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| Filip Hodas |
31.1.16
25.1.16
II - Dois Candidatos
Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podridão dos
vereadores em particular, e da humanidade em geral, prometeu a
onze retratos, que tinha de onze avós, pintados indignamente,
nunca mais tocar o cancro social com suas mãos impolutas.
Neste propósito, nem ao menos consentiu que o vigário lhe
mandasse o Periódico dos Pobres do Porto, de que era assinante
emparceirado com mais quatro reitores limítrofes, e o mestre-escola e o boticário.
Um dia, porém, quando ele saía da festividade de S. Sebastião,
cujo mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais
graúdos lavradores da sua freguesia e das vizinhas. Noutro grupo,
falava-se do sermão, e da constância do santo capitão das guardas
do bárbaro Diocleciano, e da desmoralização do império.
Estas puxadas reflexões era o boticário que as expendia, coadjuvado
pelo mestre de primeiras letras, sujeito que sabia mais história romana do que é permitido a um professor da preciosa e capitalíssima
ciência de ler, contar e escrever, pelo que o sábio vinha a
granjear para a humanidade a ciência, e para ele nove vinténs e
meio por dia. E comia o sábio estes nove vinténs e meio quotidianos,
e ensinava os rapazes, e sobejava-lhe tempo para ler história!
Pudera!… Os governos davam-lhe férias grandes ao estômago, em
proveito do espírito. Se ele andasse bem nutrido e sucado de tripa,
não aprendia nem ensinava coisa de monta. Que a pobreza é o estímulo das maiores façanhas da inteligência. Paupertas impulit audax. Isto que o Horácio faminto dizia de si, acomodam-no os regedores
da coisa pública aos professores de primeiras letras; porém,
outros muitos versos do Horácio farto, esses, tomam-nos eles para
seu uso.
A Queda de um Anjo, (do grande) Camilo Castelo Branco
(da biblioteca digital da Porto Editora)
I - O Herói Do Conto
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda. Seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da Igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do Sr. rei D. Afonso I, fundador de Miranda.
Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure. Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projectada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo do casal algum tanto, e muito à leitura de copiosa livraria, parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cónegos, desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima de sua mãe.
Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, ignorante mais que o necessário para ter juízo.
Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da
comarca; e, com o rodar de dez anos, prosperou a olho, tendo grande parte neste incremento a parcimónia a que o morgado circunscreveu
seus prazeres, e, por sobre isto, o génio cainho e apertado de D. Teodora.
Remenda teu pano, chegar-te-á ao ano, dizia a morgada de Travanca;
e, aferrada ao seu adágio predilecto, remendava sempre, e
cerzia com perfeição justamente admirada entre a família, e falada
como exemplo na área de quatro léguas, ou mais.
[...]
É supérfluo dizer-se a qual doutrinação política pendia o ânimo
do morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das Cortes
de Lamego. Fizera-se nelas, e cuidava ter assistido, em 1145,
àquele congresso mitológico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes
da Maia, e com Lourenço Viegas, o Espadeiro: Nos liberi sumus, rex
noster liber est. Todavia, se assim fossem todos os doutrinários políticos, a gente apodreceria na mais refestada paz e supina ignorância
do andamento da humanidade.
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse
o passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de
João das Regras e Martim de Ocem, como o mosteiro da Batalha, as
Ordenações Manuelinas como o convento dos Jerónimos.
O mal que de aqui surdia ao género humano, a falar verdade,
era nenhum. Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar
desdouros nas gerações das famílias patrícias, era inofensiva criatura.
Deste senão, a causa foi um chamado Livro-Negro, que herdara
de seu tio-avô Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão,
genealógico vaporoso, o qual gastara sessenta dos oitenta anos vividos,
a coligir borrões, travessias, mancebias, adultérios, coitos
danados e incestos de muitas famílias, naquelas satânicas costaneiras,
denominadas Livro-Negro das Linhagens de Portugal.
Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de
empecer a roda do progresso, contanto que o progresso não lhe
entrasse em casa, nem o quisesse levar consigo.
Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência
municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou
de feitio e jeito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um
alcaide do século XV levantado do seu jazigo da catedral. Queria
ele que se restaurassem as leis do foral dado a Miranda pelo
monarca fundador. Este requerimento gelou de espanto os vereadores;
destes, os que puderam degelar-se riram na cara do seu presidente,
e emendaram a galhofa dizendo que a humanidade havia já
caminhado sete séculos depois que Miranda tivera foral.
— Pois se caminhou, — replicou o presidente — não caminhou
direita. Os homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis
devem ser sempre as mesmas.
— Mas… — retorquiu a oposição ilustrada — o regímen municipal
expirou em 1211, Sr. presidente! V. Ex.a não ignora que háhoje um código de leis comuns de todo o território português, e que
desde Afonso II se estatuíram leis gerais. V. Ex.a decerto leu isto…
— Li — atalhou Calisto de Barbuda — mas reprovo!
— Pois seria útil e racional que V. Ex..a aprovasse.
— Útil a quem? — perguntou o presidente.
— Ao município — responderam.
— Aprovem os senhores vereadores, e façam obra por essas leis,
que eu despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou
rei e governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.
Disse; saiu; e nunca mais voltou à Câmara.
A Queda de um Anjo, (do grande) Camilo Castelo Branco
(da biblioteca digital da Porto Editora)
23.1.16
Cabeceira
Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão
Ana Cristina Cesar. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão
Ana Cristina Cesar. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
20.1.16
19.1.16
18.1.16
45 anos
Charlotte Rampling (que mulher!, que actriz!) e Tom Courtenay, brilhantes. igualmente brilhante, Andrew Haigh, que escreveu e realizou esta história, baseada num conto de David Constantine.
não entendo por que diabos eu era a única a baixo dos quarenta, numa sala quase vazia...
