20.6.15

 - (...) Eu sei o que isso é. A pessoa procura esquecer, mas não dá resultado. O que tem a fazer é, pelo contrário, acolher com amabilidade os pensamentos desagradáveis.
- Que diz você, Mike?
- Lembre-se de tudo quanto possa, do princípio até ao fim. De cada vez que isso chegue, faça a mesma coisa, sem nada omitir. Depressa tudo se gasta, desaparecendo aos bocados, até nada ficar.

[John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, ed. «Livros do Brasil» Lisboa]


10.6.15

[Ethan Hawley, em resposta a Mr. Baker, um banqueiro, que quase o apelida de cobarde, por não aplicar as suas economias (na verdade, herança da mulher, porque as suas já as perdeu há muito em investimentos), para deixar de ser empregado na loja, que outrora foi sua.]


«- Os homens não se deixam prostrar. Eles podem bater-se contra grandes coisas. É a erosão que os mata. São atraídos pelos reveses. Pouco a pouco, têm medo. Eu tenho medo. A companhia de electricidade de Long Island pode cortar a corrente. Minha mulher precisa de vestidos. Os meus filhos de sapatos e divertimentos. E imagine que eles não possam estudar? E os pagamentos do fim do mês, o médico, o dentista, a operação às amígdalas. E se, ainda por cima, eu adoecesse e me tornasse incapaz de varrer este passeio? Evidentemente, o senhor não pode compreender. Eu odeio o meu trabalho, e tremo à ideia de perdê-lo.» 

[John Steinbeck, O Inverno do Nosso Descontentamento, ed. «Livros do Brasil» Lisboa]


7.6.15

Pedras são árvores
apenas um pouco
mais antigas

6.6.15




Deve ser terrível enterrar alguém que se ama nos princípios de Maio, quando o solo começa a descongelar e a espreguiçar-se, transformando-se num verde-vivo e o cheiro dos lilases desce em cascatas dos arbustos como uma pequena bênção. Ou em Setembro, quando o sol do meio-dia ainda aquece os rostos, mas as noites são suficientemente frescas para se usar uma camisa de noite de flanela e um cobertor extra puxado para cima a meio da noite.
Ou o Natal. Deve ser horrível no Natal.
Fevereiro é o mês adequado para se morrer. Tudo em redor está morto, as árvores negras e geladas, de maneira que o aparecimento dos rebentos verdes daí a dois meses parece uma coisa inconcebível, o solo duro e frio, a neve suja, o vento odioso, prolongando-se demasiado tempo.

[Anna Quindlen, A Única Verdade, Quetzal, 1999]

31.5.15

   – Lembro-me deste livro. Estava a lê-lo quando conheci o teu pai. Lembro-me de ter gostado dele, mas de ser um pouco irritada por ele também, porque fazia aquela coisa reles que as pessoas fazem, a irmã doce, doméstica e boa é afastada em prol da outra, esperta e bem-falante. Jane e Elizabeth. Lembro-me delas agora. Não me parecia justo que Jane fosse tão boa e, no entanto, Elizabeth é que era admirada. Suponho que é Austen ripostando. Ela era essa espécie de mulher e sabia que era a rapariga doce e boa que é estimada pela sociedade, não uma como Elizabeth, que diz o que tem a dizer. Mas Jane Austen tinha obrigação de não catalogar as mulheres, umas uma coisa, outras outra.   – Pensa na verdade que ela faz isso?
  – Penso. Acontece noutro livro, também. - Ela olhou outra vez para lá do rio. – Mulherzinhas –  disse ela após um momento. - Havia a irmã que era escritora e a outra, que tinha bebés.
   – Jo e Meg - disse eu.
  – É a mesma coisa - disse ela. – Mulheres escritoras deviam fazer melhor do que compartimentar mulheres, colocá-las em pequenos grupos, o das espertas e o das dóceis. As mulheres dos professores fazem isso na Universidade, também, nos chás das faculdades e noutras ocasiões.

[Anna Quindlen, A Única Verdade, Quetzal, 1999]

29.5.15

soledad

...

Abierto en mil heridas, cada instante,

cual mi frente,

tus olas van, como mis pensamientos,

y vienen, van y vienen,

besándose, apartándose,

en un eterno conocerse,

mar, y desconocerse.

...


