21.12.15

fome

Estou ainda na fase em que observo o recém-chegado, numa mesa de café. Já lhe posso tocar, perceber se tem as mãos frias, se prefere chá ou café, água fresca ou natural, e tudo o mais que se consiga subentender pela capa escolhida, a editora que o pariu e a graça com que se apresenta.

Fome, de Knut Hamsun, [editado em Portugal pela cavalo de ferro e traduzido do norueguês por Liliete Martins] chega-me em tons de azul, daquele azul de Picasso, na sua época triste. Não deixa de ser curioso, porque sempre achei que a fome era azul, tal como a pobreza.
Para meu deleite, o prefácio de Paul Auster (A arte da Fome) inicia com um excerto de Antonin Artaud. Se de Paul Auster pouco li (reconheço a minha antipatia por nomes tão "americanos"), Artaud vive no meu coração há já alguns anos e se a alzheimer não mo roubar, há-de acompanhar-me até à cova.


Aquilo que é importante, parece-me, não é tanto
o defender a cultura, cuja existência nunca 
impediu um homem de passar fome, 
mas sim o extrair daquilo que se chama cultura, 
ideias cuja força motivadora seja idêntica à da fome.



Da literatura da fome, recordo Abismo e outros Contos, de Jean Meckert, um livro que me deixou algumas queimaduras na ponta dos dedos e o coração mais dorido. As provações de Meckert confundem-se entre os narradores. 

«A miséria nunca chega de repente. Se não fosse assim, poderíamos lutar, saberíamos de cor as pontas por onde pegar, aprenderíamos a defender-nos em manuais de tuta-e-meia. Não, o que é horrível é que a coisa é insidiosa, vem aos poucos, pé ante pé, como uma sacana de uma tuberculose; pensamos estar de boa saúde, pomo-nos com bazófias e depois caímos de podres. E nessa altura não são os pulmões, a bexiga ou o pâncreas que são atingidos, mas o próprio moral e tudo o resto por acréscimo.»



Voltando ao "livro azul" e a Knut Hamsun, seu autor. Deste, sei apenas que ganhou, em 1920, o prémio Nobel da literatura e foi (grande) simpatizante do nazismo. O livro Fome data de 1890, não se esperando encontrar contaminações de ambos os flagelos.


Porque o Natal sempre me lembra a pobreza e abandono, ideia antagónica à maravilhosa realidade que se vive por essas dezenas de superfícies comerciais, é com Fome que irei esperar o menino jesus.



«Uma solidão demasiado ruidosa»

I

Há trinta e cinco anos que trabalho com papel velho e é essa a minha love story
Há trinta e cinco anos que prenso papel velho e livros, há trinta e cinco anos que 
me sujo de letras, de tal modo que me pareço com as enciclopédias de que 
durante esse tempo todo devo ter prensado pelo menos três toneladas: sou um 
cântaro cheio de água viva e água morta, basta inclinar-me um pouquinho e
jorram de mim ideias lindas; sou culto independentemente da minha vontade 
e, assim, nem sei bem quais as ideias que são minhas, e saídas da minha cabeça, 
e que ideias li. Foi assim que, durante estes trinta e cinco anos, me liguei a mim 
próprio e ao mundo à minha volta; é que, quando estou a ler, afinal não leio, 
apenas colho com o bico uma bela frase e chupo-a como um rebuçado, 
como se bebericasse um cálice de licor durante muito tempo, até que a ideia 
se espalhe em mim como o álcool; ela dissolve-se em mim tão lentamente 
que penetra não só no meu cérebro e no coração mas pulsa também nas minhas 
artérias até às raízes dos capilares.

Uma Solidão Demasiado Ruidosa, Bohumil Hrabal

a cor da romã

The Color of Pomegranates, Sergei Parajanov (1968)

não sei se a luz lhe descende de Gregório, se da água salgada de Cáspio, mas a bela Arménia é umas das mulheres mais interessantes que conheci em 2015. 
um brinde à luxuriosa romã.


