Há dez anos que escrevo o mesmo poema
no mesmo café.
Esta ideia arrumada nesta cadeira triste
todos os dias no mesmo sítio.
Até que me venham bater à porta
ando meio distraída nisto.
Falam-me da barbárie e dos seus irmãos brutos
mas ninguém falou ainda da flor de Coleridge
nem das pernas melancólicas dos meus amigos.
Exceptuando isto penso no imenso com os dentes.
Penso num serviço de chá e numa porta de serviço.
Penso num chão absoluto no petróleo e na lixívia.
Penso na tua cabeça enunciativa e és um Rolls
às nove e meia da noite para toda a parte comigo.
Exceptuando isto talvez não se morra e ninguém
desça à guerra e ao medo senão pelos livros.
Penso no amor e exceptuando isso está frio
e a mudança de hora e a jukebox
e contar-te os meus medos porque penso nisto há dez anos
que penso nisto.
Cruz na porta da tabacaria e o teu cabelo
cortado à escovinha.
Há dez anos que desconfio do mesmo poema
forma inteira do homem para diante
e de diante para o abismo
E poder ser livre e fumar na cama
com a excitação de arder numa linha.
É que Sócrates nunca escreveu.
Milton ao menos fingia.
No fim de contas caía bem.
Um Kropotkin e uma bica.
E convicção ser do teu signo.
Porque uma coisa nos atraía.
Fome não era adição.
Erecção não era cinismo.
Porque havia motivo para risos.
Tu nunca te atrasaste.
Tu nunca te mataste.
Porque enfim não mentiste
que há dez anos que escreves o mesmo poema
tu que só queres o sol
para descê-lo para descê-lo
ilha dos amores
no mesmo corpo no mesmo casaco
apoiado à esquerda do meu braço.
Raquel Nobre Guerra
26.3.16
25.3.16
bom descanso
eu e a Taeko desejamos a todos os leitores uma época pascal com muito sol nas fuças e muita coçadela da boa.
23.3.16
«Animais esféricos»
«A esfera é o mais uniforme dos corpos sólidos, dado que todos os pontos da superfície são equidistantes do centro. Por isso, e pela faculdade de girar em torno do eixo sem mudar de lugar e sem exceder os seus limites, Platão (Timeu, 33) aprovou a decisão do Demiurgo, que deu forma esférica ao mundo. Julgou que o mundo era um ser vivo e, nas Leis (898), afirmou que os planetas e as estrelas também o eram. Dotou assim a zoologia fantástica de muitos Animais Esféricos e censurou os torpes astrónomos por não quererem entender que o movimento circular dos corpos celestes era espontâneo e voluntário.
Mais de quinhentos anos depois, em Alexandria, Orígenes ensinou que os bem-aventurados ressuscitariam sob a forma de esferas e entrariam a rolar na eternidade.»
[O Livro dos Seres Imaginários]
23.03.15
...
¿que coisa é esta que nem se move,
que não é um planeta,
que buraco é este por onde tudo se some?
-- e eu pedi ao balcão: dê-me um poema,
e o empregado olhou para mim estupefacto:
-- isto aqui é o mundo, monsieur, aqui não se servem bebidas alcoólicas
-- mas -- ia eu para dizer, mas calei-me de repente
e pensei muito longe:
quero voltar depressa aos modos do mundo dos assombros
(ó mundo, pesa inteiro sobre ti mesmo!)
[Letra Aberta]
eu, de amarelo
é um tema controverso. em que momento passa o cidadão anónimo ao papel de destaque? e pode essa passagem ser automática - sem a sua autorização, obrigando-o a aceitar a decisão de um fotógrafo?
o que traz de novo a fotografia de Ketevan Kardava, para que possa circular pelo mundo? seria imprescindível? eticamente reprovável? qual o seu valor, a sua intenção? necessidade de mostrar? razão estética?
se a mulher de amarelo fosse eu, ficaria bastante desiludida com esta espécie de jornalistas.
posso estar errada. é uma hipótese que nunca afasto.
17.3.16
aborto
Tendo completa noção de que há temas, especialmente nas redes sociais, que servem apenas para trocas de acusações absurdas e estéreis e gáudio de quem as manobra, incólume, na sombra, metendo achas, quando a agenda lhe coincide, ainda assim, apetece-me dizer (aqui) que me sinto bastante próxima das palavras do Carlos G. Pinto.
Nunca serei a favor da penalização da mulher, relativamente à prática do aborto, por variadas razões, mas considero desprezível a ideia que se acomodou naturalmente na sociedade, de que se trata de um acto banal e corriqueiro, e da sua desresponsabilização, como se se tratasse da simples remoção de um calo ou de uma verruga. A própria palavra interrupção é falaciosa, amenizando a prática, mas essa é uma questão menor neste desabafo.
