30.4.15
28.4.15
25.4.15
24.4.15
Se não sais de ti, não chegas a saber quem és - Adriana Lisboa*
O Times enviou certa vez uma pergunta a alguns autores de renome: «O que há de errado com o mundo de hoje?» Diz a lenda que a resposta de Chesterton** foi, «Prezados Senhores: eu.» Se a história é verdadeira ou não, ainda assim faz refletir. De acordo com a Oxfam, mais de metade da riqueza do mundo estará nas mãos de um por cento da população no próximo ano, conforme a desigualdade aumenta. O World Wildlife Fund nos informa que o atual desaparecimento de espécies é considerado de mil a dez mil vezes maior do que a taxa de extinção natural. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirma que a influência humana no clima é clara, e as nossas emissões recentes de gases de efeito estufa são as maiores da história. O que há de errado, então, com o mundo de hoje?
Quando descobri a ficção de José Saramago, eu tinha dezoito anos. Folheava alguns títulos numa feira do livro no centro do Rio de Janeiro, e me deparei com um de seus romances. Tive a imediata impressão de que ele estava fazendo a mesma pergunta: O que há de errado com o mundo de hoje? E, como Chesterton, respondia: Eu. Nós.
É claro que não lemos livros de ficção em busca de tutela moral, e panfletagem não é o propósito da literatura. A poesia e a ficção são seu próprio fim. Para fazer coro com Fernando Pessoa, a literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta.
*in Revista Blimunda, nº 35
**«La literatura es una de las formas de la felicidad; tal vez ningún escritor me ha dado tantas horas felices como Chesterton» (Jorge L. Borges)
18.4.15
12.4.15
8.4.15
7.4.15
5.4.15
4.4.15
3.4.15
2.4.15
1.4.15
29.3.15
28.3.15
O que cresce no Deserto

Perto de Ispaão há uma ameixeira que dá dois tipos de frutos: as ameixas que são doces e os espaços entre as ameixas que são silenciosos. São estes últimos que, ao fim da tarde, exibem o pôr-do-sol através dos ramos.
(Peter Stamboliski, Poesia)
Afonso Cruz, Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria
26.3.15
Conversation with a Stone
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in.
I want to enter your insides,
have a look round,
breathe my fill of you.”
"Go away," says the stone.
"I’m shut tight.
Even if you break me to pieces,
we’ll all still be closed.
You can grind us to sand,
we still won’t let you in.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in.
I’ve come out of pure curiosity.
Only life can quench it.
I mean to stroll through your palace,
then go calling on a leaf, a drop of water.
I don’t have much time.
My mortality should touch you.”
"I’m made of stone," says the stone,
"and must therefore keep a straight face.
Go away.
I don’t have the muscles to laugh.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in.
I hear you have great empty halls inside you,
unseen, their beauty in vain,
soundless, not echoing anyone’s steps.
Admit you don’t know them well yourself.”
"Great and empty, true enough," says the stone,
"but there isn’t any room.
Beautiful, perhaps, but not to the taste
of your poor senses.
You may get to know me, but you’ll never know me through.
My whole surface is turned toward you,
all my insides turned away.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in.
I don’t seek refuge for eternity.
I’m not unhappy.
I’m not homeless.
My world is worth returning to.
I’ll enter and exit empty-handed.
And my proof I was there
will be only words,
which no one will believe.”
"You shall not enter," says the stone.
"You lack the sense of taking part.
No other sense can make up for your missing sense of taking part.
Even sight heightened to become all-seeing
will do you no good without a sense of taking part.
You shall not enter, you have only a sense of what that sense should be,
only its seed, imagination.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in.
I haven’t got two thousand centuries,
so let me come under your roof.”
"If you don’t believe me," says the stone,
"just ask the leaf, it will tell you the same.
Ask a drop of water, it will say what the leaf has said.
And, finally, ask a hair from your own head.
I am bursting with laughter, yes, laughter, vast laughter,
although I don’t know how to laugh.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in."
"I don’t have a door," says the stone.
[poema traduzido aqui]
"It’s only me, let me come in.
I want to enter your insides,
have a look round,
breathe my fill of you.”
"Go away," says the stone.
"I’m shut tight.
Even if you break me to pieces,
we’ll all still be closed.
You can grind us to sand,
we still won’t let you in.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in.
I’ve come out of pure curiosity.
Only life can quench it.
I mean to stroll through your palace,
then go calling on a leaf, a drop of water.
I don’t have much time.
My mortality should touch you.”
"I’m made of stone," says the stone,
"and must therefore keep a straight face.
Go away.
I don’t have the muscles to laugh.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in.
I hear you have great empty halls inside you,
unseen, their beauty in vain,
soundless, not echoing anyone’s steps.
Admit you don’t know them well yourself.”
"Great and empty, true enough," says the stone,
"but there isn’t any room.
Beautiful, perhaps, but not to the taste
of your poor senses.
You may get to know me, but you’ll never know me through.
My whole surface is turned toward you,
all my insides turned away.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in.
I don’t seek refuge for eternity.