[o filme, mais do que poético, é um poema visual e sonoro.]


20.12.15

ipsis verbis

“A categoria dos chatos provisórios é formada por três tipos: o bêbado, o apaixonado e os pais do recém-nascido. Só os suporta quem está no mesmo estado”



19.12.15

«Reúnem-se os pássaros»

Bem-vinda sejas, ó Poupa! Ó tu, que foste guia do rei Salomão e o verdadeiro mensageiro do vale, que tiveste a boa fortuna de chegar aos confins do reino de Sabá! Foi deliciosa a tua fala gorjeada com Salomão; por teres sido sua companheira, foi-te imposta uma coroa de glória. Apenas precisas de pôr a ferros o demónio, o tentador, e, feito isso, entrarás no palácio de Salomão.

Ó Lavandisca, que te pareces com Moisés! Levanta a cabeça e faz soar a charamela, para celebrar o verdadeiro conhecimento de Deus. Como Moisés, viste o fogo ao longe; és, de facto, um pequeno Moisés no monte Sinai. O meu discurso é sem palavras, sem língua, sem som; compreendo-o, pois sem mente, sem ouvido.

Bem-vindo sejas, ó Papagaio! São belos o teu manto e o teu colar de fogo: o colar ajusta-se ao habitante do mundo inferior, mas o manto é digno do Céu. Pôde Abraão livrar-se do fogo de Nimrod? Desfaz a cabeça de Nimrod e faz-te amigo de Abraão, que era amigo de Deus. Quando te tiveres libertado das mãos de Nimrod, veste o manto de glória e não temas o colar de fogo.

Bem-vinda sejas, ó Perdiz! Ó tu, que andas com tanta graça e te comprazes no voo sobre as montanhas do conhecimento divino! Ergue-te em alegria e pondera os benefícios do Caminho. Bate com o martelo na porta da casa de Deus; e derrete, humilde, as montanhas dos teus desejos perversos para deixar sair o camelo.

Saudações, ó Falcão Real! Ó tu, que tens a vista penetrante, quanto tempo permanecerás assim, violento e apaixonado? Finca as tuas garras na letra do amor eterno, mas não rompas o selo enquanto não for chegada a eternidade. Mistura o espírito à razão e vê a eternidade anterior e a posterior como uma única. Quebra a tua vil carcaça e instala-te na caverna da unidade; Maomé irá então ter contigo.

Saudações, ó Codorniz! Quando ouves no teu espírito o alast (4) do amor, o teu corpo de desejo responde: balé (5), com desprazer. Como o Messias, inflama-te com o amor do Criador. Queima esse burro e acolhe o pássaro do amor, para que o Espírito de Deus possa chegar felizmente a ti.

Saudações, ó Rouxinol do jardim do Amor! Projeta as tuas notas plangentes, filhas das feridas e das dores do Amor. Resgata ao coração meigos lamentos, como David. Franqueia a tua garganta melodiosa e canta as coisas do espírito. Mostra aos homens, com as tuas canções, o verdadeiro Caminho. Funde, como cera indolente, o duro ferro do teu coração e serás como David, ardente no amor a Deus. 

Saudações, ó Pavão do jardim das Oito Portas (6)! Tu te afligiste por causa da serpente de sete cabeças, por cujo intermédio foste expulso do Éden. Se te livrares da cobra detestável, Adão te levará com ele ao Paraíso. Saudações, ó excelente Faisão! Tu vês o que está muito longe e percebes o manancial do coração imerso no oceano de luz enquanto permaneces no poço da escuridão e na prisão da incerteza. Deixa o poço e ergue a cabeça para o trono divino. 

Saudações, ó meiga Rolinha, voz de doce arrulho! Saíste contente e voltaste, com a tristeza no coração, para uma prisão tão estreita quanto a de Jonas. Ó tu, que vagueias para lá e para cá como um peixe, podes perder forças com malevolência? Corta a cabeça desse peixe para que possas alisar as tuas penas nos píncaros da Lua. 