Não tenho crenças religiosas, - creio na Natureza, se tanto -, e se me subjugo a algumas convenções morais instituídas, justifico-o pela falta de paciência/necessidade em tentar apelar às minhas convicções e pela superficialidade que tais actos reflectem na minha vida. A minha questão com o aborto nada tem que ver com o céu ou o inferno, moralidade ou imoralidades, ideologias ou carneiradas, mas com a falta de reflexão sobre o mesmo. Banalizar um acto extremo, deixa-me indisposta. Assistir a isto foi o meu limite. Transformámo-nos numa sociedade chiclete e orgulhamo-nos disso.
Nunca incentivei ninguém à prática do aborto, nem o seu contrário, - a decisão é profundamente íntima e intransmissível -, e já apoiei amigas durante o processo, o que em nada alterou a nossa amizade. Apenas que não me venham fazer da coisa uma bandeira de orgulho feminino.
Aceito estar errada no meu ponto de vista, não pretendo sequer convencer ninguém ao meu pensamento. É, apenas, a minha opinião.
16.3.16
Leviatã. Em busca dos gigantes do mar
Só mais tarde, ao viver sozinho em Londres, quando já tinha vinte e tais anos, decidi ensinar-me a nadar. Na gelada piscina de East End, construída no período entre as duas guerras, descobri que a água era capaz de suportar o meu corpo. Compreendi o que tinha perdido até àquele momento: a minha própria flutuabilidade. Não era uma questão de exercício: era antes a ideia de perder o pé, de permitir que outra coisa fosse responsável pela minha presença física no mundo; ser parte dele e estar separado dele ao mesmo tempo. De certa forma, tratava-se de uma reinvenção consciente, de uma maneira de enfrentar os meus medos.
[...]
As cidades e as civilizações erguem-se e caem, mas o mar é sempre o mar. «Não associamos a ideia de antiguidade ao oceano, nem nos perguntamos qual seria o seu aspecto há mil anos, como tantas vezes fazemos relativamente à terra, porque o oceano sempre foi igualmente selvagem e insondável», escreveu o filósofo Henry David Thoreau. «O oceano é um espaço selvagem que dá a volta ao globo, mais selvagem do que uma selva de Bengala, mais cheio de monstros, embatendo contra os molhes das nossas cidades e os jardins das nossas residências à beira-mar.»
[...]
A partir do momento em que o vemos, não conseguimos esquecê-lo, tal como quem nunca o viu é incapaz de descrevê-lo.
in Prólogo, Leviatã. Em busca dos gigantes do mar, Philip Hoare
15.3.16
Hogar dulce Hogar
el cáncer
la muerte no sería tan mala
si se pudiera traer a casa
si no hubiera que levantarse
si no hubiera que salir de la cama
si no hubiera que subirse a una ambulancia
si no hubiera que vivir en un hospital
si no hubiera que vivir entre desconocidos
si no hubiera que prescindir de las frazadas
del color de las frazadas de la casa
de la temperatura del color de las frazadas de la casa.
morir no sería tan malo si todo pasara en la casa
y con los de la casa
si uno tuviera la suerte de tener una casa
lo peor del cáncer y de la muerte son la burocracia y el ajetreo
de los cambios de ropa y el frío de los pasillos y el frío de
las miradas de los extraños (de los que no sufren porque tú sufres
de los que no sufren porque tú vas a morir)
y la indiferencia de las calles y de los muros de las calles
y la indiferencia mortal del hospital y de todo lo que lame
y cubre por dentro a un hospital.
morir no sería tan malo
sufrir no sería tan malo
si se sufriera en la casa
si se supiera que nada ni nadie nos sacará
-en caso de morir o sufrir-
de la casa
la muerte no sería tan mala
si se pudiera traer a casa
si no hubiera que levantarse
si no hubiera que salir de la cama
si no hubiera que subirse a una ambulancia
si no hubiera que vivir en un hospital
si no hubiera que vivir entre desconocidos
si no hubiera que prescindir de las frazadas
del color de las frazadas de la casa
de la temperatura del color de las frazadas de la casa.
morir no sería tan malo si todo pasara en la casa
y con los de la casa
si uno tuviera la suerte de tener una casa
lo peor del cáncer y de la muerte son la burocracia y el ajetreo
de los cambios de ropa y el frío de los pasillos y el frío de
las miradas de los extraños (de los que no sufren porque tú sufres
de los que no sufren porque tú vas a morir)
y la indiferencia de las calles y de los muros de las calles
y la indiferencia mortal del hospital y de todo lo que lame
y cubre por dentro a un hospital.
morir no sería tan malo
sufrir no sería tan malo
si se sufriera en la casa
si se supiera que nada ni nadie nos sacará
-en caso de morir o sufrir-
de la casa
Más y más turbación
Llego y
me masturbo
¿Que más
puedo hacer?
