visto aqui: máquina de escrever
28.2.16
27.2.16
24.2.16
quero trabalhar na central eléctrica, se faz favor.
«O emprego na central eléctrica fora o pai que lho arranjara depois de ter sido despedido do seu trabalho anterior, como chefe da estação dos correios da Universidade de Mississípi. Ao que parece, houve um professor qualquer que apresentou razoáveis motivos para uma queixa: a única forma de obter a sua correspondência era rebuscando no caixote do lixo das traseiras, onde com frequência iam parar directamente, por abrir, os sacos de cartas recebidos. Faulkner não gostava que lhe interrompessem a leitura, e a venda de selos caiu de maneira alarmante: a modos de explicação, Faulkner disse à família que não estava disposto a levantar-se continuamente para ir atender ao guichet e ter de agradecer a um filho da mãe qualquer o facto de ter dois cêntimos para comprar um selo.»
Vidas Escritas, Javier Marías (William Faulkner a Cavalo)
...tal e qual, amigo Faulkner...
22.2.16
tesouros da blogosfera ii
meninos e meninas, atenção!
Caros Senhores, Madames e Mademoiselles,
cocheiros, aguadeiras e criadas de copa,
pirataria, máfia russa, des/herdeiros de leste, multidão em geral,
a história que aqui vos deixo, delirium tremens à lagareiro,
foi ouvida numa tasca borrasca, sem grande ostentação,
não fosse o Polvo-poeta um monstrengo de estimação
e a dita palavrosa acompanhada de muita zurrapa espiritual.
falou de três belas bruxas,
santa tríade da zundapp,
e de uma vaca leiteira,
que salvaram de ir para abate,
depois, entre rodadas de bota(s) a baixo,
findadas em copos vazios,
misturou rum com gin,
e toda a noite passou a espasmaçar,
(rezando para não gregoriar).
juntou-se-lhe um inglês mal-cheiroso
que declamava poesia enrolada em cigarros de maconha
e arrotava a frutos do mar.
Sir William, de seu nome,
deve ter iludido o Polvo poeta, que não era pateta, mas se deixou cair na peta,
da pirata mulher,
e eis a razão pela qual,
cigano maltes,
assombrado de mau-tempo,
decidiu inventar,
tesouros da blogosfera
abençoada Mumu, assombração de Pirata, que deu esta novela [avé, Bruxas mái lindas da zundapp!]
Respostas
lamento, mas Mumu já nã ri...
Depardieu: Olá querida, que belo outfit, cheio de guisadinhos, hum, perdão guizinhos!
Dulcineia: Krido, ah,ah, escusa de me olhar para o decote...faz-me corar.
Depardieu: E o que fez à marrafa, tá tãããoo gira! E os cascos pintados de verde alface querida, ainda a acusam de ter ido às couves...
Dulcineia: Assim envaidece-me, Gérard, você é que é très beau, parece mesmo um Charolês, (é mesmo o meu tipo de homem- aparte, com um trejeito, virada para a blogosfera). Olhe trouxe-lhe cinco litros de leite; sei que é de muito alimento, querido.
Depardieu: Então e onde quer a minha estrelinha ir jantar? Pode ser a uma hamburgueria, ou sugere outra coisa, da última vez não conseguiu acabar o hamburguer, minha MuMu querida...
Dulcineia: A culpa é toda do papel que lhe deram, meu touro, você era suposto fazer-me em picado, lembra-se, então comecei a comer mas veio-me um prião à boca, Krido, e lembrei-me das vacas todas loucas...mas olhe por si é que estou louca, aquele Vascó é mesmo um bovino com olhar de carneiro mal morto, um ressabiado...um talhante!
Depardieu: Não fale assim do Vascó, vaquinha dos meus sonhos, não se esqueça que ele a escolheu para o papel principal, e contra-cear comigo não é para todas. Que belo naco que és, Krida!, (afagando-lhe o pescoço);
Dulcineia: Um chateaubriand, querido; trate-me bem! (aparte para a blogosfera, enquanto raspa o casco direito no chão)- um chatô, é o que és!)
Depardieu: Minha saborosa, chega-te aqui (aparte para a blogosfera- chega mas é para lá esses chifres);
Dulcineia: E sabe querido, eu ganhei àquelas grandes vacas do casting, as manas ruivas, e a outras loiras, mais de mil! Nenhuma tinha um pojadouro como o meu no portfólio, essa é que é essa!