17.1.16
16.1.16
Sicario
um bom filme [as cenas de acção e de tensão são fenomenais], alguns lugares-comuns, menos falso moralismo americano, Emily Blunt está a mais no papel, (ou) Kate Macer está a mais no filme.
humanista
não sou feminista, sou humanista, luto pelo respeito ao ser humano. sou pela igualdade de oportunidades, não pela igualdade de géneros, porque não creio que se possa/deva igualar o que não é igual. não significa isto que não saiba quão desiguais têm sido, na maioria das vezes, as oportunidades para as mulheres e que muito do trabalho a ser feito deverá ser em prol delas. (a não esquecer que parte desse trabalho cabe também às mulheres).
feita a introdução, que vale o que vale - e muito vale para mim -, pergunto-me, depois de ler algumas das posições que correm pela internet - e que fique claro, de que todos e cada um têm direito à sua -, o que faz uma mulher afirmar que não é feminista porque não quer ter de pendurar quadros na parede... sei quão injusta posso estar a ser, não revelando a fonte, e correndo o risco de desvirtualizar o resto do texto (não), mas são apenas estas palavras - e a ideia monstruosa de preconceito que transportam - as que me interessa observar. que se diga que não se tem jeito ou vontade para trabalhos manuais, aceito e respeito - o mesmo acontece com as tarefas domésticas -, mas isso nada tem que ver com géneros. eu, por exemplo, detesto limpar, por isso, pago a alguém para o fazer, coisa que não fiz, quando foi preciso pendurar os quadros (e os candeeiros), agarrei no berbequim, escolhi a broca certa, (basta ver o tamanho das buchas) e lá subi eu, feliz da vida, ao escadote. não me lembro se o fiz calçando um belo par de sapatos de salto alto, mas pode muito bem ter acontecido - não fosse alguém julgar que não estou contente com a minha condição feminina.
gracejos à parte, combata-se o preconceito, respeite-se e ajude-se a maternidade/paternidade, puna-se - no tribunal e na opinião pública - a violência doméstica/pública/e afins, e metade do trabalho estará feito. sei que não é fácil, que o mundo não é apenas a europa, - e mesmo a europa, não é apenas paris, londres ou berlim. mas essa idolatria às palavras/conceito, surgidas em sede própria, com tiques de guerrilha, serve mesmo para quê?
15.1.16
14.1.16
um livro
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
que fala com a nossa voz?
É então a isto que chamam "livro",
a este coração (o nosso coração)
dizendo "eu" entre nós e nós?
Manuel António Pina
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
que fala com a nossa voz?
É então a isto que chamam "livro",
a este coração (o nosso coração)
dizendo "eu" entre nós e nós?
Manuel António Pina
13.1.16
felicidade
Eu não consigo imaginar uma maior felicidade que aquela que sinto
ao estar contigo durante todo o tempo, sem interrupção, infinitamente,
mesmo que sinta que aqui neste mundo não existe nenhum lugar sem
perturbações para o nosso amor, tanto aqui na aldeia como em qualquer
outro sítio; e eu sonho com um túmulo, profundo e estreito, onde podemos
apertar-nos um ao outro com os nossos braços como se fossem ganchos,
e eu esconderia o meu rosto em ti e tu esconderias o teu rosto em mim,
e ninguém jamais nos iria ver nunca mais.
Franz Kafka, in O Castelo
12.1.16
Es el verbo tan frágil
«El médico le rogó que tratase de ser más concisa: “Exactamente, ¿dónde le duele?”.
Pero, en el transcurso del movimiento del dedo índice hacia la rodilla, aquel
dolor metálico se disolvía en una especie de cosquilleo burbujeante en el talón izquierdo.
Detuvo la mano avergonzada y empezó de nuevo, tratando esta vez de prestar un
poco más de atención.»
Sandra Santana, Es el verbo tan frágil
O médico pediu-lhe que tentasse ser mais precisa: “Onde dói, exatamente?”. Mas,
no trajeto em movimento do dedo indicador ao joelho, aquela dor metálica se
dissolvia em uma espécie de cócega borbulhante no calcanhar esquerdo. Deteve a mão
constrangida e começou de novo, tentando prestar desta vez um pouco mais de atenção.
[trad. de Ricardo Domeneck]
daqui: modo de usar & co.
...
A nossa época é essencialmente trágica, e, por isso, recusamo-nos a vivê-la como tragédia. O cataclismo deu-se, estamos rodeados de ruínas, começamos a construir outras maneiras de viver, a alimentar novas pequenas esperanças. É uma tarefa difícil, já não há nenhuma estrada suave em direcção ao futuro: passamos ao lado dos obstáculos, ou saltamos-lhes em cima. Temos de viver para além de todos os céus que desabaram sobre as nossas cabeças.
O amante de Lady Chatterley, D. H. Lawrence
11.1.16
farolim de bicicleta
se o meu amor fosse
uma chama, ou um farolim de bicicleta,
não teria, decerto, estas mãos telegráficas cantando
à chuva, num pátio sem antepassados;
iria, de pneu sobresselente a tiracolo, até ao cimo
da corola terrestre, só
pelo poder da natureza.
À volta das mesas, um sussurro acompanha
o seu discurso amplo, o esvoaçar sublime
das mangas arregaçadas. Não assim.
Escoa-se na cal, nos fios de tinta,
fica poroso e vil em meio à cinta.
Fosse um braço a romper pedra! E não assim: perdido
dentro de mim, como uma mosca absorta.