Me alivia
eyacular
fuera de ti.
No dártelo
todo a ti
todo el tiempo.
Y no es
una masturbación
cualquiera
-como
la de la vaca
lechera-
Es
una masturbación
ausente
sin sentido de culpa
sin curas
sin religión
sin sexo casi.
Es
una guerra
contra ti.
Me
tengo
que defender
de alguna manera
Y
me
masturbo
mirando
a una
modelo
italiana
-la sensualitá
under 20-
parecida
a ti.
me masturbo
¿Que más
puedo hacer?
Me alivia
eyacular
fuera de ti.
No dártelo
todo a ti
todo el tiempo.
Y no es
una masturbación
cualquiera
-como
la de la vaca
lechera-
Es
una masturbación
ausente
sin sentido de culpa
sin curas
sin religión
sin sexo casi.
Es
una guerra
contra ti.
Me
tengo
que defender
de alguna manera
Y
me
masturbo
mirando
a una
modelo
italiana
-la sensualitá
under 20-
parecida
a ti.
14.3.16
Dez letreiros célebres em tabernas de Lisboa no ano de 1806
Aqui administram-se bebidas com toda a sisudeza
Aqui tomam-se borracheiras mestras
Bebidas para sustentar o vício
Biblioteca universal de licores
Bom vinho para comer
Casa de prazer e alegria
Casa de bom despacho
Casa para senhoras
Licores femininos
Taberna boa em preço
Aqui tomam-se borracheiras mestras
Bebidas para sustentar o vício
Biblioteca universal de licores
Bom vinho para comer
Casa de prazer e alegria
Casa de bom despacho
Casa para senhoras
Licores femininos
Taberna boa em preço
in Lettreiros célebres, que se vem escritos nas portas de varias lojas desta capital: para servirem de taboleta e conhecimento ao Publico, vistos, examinados, e colligidos por hum Taful de Luneta (Oficina de Simão Tadeu Ferreira, Lisboa 1806)
ALL STRIPPED DOWN
Cavalheiro idoso, calvo e sem jeito
para foder procura quem o ature
e acredite (às vezes) na ressurreição.
Nunca leu livros, cospe grosso
e ronca. Assunto sério: morrer com alguém.
Manuel de Freitas
[obrigada, Ricardo.]
para foder procura quem o ature
e acredite (às vezes) na ressurreição.
Nunca leu livros, cospe grosso
e ronca. Assunto sério: morrer com alguém.
Manuel de Freitas
[obrigada, Ricardo.]
12.3.16
me too, Quincey.
![]() |
| daqui |
"Cows are among the gentlest of breathing creatures; none show more passionate tenderness to their young when deprived of them—and, in short, I am not ashamed to profess a deep love for these quiet creatures."
- THOMAS DE QUINCEY,1821
11.3.16
8.3.16
MÃOTÓTEM
Existe, lá, entre as sombras e o declinar dos vazios um homem deitado. Este alonga-se pelas estradas macias e a sua sombra persegue-o no seu repouso pela eternidade.
Outrora, quando os caminhos eram possuídos de lama, o sangue que jorrava das crateras que contorcem os céus tinha o sabor mais puro que um seio de mãe pode ter.
Assim, deitado, ele ergueu-se levemente apoiando-se no cotovelo direito e pôs-se a espreitar a eternidade. Esta era feita de si mesma sem direito algum a qualquer recompensa.
Falou em surdina, quase com medo de acordar as trevas que sugam no povoado:
«Aqui estou, semiconsciente, como morto que de repente acorda e que sente a sua insensibilidade projectar-se monótona no dia a dia infindável.
Aqui estou, semimorto, como uma vela automática que se apaga na escuridão e se acende quando a luz do sol rompe ruidosa. Meu lamento não é raiva nem certeza. Espreitei na fechadura dos horizontes e o que eu julgava ser vácuo e raiva emplumada mostrou-se-me coalhado de cogumelos e de lagartas. Notei, em seguida, um perfume esquisito, cheiro forte de coxas queimadas que eu soube depois ser o excremento do sexo dos Deuses».
A estrada interminável persegue-o. Um automóvel move-se interrompendo-lhe a locomovidade dos pensamentos.