Depardieu: Por mim chamo-lhe um figo, meu bifinho do lombo mal passado...
Dulcineia: Foi logo o que eu pensei, meu bem. (aparte para a blogosfera,-dou-te bifes e tu dás-me hamburguers...)
Depardieu: Pareceu-me ouvir qualquer coisa...olha, já me esquecia, trouxe-te um arganel de Paris...
Dulcineia: Já me chegam os brincos e o ferro de família. E o arganel é para quê, a esta hora?
Depardieu: Pour Dieu, usa-se, nunca reparou?(aparte para a bogosfera, é vaca mas não é burra)
Dulcineia: Olhe krido, vou ali aos bastidores e já venho. Está lá uma novilha giríssima ansiosa por te conhecer...
Depardieu: Não se mace, você é mais o meu género... (aparte para a blogosfera, Tenrinha, oh, até podem vir duas!)
Dulcineia: Eu quero o melhor para o meu Sancho Pança! (aparte para a blogosfera-Já vais ver como dás às de Vila Diogo!)
Dulcineia, dirigindo-se ao guarda-costas: Olhe Muhammad Bisonte, é Ali; depois já podemos ir jantar descansados, eh, eh, eh.
[do teatro a oito tentáculos, em duas cenas e um acto, já lá iremos. também não esquecemos os diários de bordo gatafunhados sob o efeito pingão do rum a martelo...]
21.2.16
«Fora de quê?»
Cristina Nobre Soares, in Em Linha Recta
Henri Lopes, 78 anos, escritor congolês, afirmou no seu livro de ensaios My Bantu Grandmother (2003): "Richard Wright, Langston Hughes, James Baldwin, Nicolás Guillén, Lovelace nunca puseram um pé no Congo e mesmo assim falam comigo." Ele falava da origem comum, longínqua por vezes, a da diáspora negra.
Fatou Diome, senegalesa de 47 anos, é ainda mais abrangente: "Já não sei quem - se a africana, a europeia, a mulher viajada ou a rapariga negra - é a responsável pela textura do meu trabalho", disse no artigo da Sunday Book Review à sua colega de origem iraniana, Azam Zanganeh. Essa é uma das condições para escrever de fora: não saber o que é estar-se de fora. Fora de quê?
Isabel Lucas, Escrever fora do mapa do território, in XXI Ter Opinião (nº 6)
[artigo soberbo, vale a pena.]
Haxixe
Baudelaire faz questão de referir que, na parte do Haxixe, lhe valeu "um livro inglês excessivamente curioso (Diário de um Opiómano, de Thomas de Quincey)", e eu fico contente por reencontrar velhos amigos em casa de anfitrião tão encantador.
IV
O HAXIXE
[...]
Eis uma composta verde, singularmente odorífera, de tal modo odorífera que provoca uma certa repulsa, como aconteceria, aliás, com qualquer odor requintado levado ao extremo da sua força e por assim dizer da sua densidade. Agarre numa porção do tamanho de uma noz, encha uma pequena colher, e estará na posse da felicidade; da felicidade absoluta com toda a sua embriaguês, todas as loucuras de juventude, e também todas as beatitudes infinitas. A felicidade está ali, sob forma de um bocadinho de compota; sirva-se sem receio, não se morre por isso; os órgãos físicos não são prejudicados. É possível que a sua vontade se torne menor, isso é outra história.
Geralmente para dar ao haxixe toda a força e desenvolvimento, é preciso dilui-lo em café muito quente, e tomá-lo em jejum; o jantar é adiado para as dez horas ou para a meia-noite; apenas uma sopa muito leve é permitida. Uma infracção a esta regra tão simples produziria ou vómitos, ou a ineficácia do haxixe. Muitos ignorantes ou imbecis que assim se comportam acusam o haxixe de impotência.
[...]
Do Vinho e do Haxixe, Charles Baudelaire
20.2.16
Umberto Eco [1923-2016]
de Umberto Eco, primeiro em filme - numa aula de filosofia - pela mão de Jean-Jacques Annaud, depois o livro, O Nome da Rosa.
mas também, entre muitos outros, com um carinho muito especial, Palomar [Palomar é o nome de um famoso observatório astronômico que durante muito tempo ostentou o maior telescópio do mundo. Por intencional ironia, é também o nome do protagonista destes textos curtos de Italo Calvino, pois este senhor Palomar é todo olhos, mas funciona quase sempre como se fosse um telescópio ao contrário, voltado não para a amplidão do espaço, mas para as coisas próximas do cotidiano. É como se ele nos dissesse que as grandes questões do mundo e da existência também estão presentes em cada objeto que observamos, em cada cena que presenciamos, e que tudo é digno de ser interrogado e pensado.]
