30.7.15

Cole Porter




[aprecio os que partilham dos meus gostos, aplaudo os que partilham os seus.]


29.7.15

El Amor

En la selva amazónica, la primera mujer y el primer hombre se miraron con curiosidad. Era raro lo que tenían entre las piernas.
—¿Te han cortado? —preguntó el hombre.
—No —dijo ella—. Siempre he sido así.
Él la examinó de cerca. Se rascó la cabeza. Allí había una llaga abierta. Dijo:
—No comas yuca, ni plátanos, ni ninguna fruta que se raje al madurar. Yo te curaré. Échate en la hamaca y descansa.
Ella obedeció. Con paciencia tragó los menjunjes de hierbas y se dejó aplicar las pomadas y los ungüentos. Tenía que apretar los dientes para no reírse, cuando él le decía:
—No te preocupes.
El juego le gustaba, aunque ya empezaba a cansarse de vivir en ayunas y tendida en una hamaca. La memoria de las frutas le hacía agua la boca.
Una tarde, el hombre llegó corriendo a través de la floresta. Daba saltos de euforia y gritaba:
—¡Lo encontré! ¡Lo encontré!
Acababa de ver al mono curando a la mona en la copa de un árbol.
—Es así —dijo el hombre, aproximándose a la mujer.
Cuando terminó el largo abrazo, un aroma espeso, de flores y frutas, invadió el aire. De los cuerpos, que yacían juntos, se desprendían vapores y fulgores jamás vistos, y era tanta su hermosura que se morían de vergüenza los soles y los dioses.


 Eduardo Galeano, Memoria del fuego 1: Los nacimientos

Olhando o sofrimento dos outros (i)

2

Ser espectador de calamidades que se passam noutro país é uma experiência moderna quintessencial, a oferta cumulativa de mais de século e meio destes turistas profissionais, especializados, a que se chama «jornalistas». As guerras são agora também imagens e sons de sala de estar. A informação sobre o que está a acontecer noutro sítio, a que se dá o nome de «notícias», sublinha o conflito e a violência - If it bleeds, it leads [Se há baixas, há cachas»], reza a provecta divisa dos tabloides e dos programas noticiosos de 24 horas - que recebem em resposta compaixão, ou indignação, ou excitação, ou aprovação, à medida que cada notícia vai surgindo.

[cont.]


Susan Sontag, Olhando o Sofrimento dos Outros, Editora Quetzal, 2015, p. 25


28.7.15

Ácidos e óxidos

É uma coisa estranha este verão 
E no entanto ia jurar que estive aqui 
Não me dói nada, não. A tia como está? 
Claro que vale a pena, por que não? 
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu 
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina 
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto? 
Até já soube formas de o dizer de outra maneira 
Há coisas importantes, umas mais que as outras 
Basta limpar os pés alheios à entrada 
e só mandarmos nós neste templo de nada 
E o orgulho é a nossa verdadeira casa 
Nesta altura do ano quando o vento sopra 
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser? 
Não, cargos ou honras, não. Um simples gato ao sol, 
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas 


[poema completo neste porto de abrigo]

Roth, com muito Al Pacino



continuando no cinema pouco estrelado
(dizem que cheira a  Birdman)


27.7.15

«Touch me in the dark, no one can see / Touch me in the dark, you touch me»




não lhe vão encontrar grande entusiasmo na crítica estrelada, mas a mim tocou-me, especialmente Lily, la petite pute, e esta Nicole Kidman, tão prenhe de sofrimento e abandono.


26.7.15

Do capítulo da devolução

Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo
no meu leito, um corpo estranho e surdo um 
corpo incompreensível

aquele desespero que deixou de ter forças para erguer
os portais do outro reino tristeza de menino a
quem tiraram tudo, até a tinta e as flores e o prazer 
de gritar

esse (foi visto) deve subsistir porque é a tua maneira de 
tomar banho no cosmos, olhar o cosmos como os 
que ainda podem interrogar as ondas e morrer

mas tu ainda não sabes a que ponto morreste; vais até 
à janela, aspiras com cuidado o oxigénio que o 
espaço te oferece, apontas rindo a meiga criatura 
que pela rua arrasta a sua condição de animal 
fulminado