«Agora compreendo porque o vazio é uma ideia compacta e esta, inversamente, um conjunto de Deuses. Expulsei-os! Meu lamento não é raiva nem certeza. Sou eu, expulso dos meus pensamentos.»
Ergueu-se. Levantou e sacudiu as espáduas. Era mais alto que os montes.
Adiantou-se.
A sua sombra infindável persegue-o nos horizontes.
7.3.16
28.2.16
27.2.16
24.2.16
quero trabalhar na central eléctrica, se faz favor.
«O emprego na central eléctrica fora o pai que lho arranjara depois de ter sido despedido do seu trabalho anterior, como chefe da estação dos correios da Universidade de Mississípi. Ao que parece, houve um professor qualquer que apresentou razoáveis motivos para uma queixa: a única forma de obter a sua correspondência era rebuscando no caixote do lixo das traseiras, onde com frequência iam parar directamente, por abrir, os sacos de cartas recebidos. Faulkner não gostava que lhe interrompessem a leitura, e a venda de selos caiu de maneira alarmante: a modos de explicação, Faulkner disse à família que não estava disposto a levantar-se continuamente para ir atender ao guichet e ter de agradecer a um filho da mãe qualquer o facto de ter dois cêntimos para comprar um selo.»
Vidas Escritas, Javier Marías (William Faulkner a Cavalo)
...tal e qual, amigo Faulkner...
22.2.16
tesouros da blogosfera ii
meninos e meninas, atenção!
Caros Senhores, Madames e Mademoiselles,
cocheiros, aguadeiras e criadas de copa,
pirataria, máfia russa, des/herdeiros de leste, multidão em geral,
a história que aqui vos deixo, delirium tremens à lagareiro,
foi ouvida numa tasca borrasca, sem grande ostentação,
não fosse o Polvo-poeta um monstrengo de estimação
e a dita palavrosa acompanhada de muita zurrapa espiritual.
falou de três belas bruxas,
santa tríade da zundapp,
e de uma vaca leiteira,
que salvaram de ir para abate,
depois, entre rodadas de bota(s) a baixo,
findadas em copos vazios,
misturou rum com gin,
e toda a noite passou a espasmaçar,
(rezando para não gregoriar).
juntou-se-lhe um inglês mal-cheiroso
que declamava poesia enrolada em cigarros de maconha
e arrotava a frutos do mar.
Sir William, de seu nome,
deve ter iludido o Polvo poeta, que não era pateta, mas se deixou cair na peta,
da pirata mulher,
e eis a razão pela qual,
cigano maltes,
assombrado de mau-tempo,
decidiu inventar,
tesouros da blogosfera
abençoada Mumu, assombração de Pirata, que deu esta novela [avé, Bruxas mái lindas da zundapp!]
Respostas
lamento, mas Mumu já nã ri...
Depardieu: Olá querida, que belo outfit, cheio de guisadinhos, hum, perdão guizinhos!
Dulcineia: Krido, ah,ah, escusa de me olhar para o decote...faz-me corar.
Depardieu: E o que fez à marrafa, tá tãããoo gira! E os cascos pintados de verde alface querida, ainda a acusam de ter ido às couves...
Dulcineia: Assim envaidece-me, Gérard, você é que é très beau, parece mesmo um Charolês, (é mesmo o meu tipo de homem- aparte, com um trejeito, virada para a blogosfera). Olhe trouxe-lhe cinco litros de leite; sei que é de muito alimento, querido.
Depardieu: Então e onde quer a minha estrelinha ir jantar? Pode ser a uma hamburgueria, ou sugere outra coisa, da última vez não conseguiu acabar o hamburguer, minha MuMu querida...
Dulcineia: A culpa é toda do papel que lhe deram, meu touro, você era suposto fazer-me em picado, lembra-se, então comecei a comer mas veio-me um prião à boca, Krido, e lembrei-me das vacas todas loucas...mas olhe por si é que estou louca, aquele Vascó é mesmo um bovino com olhar de carneiro mal morto, um ressabiado...um talhante!
Depardieu: Não fale assim do Vascó, vaquinha dos meus sonhos, não se esqueça que ele a escolheu para o papel principal, e contra-cear comigo não é para todas. Que belo naco que és, Krida!, (afagando-lhe o pescoço);
Dulcineia: Um chateaubriand, querido; trate-me bem! (aparte para a blogosfera, enquanto raspa o casco direito no chão)- um chatô, é o que és!)