I’m not unhappy.
I’m not homeless.
My world is worth returning to.
I’ll enter and exit empty-handed.
And my proof I was there
will be only words,
which no one will believe.”
"You shall not enter," says the stone.
"You lack the sense of taking part.
No other sense can make up for your missing sense of taking part.
Even sight heightened to become all-seeing
will do you no good without a sense of taking part.
You shall not enter, you have only a sense of what that sense should be,
only its seed, imagination.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in.
I haven’t got two thousand centuries,
so let me come under your roof.”
"If you don’t believe me," says the stone,
"just ask the leaf, it will tell you the same.
Ask a drop of water, it will say what the leaf has said.
And, finally, ask a hair from your own head.
I am bursting with laughter, yes, laughter, vast laughter,
although I don’t know how to laugh.”
I knock at the stone’s front door.
"It’s only me, let me come in."
"I don’t have a door," says the stone.
[poema traduzido aqui]
25.3.15
24.3.15
Outro Tempo
Não há ninguém que contemple
O mais belo dos ocasos
Após um quarto de hora.
Portanto, amor, passo o tempo,
Até te ver, a escrever
Todo e qualquer disparate
Que à cabeça me vem.
W. H. Auden
Após um quarto de hora.
Portanto, amor, passo o tempo,
Até te ver, a escrever
Todo e qualquer disparate
Que à cabeça me vem.
W. H. Auden
10.3.15
8.3.15
6.3.15
4.3.15
A sombra
A um dia assim como o de hoje costumo chamar, no meu calão, de poeta em férias, dia «incoincidente».
O céu desde manhã que se conserva azul com gradações cruas de quadro mau; as árvores escorrem verde e chilreios de pássaros; as ruas riscam-se da rapidez das sombras. (...)
Pois foi precisamente hoje - dia de sol, de andorinhas, de árvores azuis, etc. - que os homens resolveram não coincidir com a natureza.
José Gomes Ferreira
Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.
As suas ossadas
Quem sabe onde estão?
Trago as mãos cruzadas,
Pesam-me no peito.
Quem sabe se a lama onde hoje me deito
Dará flor aos vivos que dizem que não?
[obrigada, querida Sónia]
28.2.15
25.2.15
La fin du monde | Gao Xingjian, 2006
– Estás a magoar-te? – perguntei a Fangfang.
– Gosto disto – respondeste em voz baixa.
Durante a nossa lua de mel, até a dor nos pés
era uma sensação de felicidade. E todas as desgraças
do mundo pareciam deslizar entre os nossos tornozelos.
Parecia que tínhamos voltado à infância, de pés descalços
como crianças a brincar na água.
[Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, Gao Xingjian]
24.2.15
22.2.15
Azul
19.2.15
10.2.15
8.2.15
7.2.15
Tractatus Logico-Philosophicus
1 The world is everything that is the case.
[...]
7 Whereof one cannot speak, thereof one must be silent.
[...]
7 Whereof one cannot speak, thereof one must be silent.
[gutenberg ]
unoverso
um poema que não nos tomasse
mais do que um único verso
que fecundasse essa noite
numa úmida e só palavra
numa única e só sílaba
menos do que isso
num arfar
[mallarmargens]
mais do que um único verso
que fecundasse essa noite
numa úmida e só palavra
numa única e só sílaba
menos do que isso
num arfar
[mallarmargens]
5.2.15
A posse de ontem
Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas são agora o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o preto e penso nessas impossíveis cores. Como não pensam os que vêem. O meu pai morreu e está sempre ao meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, faço-o, dizem-me, com a voz dele. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos. Ilíon passou, mas Ilíon perdura no hexágono que a chora. Israel aconteceu quando era uma antiga nostalgia. Todo o poema, com o tempo, é uma elegia. Nossas são as mulheres que nos deixaram, já não sujeitos à véspera, que é angustia e aos alarmes e terrores da esperança. Não há outros paraísos que não sejam paraísos perdidos.
Os Conjurados
4.2.15
Artigo 1056º do Código Civil
Oiça, vizinha: o melhor
É combinarmos o modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.
Passo os meus dias a vê-la
Bordar ao pé da sacada.
Não me tiro da janela,
Não leio, não faço nada…
0 seu trabalho é mais brando,
Não lhe prende o pensamento,
Vai conversando, bordando,
E acirrando o meu tormento…
0 meu não: abro um artigo
De lei, mas nunca o acabo,
Pois dou de cara consigo
E mando as leis ao diabo.
Ao diabo mando as leis
Com excepção dum artigo:
0 mil e cinquenta e seis…
Quer conhecê-lo? Eu lhe digo:
«Casamento é um contrato
Perpétuo». Este adjectivo
Transmuda o mais lindo pacto
No assunto mais repulsivo.
«Perpétuo». Repare bem
Que artigo cheio de puas.
Ainda se não fosse além
Duma semana, ou de duas…
Olhe: tivesse eu mandato
De legislar e poria:
Casamento é um contrato
Duma hora – até um dia…
Mas não tenho. É pois melhor
Combinarmos algum modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.