depois olhas para mim, olhas as tuas mãos, e elas 
ambas, tão claras, tão seguras, são as mãos de 
um soldado a arder em febre, aves a percorrer o 
seu novo deserto

mas tu sabes, tu viste, e mais do que eu; a mão do 
homem é doce e iluminada como a noite como 
um rasto de fumo sobre os hospitais

tivemos uma história mas a história foi-se, em fileiras 
angélicas e gratas, a fazer a manhã de outras 
paragens; outra sombra, outros olhos seme-
lhantes

noutro leito nas nuvens deito os teus cabelos, o teu 
cansaço e a minha miséria, os teus braços e os 
meus, altos como cidades, altos como flores

parou o automóvel, lá em baixo, e eu não tenho mais 
que descer as escadas, fechar ainda a porta do 
teu quarto, atravessar de um pulo a minha própria 
vida

agora posso sonhar até deixar de te ver


belo rio sem lágrimas 

24.7.15

Equinócios de Tangerina

nos dentes amachuco a folha de papel escrita, mordo noite adiante o ombro decotado e literário de Tangerina. invento-o e mordo-o, como sempre fiz, esfrego o sexo nas palavras, meto-lhes nas mãos sujas da literatura, viro-a, enrabo Tangerina ainda mal acordada no fundo da memória, mordo-lhe a nuca, mordo-a até não sentir em mim absolutamente mais nada (...)

23.7.15

Antarctica






Ab imo corde

Uma última palavra. Para Keats, o desafio da poesia do futuro era «thinking into the human heart». Os cientistas deste e do próximo século sabem que a tarefa é « thinking into the human brain», pois continuamos todos sem saber porque é que o «binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo». Mas como dizia o personagem do nosso Eça, certas coisas não se sabem e é preferível não se saberem. Não será melhor assim?

Ab imo corde.

João Lobo Antunes
Páscoa de 1997
[Carta a um amigo-novo (Prefácio ao livro de José Cardoso Pires, De profundis, Valsa lenta)]


22.7.15

azul

Helena Almeida


Teresa Freitas


De profundis, Valsa lenta

Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido.

[José Cardoso Pires, De profundis, Valsa lenta, Leya Editora, p. 31]

19.7.15

Tríptico

I
Fosses tu um rio e eu
um seixo
lançado por mãos hábeis
para te tocar a pele
uma vez
e outra e outra e outra.
E mergulhar em ti.

II
Ponho as mãos em concha
debaixo da torneira e penso:
Como seria bom que aqui estivesses
e a abrisses.

III
Fosses tu o mar
e eu pedra que submergisse em ti
brotando anéis concêntricos de pequenas vagas
como para te circunscrever
num abraço
inteiro.


16.7.15

33

Escrevo rodeado de pessoas por todos os lados. Este café é a minha vida. Quando o descobri há um ano nasci. O café tem sempre coisas para dizer. Podia estar aqui a vida inteira a escrever sobre ele e as pessoas que chegam e o usam como coisa imóvel. Não. O café tem vida. Ou eu não estivesse aqui e as minhas veias não fossem as do café.

Já dormi com a mulher que me serve a «bica». Agora já não dormimos porque não lhe fiz um filho. As pessoas que vêm ao café não sabem disso. E eu rio-me quando a mulher dá aos olhos dos visitantes as suas ancas (sujas).

Escrevo rodeado de pessoas e forçosamente tenho de escrever a minha vida. Quando houver um lugar vago no café vou-me embora. Deixo a minha vida e a caneta.

Entretenho-me com as pessoas. Combino-as. Meto-as depois na minha vida. Assim a caneta vai forçando o papel: uma rapariga e um rapaz. As pernas que adormecem por baixo da mesa uma na outra. E eu vejo e compreendo. Aqui não se pode amar à vontade. Um velho pede um café e fica toda a tarde. Com certeza. (Podia estar toda a vida aqui. Já não lhe interessam os lugares onde possa estar mesmo com um sorriso. Está aqui porque a morte deve chegar aqui. Chega a todos os lugares. Não sabe onde a morte o vai apanhar. Por isso pediu um café como podia ter pedido a morte).

Um dia hei-de ser velho... Não. Nunca serei velho. Mato-me. Há mais, muitas pessoas no café. Mas a tinta falta-me. Procuro a tampa e enrosco-a no aparo e escondo a caneta no corpo interior do casaco e deixo de pensar. Como se fosse a entrar no sono sem nada na manga.