António Franco Alexandre, in Poemas, Assírio & Alvim
uma chama, ou um farolim de bicicleta,
não teria, decerto, estas mãos telegráficas cantando
à chuva, num pátio sem antepassados;
iria, de pneu sobresselente a tiracolo, até ao cimo
da corola terrestre, só
pelo poder da natureza.
À volta das mesas, um sussurro acompanha
o seu discurso amplo, o esvoaçar sublime
das mangas arregaçadas. Não assim.
Escoa-se na cal, nos fios de tinta,
fica poroso e vil em meio à cinta.
Fosse um braço a romper pedra! E não assim: perdido
dentro de mim, como uma mosca absorta.
António Franco Alexandre, in Poemas, Assírio & Alvim
10.1.16
“Stravinsky once told me that intellectuals have no taste. And I’ve tried my whole life to not be an intellectual”.
Youth, parece que tem tudo para ser um grande filme (a beleza de Sorrentino, bons planos, boa fotografia, bons actores, bons diálogos), mas -- para mim -- ficou bastante aquém. há qualquer coisa, não sei, demasiado forçada. demasiado expectável.
roubo a frase a Hugo Gomes: Entre spas e saunas, Youth converte-se gradualmente numa poesia industrializada sobre a velhice e a confrontação com o passado, num registo que por si já parece "velho" no grande ecrã.
9.1.16
Dividir para reinar no Egito*
«Há quase mil anos, durante o Califado Fatímida - que se estendia, no seu apogeu, do oceano Atlântico, a oeste, à Península Arábia, a leste - um oleiro sentou-se no seu ateliê, no Cairo, e fez uma tigela. As técnicas que utilizou, da forma do barro ao vidrado metálico e à decoração aplicada após a cozedura, eram notoriamente islâmicas. O sacerdote que pintou no interior da tigela era inconfundivelmente cristão.
A tigela é um dos vários objetos expostos no Museu Britânico ["Egito: fé depois dos faraós", até 7 de fevereiro em Londres]. Contam a história de um encontro de fés no Egito. Numa carta amarelada, com quase um milénio, um mercador judeu louva os seus parceiros comerciais muçulmanos. Páginas de bíblias medievais hebraicas e cristãs surgem lado a lado com um Corão com oito séculos. A história de pluralismo religioso no Egito é rica e matizada. Tal como é, infelizmente, o currículo dos que têm ocupado o poder no que toca a explorar e manipular as divergências religiosas ao longo dos séculos, em seu próprio benefício.
[...]
Nada é mais perigoso para as elites dominantes do que os egípcios que se assumem como cidadãos autónomos e não dependentes. Daí que a contrarrevolução tenha lutado por repor uma cultura de controlo vindo de cima e obediência imposta em baixo.
Para tal, enredou-se na politica egípcia uma estirpe de nacionalismo chauvinista, que reforça linhas de fratura diversas, vistas como menos ameaçadoras para o antigo regime. Em vez de cidadãos de diferentes fés e passados unidos para derrubar as instituições repressivas do Estado, o atual Presidente, Abdul Fatah al-Sisi, exige uma população agradecida e vergada, que forme "uma mão" com os líderes políticos, banindo dissidentes para tão longe quanto possível, excluindo-os do agregado familiar.
[...]»
Jack Shenker, in Courrier internacional - Jan/2016
8.1.16
7.1.16
This Is The End Of Everything
This is the end of everything
My head explodes, but my heart sinks
Take comfort in the knowledge that, it's over now
This is the end.
I will never see the light again
«Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro.»
Detesto toda a psicologia.
Pelo menos tanto como o homem de trabalho
e os escritores movidos a bons sentimentos,
que o querem entreter ou melhorar ao módico
preço dos direitos de autor. Para me sustentar
tenho todas as loiras do mundo. E não são poucas.
De ambos os sexos e qualquer côr de cabelo.
É o que basta. A somar ao jogo. O jogo de
sonhar acordado. Sou o chulo vigil dos pesadelos
das mães. As nossas e as delas. A fera com
mais inteligência que moral. Uma inteligência manipuladora.
O abismo brilhante. Um falo que fosse vaso.
Disputo corridas sem sair do lugar e, por isso, sou
sempre o primeiro a alcançar a meta riscada no chão
com o giz líquido do meu sémen. Os outros chegam
estafados. Caem de borco. Matam a sede na fonte desse giz.
E pagam o pecado. A minha religião indulgencia-me sempre.
Sou o Papa Negro das Noites Brancas. O Papa Branco das Noites Negras.
Sou cinzento. Como as balanças que aferem o peso para aferir o custo.
Estou afinado. Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro.
A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho.
Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras. O formol é para os Deuses.
in Cirrose, FendaPelo menos tanto como o homem de trabalho
e os escritores movidos a bons sentimentos,
que o querem entreter ou melhorar ao módico
preço dos direitos de autor. Para me sustentar
tenho todas as loiras do mundo. E não são poucas.
De ambos os sexos e qualquer côr de cabelo.
É o que basta. A somar ao jogo. O jogo de
sonhar acordado. Sou o chulo vigil dos pesadelos
das mães. As nossas e as delas. A fera com
mais inteligência que moral. Uma inteligência manipuladora.
O abismo brilhante. Um falo que fosse vaso.
Disputo corridas sem sair do lugar e, por isso, sou
sempre o primeiro a alcançar a meta riscada no chão
com o giz líquido do meu sémen. Os outros chegam
estafados. Caem de borco. Matam a sede na fonte desse giz.
E pagam o pecado. A minha religião indulgencia-me sempre.
Sou o Papa Negro das Noites Brancas. O Papa Branco das Noites Negras.