Saudações, ó Pombo! Entoa as tuas notas para que eu possa espalhar à tua volta sete medalhas de pérolas. Visto que o colar da fé te envolve o pescoço, não te ficaria bem ser infiel. Quando entrares no caminho da compreensão, Khizr (7) te trará a água da vida. 

Bem-vindo sejas, ó Falcão! Tu, que alçaste voo e, depois de te rebelares contra o teu amo, curvaste a cabe- ça! Aguenta-te convenientemente. estás preso ao corpo deste mundo e, assim, longe do outro. Quando estiveres livre dos mundos, descansarás na mão de Alexandre. 

Bem-vindo sejas, ó Pintassilgo! Vem com alegria. Anseia por agir e vem como o fogo. Quando desfizeres os teus vínculos, a luz de Deus mais ainda se manifestará. Visto que o teu coração conhece os Seus segredos, sê fiel. Quando te houveres aperfeiçoado deixarás de existir. Mas Deus subsistirá.




__________________
4 Primeira palavra da passagem do Alcorão: «Não sou eu o vosso Senhor?» (VII, 171). 
5 Sim. 
6 As portas do Céu. Possível referência aos «oito paraísos», ou «lugares da perfeita felicidade», de que fala o Alcorão.
7 Al-Khizr (o Verde). Homem-santo do Islão.


Borges, o tacteador de palavras

O Método

«Borges tem um método insólito de trabalhar. Dita cinco ou seis palavras que iniciam uma prosa ou um primeiro verso de um poema e imediatamente pede para lhas lerem. O indicador da sua mão direita segue sobre as costas da sua mão esquerda a leitura como se percorresse uma página invisível. A frase é relida uma, duas, três, quatro, muitas vezes até que encontra a continuação e dita outras cinco ou seis palavras. Em seguida pede para lhe lerem tudo o que está escrito. Como dita com pontuação, há que ler dizendo-lha. Relê para si esse fragmento, que acompanha com o movimento das mãos, até que acha a frase seguinte. Cheguei a ler uma dúzia de vezes um trecho de cinco linhas. Cada uma dessas leituras vai precedida das desculpas de Borges que, de certo modo, se atormenta bastante com os supostos incómodos que faz sofrer ao seu escriba.»

(Contado por María Esther Vásquez.)

Borges Verbal, Pilar Bravo e Mario Paoletti, Assírio&Alvim


16.12.15

Let's Dance



obrigada, vidro azul

o segredo

Gelatina tem um segredo. É um segredo tão grande, tão grande, que lhe salta pelos olhos. É por isso que fica corado quando a ideia lhe atravessa o pensamento. Falar nele, nem pensar, os lábios delicados viram chumbo, esmagam qualquer palavra mais traiçoeira. O seu segredo é a sua maior vergonha.

Gelatina ainda tentou camuflar a vergonha, foi por isso que se deixou engordar, engordou tanto até ficar obeso, mas o segredo também ganhou volume, começou a transpirar palavras, gestos comprometedores. Era como se tudo o que dizia, tudo o que fazia, denunciassem o peso que transportava na consciência.

Gelatina aprendeu, por experiencia própria, que o remorso ataca sobretudo à noite. Ensaiou mil e uma maneiras de o despistar, chegou a contar todas as ratazanas que existem à face da terra para ver se agarrava um sono salvador, mas o segredo traz a insónia colada à pele, tem todo o tempo do mundo para espalhar o seu veneno.

Gelatina também sabe que o seu segredo é uma flor de estufa que só sobrevive no mundo da mentira. Que o remorso cresce a cada dia, porque não o pode partilhar com os amigos. Por isso, resolveu encará-lo de frente. Sacou um lápis, estendeu a folha branca, pesou cada palavra, evitou adjectivos. Foi assim que passou o segredo a limpo.