Bem, não acreditem em mim. Nunca acreditem. Este truque da falta de tinta foi antes uma falta desangue. Não tinha sangue para entregar às pessoas. Não tinha um sorriso para quando elas mo devolvessem. São demasiadas pessoas para mim. O bluff foi perigoso porque me deixaram de ler. Mas amei-a bem. Senão não tinha o sangue limpo para amanhã ir pelas ruas e fabricar a mulher noutra cidade.

Agora, o velho levanta-se sem ruído. Não gosta de entrar na vida dos outros. Ele já está morto. Quase tinha medo de respirar no café.

Aproveito a saída do velho para sair do meu lugar, da minha vida e entrar na cidade. Antes de desaparecer, ainda volto a cabeça para trás e ainda vejo o velho a olhar a mão. À saída do café conta o troco. E oiço o velho dizer (palavras certas na memória): «Não me podem enganar. Não me podem enganar». Convence-se a si próprio. A mulher do café engana no troco este velho quando ele vem sem óculos. E o velho sabe e repete sempre a cena: olha a mão, revolve as moedas e por fim sopra «não me podem enganar».

Entro num eléctrico e penso que o velho nunca pode enganar a morte.



[daqui: café central]


13.7.15

I

precisavas de uma linha de tempo que fosse
como aquelas rodas imperfeitas que meninos
conduzem em aprumos de aros de arame
por imperfeitas ruas de pedra cada oscilação
o eco de pequenos oráculos prováveis traços
de riscar o chão ecos de apostas mentais
curva de obstinado voo e consequente queda


5.7.15

Tangerinas

Roubo as palavras ao João Lopes.
Como já tinha dito, Tangerinas das boas.


Na universidade (então, mas acho que ainda hoje) as coisas passam-se ao contrário do mundo normal, não são os filhos que odeiam os pais, mas os pais que odeiam os filhos.

[Umberto Eco, Número Zero, Gradiva, 2015, p. 15]


4.7.15

Weeds




28.6.15

El Palacio

El Palacio no es infinito.

Los muros, los terraplenes, los jardines, los laberintos, las gradas, las terrazas, los antepechos, las puertas, las galerías, los patios circulares o rectangulares, los claustros, las encrucijadas, los aljibes, las antecámaras, las cámaras, las alcobas, las bibliotecas, los desvanes, las cárceles, las celdas sin salida y los hipogeos, no son menos cuantiosos que los granos de arena del Ganges, pero su cifra tiene un fin. Desde las azoteas, hacia el poniente, no falta quien divise las herrerías, las carpinterías, las caballerizas, los astilleros y las chozas de los esclavos.

A nadie le está dado recorrer más que una parte infinitesimal del palacio. Alguno no conoce sino los sótanos. Podemos percibir unas caras, unas voces, unas palabras, pero lo .que percibimos es ínfimo. Ínfimo y precioso a la vez. La fecha que el acero graba en la lápida y que los libros parroquiales registran es posterior a nuestra muerte; ya estamos muertos cuando nada nos toca, ni una palabra, ni un anhelo, ni una memoria. Yo sé que no estoy muerto.


[Jorge Luis Borges, El Oro De Los Tigres]


20.6.15

 - (...) Eu sei o que isso é. A pessoa procura esquecer, mas não dá resultado. O que tem a fazer é, pelo contrário, acolher com amabilidade os pensamentos desagradáveis.
- Que diz você, Mike?
- Lembre-se de tudo quanto possa, do princípio até ao fim. De cada vez que isso chegue, faça a mesma coisa, sem nada omitir. Depressa tudo se gasta, desaparecendo aos bocados, até nada ficar.

[John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, ed. «Livros do Brasil» Lisboa]


10.6.15

[Ethan Hawley, em resposta a Mr. Baker, um banqueiro, que quase o apelida de cobarde, por não aplicar as suas economias (na verdade, herança da mulher, porque as suas já as perdeu há muito em investimentos), para deixar de ser empregado na loja, que outrora foi sua.]