Sou cinzento. Como as balanças que aferem o peso para aferir o custo.
Estou afinado. Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro.
A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho.
Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras. O formol é para os Deuses.
era uma vez...
Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve.
Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem a couve
passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando
o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a
sua própria alimentação. O coelhinho, que tinha um coração
muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava
considerava-a como sua verdadeira mãe. A mãe couve e o seu
filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia
uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras. O
coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam
tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo
da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco
dano lhe fizessem. Quando aqueles insectos daninhos levantaram
voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de
areias e pedra. O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas
proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos
quilómetros de distância a fim de procurar comida. Mas já
nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras. Passaram
muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro
mais magro e faminto. Então a mãe couve disse-lhe assim:
“Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar
o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu
viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser
eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu
quero dizer?” O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande
tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.
Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem a couve
passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando
o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a
sua própria alimentação. O coelhinho, que tinha um coração
muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava
considerava-a como sua verdadeira mãe. A mãe couve e o seu
filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia
uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras. O
coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam
tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo
da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco
dano lhe fizessem. Quando aqueles insectos daninhos levantaram
voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de
areias e pedra. O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas
proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos
quilómetros de distância a fim de procurar comida. Mas já
nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras. Passaram
muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro
mais magro e faminto. Então a mãe couve disse-lhe assim:
“Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar
o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu
viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser
eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu
quero dizer?” O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande
tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.
6.1.16
teorias
O que comunica uma língua? Comunica a essência espiritual que lhe corresponde. É fundamental saber que esta essência espiritual se comunica na língua, e não por meio da língua. Não existe, portanto, o falante das línguas, se por isso entendermos aquele que se comunica por meio dessas línguas. A essência espiritual comunica-se numa língua e não por meio de uma língua — e isto quer dizer que não se identifica, a partir de fora, com a essência da linguagem.
Linguagem, Tradução, Literatura, Walter Benjamin, Assírio & Alvim
1.1.16
agora e para sempre:
desenrascanço (Portuguese)
noun: the ability to improvise a quick solution
noun: the ability to improvise a quick solution
Desenrascanço is the M.O. of any high-functioning procrastinator. Not only does it mean to solve a problem or complete a task, it means doing so with a completely improvised solution. TV’s MacGyver utilized this skill every time he averted disaster with nothing but a bent paper clip and a chewing gum wrapper.
daqui: babbel magazine
«A Poesia Também é Literatura»
«Os poetas odeiam trabalhar em escritórios. Vestem-se mal e acreditam em tudo o que lhes dizem. Puxa-lhes o pé para a metáfora. Se os poetas fossem controladores aéreos, haveria tráfego de andorinhas. O ideal para um poeta é estar desempregado. Em nome da segurança pública.»
Filipa Leal, Pelos Leitores de Poesia, Abysmo Editora
«O fogo do verso»
À hora em que se lava o chão dos talhos
da bílis que sobra da morte
e no céu se rasgam dores
a que as estrelas hão-de dar cautério, penso
na melancólica carne que despes
diante de mim como um fato de tumulto
Penso na tua pele vertida e no brilho
inverso, nas cores que desbotam
nas montras como alguma
há muito tempo exposta
natureza-morta
Sei que amar-te tem que ver com isto:
O camião atravessando à noite a auto-estrada
com os lívidos espíritos de porcos
que se precipitam na cinta das cidades
A polpa triste de um beijo
a acender o coração, cansado
de ser metáfora
Amar-te tem que ver com esta imagem mansa
do terror, contemplada
à distância e a alguma velocidade. Aproxima-se
da desolação da prosa e não,
como se salvaria o mundo, do fogo do verso
Andreia C. Faria na enfermaria 6
da bílis que sobra da morte
e no céu se rasgam dores
a que as estrelas hão-de dar cautério, penso
na melancólica carne que despes
diante de mim como um fato de tumulto
Penso na tua pele vertida e no brilho
inverso, nas cores que desbotam
nas montras como alguma
há muito tempo exposta
natureza-morta
Sei que amar-te tem que ver com isto:
O camião atravessando à noite a auto-estrada
com os lívidos espíritos de porcos
que se precipitam na cinta das cidades
A polpa triste de um beijo
a acender o coração, cansado
de ser metáfora
Amar-te tem que ver com esta imagem mansa
do terror, contemplada
à distância e a alguma velocidade. Aproxima-se
da desolação da prosa e não,
como se salvaria o mundo, do fogo do verso
Andreia C. Faria na enfermaria 6
30.12.15
um osso
--Ah! Não queria ter a bondade de me dar um osso para o meu cão? - perguntei. - Apenas um osso, não precisa de ter mais nada, só para ele ter alguma coisa que levar à boca.
Deram-me um osso, um ossinho esplêndido, que ainda tinha agarrada alguma carne e que eu meti dentro da sobrecasaca. Agradeci ao homem tão fervorosamente que ele ficou a olhar-me pasmado.
--Não tem nada que agradecer - disse ele.
--Tenho sim, não diga isso - murmurei, - é muita bondade da sua parte.
E voltei a subir. O coração batia-me violentamente.
Entrei furtivamente na passagem Smedgangen o mais fundo que pude chegar e parei diante de um portão deteriorado, junto de um pátio traseiro. Não se via qualquer luz em parte alguma, à minha volta estava escuro, felizmente. Pus-me a roer o osso.