[um forte abraço ao JM, leitor/admirador confesso do Sr. Palomar, e que, no seu extinto blog, tão bem o reinventava.]
a 20.2.1909, é publicado no jornal francês Le Figaro, o Manifesto Futurista, de Filippo Tommaso Marinetti.
eu, Sísifa, me confesso
Sísifo nunca tinha encontrado na vida um prazer comparável ao gozo de ver a pedra rolar pelo barranco abaixo e soltá-la no momento em que pudesse assustar qualquer sombra desprevenida a passear pelo vale. Com esse tão variado divertimento conseguia assim que o seu trabalho se convertesse no automatismo de uma acção reflexa (nome que, segundo entendo, os homens de ciências atribuem a todos os actos que executamos sem pensar).
J. L. Borges e Bioy Casares, Livro do Céu e do Inferno
9.2.16
A Ronda da Noite
— O Rogério Conceição, em oito segundos, resolve isto.
Oito segundos é o recorde dele.
Maria Rosa olhou para ela com inquietação. Não a censurava,
mas tudo aquilo lhe parecia parte duma maldição que
pesava sobre as mulheres. Alguém lhe tinha dito que o mundo
só tinha salvação quando as mulheres deixassem de ter filhos e
os sexos fossem um só. Era inconcebível, mas talvez se chegasse
lá um dia.
— Onde ouviste isso? — disse Patrícia. Aquilo parecia-lhe um atentado à sua dignidade, embora ela visse, nesse
momento, a sua dignidade bastante comprometida.
— Não sei.
— Comigo não faças mistérios.
— Não faço mistérios, não sou pessoa para isso. Foi uma
coisa que li.
— O que andas tu a ler, menina? Depois da Lady
Chaterley julguei que já tinhas lido tudo. E agora vens-me com
essa do sexo único. Fazes ideia do que estás a dizer?
— Faço. Já não te metias em sarilhos nem ias parar a uma
clínica onde te remexem nas entranhas como se estivessem a
abrir um cofre em oito segundos! Já é ser perito de arrombamento!
Fazes-me rir e chorar ao mesmo tempo.
— Tu nunca choras, Maria Rosa.
— Às vezes. Chorei um dia, quando tinha quatro anos e
me cortaram o cabelo à rapaz. Dei gritos tamanhos que até se
ouviram nos vizinhos. E não era pequena distância; nós vivíamos
num chalé dentro dum jardim grande.
— Não querias parecer um rapaz.
— Não sei. Era uma grande pena. Nunca me senti tão
infeliz depois disso. Às vezes pensava no que me fez chorar tanto e não encontro o motivo. Morreu-me um filho em
pequenino mas não é a mesma coisa. Estás certa que sermos
mulheres é a origem de todo o mal? O desejo dos homens, o
prazer com que convencem o desejo, são coisas horríveis, se
lhes pintarmos toda a sorte de maldades que são o excitante
necessário. Já agora que falaste de Lady Chaterley, essa
mulher tremenda e sem compaixão. Sem compaixão, o sexo é
uma batalha vulgar, um crime como não há outro igual.
— Deixas-me arrasada. Agora não sei se hei-de fazer o
aborto ou não. Dizes bem: aquele burro do Lawrence não percebeu
nada das mulheres. Ou só percebeu o que era para perceber
por ele próprio. Não houve o primeiro Adão mas a primeira
Eva. Dá-me mais uma pinga de chá. Onde compras o
chá? A mamã comprava-o numa loja de modas, era chique.
Nunca percebi a diferença do que é chique e do que não é chique.
Disse-me o Mariano, que é professor na Universidade:
“Porque é que o amarelo não há-de dizer com o rosa?” Depois
as cores psicadélicas ficaram na moda. É uma questão de
votos e não de gostos? O que é que faz o voto?
— Tem pena de mim. Choveu todo o dia e a chauffage
avariou. O voto é uma inveja compulsiva, aí tens.