Depardieu: Minha saborosa, chega-te aqui (aparte para a blogosfera- chega mas é para lá esses chifres);
Dulcineia: E sabe querido, eu ganhei àquelas grandes vacas do casting, as manas ruivas, e a outras loiras, mais de mil! Nenhuma tinha um pojadouro como o meu no portfólio, essa é que é essa!
Depardieu: Por mim chamo-lhe um figo, meu bifinho do lombo mal passado...
Dulcineia: Foi logo o que eu pensei, meu bem. (aparte para a blogosfera,-dou-te bifes e tu dás-me hamburguers...)
Depardieu: Pareceu-me ouvir qualquer coisa...olha, já me esquecia, trouxe-te um arganel de Paris...
Dulcineia: Já me chegam os brincos e o ferro de família. E o arganel é para quê, a esta hora?
Depardieu: Pour Dieu, usa-se, nunca reparou?(aparte para a bogosfera, é vaca mas não é burra)
Dulcineia: Olhe krido, vou ali aos bastidores e já venho. Está lá uma novilha giríssima ansiosa por te conhecer...
Depardieu: Não se mace, você é mais o meu género... (aparte para a blogosfera, Tenrinha, oh, até podem vir duas!)
Dulcineia: Eu quero o melhor para o meu Sancho Pança! (aparte para a blogosfera-Já vais ver como dás às de Vila Diogo!)
Dulcineia, dirigindo-se ao guarda-costas: Olhe Muhammad Bisonte, é Ali; depois já podemos ir jantar descansados, eh, eh, eh.
[do teatro a oito tentáculos, em duas cenas e um acto, já lá iremos. também não esquecemos os diários de bordo gatafunhados sob o efeito pingão do rum a martelo...]
21.2.16
«Fora de quê?»
Cristina Nobre Soares, in Em Linha Recta
Henri Lopes, 78 anos, escritor congolês, afirmou no seu livro de ensaios My Bantu Grandmother (2003): "Richard Wright, Langston Hughes, James Baldwin, Nicolás Guillén, Lovelace nunca puseram um pé no Congo e mesmo assim falam comigo." Ele falava da origem comum, longínqua por vezes, a da diáspora negra.
Fatou Diome, senegalesa de 47 anos, é ainda mais abrangente: "Já não sei quem - se a africana, a europeia, a mulher viajada ou a rapariga negra - é a responsável pela textura do meu trabalho", disse no artigo da Sunday Book Review à sua colega de origem iraniana, Azam Zanganeh. Essa é uma das condições para escrever de fora: não saber o que é estar-se de fora. Fora de quê?
Isabel Lucas, Escrever fora do mapa do território, in XXI Ter Opinião (nº 6)
[artigo soberbo, vale a pena.]
Haxixe
Baudelaire faz questão de referir que, na parte do Haxixe, lhe valeu "um livro inglês excessivamente curioso (Diário de um Opiómano, de Thomas de Quincey)", e eu fico contente por reencontrar velhos amigos em casa de anfitrião tão encantador.
IV
O HAXIXE
[...]
Eis uma composta verde, singularmente odorífera, de tal modo odorífera que provoca uma certa repulsa, como aconteceria, aliás, com qualquer odor requintado levado ao extremo da sua força e por assim dizer da sua densidade. Agarre numa porção do tamanho de uma noz, encha uma pequena colher, e estará na posse da felicidade; da felicidade absoluta com toda a sua embriaguês, todas as loucuras de juventude, e também todas as beatitudes infinitas. A felicidade está ali, sob forma de um bocadinho de compota; sirva-se sem receio, não se morre por isso; os órgãos físicos não são prejudicados. É possível que a sua vontade se torne menor, isso é outra história.
Geralmente para dar ao haxixe toda a força e desenvolvimento, é preciso dilui-lo em café muito quente, e tomá-lo em jejum; o jantar é adiado para as dez horas ou para a meia-noite; apenas uma sopa muito leve é permitida. Uma infracção a esta regra tão simples produziria ou vómitos, ou a ineficácia do haxixe. Muitos ignorantes ou imbecis que assim se comportam acusam o haxixe de impotência.
[...]
Do Vinho e do Haxixe, Charles Baudelaire
20.2.16
Umberto Eco [1923-2016]
de Umberto Eco, primeiro em filme - numa aula de filosofia - pela mão de Jean-Jacques Annaud, depois o livro, O Nome da Rosa.
mas também, entre muitos outros, com um carinho muito especial, Palomar [Palomar é o nome de um famoso observatório astronômico que durante muito tempo ostentou o maior telescópio do mundo. Por intencional ironia, é também o nome do protagonista destes textos curtos de Italo Calvino, pois este senhor Palomar é todo olhos, mas funciona quase sempre como se fosse um telescópio ao contrário, voltado não para a amplidão do espaço, mas para as coisas próximas do cotidiano. É como se ele nos dissesse que as grandes questões do mundo e da existência também estão presentes em cada objeto que observamos, em cada cena que presenciamos, e que tudo é digno de ser interrogado e pensado.]