O osso não sabia a nada, mas soltava um cheiro áspero a sangue e tive de vomitar logo a seguir. Tentei de novo. Se ao menos conseguisse aguentá-lo no estômago, faria decerto algum efeito; tratava-se de lograr que se mantivesse lá dentro. Mas voltei a vomitar. Zanguei-me e mordi a carne com brusquidão, arranquei um pedacinho e engoli-o violentamente. Não me serviu de nada; assim que as migalhinhas de carne tinham aquecido no estômago, lá vinham elas para cima outra vez. Cerrei os punhos com louca exasperação, desatei a chorar desamparado e roí como um possesso. Chorei, vi o osso ficar molhado e sujo pelas lágrimas, vomitei, praguejei e voltei a roer. Em voz alta amaldiçoei todos os poderes do mundo e mandei-os para o Inferno.
Fome, Knut Hamsun, cavalo de ferro, p. 178.
29.12.15
Rothko Chapel, Morton Feldman
«É melhor começarmos lá de trás e por Dominique Isaline Zelia
Henriette Clarisse Schlumberger, protagonista de uma dessas
histórias extraordinárias apenas possíveis na Europa do século
passado.
O pai Conrad era um físico, professor em Paris na École de Mines,
que no início dos anos 20, em colaboração com o irmão engenheiro
Marcel, idealizou um sistema à época completamente inovador para
a extração dos metais e dos gases contidos no subsolo.
Fundada a sua sociedade, os irmãos andarão num afã a dar a
volta ao mundo inteiro, naturalmente bastante bem retribuídos
pelo seu trabalho, sem nunca esquecerem a vocação para a investigação, tanto assim é que a Sociedade Europeia de Exploração
Geofísica instituirá um prémio com o seu nome.
A sua filha Dominique licenciar‑se‑á em matemática para
depois se interessar pelo cinema, descobrimo‑la em Berlim como
assistente de Joseph von Sternberg durante a filmagem de O anjo
azul. Em 1930, encontrará e casará com o banqueiro Jean de Menil.
Durante a ocupação nazi de Paris, a família emigrará para os
Estados Unidos, onde o pai e o tio darão continuidade à sua sociedade de extração (sobretudo petrolífera, a sede ficará obviamente
no Texas), enquanto Dominique e Jean, agora John, começarão a
reunir uma extraordinária coleção de arte moderna, que chegará
a ser constituída por cerca de dezassete mil obras entre quadros,
estátuas, fotografias e objetos de vários géneros.
Os dois valer‑se‑ão sempre de um forte empenho social e ético,
colaborando com importantes expoentes da batalha pela integração e pelo reconhecimento dos direitos civis, ao ponto de serem
promotores das primeiras mostras de arte inter‑raciais nos Estados
Unidos e de fazerem ouvir a sua voz inclusivamente fora do seu
país de adoção.
Em 1964, encomendarão ao pintor Mark Rothko as decorações
de uma capela a ser erguida em Houston.
Embora os De Menil fossem católicos praticantes, o edifício
não terá nenhum fim confessional, é antes concebido como local onde qualquer pessoa, independentemente da fé professada ou
abjurada, possa encontrar espaço para a meditação, a oração e a
contemplação.
A construção arrasta‑se por muito tempo, só será aliás terminada em 1971. Rothko não chegará a ver os seus trabalhos nas
paredes, pois, abatido por uma longa depressão, porá termo à vida
poucos meses antes.
Para a inauguração da Rothko Chapel será encomendada uma
peça a Morton Feldman.
Com quase dois metros de altura, corpulento, o olhar perspicaz
por trás das grossas lentes de míope, Feldman sempre cultivara
uma relação muito estreita entre a sua música e as artes figurativas, para além de que tinha sido um bom amigo do pintor desaparecido, vinte anos mais velho.
Personalidade inteiramente laica, dotado de um péssimo caráter e de um humor cáustico, é aparentemente alheio a qualquer
possível suspeita de misticismo.
Como quase todos os compositores da sua geração, dera por si
a escrever música quando o panorama parecia suspenso entre as
lisonjas do acaso e os rigores do estruturalismo, mas ele, espírito
demasiado livre para o segundo embora ainda assim desejoso de
ter controlo sobre a matéria sonora de uma forma bem mais rigorosa do que teria sido possível abraçando a música estocástica,
acabará por avançar pela música do século passado com um passo
solene e completamente especial; ao ouvirmos as suas composições, temos por vezes a ilusão de a música ter sido uma descoberta
sua, como se tivesse sido ele o primeiro a pôr a hipótese de os
sons poderem ser pensados, organizados de certa forma e depois
emitidos por um qualquer aparelho inventado para tal fim.
A peça em questão supõe um pequeno número de executantes,
flauta, celestino, coro misto, percussões e viola. As dinâmicas vão
do pianissimo, literalmente no limite do audível, a momentos de
maior concitação, embora privilegiando dinâmicas que se viram
para o silêncio, a escansão rítmica é quase impercetível e só
de maneira a que se consiga apreender com o ouvido um arco de tempo suficientemente longo (algo de semelhante acontece ao
ouvirmos a música gagaku japonesa). É um organismo que parece
feito de vazio ao mesmo tempo que pulsa iridescente, as transparências de Feldman têm corpo e peso, uma espécie de milagre que
nos obriga a rever aquilo que pensamos erradamente acerca da
música moderna.
Poderia ser suficiente, mas para o final da peça, que dura cerca de
vinte minutos, o vibrafone conquista um ritmo regular e quase vivace
sobre o qual se emancipa a viola para cantar uma melodia hebraica
de absoluta e transcendente beleza. Uma epifania; a porta da casa em
que estamos encerrados a abrir‑se para o mundo exterior.»
28.12.15
1597 / Sevilha - Num lugar do cárcere
Foi ferido e mutilado pelos turcos. Foi assaltado pelos piratas e açoitado pelos mouros. Foi excomungado pelos padres. Esteve preso em Argel e em Castro del Rio. Agora está preso em Sevilha.