Passados dias Patrícia Xavier morreu e aquilo entendeu-se
como um desastre. Os médicos calaram-se no diagnóstico, o
que levantou mais suspeitas, tanto mais que ela tinha recorrido
a uma parteira e não teve a assistência do tal experiente arrombador
de cofres.
A Ronda da Noite, Agustina Bessa-Luís
Amarantina, a Grande
Nem Dona Agustina [que, diga-se, soa a gozação de gente pequena, habituada a mandar as mulheres para a cozinha], nem Maria Agustina, [tratamento que os mais próximos lhe reservavam], o que Agustina gostava mesmo era de ser tratada por Amarantina.
----
leia-se a Ler - 2009
6.2.16
a carn val?
in Menino de Sua Mãe
Sim, faço parte do grupo dos sem graça que dispensa o Carnaval. Pior, em dias de tpm, era mulher para mandar abolir essa azucrinação.
Mas que ninguém se iniba por causa de um grupo de enjoadinhos. Samba nessas nádegas e muita alegria!!
4.2.16
a morte ii
Os nossos mundos e o nosso universo não nos sobreviverão por muito mais tempo. No final, a entropia tudo consumirá e os nossos débeis esforços não podem impedir esse fim terrível. Terá terminado. Nunca terá sido. Nunca foi sequer importante. O próprio universo está condenado, é passageiro, indiferente.
O Caminho da Cruz e do Dragão, George R. R. Martin
Kevin Schawinski
[02/02/2016]
2.2.16
a morte
[...] - Nós, os Mentirosos, tal como os outros de todas as religiões temos diversas verdades que aceitamos como fé. A Fé é sempre exigida. Algumas coisas não podem ser provadas. Acreditamos que a vida vale a pena ser vivida. Isso é um acto de fé. O objectivo da vida é viver, resistir à morte, talvez desafiar a entropia.
- Continue - disse, interessado, apesar de tudo.
- Também acreditamos que a felicidade é uma coisa boa, algo que vale a pena procurar.
- A Igreja não se opõe à felicidade - disse secamente.
- Pergunto-me se será mesmo assim - disse Lukyan. - Mas não sejamos picuinhas. Qualquer que seja a posição da Igreja sobre a felicidade, ela prega a crença na vida depois da morte, num ser supremo e num complexo código moral.
- Verdade.
- Os Mentirosos não acreditam na vida depois da morte, em Deus. Vemos o universo como ele é, Padre Damien, e estas verdades nuas, são verdades cruas. Nós, que acreditamos na vida, que a estimamos, vamos morrer. Depois disso não haverá nada, vazio eterno, escuridão, não-existência. Não houve uma finalidade na nossa vida, nenhuma poesia, nenhum significado. Nem as nossas mortes possuem características. Quando nos formos embora, o universo não se lembrará de nós por muito tempo, e em breve será como se nunca tivéssemos sequer vivido.
[...]
O Caminho da Cruz e do Dragão, George R. R. Martin
Não te esqueças de viver! - Maria Filomena Molder
[Ciclo de Conferências da Culturgest]
31.1.16
25.1.16
II - Dois Candidatos
Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podridão dos
vereadores em particular, e da humanidade em geral, prometeu a
onze retratos, que tinha de onze avós, pintados indignamente,
nunca mais tocar o cancro social com suas mãos impolutas.
Neste propósito, nem ao menos consentiu que o vigário lhe
mandasse o Periódico dos Pobres do Porto, de que era assinante
emparceirado com mais quatro reitores limítrofes, e o mestre-escola e o boticário.
Um dia, porém, quando ele saía da festividade de S. Sebastião,
cujo mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais
graúdos lavradores da sua freguesia e das vizinhas. Noutro grupo,
falava-se do sermão, e da constância do santo capitão das guardas
do bárbaro Diocleciano, e da desmoralização do império.
Estas puxadas reflexões era o boticário que as expendia, coadjuvado
pelo mestre de primeiras letras, sujeito que sabia mais história romana do que é permitido a um professor da preciosa e capitalíssima
ciência de ler, contar e escrever, pelo que o sábio vinha a
granjear para a humanidade a ciência, e para ele nove vinténs e
meio por dia. E comia o sábio estes nove vinténs e meio quotidianos,
e ensinava os rapazes, e sobejava-lhe tempo para ler história!