Gelatina tinha os braços dormentes quando acabou de escrever a sua confissão. Colocou um ponto final – é o que sempre acontece com tudo o que é importante e definitivo – mas, pensando melhor, podia ter utilizado as reticências. Feitas as contas não tinha apenas um, mas muitos segredos no armário. Sentiu-se exausto.

(…)

Nem tudo começa com um beijo, Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira

15.12.15

«Um pouco mais adiante, no Largo do Directório, fica o Teatro de São Carlos, edificado em 1792,

Teatro Nacional de São Carlos

em homenagem à Princesa Carlota Joaquina de Bourbon, por iniciativa de vários comerciantes e capitalistas de Lisboa, sendo seu arquitecto José da Costa e Silva. As obras começaram a 8 de Dezembro desse ano e seis meses depois o teatro estava acabado, tendo sido inaugurado a 30 de Junho de 1793 com a ópera de Cimarosa La Ballerina Amante.

(...)

O Teatro Nacional de São Carlos, que custou 166 contos (36 880 libras) e foi construído ao gosto do teatro homónimo de Nápoles, que ardeu completamente a 13 de Fevereiro de 1816, é desde 1854 propriedade do Estado. É pena que ele esteja presentemente a ser utilizado por companhias de teatro e não de ópera.»

Lisboa, O que o Turista deve ver, Fernando Pessoa (dizem alguns, nem pensar!, afirmam outros)


13.12.15

História da Bela Fria

Foi a partir daí que comecei a achar que afinal, sendo agradável e enriquecedor, não era assim tão inofensivo pertencer ao mundo das amigas da minha mãe. Pouco a pouco fui-me desligando delas e no funeral de Aline verifiquei que já não conseguia passar para o seu lado, como se a morta tivesse erguido uma barreira definitiva entre nós. A minha mãe reparou e espantou-se com o que chamou a minha ingratidão monstruosa depois de ter recebido tantas provas de amizade durante vários anos, "Não sabes gostar de quem gosta de ti. Gostas e não gostas conforme te dá o vento. Culpas as pessoas e quem muda és tu. Nunca serás fiel a ninguém. Ao menos espero que saibas fingir diante do meu cadáver. "
Prometi-lhe, em tom de farsa, que não teria razão de queixa. Podia falar levianamente porque só a morte dela me importava e no íntimo alimentava a esperança de ter uma mãe imortal.

História da Bela Fria, Teresa Veiga
(contos, 1992)



«Todas as outras ocupações humanas tendem mais ou menos a explorar o homem; só essa de contar histórias se dedica amoravelmente a entretê-lo, o que tantas vezes equivale a consolá-lo.»*

sou fraca de nomes, já nem perco tempo a tentar perceber a razão. o nome de Teresa Veiga, que me lembre, vi-o algumas vezes no site da Cotovia, estive quase à encomenda, mas nunca calhou. quando, já este ano, pela Tinta da China (com uma capa de um azul-petróleo de suspirar e sob tão curioso nome - Gente Melancolicamente Louca -, [o advérbio, velho amigo pessoal, enrola-se na língua, delicioso, lento, demorando-se nas consoantes líquidas, nasalizando-se em comprimento]), a escritora esteve em destaque nas livrarias, olhei várias vezes aquela capa. não fosse a minha doença social, irritante, de me aborrecer, mesmo antes de os comprar, com os livros que toda a gente comenta e diz que lê, de me enfastiar com as modas literárias, quase de forma sobranceira, e teria tido o prazer de começar a ler esta narradora incrível há muito mais tempo. 
felizmente, há isto dos blogs. e eis senão quando, numa simples brincadeira, o anão gigante, me traz novamente o nome de Teresa Veiga à vontade. o excerto viciou-me, o livro estava esgotado, varri a internet, encontrei um exemplar como novo, a metade do preço, tive sorte. tenho uma predilecção pelo conto, contrariamente aos puristas, não o considero menor, tão pouco básico, mas uma narração delimitada, onde a fartura de histórias circulares e personagens secundárias do romance, dá lugar à riqueza dos pormenores, à concentração do prazer, dentro da sua estrutura fechada. a História da Bela Fria pode muito bem ter sido um dos melhores livros de contos que li em 2015.