Sentado no chão, junto da cama de pedra, duvida. Molha a pena no tinteiro e duvida, os olhos fixos na luz da vela, a mão útil quieta no ar.
Valerá a pena insistir? Ainda lhe dói a resposta do rei Filipe, quando pela segunda vez lhe pediu emprego na América: procure por aqui em que se lhe faça mercê. As coisas mudaram desde então, mudaram para pior. Antes teve, ao menos, a esperança de uma resposta. De algum tempo para cá, o rei de negras roupas, ausente do mundo, não fala senão com os seus próprios fantasmas entre os muros do Escorial.
Miguel de Cervantes, sozinho na sua cela, não escreve ao rei. Não pede nenhum cargo vacante nas Índias. Sobre a folha em branco, começa a contar as desventuras de um poeta errante, fidalgo dos de lança em estaleiro, escudo antigo, rocinante fraco e galgo corredor.
Soam tristes ruídos no cárcere. Não os ouve.
Memórias do Fogo: Os Nascimentos, Eduardo Galeano, Livros de Areia Editores [tradutor: António Marques]
26.12.15
mel que me adoça
![]() |
| A Vida Secreta das Abelhas de Gina Prince-Bythewood |
duas colmeias diferentes, mas um mel igualmente aromático.
![]() |
| A Morte de Um Apicultor de Lars Gustafsson |
«Una vez un perro le ladró a una máscara que hice, ha sido el comentario más honorable que he recibido.»
Dar explicaciones de la pintura es un poco gratuito; se intelectualiza algo que realmente no es del mundo del intelecto.
![]() |
| Darvault (1950), Leonora Carrington |
Leonora, que viveu os últimos setenta anos da sua vida (morreu aos 94) no México, é considerada por muitos como a última dos grandes surrealistas. um dia amou e foi amada por Max Ernst.
mais info aqui: Artsy
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24.12.15
7
Um certo Dezembro, os tios chegaram muito mais tarde do que o costume. Só conseguiram subir a montanha no dia de São Misham e, quando chegaram a casa, encontraram-na em silêncio. Não havia sinais de alegria nem do alvoroço habituais.
A Avó percebeu nesse instante que algo de errado se passava.
--Onde está o meu filho Mark? - perguntou ela. - Porque não o ouço entre vós? - e o tio Acraud teve de lhe dizer a verdade:
--Mãe, ele morreu. O seu filho Mark não voltará para casa nunca mais.
[...]
O seu desgosto contagiou toda a aldeia. Era como se a pedra central de uma abóbada tivesse sido retirada; não havia nada que mantivesse as pessoas unidas.
(cont., mas eu fico por aqui. se quiserem saber um pouco mais da escritora, cliquem.)
23.12.15
6
[--devagar rapariga, não as fures, era assim que ela me falava. eu, a princípio, era sempre pelo tudo ou nada, o sim ou o não sem pestanejar, infantil, maniqueísta. depois percebi que entre a passividade da planura e a agressividade do rasgo, havia a perfeita concavidade da filhós. a minha mãe, acérrima defensora do reforço positivo, elogiava-me então a perícia. e eu, nesses momentos, era feliz. muito feliz.]
...
Mas aos primeiros sinais da Primavera, os tios tornavam a ficar inquietos e começavam a verificar o equipamento, discutindo mapas e rotas, consertando alforjes e botas e observando os picos das montanhas em busca de sinais de que a neve estava em retirada.
Nessa altura, a Avó começava a ficar cada vez mais calada. Nunca lhes pedia que ficassem mais tempo em casa, nunca fomentava controvérsias sobre a sua partida, mas o seu rosto parecia murchar e encolher, tornando-me mais pequeno e enrugado, enquanto ela se aconchegava na sua manta de retalhos.
No dia de São Petrag, quando os tios partiam, feitas as despedidas, e desciam ruidosamente a montanha por entre a neve derretida e as árvores cobertas de botões cor-de-rosa reluzentes, a Avó mergulhava num silêncio que durava, por vezes, cinco ou seis semanas; passava os dias sentada com o rosto virado a leste, sem dizer uma palavra e sem se mexer, bebendo o seu leite e retirando-se para o quarto à noite, sempre em silêncio e abatida; era necessário que viesse o sol quente e os jacintos doces e selvagens de Maio para que ela se alegrasse.
Depois, pouco a pouco, começava a ficar mais animada e dizia:
--Agora já só faltam seis meses para eles regressarem.
Mas o jovem Mark comentava com a prima Sammle:
--A cada ano que passa, a Avó demora mais tempo a acostumar-se.
E Sammle retorquia, a tremer, apesar do tempo quente de Maio:
--Talvez um ano, quando eles voltarem, ela já cá não esteja. Está a ficar tão pequenina e tão magrinha; dá para ver à transparência das mãos, como se fossem folhas. - e Sammle levantava a sua mão jovem e esguia contra a luz do sol para ver o sangue a brilhar por baixo da pele translúcida.
--Não sei como é que eles iriam suportar - dizia Mark, pensativo - se, quando voltassem, tivéssemos que lhes dizer que ela tinha morrido.
Mas não foi isso que aconteceu.
(cont.)
5
[tenho de fazer batota e saltar umas linhas, que daqui a pouco é hora de almoço e ainda tenho de ir fazer as filhós. como antigamente, a minha mãe, delicada, estica-as suavemente na palma da mão, para depois as lançar com jeitinho na panela de óleo a ferver, e eu, endiabrada, espeto-lhes a colher de pau no bandulho, para lhes dar a concavidade.]