[um forte abraço ao JM, leitor/admirador confesso do Sr. Palomar, e que, no seu extinto blog, tão bem o reinventava.]
a 20.2.1909, é publicado no jornal francês Le Figaro, o Manifesto Futurista, de Filippo Tommaso Marinetti.
eu, Sísifa, me confesso
Sísifo nunca tinha encontrado na vida um prazer comparável ao gozo de ver a pedra rolar pelo barranco abaixo e soltá-la no momento em que pudesse assustar qualquer sombra desprevenida a passear pelo vale. Com esse tão variado divertimento conseguia assim que o seu trabalho se convertesse no automatismo de uma acção reflexa (nome que, segundo entendo, os homens de ciências atribuem a todos os actos que executamos sem pensar).
J. L. Borges e Bioy Casares, Livro do Céu e do Inferno
9.2.16
A Ronda da Noite
— O Rogério Conceição, em oito segundos, resolve isto.
Oito segundos é o recorde dele.
Maria Rosa olhou para ela com inquietação. Não a censurava,
mas tudo aquilo lhe parecia parte duma maldição que
pesava sobre as mulheres. Alguém lhe tinha dito que o mundo
só tinha salvação quando as mulheres deixassem de ter filhos e
os sexos fossem um só. Era inconcebível, mas talvez se chegasse
lá um dia.
— Onde ouviste isso? — disse Patrícia. Aquilo parecia-lhe um atentado à sua dignidade, embora ela visse, nesse
momento, a sua dignidade bastante comprometida.
— Não sei.
— Comigo não faças mistérios.
— Não faço mistérios, não sou pessoa para isso. Foi uma
coisa que li.
— O que andas tu a ler, menina? Depois da Lady
Chaterley julguei que já tinhas lido tudo. E agora vens-me com
essa do sexo único. Fazes ideia do que estás a dizer?
— Faço. Já não te metias em sarilhos nem ias parar a uma
clínica onde te remexem nas entranhas como se estivessem a
abrir um cofre em oito segundos! Já é ser perito de arrombamento!
Fazes-me rir e chorar ao mesmo tempo.
— Tu nunca choras, Maria Rosa.
— Às vezes. Chorei um dia, quando tinha quatro anos e
me cortaram o cabelo à rapaz. Dei gritos tamanhos que até se
ouviram nos vizinhos. E não era pequena distância; nós vivíamos
num chalé dentro dum jardim grande.
— Não querias parecer um rapaz.
— Não sei. Era uma grande pena. Nunca me senti tão
infeliz depois disso. Às vezes pensava no que me fez chorar tanto e não encontro o motivo. Morreu-me um filho em
pequenino mas não é a mesma coisa. Estás certa que sermos
mulheres é a origem de todo o mal? O desejo dos homens, o
prazer com que convencem o desejo, são coisas horríveis, se
lhes pintarmos toda a sorte de maldades que são o excitante
necessário. Já agora que falaste de Lady Chaterley, essa
mulher tremenda e sem compaixão. Sem compaixão, o sexo é
uma batalha vulgar, um crime como não há outro igual.
— Deixas-me arrasada. Agora não sei se hei-de fazer o
aborto ou não. Dizes bem: aquele burro do Lawrence não percebeu
nada das mulheres. Ou só percebeu o que era para perceber
por ele próprio. Não houve o primeiro Adão mas a primeira
Eva. Dá-me mais uma pinga de chá. Onde compras o
chá? A mamã comprava-o numa loja de modas, era chique.
Nunca percebi a diferença do que é chique e do que não é chique.
Disse-me o Mariano, que é professor na Universidade:
“Porque é que o amarelo não há-de dizer com o rosa?” Depois
as cores psicadélicas ficaram na moda. É uma questão de
votos e não de gostos? O que é que faz o voto?
— Tem pena de mim. Choveu todo o dia e a chauffage
avariou. O voto é uma inveja compulsiva, aí tens.
Passados dias Patrícia Xavier morreu e aquilo entendeu-se
como um desastre. Os médicos calaram-se no diagnóstico, o
que levantou mais suspeitas, tanto mais que ela tinha recorrido
a uma parteira e não teve a assistência do tal experiente arrombador
de cofres.