«- Os homens não se deixam prostrar. Eles podem bater-se contra grandes coisas. É a erosão que os mata. São atraídos pelos reveses. Pouco a pouco, têm medo. Eu tenho medo. A companhia de electricidade de Long Island pode cortar a corrente. Minha mulher precisa de vestidos. Os meus filhos de sapatos e divertimentos. E imagine que eles não possam estudar? E os pagamentos do fim do mês, o médico, o dentista, a operação às amígdalas. E se, ainda por cima, eu adoecesse e me tornasse incapaz de varrer este passeio? Evidentemente, o senhor não pode compreender. Eu odeio o meu trabalho, e tremo à ideia de perdê-lo.» 

[John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, ed. «Livros do Brasil» Lisboa]


7.6.15

Pedras são árvores
apenas um pouco
mais antigas

6.6.15




Deve ser terrível enterrar alguém que se ama nos princípios de Maio, quando o solo começa a descongelar e a espreguiçar-se, transformando-se num verde-vivo e o cheiro dos lilases desce em cascatas dos arbustos como uma pequena bênção. Ou em Setembro, quando o sol do meio-dia ainda aquece os rostos, mas as noites são suficientemente frescas para se usar uma camisa de noite de flanela e um cobertor extra puxado para cima a meio da noite.
Ou o Natal. Deve ser horrível no Natal.
Fevereiro é o mês adequado para se morrer. Tudo em redor está morto, as árvores negras e geladas, de maneira que o aparecimento dos rebentos verdes daí a dois meses parece uma coisa inconcebível, o solo duro e frio, a neve suja, o vento odioso, prolongando-se demasiado tempo.

[Anna Quindlen, A Única Verdade, Quetzal, 1999]

31.5.15

   – Lembro-me deste livro. Estava a lê-lo quando conheci o teu pai. Lembro-me de ter gostado dele, mas de ser um pouco irritada por ele também, porque fazia aquela coisa reles que as pessoas fazem, a irmã doce, doméstica e boa é afastada em prol da outra, esperta e bem-falante. Jane e Elizabeth. Lembro-me delas agora. Não me parecia justo que Jane fosse tão boa e, no entanto, Elizabeth é que era admirada. Suponho que é Austen ripostando. Ela era essa espécie de mulher e sabia que era a rapariga doce e boa que é estimada pela sociedade, não uma como Elizabeth, que diz o que tem a dizer. Mas Jane Austen tinha obrigação de não catalogar as mulheres, umas uma coisa, outras outra.   – Pensa na verdade que ela faz isso?
  – Penso. Acontece noutro livro, também. - Ela olhou outra vez para lá do rio. – Mulherzinhas –  disse ela após um momento. - Havia a irmã que era escritora e a outra, que tinha bebés.
   – Jo e Meg - disse eu.
  – É a mesma coisa - disse ela. – Mulheres escritoras deviam fazer melhor do que compartimentar mulheres, colocá-las em pequenos grupos, o das espertas e o das dóceis. As mulheres dos professores fazem isso na Universidade, também, nos chás das faculdades e noutras ocasiões.

[Anna Quindlen, A Única Verdade, Quetzal, 1999]

29.5.15

soledad

...

Abierto en mil heridas, cada instante,

cual mi frente,

tus olas van, como mis pensamientos,

y vienen, van y vienen,

besándose, apartándose,

en un eterno conocerse,

mar, y desconocerse.

...


25.5.15

Visions of Machu Picchu

 
 



21.5.15

Prólogo

A cadeia não é tão má como se imagina. Quando digo cadeia, não quero dizer prisão. Prisão é uma espécie de lugar que se vê em filmes antigos ou em documentários de uma televisão de serviço público, enormes espaços cinzentos com torres de vigia em cada canto e rolos de arame farpado que cercam os muros altos a toda a volta como um caracol. Prisão é onde os presos batem nas grades com colheres de metal, planeiam insurreições no pátio e levam o mais novo de todos - e que cumpre a primeira pena - para o chuveiro, enquanto os guardas viram as costas e o deixam por sua conta, o sangue escorrendo palidamente, carmesim misturado com branco leitoso escorrendo pela parte de trás das coxas isentas de pelos, o brilho dos olhos transformado para sempre.

