela respondeu, conversando comigo de forma agradável e educada. Pode ser que a tenha conhecido num daqueles dias inconvenientes em que é proibido ter sexo. Ela, nas redondezas, tem fama de ser bonita.
No entanto, senti uma espécie de alívio depois daquele encontro. Ela libertou-me de uma sensação que estava a querer transformar-se uma espécie de desassossego, e de um mau hábito que tenho, que consiste em apegar-me a tudo aquilo que me atrai de forma inquietante.»


«Quando deixamos por instantes o subconsciente à solta, ele começa naturalmente a criar enredos. Cria uma identidade, adapta-se ao meio, inventa novas formas para preencher o vazio que entretanto se faz quando esquecemos a nossa vida imediata.
Não há nada pior para o subconsciente, parece, do que a sensação de não ser ninguém


«Não sei porquê, talvez por causa da minha ansiedade, mas só me interessava a sedução.
A palavra pode parecer um pouco solene, é verdade... mas tratava-se disso mesmo, sedução.
Queria provar a mim próprio que realmente existia. E isso só acontece quando exercemos efeito noutra pessoa.»


«Ainda hoje penso que ela gostava mesmo de mim, sim, quase me amava, havia pelo menos algo em mim que a fascinava. Mas também acho que nunca conheci ninguém que tivesse tanto medo de mim como ela.»



A Morte de um Apicultor

As páginas que se seguem são as notas que ele próprio deixou. É efectivamente nesta primavera de 1975, no exacto momento do degelo, que ele descobre que deixará de existir antes da chegada do outono. Tem um cancro mortal, tardiamente localizado no baço, com metástases nos tecidos circundantes.
A voz que ouvirão a seguir é a dele, não a minha, e por isso me despeço.

...


Encontrei o cão em casa dos Sundblad. Passara ali toda a tarde; tinham-lhe dado biscoitos e água. O que mais me embaraçou foi que, quando o quis trazer de volta, ele se recusou. Resistia, fincava as patas no tapete da cozinha.
Que vergonha. Os Sundblad devem ter pensado que o trato tão mal que ele se nega a acompanhar-me de volta. Mas isso não é verdade.
É qualquer outra coisa, que no entanto não consigo explicar claramente. Diria que o cão, inexplicavelmente, ganhou medo, ...


(...)


Não há nada a fazer. Sempre foi um bom cão, e espero que ainda viva muito tempo.
Não consigo compreender o que se passou. Porta-se, na verdade, como se não me reconhecesse. Ou melhor: reconhece-me, mas a uma distância muito curta, quando me pode ver e ouvir sem ter de se guiar exclusivamente pelo olfacto.
Claro que há ainda uma outra explicação, mas tão absurda que não a posso levar a sério.
Que eu, de repente, tenha mudado de cheiro, de uma maneira tão subtil que apenas o cão consiga perceber.  


[Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor]


31.3.16

Ver o cortejo de cedros

e acreditar que é o cenário.
Depois estender a mão
através da longa perspectiva
oblíqua e poder palpar,
na pele, que também os cedros
têm corpos húmidos, saliva,
à espera do Amor.


[Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas]


Michael Lange



Fiama Hasse Pais Brandão & Michael Lange I


29.3.16

a que preço está o LIKE?

se é pornografia? não.
se é belo? talvez, depende de quem olha.
se deve ser permitido o seu visionamento na rede social em questão? bem, trata-se de uma empresa privada, fará o que bem entender. se/quando lhe der jeito, com a mesma ânsia com que censura algumas fotografias, passará a incentivá-las.
se me incomoda ver? creio que me é um pouco indiferente. haverá contextos em que fará sentido.



28.3.16

capitais


será Vital Moreira o único socialista com coragem para falar o óbvio?


«Caleidóscopicos sons/ inebriam os músculos/ como doces agulhas»*

Da Ditadura Para a Democracia, assim se chama o livro que, se lido em Angola, dá penas de prisão. O livro, que facilmente se pode ler aqui (edição gentilmente cedida pela Tinta da China), foi escrito por Gene Sharp, um académico das ciências políticas, três vezes indicado a Nobel da Paz...

Quanto ao conteúdo do livro, cada um que tire as suas conclusões. Deixo só um apontamento que me parece resumir tudo. Aos jovens angolanos, desejo a melhor das sortes, ainda que descrente na mudança. Observo que, em Portugal, a classe política se mantém igual a si mesma, repugnante e viscosa, envergonhando todos os anos o cravo que põe na lapela.


     « — Este é um livro altamente subversivo. 