*Eça de Queirós, Correspondência


Amor X

Amor IX

-- Porque não colas etiquetas nos teus livros? - perguntou depois de ter percorrido com o olhar a minha biblioteca.
-- Para quê?
-- Ora, para todos os livros terem o seu número... E eu, onde hei-de pôr os meus? Também tenho livros.
-- Que livros tens tu? - perguntei-lhe.
Alexandra levantou a sobrancelhas, reflectiu e disse:
-- ...De todos os géneros...
E se eu tivesse tido a ideia de lhe perguntar quais eram os seus pensamentos, as suas convicções, os seus objectivos, ela teria certamente levantado do mesmo modo as sobrancelhas, reflectido, e dito "De todos os géneros..."

Acompanhei-a em seguida a casa e deixei-a como um verdadeiro noivo reconhecido, tal como eu julgava ser até nos casarmos. Se o leitor me permite julgar o caso unicamente pela minha experiência pessoal, posso assegurar-lhe que a condição de noivo é muito aborrecida, mais ainda do que a de marido ou a de quem não é absolutamente nada. Um noivo não é carne nem peixe: deixou uma das margens, mas ainda não chegou à outra; não é casado, mas não pode dizer que seja solteiro, tem qualquer coisa do porteiro a quem já fiz alusão.
(...)

Amor, Anton Tchekhov


«Origem dos sonhos esquecidos»

Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância  dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo


12.12.15

anoitecer ii




Kandahar





«escrevo cavo e escavo na cave desta página atiro o branco sobre o branco em busca de um rosto ou folha ou de um corpo intacto a figura de um grito ou às vezes simplesmente uma pedra»

Rachel Dein


Amor IX


Alexandra escutava-me atentamente, mas em breve li a distracção no seu rosto: não compreendia. O futuro de que eu lhe falava interessava-a unicamente pelo seu aspecto exterior e era uma pura perda de tempo estar a desenvolver à sua frente, planos e projectos. O que a interessava vivamente era onde seria o seu quarto, que papel teria nas paredes e a razão por que eu tinha um piano vertical e não um de cauda. Examinava atentamente os objectos que estavam em cima da mesa, as fotografias, cheirava os frascos, descolava dos sobrescritos os selos usados, que com certeza para alguma coisa lhe serviriam.
--Guarda-me os selos usados, peço-te, - disse ela muito séria. - Peço-te.
Depois encontrou uma noz, quebrou-a ruidosamente com os dentes e comeu-a.
(...)

Amor, Anton Tchekhov

Amor VIII

Amor VII

Do jardim, levei Alexandra a minha casa. A presença da mulher adorada na casa de um celibatário, actua como a música e o vinho. Em geral, começa-se a falar do futuro com uma suficiência e um presunção sem limites. Fazem-se projectos, planos, fala-se com calor da subida ao generalato, mesmo quando se é simples aspirante, em suma, dizem-se parvoíces tão eloquentes que é necessário que a interlocutora esteja muito apaixonada e ignore tudo da vida, para acenar afirmativamente.
Felizmente para os homens, as mulheres apaixonadas estão sempre cegas pelo amor e não conhecem nada da vida. Não contentes de aprovar com a cabeça, empalidecem, aterrorizadas, enchem-se de veneração e bebem com avidez todas as palavras do maníaco. 
(...)  

Amor, Anton Tchekhov

É esta insatisfação, lava ardente, suco, sémen, semente, esta inconstância só minha, que aqui me traz, quando a vida está lá fora, longe, lenta. Sonho com uma morte violenta, a quente, bala na têmpora, carro despistado, cara desfeita em contra-mão. Sonho com o vidro que me há-de perfurar a pele macia, quente, fêmea pronta em cio, cadela em ladeira esquecida, macho alfa de alcateia, sonho-me liberta de mim.