25.5.15

Visions of Machu Picchu

 
 



21.5.15

Prólogo

A cadeia não é tão má como se imagina. Quando digo cadeia, não quero dizer prisão. Prisão é uma espécie de lugar que se vê em filmes antigos ou em documentários de uma televisão de serviço público, enormes espaços cinzentos com torres de vigia em cada canto e rolos de arame farpado que cercam os muros altos a toda a volta como um caracol. Prisão é onde os presos batem nas grades com colheres de metal, planeiam insurreições no pátio e levam o mais novo de todos - e que cumpre a primeira pena - para o chuveiro, enquanto os guardas viram as costas e o deixam por sua conta, o sangue escorrendo palidamente, carmesim misturado com branco leitoso escorrendo pela parte de trás das coxas isentas de pelos, o brilho dos olhos transformado para sempre.

[Anna Quindlen, A Única Verdade, Quetzal, 1999]


20.5.15

«A propósito de Dorian Gray»

Um dia hei-de cantar o cancro do tempo. Mas, por enquanto, não preciso dessa quimiopoesia. Sou um jovem cheio de planos. A minha vida mal começou. A melhor parte ainda está para vir, tenho a certeza. No entanto, este homem no espelho preocupa-me: está careca e tem olheiras cada vez maiores.


18.5.15

Dicionário da Real Academia

Imparcialmente, não ligo grande coisa ao Dicionário da Real Academia, «dont chaque édition fait regretter la précédente», segundo a melancólica sentença de Paul Grossac, e os pesados dicionários de argentinismos. Todos, os deste e os do outro lado do mar, tendem a acentuar as diferenças e a desintegrar o idioma. Recordo a este propósito a resposta de Roberto Arlt quando lhe atiraram à cara o seu desconhecimento do lunfardo: «Fui criado em Villa Luro, entre gente pobre e malfeitores, e realmente não tive tempo para estudar essas coisas.» De facto, o lunfardo é uma graça literária inventada por compositores de tangos e autores de teatro ligeiro, e os homens da beira-rio ignoram-no, exceto quando os discos das grafonolas lho ensinam.

[Jorge Luis Borges, in prólogo de O Relatório de Brodie, Bertrand]

12.5.15

«Colecionar fotos é colecionar o mundo.»

Leio Susan Sontag, Sobre Fotografia (edição brasileira Companhia das Letras), e surge-me Peeping Tom (1960), um excelente filme de Michael Powell. Gostei de relembrá-lo.

Todo-o-Mundo, Philip Roth

Encaminhou-se então cerimoniosamente para a cabeceira da sepultura, deteve-se por um momento em concentração e, inclinando ligeiramente a pá, deixou que a terra escorregasse devagar. Ao cair sobre a tampa de madeira do caixão, a terra produziu o som que se entranha numa pessoa como nenhum outro.

[ed. Dom Quixote, trad. de Francisco Agarez, p. 64]

"There's a train leaving for Paris at twelve-fifteen. We can catch that."






10.5.15

8.5.15



«A desproporção ontológica com as máquinas perdeu-se de vista, porque nossos corpos tornaram-se íntimos do plástico. Mimetizam-no. Fora de nós há o plástico na forma das coisas, do mesmo modo que dentro de nós, na forma de cirurgias, implantes, próteses. Nossa carne é moldada nas academias como se fosse de plástico. Nossa pele deve ser lisa como ele. Materialidade morta, o plástico usurpa o lugar da natureza perecível e promete o imperecível.»



7.5.15

2.5.15

25.4.15

“Melbourne” de Nima Javidi




Dia 30, Culturgest, 21h30


24.4.15

Se não sais de ti, não chegas a saber quem és - Adriana Lisboa*

O Times enviou certa vez uma pergunta a alguns autores de renome: «O que há de errado com o mundo de hoje?» Diz a lenda que a resposta de Chesterton** foi, «Prezados Senhores: eu.» Se a história é verdadeira ou não, ainda assim faz refletir. De acordo com a Oxfam, mais de metade da riqueza do mundo estará nas mãos de um por cento da população no próximo ano, conforme a desigualdade aumenta. O World Wildlife Fund nos informa que o atual desaparecimento de espécies é considerado de mil a dez mil vezes maior do que a taxa de extinção natural. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirma que a influência humana no clima é clara, e as nossas emissões recentes de gases de efeito estufa são as maiores da história. O que há de errado, então, com o mundo de hoje?
Quando descobri a ficção de José Saramago, eu tinha dezoito anos. Folheava alguns títulos numa feira do livro no centro do Rio de Janeiro, e me deparei com um de seus romances. Tive a imediata impressão de que ele estava fazendo a mesma pergunta: O que há de errado com o mundo de hoje? E, como Chesterton, respondia: Eu. Nós.
É claro que não lemos livros de ficção em busca de tutela moral, e panfletagem não é o propósito da literatura. A poesia e a ficção são seu próprio fim. Para fazer coro com Fernando Pessoa, a literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta.