A Ronda da Noite, Agustina Bessa-Luís
Amarantina, a Grande
Nem Dona Agustina [que, diga-se, soa a gozação de gente pequena, habituada a mandar as mulheres para a cozinha], nem Maria Agustina, [tratamento que os mais próximos lhe reservavam], o que Agustina gostava mesmo era de ser tratada por Amarantina.
----
leia-se a Ler - 2009
6.2.16
a carn val?
in Menino de Sua Mãe
Sim, faço parte do grupo dos sem graça que dispensa o Carnaval. Pior, em dias de tpm, era mulher para mandar abolir essa azucrinação.
Mas que ninguém se iniba por causa de um grupo de enjoadinhos. Samba nessas nádegas e muita alegria!!
4.2.16
a morte ii
Os nossos mundos e o nosso universo não nos sobreviverão por muito mais tempo. No final, a entropia tudo consumirá e os nossos débeis esforços não podem impedir esse fim terrível. Terá terminado. Nunca terá sido. Nunca foi sequer importante. O próprio universo está condenado, é passageiro, indiferente.
O Caminho da Cruz e do Dragão, George R. R. Martin
Kevin Schawinski
[02/02/2016]
2.2.16
a morte
[...] - Nós, os Mentirosos, tal como os outros de todas as religiões temos diversas verdades que aceitamos como fé. A Fé é sempre exigida. Algumas coisas não podem ser provadas. Acreditamos que a vida vale a pena ser vivida. Isso é um acto de fé. O objectivo da vida é viver, resistir à morte, talvez desafiar a entropia.
- Continue - disse, interessado, apesar de tudo.
- Também acreditamos que a felicidade é uma coisa boa, algo que vale a pena procurar.
- A Igreja não se opõe à felicidade - disse secamente.
- Pergunto-me se será mesmo assim - disse Lukyan. - Mas não sejamos picuinhas. Qualquer que seja a posição da Igreja sobre a felicidade, ela prega a crença na vida depois da morte, num ser supremo e num complexo código moral.
- Verdade.
- Os Mentirosos não acreditam na vida depois da morte, em Deus. Vemos o universo como ele é, Padre Damien, e estas verdades nuas, são verdades cruas. Nós, que acreditamos na vida, que a estimamos, vamos morrer. Depois disso não haverá nada, vazio eterno, escuridão, não-existência. Não houve uma finalidade na nossa vida, nenhuma poesia, nenhum significado. Nem as nossas mortes possuem características. Quando nos formos embora, o universo não se lembrará de nós por muito tempo, e em breve será como se nunca tivéssemos sequer vivido.
[...]
O Caminho da Cruz e do Dragão, George R. R. Martin
Não te esqueças de viver! - Maria Filomena Molder
[Ciclo de Conferências da Culturgest]
31.1.16
25.1.16
II - Dois Candidatos
Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podridão dos
vereadores em particular, e da humanidade em geral, prometeu a
onze retratos, que tinha de onze avós, pintados indignamente,
nunca mais tocar o cancro social com suas mãos impolutas.
Neste propósito, nem ao menos consentiu que o vigário lhe
mandasse o Periódico dos Pobres do Porto, de que era assinante
emparceirado com mais quatro reitores limítrofes, e o mestre-escola e o boticário.
Um dia, porém, quando ele saía da festividade de S. Sebastião,
cujo mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais
graúdos lavradores da sua freguesia e das vizinhas. Noutro grupo,
falava-se do sermão, e da constância do santo capitão das guardas
do bárbaro Diocleciano, e da desmoralização do império.
Estas puxadas reflexões era o boticário que as expendia, coadjuvado
pelo mestre de primeiras letras, sujeito que sabia mais história romana do que é permitido a um professor da preciosa e capitalíssima
ciência de ler, contar e escrever, pelo que o sábio vinha a
granjear para a humanidade a ciência, e para ele nove vinténs e
meio por dia. E comia o sábio estes nove vinténs e meio quotidianos,
e ensinava os rapazes, e sobejava-lhe tempo para ler história!
Pudera!… Os governos davam-lhe férias grandes ao estômago, em
proveito do espírito. Se ele andasse bem nutrido e sucado de tripa,
não aprendia nem ensinava coisa de monta. Que a pobreza é o estímulo das maiores façanhas da inteligência. Paupertas impulit audax. Isto que o Horácio faminto dizia de si, acomodam-no os regedores
da coisa pública aos professores de primeiras letras; porém,
outros muitos versos do Horácio farto, esses, tomam-nos eles para
seu uso.