(António Luvualu de Carvalho, embaixador itinerante de Angola) 

   — Concordo consigo. É um livro altamente subversivo, mas em regimes totalitários. Não é subversivo em democracias. Este livro não leva ao derrube de democracias. »

(José Eduardo Agualusa, escritor)

 (Debate na RTP3, a 5 de Novembro de 2015)

27.3.16

ajudar a União Zoófila



a sugestão que lhe faço, estimado leitor, é que neste bonito período pascal, em que jesus e a natureza renascem, ofereça um dos seus cafés para ajudar a bicharada da União Zoófila.


IBAN: PT50 0033 0000 0058 0204 2235 6


inflação?

cerâmica é uma das minhas perdições, confesso.
vejamos os ovos da Vista Alegre, essa bonita fábrica a operar desde 1824. notável capacidade de adaptação aos tempos, há que dizê-lo.



ovo 2015 - 99€


Estilo:Clássico
Tipo de peça:Caixa
Tipo de Material:Porcelana
Altura:92 mm
Largura:117 mm
Comprimento:157 mm
Capacidade:
Peso sem Embalagem:200 gr




ovo 2016 - 550€

Estilo:Clássico
Tipo de peça:Caixa
Tipo de Material:Porcelana
Altura:102 mm
Largura:102 mm
Comprimento:153 mm
Capacidade:
Peso sem Embalagem:539 gr




ambos totalmente pintados à mão!
...


26.3.16

Pour More Oil






...

bom é ser odiado simetricamente por gregos e troianos
que se matem entre eles
a ver quem me odeia mais extenso e fundo:
e eu fora, citando os astros mudos:
os clássicos!


(brevíssima) Historia fantástica

Contar la historia del día en que el fin del mundo se suspendió por mal tiempo.

--

autor descaradamente roubado daqui.

Há dez anos que escrevo o mesmo poema

Há dez anos que escrevo o mesmo poema
no mesmo café.
Esta ideia arrumada nesta cadeira triste
todos os dias no mesmo sítio.
Até que me venham bater à porta
ando meio distraída nisto.

Falam-me da barbárie e dos seus irmãos brutos
mas ninguém falou ainda da flor de Coleridge
nem das pernas melancólicas dos meus amigos.

Exceptuando isto penso no imenso com os dentes.
Penso num serviço de chá e numa porta de serviço.
Penso num chão absoluto no petróleo e na lixívia.
Penso na tua cabeça enunciativa e és um Rolls
às nove e meia da noite para toda a parte comigo.

Exceptuando isto talvez não se morra e ninguém
desça à guerra e ao medo senão pelos livros.
Penso no amor e exceptuando isso está frio
e a mudança de hora e a jukebox
e contar-te os meus medos porque penso nisto há dez anos
que penso nisto.

Cruz na porta da tabacaria e o teu cabelo
cortado à escovinha.
Há dez anos que desconfio do mesmo poema


forma inteira do homem para diante
e de diante para o abismo


E poder ser livre e fumar na cama
com a excitação de arder numa linha.

É que Sócrates nunca escreveu.
Milton ao menos fingia.
No fim de contas caía bem.
Um Kropotkin e uma bica.

E convicção ser do teu signo.
Porque uma coisa nos atraía.
Fome não era adição.
Erecção não era cinismo.
Porque havia motivo para risos.

Tu nunca te atrasaste.
Tu nunca te mataste.
Porque enfim não mentiste

que há dez anos que escreves o mesmo poema


tu que só queres o sol
para descê-lo para descê-lo
ilha dos amores


no mesmo corpo no mesmo casaco
apoiado à esquerda do meu braço.




Raquel Nobre Guerra

*****



















25.3.16

bom descanso

eu e a Taeko desejamos a todos os leitores uma época pascal com muito sol nas fuças e muita coçadela da boa.






23.3.16

«Animais esféricos»





«A esfera é o mais uniforme dos corpos sólidos, dado que todos os pontos da superfície são equidistantes do centro. Por isso, e pela faculdade de girar em torno do eixo sem mudar de lugar e sem exceder os seus limites, Platão (Timeu, 33) aprovou a decisão do Demiurgo, que deu forma esférica ao mundo. Julgou que o mundo era um ser vivo e, nas Leis (898), afirmou que os planetas e as estrelas também o eram. Dotou assim a zoologia fantástica de muitos Animais Esféricos e censurou os torpes astrónomos por não quererem entender que o movimento circular dos corpos celestes era espontâneo e voluntário.

Mais de quinhentos anos depois, em Alexandria, Orígenes ensinou que os bem-aventurados ressuscitariam sob a forma de esferas e entrariam a rolar na eternidade.»