[Anna Quindlen, A Única Verdade, Quetzal, 1999]


20.5.15

«A propósito de Dorian Gray»

Um dia hei-de cantar o cancro do tempo. Mas, por enquanto, não preciso dessa quimiopoesia. Sou um jovem cheio de planos. A minha vida mal começou. A melhor parte ainda está para vir, tenho a certeza. No entanto, este homem no espelho preocupa-me: está careca e tem olheiras cada vez maiores.


18.5.15

Dicionário da Real Academia

Imparcialmente, não ligo grande coisa ao Dicionário da Real Academia, «dont chaque édition fait regretter la précédente», segundo a melancólica sentença de Paul Grossac, e os pesados dicionários de argentinismos. Todos, os deste e os do outro lado do mar, tendem a acentuar as diferenças e a desintegrar o idioma. Recordo a este propósito a resposta de Roberto Arlt quando lhe atiraram à cara o seu desconhecimento do lunfardo: «Fui criado em Villa Luro, entre gente pobre e malfeitores, e realmente não tive tempo para estudar essas coisas.» De facto, o lunfardo é uma graça literária inventada por compositores de tangos e autores de teatro ligeiro, e os homens da beira-rio ignoram-no, exceto quando os discos das grafonolas lho ensinam.

[Jorge Luis Borges, in prólogo de O Relatório de Brodie, Bertrand]

12.5.15

«Colecionar fotos é colecionar o mundo.»

Leio Susan Sontag, Sobre Fotografia (edição brasileira Companhia das Letras), e surge-me Peeping Tom (1960), um excelente filme de Michael Powell. Gostei de relembrá-lo.

Todo-o-Mundo, Philip Roth

Encaminhou-se então cerimoniosamente para a cabeceira da sepultura, deteve-se por um momento em concentração e, inclinando ligeiramente a pá, deixou que a terra escorregasse devagar. Ao cair sobre a tampa de madeira do caixão, a terra produziu o som que se entranha numa pessoa como nenhum outro.

[ed. Dom Quixote, trad. de Francisco Agarez, p. 64]

"There's a train leaving for Paris at twelve-fifteen. We can catch that."






10.5.15

8.5.15



«A desproporção ontológica com as máquinas perdeu-se de vista, porque nossos corpos tornaram-se íntimos do plástico. Mimetizam-no. Fora de nós há o plástico na forma das coisas, do mesmo modo que dentro de nós, na forma de cirurgias, implantes, próteses. Nossa carne é moldada nas academias como se fosse de plástico. Nossa pele deve ser lisa como ele. Materialidade morta, o plástico usurpa o lugar da natureza perecível e promete o imperecível.»



7.5.15

2.5.15

25.4.15

“Melbourne” de Nima Javidi




Dia 30, Culturgest, 21h30


24.4.15

Se não sais de ti, não chegas a saber quem és - Adriana Lisboa*

O Times enviou certa vez uma pergunta a alguns autores de renome: «O que há de errado com o mundo de hoje?» Diz a lenda que a resposta de Chesterton** foi, «Prezados Senhores: eu.» Se a história é verdadeira ou não, ainda assim faz refletir. De acordo com a Oxfam, mais de metade da riqueza do mundo estará nas mãos de um por cento da população no próximo ano, conforme a desigualdade aumenta. O World Wildlife Fund nos informa que o atual desaparecimento de espécies é considerado de mil a dez mil vezes maior do que a taxa de extinção natural. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirma que a influência humana no clima é clara, e as nossas emissões recentes de gases de efeito estufa são as maiores da história. O que há de errado, então, com o mundo de hoje?
Quando descobri a ficção de José Saramago, eu tinha dezoito anos. Folheava alguns títulos numa feira do livro no centro do Rio de Janeiro, e me deparei com um de seus romances. Tive a imediata impressão de que ele estava fazendo a mesma pergunta: O que há de errado com o mundo de hoje? E, como Chesterton, respondia: Eu. Nós.
É claro que não lemos livros de ficção em busca de tutela moral, e panfletagem não é o propósito da literatura. A poesia e a ficção são seu próprio fim. Para fazer coro com Fernando Pessoa, a literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta.



*in Revista Blimunda, nº 35

**«La literatura es una de las formas de la felicidad; tal vez ningún escritor me ha dado tantas horas felices como Chesterton» (Jorge L. Borges)



23.4.15

«Partem tão tristes os pés de quem te arrasta consigo»



 Christinas World (detail shoe)

18.4.15