Pudera!… Os governos davam-lhe férias grandes ao estômago, em
proveito do espírito. Se ele andasse bem nutrido e sucado de tripa,
não aprendia nem ensinava coisa de monta. Que a pobreza é o estímulo das maiores façanhas da inteligência. Paupertas impulit audax. Isto que o Horácio faminto dizia de si, acomodam-no os regedores
da coisa pública aos professores de primeiras letras; porém,
outros muitos versos do Horácio farto, esses, tomam-nos eles para
seu uso.
A Queda de um Anjo, (do grande) Camilo Castelo Branco
(da biblioteca digital da Porto Editora)
I - O Herói Do Conto
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda. Seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da Igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do Sr. rei D. Afonso I, fundador de Miranda.
Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure. Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projectada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo do casal algum tanto, e muito à leitura de copiosa livraria, parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cónegos, desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima de sua mãe.
Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, ignorante mais que o necessário para ter juízo.
Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da
comarca; e, com o rodar de dez anos, prosperou a olho, tendo grande parte neste incremento a parcimónia a que o morgado circunscreveu
seus prazeres, e, por sobre isto, o génio cainho e apertado de D. Teodora.
Remenda teu pano, chegar-te-á ao ano, dizia a morgada de Travanca;
e, aferrada ao seu adágio predilecto, remendava sempre, e
cerzia com perfeição justamente admirada entre a família, e falada
como exemplo na área de quatro léguas, ou mais.
[...]
É supérfluo dizer-se a qual doutrinação política pendia o ânimo
do morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das Cortes
de Lamego. Fizera-se nelas, e cuidava ter assistido, em 1145,
àquele congresso mitológico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes
da Maia, e com Lourenço Viegas, o Espadeiro: Nos liberi sumus, rex
noster liber est. Todavia, se assim fossem todos os doutrinários políticos, a gente apodreceria na mais refestada paz e supina ignorância
do andamento da humanidade.
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse
o passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de
João das Regras e Martim de Ocem, como o mosteiro da Batalha, as
Ordenações Manuelinas como o convento dos Jerónimos.
O mal que de aqui surdia ao género humano, a falar verdade,
era nenhum. Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar
desdouros nas gerações das famílias patrícias, era inofensiva criatura.
Deste senão, a causa foi um chamado Livro-Negro, que herdara
de seu tio-avô Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão,
genealógico vaporoso, o qual gastara sessenta dos oitenta anos vividos,
a coligir borrões, travessias, mancebias, adultérios, coitos
danados e incestos de muitas famílias, naquelas satânicas costaneiras,
denominadas Livro-Negro das Linhagens de Portugal.
Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de
empecer a roda do progresso, contanto que o progresso não lhe
entrasse em casa, nem o quisesse levar consigo.
Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência
municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou
de feitio e jeito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um
alcaide do século XV levantado do seu jazigo da catedral. Queria
ele que se restaurassem as leis do foral dado a Miranda pelo
monarca fundador. Este requerimento gelou de espanto os vereadores;
destes, os que puderam degelar-se riram na cara do seu presidente,
e emendaram a galhofa dizendo que a humanidade havia já
caminhado sete séculos depois que Miranda tivera foral.
— Pois se caminhou, — replicou o presidente — não caminhou
direita. Os homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis
devem ser sempre as mesmas.
— Mas… — retorquiu a oposição ilustrada — o regímen municipal
expirou em 1211, Sr. presidente! V. Ex.a não ignora que háhoje um código de leis comuns de todo o território português, e que
desde Afonso II se estatuíram leis gerais. V. Ex.a decerto leu isto…
— Li — atalhou Calisto de Barbuda — mas reprovo!
— Pois seria útil e racional que V. Ex..a aprovasse.
— Útil a quem? — perguntou o presidente.
— Ao município — responderam.
— Aprovem os senhores vereadores, e façam obra por essas leis,
que eu despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou
rei e governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.
Disse; saiu; e nunca mais voltou à Câmara.
A Queda de um Anjo, (do grande) Camilo Castelo Branco
(da biblioteca digital da Porto Editora)
23.1.16
Cabeceira
Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão
Ana Cristina Cesar. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão
Ana Cristina Cesar. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
20.1.16
19.1.16
18.1.16
45 anos
Charlotte Rampling (que mulher!, que actriz!) e Tom Courtenay, brilhantes. igualmente brilhante, Andrew Haigh, que escreveu e realizou esta história, baseada num conto de David Constantine.
não entendo por que diabos eu era a única a baixo dos quarenta, numa sala quase vazia...