11.12.15

Amor VII

Amor VI

O que interessava Alexandra era menos ele [o pormenor, eu] do que o lado romanesco do encontro, o seu mistério, os beijos, o silêncio das árvores austeras, os meus juramentos... Nem por um momento se abandonou, desfaleceu, despiu a sua expressão de mistério. Se no meu lugar estivesse um Ivan Sidorytch ou um Sidor Ivanytch, ela ter-se-ia sentido igualmente bem. Como querem que em tais condições um homem saiba se é amado? E, em caso afirmativo, sê-lo-á de vez?
(...)

Amor, Anton Tchekhov

8.12.15

«O que passou, passou?»

Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria
e todo o mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.

Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?

Ningém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.


7.12.15

Mes amies, c'est ça votre solution?

daqui

...


Chema Madoz


*poema belíssimo de Teresa Borges do Canto

6.12.15

No Caminho, com Maiakóvski

(...)
Na primeira noite eles se aproximam
e colhem uma flor
de nosso jardim
e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem: 
pisam as flores,
matam nosso cão
e não dizemos nada.
Até que um dia
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.
(...)

Eduardo Alves da Costa in O Tocador de Atabaque


«Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros.»


Hasegawa Tohaku



Li Shan



Zhu Daoping


Astérion

(...)
De nove em nove anos entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo o mal. Ouço os seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para os receber. A cerimónia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensanguente as mãos. Onde caíram, ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir umas galerias das outras. Ignoro quem são, mas sei que um deles, à hora da morte, profetizou que um dia chegaria o meu redentor. Desde então não me custa a solidão, porque sei que é vivo o meu redentor e por fim se há de levantar acima da poeira. Se o meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu daria pelos seus passos. Oxalá me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como será o meu redentor?, pergunto-me. Será um touro ou um homem? Será talvez um touro com cara de homem? 

O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não restava nem um vestígio de sangue.

 – Acreditarás, Ariadna? – disse Teseu. – O minotauro mal se defendeu.

A Marta Mosquera Eastman

Jorge Luis Borges, «A casa de Astérion», in O Aleph, QUETZAL


5.12.15

Piccolino, meu pequeno, que nasceste tão velho, como todos os anões.

Fiquei ali nu, desarmado, sem mais poder do que espumar de raiva. E a alguns passos de mim, impassível, ele pôs-se a estudar-me, a observar a minha deformidade com uma frieza implacável. Vi-me entregue sem defesa ao seu olhar cínico, que se apoderava da minha pessoa como se eu pudesse ser propriedade sua. Ser assim exposto aos olhos de outrem pareceu-me de um tão grande aviltamento, que ainda sinto a vergonha de o ter suportado. Recorda-me sempre o ruído que fazia no papel o seu lápis de prata, o mesmo talvez com que ele desenha as cabeças dissecadas dos criminosos e tantas outras abomináveis coisas. O seu olhar estava transformado, penetrante como a ponta duma faca, e dir-se-ia que ele me atravessava. 
Nunca odiei tanto os homens como nessa hora horrível. O meu ódio exerceu uma tal acção em mim que me julguei prestes a desmaiar. Por momentos, tudo escureceu diante dos meus olhos.

O Anão  - Pär Lagerkvist - Antígona Editora

4.12.15

Amor VI

Amor V

Entre as quatro e as cinco da tarde, fui ao recanto mais afastado do jardim público. Não se via vivalma e o encontro podia na verdade ter sido marcado mais perto, nas alamedas ou nos caramanchões. As mulheres, porém, gostam dos romances completos: se lhes dão mel, comem-no à colherada, se lhes propõem um encontro é preciso que ele se efectue no mais denso e impenetrável dos jardins, onde as pessoas se arriscam a dar com algum gatuno ou com algum burguês de grão na asa.
Quando me aproximei de Alexandra, estava ela de costas e achei um mistério danado essas costas voltadas. Dir-se-ia que as costas, a nuca e as manchas pretas do vestido, diziam: silêncio! A rapariga estava com um vestido de chita indiana, muito simples, sobre o qual pusera uma leve capa.
Para aumentar ao mistério, tinha o rosto escondido com um veuzinho branco. A fim de não estragar a harmonia, tive de me aproximar em bicos de pés e começar a falar a meia voz.
Segundo hoje me parece, eu não era o essencial nesse encontro, mas um simples pormenor. (...)