[O Livro dos Seres Imaginários]


23.03.15

...
¿que coisa é esta que nem se move,
que não é um planeta,
que buraco é este por onde tudo se some?
  -- e eu pedi ao balcão: dê-me um poema,
e o empregado olhou para mim estupefacto:
  -- isto aqui é o mundo, monsieur, aqui não se servem bebidas alcoólicas
  -- mas -- ia eu para dizer, mas calei-me de repente
e pensei muito longe:
quero voltar depressa aos modos do mundo dos assombros
(ó mundo, pesa inteiro sobre ti mesmo!)


[Letra Aberta]


eu, de amarelo

é um tema controverso. em que momento passa o cidadão anónimo ao papel de destaque? e pode essa passagem ser automática - sem a sua autorização, obrigando-o a aceitar a decisão de um fotógrafo? 
o que traz de novo a fotografia de Ketevan Kardava, para que possa circular pelo mundo? seria imprescindível? eticamente reprovável? qual o seu valor, a sua intenção? necessidade de mostrar? razão estética?

se a mulher de amarelo fosse eu, ficaria bastante desiludida com esta espécie de jornalistas.

posso estar errada. é uma hipótese que nunca afasto.


Wicked Game





17.3.16

aborto

Tendo completa noção de que há temas, especialmente nas redes sociais, que servem apenas para trocas de acusações absurdas e estéreis e gáudio de quem as manobra, incólume, na sombra, metendo achas, quando a agenda lhe coincide, ainda assim, apetece-me dizer (aqui) que me sinto bastante próxima das palavras do Carlos G. Pinto. 

Nunca serei a favor da penalização da mulher, relativamente à prática do aborto, por variadas razões, mas considero desprezível a ideia que se acomodou naturalmente na sociedade, de que se trata de um acto banal e corriqueiro, e da sua desresponsabilização, como se se tratasse da simples remoção de um calo ou de uma verruga. A própria palavra interrupção é falaciosa, amenizando a prática, mas essa é uma questão menor neste desabafo.

Não tenho crenças religiosas, - creio na Natureza, se tanto -, e se me subjugo a algumas convenções morais instituídas, justifico-o pela falta de paciência/necessidade em tentar apelar às minhas convicções e pela superficialidade que tais actos reflectem na minha vida. A minha questão com o aborto nada tem que ver com o céu ou o inferno, moralidade ou imoralidades, ideologias ou carneiradas, mas com a falta de reflexão sobre o mesmo. Banalizar um acto extremo, deixa-me indisposta. Assistir a isto foi o meu limite. Transformámo-nos numa sociedade chiclete e orgulhamo-nos disso. 

Nunca incentivei ninguém à prática do aborto, nem o seu contrário, - a decisão é profundamente íntima e intransmissível -, e já apoiei amigas durante o processo, o que em nada alterou a nossa amizade. Apenas que não me venham fazer da coisa uma bandeira de orgulho feminino.

Aceito estar errada no meu ponto de vista, não pretendo sequer convencer ninguém ao meu pensamento. É, apenas, a minha opinião.


16.3.16

Leviatã. Em busca dos gigantes do mar

Só mais tarde, ao viver sozinho em Londres, quando já tinha vinte e tais anos, decidi ensinar-me a nadar. Na gelada piscina de East End, construída no período entre as duas guerras, descobri que a água era capaz de suportar o meu corpo. Compreendi o que tinha perdido até àquele momento: a minha própria flutuabilidade. Não era uma questão de exercício: era antes a ideia de perder o pé, de permitir que outra coisa fosse responsável pela minha presença física no mundo; ser parte dele e estar separado dele ao mesmo tempo. De certa forma, tratava-se de uma reinvenção consciente, de uma maneira de enfrentar os meus medos.

[...]

As cidades e as civilizações erguem-se e caem, mas o mar é sempre o mar. «Não associamos a ideia de antiguidade ao oceano, nem nos perguntamos qual seria o seu aspecto há mil anos, como tantas vezes fazemos relativamente à terra, porque o oceano sempre foi igualmente selvagem e insondável», escreveu o filósofo Henry David Thoreau. «O oceano é um espaço selvagem que dá a volta ao globo, mais selvagem do que uma selva de Bengala, mais cheio de monstros, embatendo contra os molhes das nossas cidades e os jardins das nossas residências à beira-mar.»

[...]