... ... ...
Os meses a seguir ao Natal eram a altura mais feliz da vida da Avó. De bem consigo mesma, agradecida, com os filhos em casa sãos e salvos, sentava-se ao canto da lareira, na grande sala de madeira da família. O vento podia uivar, a neve podia amontoar-se lá fora cada vez mais, que nada disso a preocupava, pois a sua família e toda a aldeia estavam bem abastecidas de farinha, petróleo, lenha, carne, ervas medicinais e raízes. As crianças tinham os seus livros e brinquedos, aprendiam as suas lições com o velho padre, faziam teares e rocas de fiar ou esculpiam bancos e cadeiras e arcas com as ferramentas que os tios lhe tinham trazido. Os tios descansavam e contavam histórias das suas viagens; o Tio Mark tocava a sua flauta horas a fio, o Tio Acraud fazia desenhos a carvão dos locais que tinha visitado e a Avó, passando os dedos pelo papel repleto de linhas, ia explicando os desenhos enquanto tio Mark tocava:
--Uma grande cordilheira, como linhas castanhas e enrugadas na linha do horizonte; uma vasta planície de loira areia prateada, com áreas de um azul muito, muito pálido; não me parece que seja água. Aqui há linhas estranhas pela areia, onde os homens outrora lavraram muito há muito, muito tempo; e uma grande mancha verde cristalino, atravessada por aquilo que parece ser uma estrada. E aqui há uma pequena região tom de ameixa, encostada a uma área vermelho ferrugem. Acho que são as cores da terra nestas paragens; ficam situadas muito alto nas montanhas, em zonas de grande secura devido à altitude e o solo brilha com pequenas partículas de metal.
--A Mãe descreveu-o melhor do que eu próprio alguma vez o conseguiria fazer! - exclamava o Tio Acraud, enquanto as crianças, sustendo a respiração, tal o fascínio e a curiosidade, se sentavam de pernas cruzadas à volta da sua cadeira.
--Sim, mas não o consigo ver, de todo, Acraud, a não ser que os teus olhos o tenham visto primeiro, e não o consigo ver sem a música do Mark para me ajudar.
--Como é que a Avó consegue ver? - perguntavam as crianças às mães, e Argilla, Grippa e Tassy respondiam:
--Ninguém sabe. É um dom da Avó. Só ela o consegue.
(cont.)
[é bonito, não é?]
4
...
Os pequenos presentes que tinham trazido eram distribuídos pela aldeia: tesouras, ferramentas, medicamentos, plantas, peças de tecido, lingotes de metal, bebidas, armas de fogo e instrumentos musicais, e só depois tinha lugar uma grande festa com banquete.
Mas só na manhã do dia de Natal é que a Avó e as crianças recebiam os presentes especiais que lhe tinham sido trazidos pelos tios; e esta oferta obedecia sempre ao mesmo cerimonial.
O Tio Mark ficava atrás da cadeira da Avó a tocar uma pequena flauta que tinha adquiridos algures durante as suas viagens; era feita de madeira polida, escura e maciça, com orifícios em prata e o bocal em âmbar. O Tio Mark tocava sempre a mesma melodia nestas alturas, muito suavemente. Era uma melodia que tinha ouvido pela primeira vez, dizia ele, quando ainda era muito jovem, numa altura em que escapara por pouco de cair numa fenda da encosta, e uma voz lhe tinha falado, ou assim lhe parecera, das entranhas da própria montanha, alertando-o para ver onde punha os pés e para ter cuidado, já que a família dependia dele. Era uma melodia doce e suave, que lembrava a Sandri, a neta do meio, os sons primaveris: o vento cálido, a neve derretida a pingar dos espigões do telhado, os pássaros e os seus chamamentos de acasalamento.
Enquanto o Tio Mark tocava a flauta, o Tio Emer entregava os presentes à Avó. E ela - e aqui está a parte estranha - ela, que era totalmente cega durante todo o ano, que nem conseguia ver a própria mão à frente da cara, pegava no objecto com os dedos e identificava-o no mesmo instante.
--Um pente de madrepérola com tachas de prata, para a Tassy... vem da Babilónia. Um xaile de seda azul e rosa, da Índia, para a Argila. Um jogo de madeira, com cavilhas de marfim, para o pequeno Emer, de Damasco. Um broche de ouro, de Hangku, para a Grippa. Um livro de rimas, de Paris, para a Sammle, com encadernação de couro escarlate.
(cont.)
3
[na verdade, se bem me lembro, era precisamente com esta ânsia, que eu, noutros tempos, esperava a madrinha, em Agosto...]
...
...
--Sim, sim, tenham calma, não nos ensurdeçam... pobres e cansados viajantes que nós somos! Deixem-nos em paz para podermos escalar este monte infernal! Está tudo ali, descansem, o xaile, a caixa e os livros, além de outras coisas, alfinetes e agulhas, fruta e uma garrafa ou duas de vinho, e algumas lembranças para distribuir pela aldeia. E agora tenham a bondade de nos dar uns minutos para recuperamos o fôlego - diziam eles, enquanto as crianças dançavam à sua volta, ajudando-se mutuamente a carregar os pacotes mais pequenos, sem darem tréguas à torrente de perguntas:
--Viu o Grande Cã? O Akond de Swat? O Fon de Bikom? O Sultanato de Rum? Foi ao Catai? À cidade antiga de Moscovo? Foi ao distrito de Dalai, na Tanzânia? Andou de barco, de camelo, de lama, de elefante?