Amor, Anton Tchekhov


3.12.15

«Quapropter et ego non parcam ori meo loquar in tribulatione spiritus mei confabulabor cum amaritudine animae meae»

a voz é de Teresa Salgueiro.


[a culpa é do JM e da Miss Smile, que me recordaram de Zbigniew Preisner]


«Procura e não procures. Não existe um centro/ mas a clareira por vezes/ de súbito retém-nos.»


 Peter Sköld, Five Trees

Amor V

Amor (IV)

Naquela letra grande mas cuidada, eu via o andar de Alexandra, a sua maneira de levantar as sobrancelhas quando ria, o movimento dos seus lábios... Mas o conteudo da carta não me satisfez. Em primeiro lugar não se responde assim a uma missiva poética; em segundo lugar, para quê ir a casa da Alexandra e ficar à espera de que a sua gorda mãe, os irmãozinhos e os comensais da casa, adivinhem que nos devem deixar sós? Talvez mesmo sejam incapazes de adivinhar que não pode haver nada mais odioso do que refrear o nosso entusiamo só porque está plantado ao nosso lado um objecto qualquer, do género velha meio surda ou garota perguntadora. Entreguei à criada uma resposta em que propunha a Alexandra escolher como local de encontro um jardim ou uma avenida. A minha proposta foi aceite de boa vontade. Eu tinha acertado, como se costuma dizer, em cheio.
(...) 

Amor, Anton Tchekhov

2.12.15

«abandonar a aldeia o lugar a casa o corpo a escrita e todas as paisagens viajar no comboio-correio da noite»


Cheryl Tarrant



o meu contributo para a época que se aproxima

o néctar da Flor

- 1 garrafa (750 ml) de vinho tinto (nada de zurrapa!)
- 350 ml de água
- 300 g de açúcar mascavado
- sumo de 2 laranjas
- sumo de 1 limão
- 2 paus de canela
- 4 cravos-da-índia

Numa panela, misture a água, o açúcar mascavado, os cravos-da-índia e os paus de canela. Quando a água começar a ferver, tire a panela do fogão e misture o vinho com muito carinho, o sumo do limão e o sumo das duas laranjas. Coloque o preparado novamente no fogão, mas apenas (atenção a este detalhe, ou ficamos com uma bebidinha para crianças!) para que o vinho aqueça, não o deixando ferver, ou lá se vai o álcool. No fim, retiram-se os paus de canela, junta-se alguma treta, tipo cascas/fatias de citrinos, passas ou amêndoa laminada, ou mantém-se simples e bebe-se com muita (boa) vontade.
Há quem junte anis, baunilha, rum, maçãs aos cubos, cuspidelas ou gengibre. Eu prefiro a coisa mais simples.

imagem roubada da net

[a felicidade natalícia será facilmente atingida, mantendo o ritmo diário de uma panela]

o meu anão

Tenho vinte e seis polegadas de altura, sou perfeitamente consistido e, proporcionado, salvo no que respeita à cabeça, que é um pouco grande. Os meus cabelos são ruivos, em vez de negros como os da maior parte das pessoas, e além disso muitas espessos e crespos; uso-os repuxados para trás nas fontes e ao alto da testa, que se evidencia mais pela largura do que pela altura. O meu rosto é imberbe; afora isso, parece-se com o de todos os homens. As minhas sobrancelhas unem-se. Tenho uma força física considerável, sobretudo se me encolerizo. