29.11.15
Amor (III)
Amor (II)
Amor, Anton Tchekhov
É também um grande prazer para qualquer um fechar uma carta, vestir-se devagar e sair docemente de casa para ir levar aquele tesouro à caixa do correio. Já não há estrelas no céu; em seu lugar, no Levante, aparece por sobre as casas tristes uma longa faixa branca cortada, aqui e além, por nuvens e que inunda todo o céu de uma claridade pálida. A cidade dorme, mas os carros da água já saíram, a sereia de uma fábrica distante acorda os trabalhadores. Junto à caixa vê-se infalivelmente um porteiro enregelado, metido no seu grande capote em forma de sino e de pau na mão. Está em catalepsia: não dorme nem vela, o seu estado é intermédio...
Se as caixas de correio soubessem o número de vezes que lhes é pedido que resolvam a felicidade das pessoas, não teriam um ar tão tranquilo. Quanto a mim, quase beijei a minha, e, olhando-a, lembrei-me de que o correio é o soberbo bem!...
Convido todos os que já estiveram apaixonados, a recordarem-se de que, uma vez posta a carta na caixa, as pessoas se apressam a correr para casa, a deitarem-se e a puxarem para cima o cobertor, com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, não acordam sem logo se lembrarem da véspera, e de que hão-de olhar com entusiasmo para a janela por onde a luz do dia abre avidamente caminho, através das pregas dos cortinados...
Mas voltemos à nossa história...
(...)
Amor, Anton Tchekhov
28.11.15
a propósito dessa estranha febre consumista, que abre alas à detestável época natalícia, a black friday
Promoção, aproveitem
duas inutilidades são sempre
mais trágicas que só uma.
Sejam consumidores alerta
que em breve não haverá
nem um por dois nem cinco por três.
O segundo fica grátis, o primeiro não interessa.
Sejam inteligentes,
ajudem o sofrido mundo das coisas
a desaparecer
a uma velocidade que rebente
os stocks do desespero
a fico tudo em cartão de pontos.
duas inutilidades são sempre
mais trágicas que só uma.
Sejam consumidores alerta
que em breve não haverá
nem um por dois nem cinco por três.
O segundo fica grátis, o primeiro não interessa.
Sejam inteligentes,
ajudem o sofrido mundo das coisas
a desaparecer
a uma velocidade que rebente
os stocks do desespero
a fico tudo em cartão de pontos.
“Balada a Philip Muir”
Philip Muir cruza o Atlântico em seu navio.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
Pele de nácar, pintas de ouro, cabelo ruivo.
Philip Muir, de brancas unhas, correto e esguio,
é um puro lorde, pelo silêncio e pela altivez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Espera as ordens. Não fita os olhos em ninguém.
Após dois dias, conhece todos os meus gostos
à mesa. E apenas corre com o olhar a lista inteira
da sopa à fruta. Nunca se esquece do chow mein.
Do lado do Norte, há sangue nas águas do Oceano.
E do lado de Leste. E nas terras. Sangue inglês.
E por baixo do mar andam as sombras sem passos…
Philip Muir, no meio do desastre humano,
serve champanhe, hoje. Amanhã, seu sangue, talvez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Mais tarde, na noite, acende seu cachimbo e vem
ver as estrelas nascendo do amargo horizonte,
– ilhas dormentes, que o vento embala a noite inteira…
e muitas cenas – tão diferentes! – mais além.
Nenhum soldado será mais grave nem mais frio
que Philip Muir, se ainda chega a sua vez.
Coberto de lama, sangue, injúria, dor e morte,
Philip Muir partirá num outro navio,
navio de nuvem, mas com mastro de altivez.
Nem duque nem lorde: um simples homem da Britânia.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
De Poemas de viagem (1940-1964)
daqui: Autores e Livros
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
Pele de nácar, pintas de ouro, cabelo ruivo.
Philip Muir, de brancas unhas, correto e esguio,
é um puro lorde, pelo silêncio e pela altivez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Espera as ordens. Não fita os olhos em ninguém.
Após dois dias, conhece todos os meus gostos
à mesa. E apenas corre com o olhar a lista inteira
da sopa à fruta. Nunca se esquece do chow mein.
Do lado do Norte, há sangue nas águas do Oceano.
E do lado de Leste. E nas terras. Sangue inglês.
E por baixo do mar andam as sombras sem passos…
Philip Muir, no meio do desastre humano,
serve champanhe, hoje. Amanhã, seu sangue, talvez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Mais tarde, na noite, acende seu cachimbo e vem
ver as estrelas nascendo do amargo horizonte,
– ilhas dormentes, que o vento embala a noite inteira…
e muitas cenas – tão diferentes! – mais além.
Nenhum soldado será mais grave nem mais frio
que Philip Muir, se ainda chega a sua vez.
Coberto de lama, sangue, injúria, dor e morte,
Philip Muir partirá num outro navio,
navio de nuvem, mas com mastro de altivez.
Nem duque nem lorde: um simples homem da Britânia.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
De Poemas de viagem (1940-1964)
daqui: Autores e Livros
Amor (II)
Amor (I)
(...) Não que eu quisesse fazê-la mais extensa, mais florida ou sentimental, mas porque sentia um desejo sem limites de prolongar o prazer de escrever, ali sentado no silêncio do escritório onde mirava a noite primaveril e conversava com os meus próprios sonhos. Entre as linhas via aquela imagem querida, e parecia-me que estavam ali, sentados à mesma mesa e também a escrever, espíritos como eu inocentemente felizes, mas sorrindo beatificamente. Eu escrevia sem deixar de olhar a minha mão ainda elanguescida por um recente aperto de mão, e, se me acontecia deitar um olhar de lado, via a grade do portão verde. Fora através dessa grade que Alexandra me olhara depois de eu lhe ter dito adeus. Nesse momento não pensava em nada e contentava-me com admirar a sua pessoa, como faz qualquer homem bem-educado diante de uma mulher bonita; mas quando, através da grade, vi os seus dois grandes olhos, compreendi de súbito, como numa inspiração, que estava apaixonado, que entre nós tudo esta definitivamente resolvido, e que só me restava respeitar as formalidades.
(...)
Amor, Anton Tchekhov
27.11.15
The Backwater Gospel
“As long as anyone can remember, the coming of The Undertaker has meant the coming of death. Until one day the grim promise fails and tension builds as the God fearing townsfolk of Backwater wait for someone to die.”
26.11.15
Amor
"Três horas da manhã. Das minhas janelas vê-se uma tranquila noite de Abril, em que as estrelas tremeluzem ternamente. Não durmo. Sinto-me bem.
Por todo o meu ser, da cabeça aos pés, há um sentimento bizarro e incompreensível. Não sei analisá-lo assim de repente, não tenho tempo nem pachorra para isso, e além disso, essa análise não interessa nada. Ora vamos! Irá o homem que se atira de cabeça do campanário de uma igreja ou o que sabe que ganhou 200 mil rublos procurar um sentido para as suas impressões? Tanto se lhe dá!"
Era mais ou menos assim que começava uma carta de amor a Alexandra, uma rapariga de 18 anos por quem me tinha apaixonado. Cinco vezes a tinha recomeçado e outras tantas rasgara o papel, riscara folhas inteiras e copiara de novo. Essa carta tinha-me ocupado um longo momento, como um romance encomendado. (...)
Amor, Anton Tchekhov
instantâneos
O político engana o rato,
Cujas dentadas são rançosas
Naquela ferida de aloé.
O sol está no armário.
O sol está no armário.
Aquele criado desfaz o esqueleto,
E talha a mama científica.
Luz através do retrato.
Sombra através do retrato.
O anão da cave, irado
Como o arminho, periscopeia
A relojoaria da lua.
O vigário no seu jogo
Desenrola o fio de pesca,
Espera um charco nivelado.
Sombra através do armário.
1952
Cujas dentadas são rançosas
Naquela ferida de aloé.
O sol está no armário.
O sol está no armário.
Aquele criado desfaz o esqueleto,
E talha a mama científica.
Luz através do retrato.
Sombra através do retrato.
O anão da cave, irado
Como o arminho, periscopeia
A relojoaria da lua.
O vigário no seu jogo
Desenrola o fio de pesca,
Espera um charco nivelado.
Sombra através do armário.
1952
25.11.15
...
![]() |
| Stop The Draft Week, Oakland, 1967, Jeff Blankfort |
“It’s very frustrating. I’ve become very disillusioned with the American political situation. Taking photographs of someone having his head broken in by a police club? I’ve taken that so many times that I’m sick and tired of it. I mean you never become immune to the point of accepting it, but you become almost brutalised to the fact that you can stand by taking pictures quite calmly without your hands shaking while someone is having their head broken in by a police club. And you don’t go and stop that policeman from doing it.”
24.11.15
Um coração ardente
O velho voltou-se para a janela que emoldurava o céu estrelado.
Sorriu. Tinha uma bela voz.
– Mas eu dizia que na minha juventude fui um escritor que acabou
enveredando por todos os gêneros literários, fiz poesia, prosa...
Na realidade, eu não tinha talento, mas tinha a paixão e daí meti-me
também na política, cheguei a escrever uma doutrina para meu
partido enquanto mergulhava na filosofia, ó Sócrates, ó Platão!...
Trazia na lapela do paletó o distintivo de filósofo, uma corujinha
de esmalte vermelho pousada num livro.
Calou-se. Acendeu um cigarro. Tinha no olhar uma expressão de
afetuosa ironia, zombava de si mesmo, mas sem amargura.
– Eu não tinha talento nem para a literatura e nem para a filosofia,
nenhuma vocação para aqueles ofícios que me fascinavam, essa é
a verdade, tinha um coração ardente, eis aí, tinha apenas um coração
ardente.
(continua aqui)
Um coração ardente, Lygia Fagundes Telles
Sorriu. Tinha uma bela voz.
– Mas eu dizia que na minha juventude fui um escritor que acabou
enveredando por todos os gêneros literários, fiz poesia, prosa...
Na realidade, eu não tinha talento, mas tinha a paixão e daí meti-me
também na política, cheguei a escrever uma doutrina para meu
partido enquanto mergulhava na filosofia, ó Sócrates, ó Platão!...
Trazia na lapela do paletó o distintivo de filósofo, uma corujinha
de esmalte vermelho pousada num livro.
Calou-se. Acendeu um cigarro. Tinha no olhar uma expressão de
afetuosa ironia, zombava de si mesmo, mas sem amargura.
– Eu não tinha talento nem para a literatura e nem para a filosofia,
nenhuma vocação para aqueles ofícios que me fascinavam, essa é
a verdade, tinha um coração ardente, eis aí, tinha apenas um coração
ardente.
(continua aqui)
Um coração ardente, Lygia Fagundes Telles
Sem drama
Poucas pessoas gostam de poesia,
embora a maioria,
como é sabido, diga que sim.
É que a poesia, erva ruim,
cresce sem pedir licença
e não precisa de jardim
para marcar presença.
Vicejando em qualquer lado,
há quem a ponha na lapela
para o encontro aprazado.
Outros mostram-na à janela
no lugar do cortinado.
Mas, sem que nisso haja drama,
raros são decerto aqueles
que a fazem dormir com eles
noite após noite na cama.
embora a maioria,
como é sabido, diga que sim.
É que a poesia, erva ruim,
cresce sem pedir licença
e não precisa de jardim
para marcar presença.
Vicejando em qualquer lado,
há quem a ponha na lapela
para o encontro aprazado.
Outros mostram-na à janela
no lugar do cortinado.
Mas, sem que nisso haja drama,
raros são decerto aqueles
que a fazem dormir com eles
noite após noite na cama.
Rua de Camões
A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
Nota sobre Shakespeare
O erro deles, o erro em que a maior parte deles cai, é tentar calcular e determinar, com a mais fina aparelhagem, a origem da ferida.
Procuram, com a devida tenção, os espaços entre a aparência e o vazio que dela depende. Vão ao encontro da ferida com deferência, um bisturi, uma agulha e uma linha. Logo à entrada do bisturi, alarga-se o espaço. Com a utilização da agulha e da linha, a ferida coagula e atrofia-se-lhe nas mãos.
Shakespeare escreve pela ferida aberta e, por ele, sabemos quando está aberta e quando está fechada. Somos capazes de dizer quando pára de bater e dizê-la no ponto mais alto da febre.
Várias Vozes, Harold Pinter, ed. Quasi
22.11.15
...
A flor receia a morte?
Toca-a? Cheira-a?
Devolve o seu perfume
à ondulação profunda?
Vira-se para a luz.
A morte é a flor
quando se abre.
daqui: canal de poesia
Toca-a? Cheira-a?
Devolve o seu perfume
à ondulação profunda?
Vira-se para a luz.
A morte é a flor
quando se abre.
daqui: canal de poesia
Poeira
[Eduardo Jorge]: Poeira. Das cinzas saltamos à poeira. Certa vez a senhora comentou que a poeira a acompanha desde a infância. Seria a poeira uma espécie de convidada estrangeira?
[Maria Filomena Molder]: Poeira era a dedada do sol quando entrava na casa da minha infância. Percebi logo que ela era também de origem cósmica, quer dizer, pertencia a tudo o que estava em redor muito longe, longíssimo (traduzido agora, incontáveis anosluz): hostes de seres minúsculos que habitavam, trémulos, instáveis, o raio de sol numa agitação constante. Dizia para mim: “está tudo cheio de poeira e eu não sabia antes deste raio de sol entrar pela janela”, maravilhada e ao mesmo tempo perto de um terror que não provocava paralisia. Era uma coisa de infância, um anúncio, tanta coisa que existe sempre ao nosso lado, que enche a nossa boca quando a abrimos, penetra nos cabelos, rodopia à nossa volta e nós sem darmos dela. A luz descobriu-a. Esta poeira também pousava nos móveis, nas vidraças das janelas, mas aí não dançava, esperava pelos nosso dedos que abriam sulcos, desenhos, nesse estado chamava-se pó e limpava-se. Nunca tive a certeza de que fossem a mesma.
Zazie dans le métro
- Moi, déclara Zazie, je veux aller à l'école jusqu'à soixante-cinq ans. (...) Je veux être institutrice.
- Pourquoi que tu veux l'être, institutrice?
- Pour faire chier les mômes (...). Je serai vache comme tout avec eux. Je leur ferai lécher le parquet. Je leur ferai manger l'éponge du tableau noir. Je leur enfoncerai des compas dans le derrière. Je leur botterai les fesses.
- Tu sais, dit Gabriel avec calme, d'après ce que disent les journaux, c'est pas du tout dans ce sens là que s'oriente l'éducation moderne. C'est même tout le contraire. On va vers la douceur, la compréhension et la gentillesse. (...) D'ailleurs, dans vingt ans, y aura plus d'institutrices : elles seront remplacées par le cinéma, la tévé, l'électronique, des trucs comme ça.
- Alors, déclara-t-elle, je serai astronaute pour aller faire chier les Martiens.
Raymond Queneau, Zazie dans le métro
O Fazedor
Nunca se havia demorado nos gozos da memória. As impressões resvalavam sobre ele, momentâneas e vívidas; o cinábrio de um oleiro, a abóbada carregada de estrelas que também eram deuses, a lua, donde tinha caído um leão, a lisura do mármore sob as lentas gemas sensíveis, o sabor da carne de javali, que gostava de dilacerar com dentadas brancas e bruscas, uma palavras fenícia, a sombra negra que uma lança projecta na areia amarela, a proximidade do mar ou das mulheres, o pesado vinho cuja aspereza era mitigada pelo mel eram capazes de abarcar por inteiro o âmbito da sua alma. Conhecia o terror mas também conhecia a cólera e a coragem, e uma vez foi o primeiro a escalar um muro inimigo. Ávido, curioso, sem outra lei que não a fruição e a indiferença imediata, andou pela variada terra e contemplou, numa e noutra costa do mar, as cidades dos homens e os seus palácios. Nos mercados populosos ou ao pé de uma montanha de cimo incerto, onde podia perfeitamente haver sátiros, fora-lhe dado ouvir complicadas histórias, que recebeu como recebia a realidade, sem indagar se eram verdadeiras ou falsas.
Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma obstinada neblina apagou-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estrelas, a terra tornou-se-lhe insegura debaixo dos pés. Tudo se afastava e se tornava confuso. Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estóico ainda não tinha sido inventado e Heitor podia muito bem fugir sem menosprezo. Não mais verei (sentiu) nem o céu cheio de pavor mitológico, nem essa cara que os anos hão-de transformar. Dias e noites passaram sobre esse desespero da sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem assombro) as nebulosas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que já lhe tinha acontecido tudo isso e que tudo isso havia encarado com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade. Desceu então àquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moeda debaixo da chuva, talvez por nunca a ter olhado, a não ser porventura num sonho.
A recordação era a seguinte: Um outro rapaz tinha-o injuriado e ele tinha corrido para junto do pai e contara-lhe a história. O pai deixou-o falar como se não lhe desse ouvidos ou não compreendesse e dependurou da parede um punhal de bronze, muito belo e carregado de poder, que o rapaz havia cobiçado furtivamente. Agora tinha-o nas mãos e a surpresa da posse anulou a injúria sofrida, mas a voz do pai fez-se ouvir: Que alguém saiba que és um homem. E havia uma ordem na voz. A noite cegava os caminhos; abraçado ao punhal, em que pressentia uma força mágica, desceu a brusca ladeira que rodeava a casa e correu até à beira-mar, sonhando-se Ajax e Perseu e povoando de feridas e de batalhas a obscuridade salobra. O sabor preciso daquele instante era o que de momento procurava. Queria lá saber do resto: as afrontas do desafio, o torpe combate, o regresso com a lâmina a sangrar.
Outra lembrança em que também havia uma noite e uma iminência de aventura, desprendeu-se daquela. Uma mulher - a primeira que os deuses lhe proporcionaram - esperava por ele na sombra dum hipogeu, e ele pôs-se à procura dela através das galerias que eram como redes de pedra e através de despenhadeiros que se dissolviam na sombra. Por que motivo chegavam até ele essas memórias e por que razão lhe chegavam sem amargura, como uma mera prefiguração do presente?
Não sem grave assombro compreendeu. Naquela noite, dos seus olhos mortais, a que agora descia, esperavam-no também o amor e o risco. Ares e Afrodite, porque já adivinhava (porque já o cercava) um rumor de glória e de hexâmetros, um rumor de homens que defendem um templo que os deuses não salvarão e de baixéis negros que procuram no mar uma ilha querida, o rumor das Odisseias e Ilíadas que era o seu destino cantar e deixar ressoando concavamente na memória humana. Sabemos estas coisas, mas desconhecemos as que sentiu ao descer à última sombra.
O Fazedor in Poemas Escolhidos, Jorge Luis Borges
Selecção e Trad. Ruy Belo, Ed. Dom Quixote, Lisboa
15.11.15
14.11.15
Paris, je t'aime.
![]() |
| Jean-Philippe Charbonnier, Les Amourex, Paris, 1950 |
Así habían empezado a andar por un París fabuloso, dejándose llevar por los signos de la noche, acatando itinerarios nacidos de una frase de clochard, de una bohardilla iluminada en el fondo de una calle negra, deteniéndose en las placitas confidenciales para besarse en los bancos o mirar las rayuelas, los ritos infantiles del guijarro y el salto sobre un pie para entrar en el Cielo.
O fanatismo...
...é a morte da conversa. Não se consegue tagarelar com um candidato a mártir. Que dizer a alguém que se recusa a compreender os nossos argumentos e que, a partir do momento em que não nos inclinamos perante os seus, preferiria morrer a ceder? Antes os diletantes e os sofistas que, pelos menos, participam em todos os argumentos...
Do inconveniente de ter nascido, de E. M. Cioran, p. 104.
* * *
CAPÍTULO 62
1. Na cave do Elijah-o-impossível havia um mapa do mundo inteiro.
2. Para mim, olhar para ele era uma oração.
3. Uma oração que era do tamanho do mundo inteiro.
4. Quando cheguei a casa, fiz a mala, pus as minhas roupas lá dentro, a roupa interior, os sapatos, toalhas, o bilhete de autocarro de Houston (será que daria para viajar?), e peguei nela e andei pelo meu quarto.
5. Era uma viajante.
* * *
Mar - Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, p. 72
1. Na cave do Elijah-o-impossível havia um mapa do mundo inteiro.
2. Para mim, olhar para ele era uma oração.
3. Uma oração que era do tamanho do mundo inteiro.
4. Quando cheguei a casa, fiz a mala, pus as minhas roupas lá dentro, a roupa interior, os sapatos, toalhas, o bilhete de autocarro de Houston (será que daria para viajar?), e peguei nela e andei pelo meu quarto.
5. Era uma viajante.
* * *
Mar - Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, p. 72
13.11.15
Libya, Where Art Thou?*
![]() |
| /Dawn at Tripoli, Libya, photo © Naziha Arebi/ |
It’s so hard to get informed about Libya these days. It’s like Libya doesn’t exist for the mainstream media. Not even a glimpse of life there, not even a small peek. Where are you Libya, how are you?
*(cont.)
10.11.15
«Isso irrita-me imenso. Como se estivesse na nossa mão dominar a doença, o que faz com que as pessoas que morrem sejam culpadas disso.»*
Obrigada ao Plúvio, que partilhou no seu blog uma ligação para a entrevista da revista Sábado a Maria Filomena Mónica.
*resposta dada no seguimento da observação de Dulce Garcia: No livro Imortalidade, Christopher Hitchens revolta-se contra a ideia de que a força de vontade é fundamental para superar o cancro.
Olhe, preciso de dinheiro
![]() |
| Aoki Tetsuo |
Olhe, preciso de dinheiro.
Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio.
Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões.
Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.
A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas.
Já não tenho paciência.
Com esta idade, já viu o que é.
Sujeitar-se a todos os labregos.
Já tentei noutros bancos, sim.
Pedi também aos meus pais, é verdade;
disse-lhes que era para me casar.
Não, não tenho casa, nem automóvel.
Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo.
O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado.
É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal,
mas anda a mil.
E adiantado, não pode pagar nada como entrada?
Entrada, não sei.
Só se for o coração.
Golgona Anghel, Como uma flor de plástico na montra de um talho (Assírio & Alvim, 2013)
6.11.15
3.11.15
Domador de Caracóis
Quando for grande, quero ser
domador de caracóis.
É muito perigoso
-diz a mãe.
E pastor de libelinhas?
As libelinhas pastam na frescura do rio.
Sabes nadar sobre a água?
-diz a mãe.
Serei médico das árvores, é mais seguro.
Onde fica o coração das árvores?
-diz a mãe.
Vou aprender a arte de colecionar nuvens.
Choram muito...
-diz a mãe.
Sílvio, Domador de Caracóis, de Francisco Duarte Mangas
domador de caracóis.
É muito perigoso
-diz a mãe.
E pastor de libelinhas?
As libelinhas pastam na frescura do rio.
Sabes nadar sobre a água?
-diz a mãe.
Serei médico das árvores, é mais seguro.
Onde fica o coração das árvores?
-diz a mãe.
Vou aprender a arte de colecionar nuvens.
Choram muito...
-diz a mãe.
Sílvio, Domador de Caracóis, de Francisco Duarte Mangas
MESA
É apenas mais um dia na terra, dizes, e apresso-me de encontro
à menoridade de todos os começos: lírica, escura, pressurosa
métrica tomada de assalto pela luz de Inverno sobre
o vidro da mesa.
Depois da Música, de Luís Quintais
à menoridade de todos os começos: lírica, escura, pressurosa
métrica tomada de assalto pela luz de Inverno sobre
o vidro da mesa.
Depois da Música, de Luís Quintais
1.11.15
31.10.15
«Baleia Branca»
«Um dos meus passatempos favoritos é caçar baleias brancas. Desde que li Moby Dick que consigo ver cachalotes em muitos lugares e consigo perceber que também sou um bocadinho Ahab, que também tenho algumas monomanias. Tem a sua ciência, caçar baleias, pois é uma actividade exegética e sujeita a inúmeras interpretações, já que um cetáceo metafórico não se esgota facilmente. Saber ou conhecer é matar com um arpão, é destruir a selvajaria do desconhecido e torná-la objecto de museu. Moby Dick é cheio de metáforas e não me parece que a sua leitura possa ser fruída sem que o leitor saia do livro a coxear um pouco da alma como Ahab coxeava a andar com a sua perna de pau. Dantes, tinha o hábito de dobrar as pontas das páginas dos livros onde encontrava frases que valia a pena serem arpoadas*. Moby Dick é o livro que tenho com mais pontas de páginas dobradas, algo que não passa de mais uma forma de caçar baleias.»
(Hemingway, sobre Moby Dick) in Mar - Enciclopédia da Estória Universal -, de Afonso Cruz, p. 16
*eu também...
30.10.15
28.10.15
26.10.15
«Guia para viajar pelas florestas do sentido»
O que é o caminho?
anúncio de partida
escrito em folhas que o pó desenhou.
O que é a árvore?
lagoa verde cujas ondas são o vento.
O que é o vento?
alma que não quer
habitar o corpo.
O que é a morte?
carro que leva
do útero da mulher
ao útero da terra.
O que é a lágrima?
guerra perdida pelo corpo.
O que é o desespero?
descrição da vida na língua da morte.
O que é o horizonte?
espaço que se move sem parar.
O que é a coincidência?
fruto na árvore do vento
caindo entre as mãos
sem se saber.
O que é o não sentido?
doença que mais se propaga.
O que é a memória?
casa habitada só
por coisas ausentes.
O que é a poesia?
navios que navegam, sem portos.
O que é a metáfora?
asa aliviando
no peito das palavras.
O que é o fracasso?
musgo boiando no lago da vida.
O que é a surpresa?
pássaro
que escapou da gaiola da realidade.
O que é a história?
cego a tocar tambor.
O que é a sorte?
dado
na mão do tempo.
O que é a linha reta?
soma de linhas tortas
invisíveis.
O que é o umbigo?
meio caminho
entre
dois paraísos.
O que é o tempo?
veste que usamos
sem poder tirar.
O que é a melancolia?
anoitecer
no espaço do corpo.
O que é o sentido?
início do não sentido
e seu fim.
[Adonis, Poemas]
25.10.15
esta noite, que é como quem diz, agora.
O que eu desejava, realmente, era ir, esta noite, morrer à tua porta. Mas mora lá tanta gente que tu podias pensar que eu não tinha morrido à tua porta. Se ao menos o teu quarto tivesse uma varanda. Ou se praticasse a técnica da transferência e vivesse as imagens da substituição… ou se sinceramente amasse a minha analista. Não sublimo os desejos por incapacidade. E recalco mais este. Não posso, como desejava realmente, ir morrer à tua porta. Fico a gemer. Se, ao menos, tu morresses!
Linha de Linho, Vila Real, 1983
24.10.15
«Como se diz isso que não perdura?»
Isso que queima
e que se torna lânguido
um momento depois de ter desligado,
como se diz o instante que vivemos
antes da notícia da morte,
tudo o que acontece entre os silêncios.
Como chamamos
ao espaço que fica na esfera
da caneta sem tinta?
Como se chama o filho que não tenho,
o livro que me livraria
daquele funesto amor?
-Como se diz quando se ama assim?-
Como se diz isso que nos falta,
agora mesmo,
amanhã, isso que falta e sempre falta
um dia antes, noutro sitio, noutro
quarto?
Isso que perseguimos toda uma vida em vão,
essa pequena estafa que nos move
e seduz e obriga a continuar,
cegos, loucos e sós.
23.10.15
carta a Oskar Pollak, de 27 de Janeiro de 1904
em português do Brasil:
No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos o trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. É nisso que acredito.
no idioma de Sua Majestade:
Altogether, I think we ought to read only books that bite and sting us. If the book we are reading doesn’t shake us awake like a blow to the skull, why bother reading it in the first place? So that it can make us happy, as you put it? Good God, we’d be just as happy if we had no books at all; books that make us happy we could, in a pinch, also write ourselves. What we need are books that hit us like a most painful misfortune, like the death of someone we loved more than we love ourselves, that make us feel as though we had been banished to the woods, far from any human presence, like suicide. A book must be the axe for the frozen sea within us. That is what I believe.
o original:
Ich glaube, man sollte überhaupt nur solche Bücher lesen, die einen beißen und stechen. Wenn das Buch, das wir lesen, uns nicht mit einem Faustschlag auf den Schädel weckt, wozu lesen wir dann das Buch? Damit es uns glücklich macht, wie Du schreibst? Mein Gott, glücklich wären wir eben auch, wenn wir keine Bücher hätten, und solche Bücher, die uns glücklich machen, könnten wir zur Not selber schreiben. Wir brauchen aber die Bücher, die auf uns wirken wie ein Unglück, das uns sehr schmerzt, wie der Tod eines, den wir lieber hatten als uns, wie wenn wir in Wälder verstoßen würden, von allen Menschen weg, wie ein Selbstmord, ein Buch muß die Axt sein für das gefrorene Meer in uns. Das glaube ich.
[quem me conhece sabe da minha predilecção pelas idiossincrasias do tradutor, os seus dilemas morais.]
21.10.15
moeda de troca*
ALMA
I.
Inquilina del cuerpo
sin contrato de alquiler
II.
Esencia irrenunciable
del ser
III.
Moneda de cambio
[Itziar Mínguez Arnáiz, Wikipoemia]
* culpa da Cuca, a Pirata
I.
Inquilina del cuerpo
sin contrato de alquiler
II.
Esencia irrenunciable
del ser
III.
Moneda de cambio
[Itziar Mínguez Arnáiz, Wikipoemia]
* culpa da Cuca, a Pirata
19.10.15
por estes dias...
É preciso casar João,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.
[Poema da Necessidade, in 'Sentimento do Mundo']
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.
[Poema da Necessidade, in 'Sentimento do Mundo']
18.10.15
«Loin des hommes»
filme baseado no conto de Albert Camus, O Hóspede (1957), que nunca li, com Viggo Mortensen e Reda Kateb nos principais papeis. a banda sonora ficou a cargo de Nick Cave & Warren Ellis.
um filme incrível sobre o dilema das origens. de onde somos?/ quem somos?/ a quem obedecemos? onde fica o nosso lugar, quando não queremos/ conseguimos escolher lugar nenhum?
sonhável
Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitámos tão pouco. Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país, nessas regiões encontro gente que não sabe ler livros, mas que sabe ler o seu mundo, nesse universo de outros saberes, sou eu o analfabeto. Não sei ler sinais da terra, das árvores e dos bichos. Não sei ler nuvens, nem o prenúncio das chuvas. Não sei falar com os mortos, perdi contacto com os antepassados que nos concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que faço à savana, vou aprendendo sensibilidades que me ajudam a sair de mim e a afastar-me das minhas certezas, nesse território, eu não tenho apenas sonhos. Eu sou sonhável.
[E se Obama fosse africano?, Mia Couto]
17.10.15
Angry birds, por Mãe Preocupada
«As prostitutas da zona industrial, vazadouros de esperma, taras e solidão, também investem os tempos de pausa a dedilhar febrilmente no telemóvel.
Num exercício de imaginação, sento-me eu numa das suas cadeirinhas de lona, na berma da estrada, não sei há quantos anos estou a olhar para a mesma mata de eucaliptos com a humidade a roer-me os ossos, sou velha antes do tempo, tenho vícios, resignações, carnes frouxas, talvez não me lembre de a vida ser outra coisa nem sei do que será amanhã, se morro às mãos de uma besta desvairada, se me torno mãe de homens feitos que nunca pari. E neste tempo suspenso, neste abandono à margem do caminho, nesta desesperança crónica que não mata mas mói, cruzo a perna balofa, fumo um cigarro, tiro o telemóvel e acredito que os minutos voam enquanto extermino porcos de riso alarve com passarinhos a quem assaltaram o ninho.»
todos os elogios que lhe poderia fazer, são pequenos, para descrever o quanto gosto de a ler.
«A menstruação quando na cidade passava»
A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos - e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado - alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos - era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos - e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio -
na noite, na neve -
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam - e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação - falava alguém. O ar passava -
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos - e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado - alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos - era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos - e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio -
na noite, na neve -
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam - e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação - falava alguém. O ar passava -
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
16.10.15
barcos-casas
Certo dia de manhã encontrei na caixa do correio uma ordem da polícia do rio para me mudar. Esperava-se a visita do Rei de Inglaterra e não era agradável para um rei a vista de barcos-casas, a roupa a secar no convés, as chaminés e os depósitos de água ferrugentos, as pranchas escamoteadas e outras flores humanas nascidas da pobreza e da preguiça. Mandavam-nos, portanto, sair a todos, subir o Sena, ninguém sabia para onde porque a linguagem era demasiado técnica.
Um dos meus vizinhos, um ciclista zarolho, chegou a discutir as desocupações e a invocar leis que jamais tinham existido e que davam às casas fluviais direito de se fixarem, lodosas, no coração de Paris. O pintor gordo que viva no lado oposto do rio, sempre de camisa desabotoada e a transpirar, sugeriu que não nos mudássemos, como forma de protesto. Que podia acontecer?
Anais Nin, Debaixo de uma redoma
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