*in Revista Blimunda, nº 35

**«La literatura es una de las formas de la felicidad; tal vez ningún escritor me ha dado tantas horas felices como Chesterton» (Jorge L. Borges)



23.4.15

«Partem tão tristes os pés de quem te arrasta consigo»



 Christinas World (detail shoe)

18.4.15

7.4.15

Song To The Moon (Rusalka)




voz de Lucia Pop



28.3.15

O que cresce no Deserto






Perto de Ispaão há uma ameixeira que dá dois tipos de frutos: as ameixas que são doces e os espaços entre as ameixas que são silenciosos. São estes últimos que, ao fim da tarde, exibem o pôr-do-sol através dos ramos.

(Peter Stamboliski, Poesia)

Afonso Cruz, Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria



Amo-te, meu Sol.


 Alan Ebnother



26.3.15

Conversation with a Stone

I knock at the stone’s front door.

"It’s only me, let me come in.

I want to enter your insides,

have a look round,

breathe my fill of you.”


"Go away," says the stone.

"I’m shut tight.

Even if you break me to pieces,

we’ll all still be closed.

You can grind us to sand,

we still won’t let you in.”


I knock at the stone’s front door.

"It’s only me, let me come in.

I’ve come out of pure curiosity.

Only life can quench it.

I mean to stroll through your palace,

then go calling on a leaf, a drop of water.

I don’t have much time.

My mortality should touch you.”


"I’m made of stone," says the stone,

"and must therefore keep a straight face.

Go away.

I don’t have the muscles to laugh.”


I knock at the stone’s front door.

"It’s only me, let me come in.

I hear you have great empty halls inside you,

unseen, their beauty in vain,

soundless, not echoing anyone’s steps.

Admit you don’t know them well yourself.”


"Great and empty, true enough," says the stone,

"but there isn’t any room.

Beautiful, perhaps, but not to the taste

of your poor senses.

You may get to know me, but you’ll never know me through.

My whole surface is turned toward you,

all my insides turned away.”


I knock at the stone’s front door.

"It’s only me, let me come in.

I don’t seek refuge for eternity.

I’m not unhappy.

I’m not homeless.

My world is worth returning to.

I’ll enter and exit empty-handed.

And my proof I was there

will be only words,

which no one will believe.”


"You shall not enter," says the stone.

"You lack the sense of taking part.

No other sense can make up for your missing sense of taking part.

Even sight heightened to become all-seeing

will do you no good without a sense of taking part.


You shall not enter, you have only a sense of what that sense should be,

only its seed, imagination.”


I knock at the stone’s front door.

"It’s only me, let me come in.

I haven’t got two thousand centuries,

so let me come under your roof.”


"If you don’t believe me," says the stone,

"just ask the leaf, it will tell you the same.

Ask a drop of water, it will say what the leaf has said.

And, finally, ask a hair from your own head.

I am bursting with laughter, yes, laughter, vast laughter,

although I don’t know how to laugh.”


I knock at the stone’s front door.

"It’s only me, let me come in."

"I don’t have a door," says the stone.



[poema traduzido aqui]


25.3.15

24.3.15

Outro Tempo

Não há ninguém que contemple

O mais belo dos ocasos
Após um quarto de hora.

Portanto, amor, passo o tempo,
Até te ver, a escrever
Todo e qualquer disparate
Que à cabeça me vem.


W. H. Auden

serás uma árvore dormindo e acordando onde existe o meu sangue.


Jan Mankes, Row of Trees,1915

4.3.15

A sombra


A um dia assim como o de hoje costumo chamar, no meu calão, de poeta em férias, dia «incoincidente».
O céu desde manhã que se conserva azul com gradações cruas de quadro mau; as árvores escorrem verde e chilreios de pássaros; as ruas riscam-se da rapidez das sombras. (...)
Pois foi precisamente hoje - dia de sol, de andorinhas, de árvores azuis, etc. - que os homens resolveram não coincidir com a natureza.


José Gomes Ferreira



Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.


As suas ossadas 
Quem sabe onde estão? 
Trago as mãos cruzadas, 
Pesam-me no peito. 
Quem sabe se a lama onde hoje me deito 
Dará flor aos vivos que dizem que não? 














[obrigada, querida Sónia]