A Queda de um Anjo, (do grande) Camilo Castelo Branco
(da biblioteca digital da Porto Editora)
I - O Herói Do Conto
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda. Seu pai, também Calisto, era cavaleiro fidalgo com filhamento, e décimo sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolástica, procedia dos Silos, altas dignidades da Igreja, comendatários, sangue limpo, já bom sangue no tempo do Sr. rei D. Afonso I, fundador de Miranda.
Fez seus estudos de latinidade no seminário bracarense o filho único do morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento in utroque jure. Porém, como quer que o pai lhe falecesse, e a mãe contrariasse a projectada formatura, em razão de ficar sozinha no solar de Caçarelhos, Calisto, como bom filho, renunciou à carreira das letras, deu-se ao governo do casal algum tanto, e muito à leitura de copiosa livraria, parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em cânones, cónegos, desembargadores do eclesiástico, catedráticos, chantres, arcediagos e bispos, parentela ilustríssima de sua mãe.
Casou o morgado, ao tocar pelos vinte anos, com sua segunda prima D. Teodora Barbuda de Figueiroa, morgada de Travanca, senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, ignorante mais que o necessário para ter juízo.
Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da
comarca; e, com o rodar de dez anos, prosperou a olho, tendo grande parte neste incremento a parcimónia a que o morgado circunscreveu
seus prazeres, e, por sobre isto, o génio cainho e apertado de D. Teodora.
Remenda teu pano, chegar-te-á ao ano, dizia a morgada de Travanca;
e, aferrada ao seu adágio predilecto, remendava sempre, e
cerzia com perfeição justamente admirada entre a família, e falada
como exemplo na área de quatro léguas, ou mais.
[...]
É supérfluo dizer-se a qual doutrinação política pendia o ânimo
do morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das Cortes
de Lamego. Fizera-se nelas, e cuidava ter assistido, em 1145,
àquele congresso mitológico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes
da Maia, e com Lourenço Viegas, o Espadeiro: Nos liberi sumus, rex
noster liber est. Todavia, se assim fossem todos os doutrinários políticos, a gente apodreceria na mais refestada paz e supina ignorância
do andamento da humanidade.
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse
o passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de
João das Regras e Martim de Ocem, como o mosteiro da Batalha, as
Ordenações Manuelinas como o convento dos Jerónimos.
O mal que de aqui surdia ao género humano, a falar verdade,
era nenhum. Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar
desdouros nas gerações das famílias patrícias, era inofensiva criatura.
Deste senão, a causa foi um chamado Livro-Negro, que herdara
de seu tio-avô Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão,
genealógico vaporoso, o qual gastara sessenta dos oitenta anos vividos,
a coligir borrões, travessias, mancebias, adultérios, coitos
danados e incestos de muitas famílias, naquelas satânicas costaneiras,
denominadas Livro-Negro das Linhagens de Portugal.
Em suma, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de
empecer a roda do progresso, contanto que o progresso não lhe
entrasse em casa, nem o quisesse levar consigo.
Prova cabal de sua tolerância foi ele aceitar em 1840 a presidência
municipal de Miranda. Na primeira sessão camarária falou
de feitio e jeito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um
alcaide do século XV levantado do seu jazigo da catedral. Queria
ele que se restaurassem as leis do foral dado a Miranda pelo
monarca fundador. Este requerimento gelou de espanto os vereadores;
destes, os que puderam degelar-se riram na cara do seu presidente,
e emendaram a galhofa dizendo que a humanidade havia já
caminhado sete séculos depois que Miranda tivera foral.
— Pois se caminhou, — replicou o presidente — não caminhou
direita. Os homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis
devem ser sempre as mesmas.
— Mas… — retorquiu a oposição ilustrada — o regímen municipal
expirou em 1211, Sr. presidente! V. Ex.a não ignora que háhoje um código de leis comuns de todo o território português, e que
desde Afonso II se estatuíram leis gerais. V. Ex.a decerto leu isto…
— Li — atalhou Calisto de Barbuda — mas reprovo!
— Pois seria útil e racional que V. Ex..a aprovasse.
— Útil a quem? — perguntou o presidente.
— Ao município — responderam.
— Aprovem os senhores vereadores, e façam obra por essas leis,
que eu despeço-me disto. Tenho o governo de minha casa, onde sou
rei e governo, segundo os forais da antiga honra portuguesa.
Disse; saiu; e nunca mais voltou à Câmara.
A Queda de um Anjo, (do grande) Camilo Castelo Branco
(da biblioteca digital da Porto Editora)
23.1.16
Cabeceira
Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão
Ana Cristina Cesar. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão
Ana Cristina Cesar. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
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