17.1.16
16.1.16
Sicario
um bom filme [as cenas de acção e de tensão são fenomenais], alguns lugares-comuns, menos falso moralismo americano, Emily Blunt está a mais no papel, (ou) Kate Macer está a mais no filme.
humanista
não sou feminista, sou humanista, luto pelo respeito ao ser humano. sou pela igualdade de oportunidades, não pela igualdade de géneros, porque não creio que se possa/deva igualar o que não é igual. não significa isto que não saiba quão desiguais têm sido, na maioria das vezes, as oportunidades para as mulheres e que muito do trabalho a ser feito deverá ser em prol delas. (a não esquecer que parte desse trabalho cabe também às mulheres).
feita a introdução, que vale o que vale - e muito vale para mim -, pergunto-me, depois de ler algumas das posições que correm pela internet - e que fique claro, de que todos e cada um têm direito à sua -, o que faz uma mulher afirmar que não é feminista porque não quer ter de pendurar quadros na parede... sei quão injusta posso estar a ser, não revelando a fonte, e correndo o risco de desvirtualizar o resto do texto (não), mas são apenas estas palavras - e a ideia monstruosa de preconceito que transportam - as que me interessa observar. que se diga que não se tem jeito ou vontade para trabalhos manuais, aceito e respeito - o mesmo acontece com as tarefas domésticas -, mas isso nada tem que ver com géneros. eu, por exemplo, detesto limpar, por isso, pago a alguém para o fazer, coisa que não fiz, quando foi preciso pendurar os quadros (e os candeeiros), agarrei no berbequim, escolhi a broca certa, (basta ver o tamanho das buchas) e lá subi eu, feliz da vida, ao escadote. não me lembro se o fiz calçando um belo par de sapatos de salto alto, mas pode muito bem ter acontecido - não fosse alguém julgar que não estou contente com a minha condição feminina.
gracejos à parte, combata-se o preconceito, respeite-se e ajude-se a maternidade/paternidade, puna-se - no tribunal e na opinião pública - a violência doméstica/pública/e afins, e metade do trabalho estará feito. sei que não é fácil, que o mundo não é apenas a europa, - e mesmo a europa, não é apenas paris, londres ou berlim. mas essa idolatria às palavras/conceito, surgidas em sede própria, com tiques de guerrilha, serve mesmo para quê?
15.1.16
14.1.16
um livro
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
que fala com a nossa voz?
É então a isto que chamam "livro",
a este coração (o nosso coração)
dizendo "eu" entre nós e nós?
Manuel António Pina
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
que fala com a nossa voz?
É então a isto que chamam "livro",
a este coração (o nosso coração)
dizendo "eu" entre nós e nós?
Manuel António Pina
13.1.16
felicidade
Eu não consigo imaginar uma maior felicidade que aquela que sinto
ao estar contigo durante todo o tempo, sem interrupção, infinitamente,
mesmo que sinta que aqui neste mundo não existe nenhum lugar sem
perturbações para o nosso amor, tanto aqui na aldeia como em qualquer
outro sítio; e eu sonho com um túmulo, profundo e estreito, onde podemos
apertar-nos um ao outro com os nossos braços como se fossem ganchos,
e eu esconderia o meu rosto em ti e tu esconderias o teu rosto em mim,
e ninguém jamais nos iria ver nunca mais.
Franz Kafka, in O Castelo
12.1.16
Es el verbo tan frágil
«El médico le rogó que tratase de ser más concisa: “Exactamente, ¿dónde le duele?”.
Pero, en el transcurso del movimiento del dedo índice hacia la rodilla, aquel
dolor metálico se disolvía en una especie de cosquilleo burbujeante en el talón izquierdo.
Detuvo la mano avergonzada y empezó de nuevo, tratando esta vez de prestar un
poco más de atención.»
Sandra Santana, Es el verbo tan frágil
O médico pediu-lhe que tentasse ser mais precisa: “Onde dói, exatamente?”. Mas,
no trajeto em movimento do dedo indicador ao joelho, aquela dor metálica se
dissolvia em uma espécie de cócega borbulhante no calcanhar esquerdo. Deteve a mão
constrangida e começou de novo, tentando prestar desta vez um pouco mais de atenção.
[trad. de Ricardo Domeneck]
daqui: modo de usar & co.
...