[Augusto Gil no Estúdio Raposa]
É combinarmos o modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.
Passo os meus dias a vê-la
Bordar ao pé da sacada.
Não me tiro da janela,
Não leio, não faço nada…
0 seu trabalho é mais brando,
Não lhe prende o pensamento,
Vai conversando, bordando,
E acirrando o meu tormento…
0 meu não: abro um artigo
De lei, mas nunca o acabo,
Pois dou de cara consigo
E mando as leis ao diabo.
Ao diabo mando as leis
Com excepção dum artigo:
0 mil e cinquenta e seis…
Quer conhecê-lo? Eu lhe digo:
«Casamento é um contrato
Perpétuo». Este adjectivo
Transmuda o mais lindo pacto
No assunto mais repulsivo.
«Perpétuo». Repare bem
Que artigo cheio de puas.
Ainda se não fosse além
Duma semana, ou de duas…
Olhe: tivesse eu mandato
De legislar e poria:
Casamento é um contrato
Duma hora – até um dia…
Mas não tenho. É pois melhor
Combinarmos algum modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.
[Augusto Gil no Estúdio Raposa]
3.2.15
2.2.15
letra
Cerne, caroço, coração da língua. Em seu âmago, é pele sobre o corpo. Matéria árida, resistente, indivisível. Nó: Imagem-visual-sonora-impulso-orgânico-morte-vidamatéria-traço-opaco-resto. Traço entre uma e outra palavra. Intervalo mínimo entre a ponta dos dedos e o objeto: toque, grão da voz, centelha do olhar. Litoral entre o traço singular e seu modelo: na abstração da letra A (inexistente), infinitizam-se grafias de pequenos a. A letra concernida no risco. Em sua intimidade de letra escrita – a –, há sua exterioridade indiscernível: A, modelo de todas as outras. Unidade indestrutível, Aleph. Nó: de fora para dentro, superfície; de dentro para fora, centro.
1.2.15
31.1.15
[...]
Y ahora voy a contarles brevemente la historia de cómo conseguí mi canción.
Yo era un guitarrista indiferente. Solo me sabía unos cuantos acordes. Me sentaba con mis amigos, bebía y cantaba, pero nunca me vi como un músico o un cantante. Un día, a principios de los años sesenta, estaba de visita en casa de mi madre. Su casa estaba cerca de un parque con una pista de tenis donde íbamos a ver jugar al baloncesto. Era un lugar que conocía de mi infancia. Me paseé por allí y encontré a un joven tocando una guitarra flamenca. Me encantó, estaba rodeado de algunas chicas y me senté a escucharlo, me cautivaba, yo quería tocar así, aunque sabía que nunca lo lograría.
Me acerqué a él y nos entendimos medio en francés medio en inglés y pactamos unas clases en casa de mi madre. Era un joven español. Al día siguiente se presentó. Me dijo: “Déjame escucharte tocar algo”. Lo hice y declaró que no tenía ni idea. Él cogió la guitarra, la afinó, me la devolvió y dijo: “No suena mal. Ahora tócala de nuevo”. No cambió mucho. La cogió otra vez y me dijo: “Te voy a enseñar unos acordes”. Tocó una secuencia rápida de acordes y luego me explicó dónde tenía que poner los dedos y me dijo otra vez: “Ahora toca”. Pero fue un desastre.
Al día siguiente, empezamos de nuevo con esos seis acordes. Muchas canciones flamencas se basan en ellos. Al tercer día la cosa mejoró. Aprendí los seis acordes. Al día siguiente el guitarrista no volvió por casa. Dejó de venir. Como yo tenía el número de la pensión donde se alojaba fui a buscarlo para ver que le había pasado. Allí me contaron que aquel español se había suicidado, que se había quitado la vida. Yo no sabía nada de él, de qué parte de España era, por qué estaba en Montreal, por qué estaba en la pista de tenis, por qué se había quitado la vida.
Sentí una enorme tristeza. Nunca antes había contado esto en público. Esos seis acordes, esa pauta de sonido, ha sido la base de todas mis canciones y de toda mi música y quizá ahora puedan comenzar a entender la magnitud del agradecimiento que tengo a este país. Todo lo que han encontrado favorable en mi obra viene de esta historia que les acabo de contar. Toda mi obra está inspirada por esta tierra. Así que gracias por celebrarla porque es suya, solo me han permitido poner mi firma al final de la última página. "
LEONARD COHEN, Premio Príncipe de Asturias de las Letras 2011.
29.1.15
Galo Galo
Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.
...
Galo: as penas que
florescem da carne silenciosa
e o duro bico e as unhas e o olho
sem amor. Grave
solidez.
...
O galo permanece — apesar
de todo o seu porte marcial —
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira!
A Pombinha da Mata
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com fome",
disse o primeiro,
"e não tem nada para comer."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha carpir.
"Eu acho que ela ficou presa",
disse o segundo,
"e não sabe como fugir."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com saudade",
disse o terceiro,
"e com certeza vai morrer."
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