E, no cimo do monte, a Avó esperava-os no seu alpendre, indiferente ao tempo que fizesse ou à hora tardia a que chegassem, majestosamente sentada, envolta mas suas peles e na manta de retalhos, enquanto as tias corriam de um lado para o outro trazendo pedras quentes para lhe colocarem debaixo dos pés. Os tios iam sempre abraçá-la primeiro, com muito afecto e respeito, e só depois se viravam para as suas mulheres e cunhadas.
(cont.)
[sogra difícil?...]
2
...
E então, toda a família e toda a aldeia entravam em alvoroço, tal qual um formigueiro quando a pá destrói o montículo de terra. As mulheres atiçavam o fogo e iam buscar a melhor toalha de linho, vinho, carne-seca e ovos de conserva; deixavam a massa do pão a levedar, faziam bolos de mel e aveia e traziam das despensas os potes de grés com a compota de morangos; e as crianças, com os criados e metade da aldeia atrás, desciam a correr os perigosos trilhos ziguezagueantes, ao encontro da caravana.
O caminho era demasiado íngreme para as pesadas carroças, que eram dispensadas, e os salários pagos aos carroceiros, que, assim, podiam ir à sua vida. Depois, entre risos, gritos e milhões de perguntas feitas pelas crianças, as cargas eram divididas e levadas encosta acima por mulas ou ombros humanos. Por vezes, os tios voltavam para casa de noite, debaixo de um nevão, guiados pela luz enfumarada dos archotes; mas as crianças e toda a família sabiam da sua chegada com antecedência, e estavam sempre lá, prontos para os receber.
--Tio Mark, trouxe o xaile chinês para a Avó? Tio Emer trouxe a caixa envernizada para o rapé da Tia Grippa, que tanto lhe pediu? Tio Acraud, encontrou os castiçais de vidro? Tio Gonfil, trouxe os livros?
(cont.)
[e então, acham muito consumista? não sejam assim, as crianças são iguais em todo o lado. a critica do machismo até entendo, as mulheres a trabalhar no duro e os heróis a correr mundo... mas a história continua, não sejam tão intolerantes, é quase natal.]
Se eu tivesse um filho,
esta seria a história que hoje lhe iria contar.
A DÁDIVA -- Joan Aiken
A DÁDIVA -- Joan Aiken
As semanas que antecediam o Natal eram sempre vividas com grande emoção e, também tremenda expectativa, enquanto a família esperava ansiosa que os tios, que tinham partido na Primavera, regressassem das suas viagens desse Verão pelas rotas dos mercadores: o Tio Emer, o Tio Acraud, o Tio Gonfil e o Tio Mark. Partiam sempre juntos, descendo a encosta alcantilada, mas depois, chegados ao sopé da montanha, seguiam caminhos diferentes ao longo do vale profundo e estreito. O Tio Mark e o Tio Acraud dirigiam-se para leste, em direcção às grandes planícies, enquanto o Tio Emer e o Tio Gonfil viravam para oeste, para as cidades, os rios e o mar a ocidente.
Em seguida, e antes de se despedirem das montanhas, separavam-se uma vez mais, seguindo o Tio Acraud para sul e o Tio Emer rumo ao norte, o que levava as crianças a pensar que a sua família estava espalhada pelo mundo inteiro, em constante expansão como a teia de uma aranha.
A Primavera e o Verão eram passados entre as actividades habituais, cavando e semeando as parcelas na encosta íngreme, pescando, caçando lebres, apanhando morangos silvestres, usando o tempo da melhor maneira. Depois, perto do Dia de São Drimma, quando os ventos começavam a soprar e a neve a cair nos picos mais altos, descendo cada vez mais rumo ao vale, a Avó começava a ficar mais inquieta.
Passava o Verão calma e em silêncio, sentada na sua cadeira de baloiço no grande alpendre de madeira, enrolada numa manta de retalhos, com os olhos cegos virados para leste, em direcção às terras para onde Mark, o seu filho mais velho e o mais querido, tinha ido. Mas quando os ventos dos finais de Setembro começavam a soprar, por alturas do Michaelmas, a Festa de São Miguel, e os lobos se tornavam mais ousados e o gado era trazido para o estábulo por baixo da casa, a Avó começava realmente a ficar inquieta.
Quando Sammle, a neta mais velha, lhe trazia o leite quente, ela agarrava o pulso magro da menina e perguntava:
--Diz-me, filha, quantos dias faltam para o Dia de São Froida? - (que é o primeiro dia de Dezembro).
--Dezoito, Avó - respondia Sammle, beijando-lhe a face enrugada.
--Tantos, ainda? Tantos até ao dia em que temos a esperança de os voltar a ver?
--Não se preocupe, Avozinha, de certeza que os Tios vão voltar sãos e salvos. Talvez cheguem mais cedo este ano. Talvez voltem ainda antes da Festa de São Melin - (que é a 14 de Dezembro).
E então, algures pelos meados de Dezembro, lá se ouvia o eco das suas grandes carroças a tilintar e a rolar pelos vales serpenteados. O jovem Mark (filho do Tio Elmer), postado no seu ponto de vigia no cimo de um grande pinheiro no alto de um penhasco, vislumbrava o reflexo da medalha de bronze na cabeça de uma mula de carga ou o sol a luzir no cano de uma carabina, e vinha a correr trazer a boa nova.
--Avozinha! Avozinha! Os Tios estão quase a chegar!
(continua)
21.12.15
Amar um Cão*
«Estreia a 24 de Dezembro nos cinemas.
A partir da sua própria experiência e das suas memórias, marcadas pelas perdas recentes da mãe e do marido Lou Reed, a realizadora Laurie Anderson traça uma pequena reflexão sobre temas como a vida, o amor e a morte. »
[*lembrei-me do livro maravilhoso de Maria Gabriela Llansol e de Jade]
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