A nossa época é essencialmente trágica, e, por isso, recusamo-nos a vivê-la como tragédia. O cataclismo deu-se, estamos rodeados de ruínas, começamos a construir outras maneiras de viver, a alimentar novas pequenas esperanças. É uma tarefa difícil, já não há nenhuma estrada suave em direcção ao futuro: passamos ao lado dos obstáculos, ou saltamos-lhes em cima. Temos de viver para além de todos os céus que desabaram sobre as nossas cabeças.
O amante de Lady Chatterley, D. H. Lawrence
11.1.16
farolim de bicicleta
se o meu amor fosse
uma chama, ou um farolim de bicicleta,
não teria, decerto, estas mãos telegráficas cantando
à chuva, num pátio sem antepassados;
iria, de pneu sobresselente a tiracolo, até ao cimo
da corola terrestre, só
pelo poder da natureza.
À volta das mesas, um sussurro acompanha
o seu discurso amplo, o esvoaçar sublime
das mangas arregaçadas. Não assim.
Escoa-se na cal, nos fios de tinta,
fica poroso e vil em meio à cinta.
Fosse um braço a romper pedra! E não assim: perdido
dentro de mim, como uma mosca absorta.
António Franco Alexandre, in Poemas, Assírio & Alvim
uma chama, ou um farolim de bicicleta,
não teria, decerto, estas mãos telegráficas cantando
à chuva, num pátio sem antepassados;
iria, de pneu sobresselente a tiracolo, até ao cimo
da corola terrestre, só
pelo poder da natureza.
À volta das mesas, um sussurro acompanha
o seu discurso amplo, o esvoaçar sublime
das mangas arregaçadas. Não assim.
Escoa-se na cal, nos fios de tinta,
fica poroso e vil em meio à cinta.
Fosse um braço a romper pedra! E não assim: perdido
dentro de mim, como uma mosca absorta.
António Franco Alexandre, in Poemas, Assírio & Alvim
10.1.16
“Stravinsky once told me that intellectuals have no taste. And I’ve tried my whole life to not be an intellectual”.
Youth, parece que tem tudo para ser um grande filme (a beleza de Sorrentino, bons planos, boa fotografia, bons actores, bons diálogos), mas -- para mim -- ficou bastante aquém. há qualquer coisa, não sei, demasiado forçada. demasiado expectável.
roubo a frase a Hugo Gomes: Entre spas e saunas, Youth converte-se gradualmente numa poesia industrializada sobre a velhice e a confrontação com o passado, num registo que por si já parece "velho" no grande ecrã.
9.1.16
Dividir para reinar no Egito*
«Há quase mil anos, durante o Califado Fatímida - que se estendia, no seu apogeu, do oceano Atlântico, a oeste, à Península Arábia, a leste - um oleiro sentou-se no seu ateliê, no Cairo, e fez uma tigela. As técnicas que utilizou, da forma do barro ao vidrado metálico e à decoração aplicada após a cozedura, eram notoriamente islâmicas. O sacerdote que pintou no interior da tigela era inconfundivelmente cristão.
A tigela é um dos vários objetos expostos no Museu Britânico ["Egito: fé depois dos faraós", até 7 de fevereiro em Londres]. Contam a história de um encontro de fés no Egito. Numa carta amarelada, com quase um milénio, um mercador judeu louva os seus parceiros comerciais muçulmanos. Páginas de bíblias medievais hebraicas e cristãs surgem lado a lado com um Corão com oito séculos. A história de pluralismo religioso no Egito é rica e matizada. Tal como é, infelizmente, o currículo dos que têm ocupado o poder no que toca a explorar e manipular as divergências religiosas ao longo dos séculos, em seu próprio benefício.
[...]
Nada é mais perigoso para as elites dominantes do que os egípcios que se assumem como cidadãos autónomos e não dependentes. Daí que a contrarrevolução tenha lutado por repor uma cultura de controlo vindo de cima e obediência imposta em baixo.
Para tal, enredou-se na politica egípcia uma estirpe de nacionalismo chauvinista, que reforça linhas de fratura diversas, vistas como menos ameaçadoras para o antigo regime. Em vez de cidadãos de diferentes fés e passados unidos para derrubar as instituições repressivas do Estado, o atual Presidente, Abdul Fatah al-Sisi, exige uma população agradecida e vergada, que forme "uma mão" com os líderes políticos, banindo dissidentes para tão longe quanto possível, excluindo-os do agregado familiar.
[...]»