A partir do momento em que o vemos, não conseguimos esquecê-lo, tal como quem nunca o viu é incapaz de descrevê-lo.


in Prólogo, Leviatã. Em busca dos gigantes do mar, Philip Hoare


15.3.16

Love Will Tear Us Apart



obrigada, vidro azul


Hogar dulce Hogar

el cáncer

la muerte no sería tan mala
si se pudiera traer a casa
si no hubiera que levantarse
si no hubiera que salir de la cama
si no hubiera que subirse a una ambulancia
si no hubiera que vivir en un hospital
si no hubiera que vivir entre desconocidos
si no hubiera que prescindir de las frazadas
del color de las frazadas de la casa
de la temperatura del color de las frazadas de la casa.

morir no sería tan malo si todo pasara en la casa
y con los de la casa
si uno tuviera la suerte de tener una casa

lo peor del cáncer y de la muerte son la burocracia y el ajetreo
de los cambios de ropa y el frío de los pasillos y el frío de
las miradas de los extraños (de los que no sufren porque tú sufres
de los que no sufren porque tú vas a morir)
y la indiferencia de las calles y de los muros de las calles
y la indiferencia mortal del hospital y de todo lo que lame
y cubre por dentro a un hospital.

morir no sería tan malo
sufrir no sería tan malo
si se sufriera en la casa
si se supiera que nada ni nadie nos sacará
-en caso de morir o sufrir-
de la casa


Ryuichi Sakamoto



[The Revenant - Main Theme]
obrigada, vidro azul


Más y más turbación

Llego y
me masturbo
¿Que más
puedo hacer?
Me alivia
eyacular
fuera de ti.
No dártelo
todo a ti
todo el tiempo.
Y no es
una masturbación
cualquiera
-como
la de la vaca
lechera-
Es
una masturbación
ausente
           sin sentido de culpa
                                      sin curas
sin religión
             sin sexo casi.
Es
una guerra
contra ti.
Me
tengo
que defender
de alguna manera
Y
me
masturbo
mirando
a una
modelo
italiana
            -la sensualitá
            under 20-
parecida
a ti.


14.3.16

In The Name Of Love





Dez letreiros célebres em tabernas de Lisboa no ano de 1806

Aqui administram-se bebidas com toda a sisudeza
Aqui tomam-se borracheiras mestras
Bebidas para sustentar o vício
Biblioteca universal de licores
Bom vinho para comer
Casa de prazer e alegria
Casa de bom despacho
Casa para senhoras
Licores femininos
Taberna boa em preço

in Lettreiros célebres, que se vem escritos nas portas de varias lojas desta capital: para servirem de taboleta e conhecimento ao Publico, vistos, examinados, e colligidos por hum Taful de Luneta (Oficina de Simão Tadeu Ferreira, Lisboa 1806)


ALL STRIPPED DOWN

Cavalheiro idoso, calvo e sem jeito
para foder procura quem o ature
e acredite (às vezes) na ressurreição.

Nunca leu livros, cospe grosso
e ronca. Assunto sério: morrer com alguém.

Manuel de Freitas


[obrigada, Ricardo.]



12.3.16

me too, Quincey.

daqui



"Cows are among the gentlest of breathing creatures; none show more passionate tenderness to their young when deprived of them—and, in short, I am not ashamed to profess a deep love for these quiet creatures."
- THOMAS DE QUINCEY,1821

8.3.16

MÃOTÓTEM


            Existe, lá, entre as sombras e o declinar dos vazios um homem deitado. Este alonga-se pelas estradas macias e a sua sombra persegue-o no seu repouso pela eternidade.
            Outrora, quando os caminhos eram possuídos de lama, o sangue que jorrava das crateras que contorcem os céus tinha o sabor mais puro que um seio de mãe pode ter.
            Assim, deitado, ele ergueu-se levemente apoiando-se no cotovelo direito e pôs-se a espreitar a eternidade. Esta era feita de si mesma sem direito algum a qualquer recompensa.
            Falou em surdina, quase com medo de acordar as trevas que sugam no povoado:

            «Aqui estou, semiconsciente, como morto que de repente acorda e que sente a sua insensibilidade projectar-se monótona no dia a dia infindável.
            Aqui estou, semimorto, como uma vela automática que se apaga na escuridão e se acende quando a luz do sol rompe ruidosa. Meu lamento não é raiva nem certeza. Espreitei na fechadura dos horizontes e o que eu julgava ser vácuo e raiva emplumada mostrou-se-me coalhado de cogumelos e de lagartas. Notei, em seguida, um perfume esquisito, cheiro forte de coxas queimadas que eu soube depois ser o excremento do sexo dos Deuses».

            A estrada interminável persegue-o. Um automóvel move-se interrompendo-lhe a locomovidade dos pensamentos.

            «Agora compreendo porque o vazio é uma ideia compacta e esta, inversamente, um conjunto de Deuses. Expulsei-os! Meu lamento não é raiva nem certeza. Sou eu, expulso dos meus pensamentos.»

Ergueu-se. Levantou e sacudiu as espáduas. Era mais alto que os montes.
Adiantou-se.
A sua sombra infindável persegue-o nos horizontes.


«es el oro hecho sombra: tu color. // el color de tu alma; pues tus ojos se van haciendo ella»


Daniel Ochoa de Olza

admirável mundo velho


duas mulheres valem (ainda) uma só pessoa.