Jack Shenker, in Courrier internacional - Jan/2016
8.1.16
7.1.16
This Is The End Of Everything
This is the end of everything
My head explodes, but my heart sinks
Take comfort in the knowledge that, it's over now
This is the end.
I will never see the light again
«Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro.»
Detesto toda a psicologia.
Pelo menos tanto como o homem de trabalho
e os escritores movidos a bons sentimentos,
que o querem entreter ou melhorar ao módico
preço dos direitos de autor. Para me sustentar
tenho todas as loiras do mundo. E não são poucas.
De ambos os sexos e qualquer côr de cabelo.
É o que basta. A somar ao jogo. O jogo de
sonhar acordado. Sou o chulo vigil dos pesadelos
das mães. As nossas e as delas. A fera com
mais inteligência que moral. Uma inteligência manipuladora.
O abismo brilhante. Um falo que fosse vaso.
Disputo corridas sem sair do lugar e, por isso, sou
sempre o primeiro a alcançar a meta riscada no chão
com o giz líquido do meu sémen. Os outros chegam
estafados. Caem de borco. Matam a sede na fonte desse giz.
E pagam o pecado. A minha religião indulgencia-me sempre.
Sou o Papa Negro das Noites Brancas. O Papa Branco das Noites Negras.
Sou cinzento. Como as balanças que aferem o peso para aferir o custo.
Estou afinado. Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro.
A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho.
Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras. O formol é para os Deuses.
in Cirrose, FendaPelo menos tanto como o homem de trabalho
e os escritores movidos a bons sentimentos,
que o querem entreter ou melhorar ao módico
preço dos direitos de autor. Para me sustentar
tenho todas as loiras do mundo. E não são poucas.
De ambos os sexos e qualquer côr de cabelo.
É o que basta. A somar ao jogo. O jogo de
sonhar acordado. Sou o chulo vigil dos pesadelos
das mães. As nossas e as delas. A fera com
mais inteligência que moral. Uma inteligência manipuladora.
O abismo brilhante. Um falo que fosse vaso.
Disputo corridas sem sair do lugar e, por isso, sou
sempre o primeiro a alcançar a meta riscada no chão
com o giz líquido do meu sémen. Os outros chegam
estafados. Caem de borco. Matam a sede na fonte desse giz.
E pagam o pecado. A minha religião indulgencia-me sempre.
Sou o Papa Negro das Noites Brancas. O Papa Branco das Noites Negras.
Sou cinzento. Como as balanças que aferem o peso para aferir o custo.
Estou afinado. Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro.
A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho.
Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras. O formol é para os Deuses.
era uma vez...
Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve.
Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem a couve
passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando
o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a
sua própria alimentação. O coelhinho, que tinha um coração
muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava
considerava-a como sua verdadeira mãe. A mãe couve e o seu
filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia
uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras. O
coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam
tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo
da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco
dano lhe fizessem. Quando aqueles insectos daninhos levantaram
voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de
areias e pedra. O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas
proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos
quilómetros de distância a fim de procurar comida. Mas já
nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras. Passaram
muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro
mais magro e faminto. Então a mãe couve disse-lhe assim:
“Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar
o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu
viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser
eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu
quero dizer?” O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande
tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.
Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem a couve
passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando
o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a
sua própria alimentação. O coelhinho, que tinha um coração
muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava
considerava-a como sua verdadeira mãe. A mãe couve e o seu
filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia
uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras. O
coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam
tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo
da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco
dano lhe fizessem. Quando aqueles insectos daninhos levantaram
voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de
areias e pedra. O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas
proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos
quilómetros de distância a fim de procurar comida. Mas já
nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras. Passaram
muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro
mais magro e faminto. Então a mãe couve disse-lhe assim:
“Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar
o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu
viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser
eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu
quero dizer?” O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande
tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.
6.1.16
teorias
O que comunica uma língua? Comunica a essência espiritual que lhe corresponde. É fundamental saber que esta essência espiritual se comunica na língua, e não por meio da língua. Não existe, portanto, o falante das línguas, se por isso entendermos aquele que se comunica por meio dessas línguas. A essência espiritual comunica-se numa língua e não por meio de uma língua — e isto quer dizer que não se identifica, a partir de fora, com a essência da linguagem.
Linguagem, Tradução, Literatura, Walter Benjamin, Assírio & Alvim
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Au revoir, ma chérie, Mu, Mu!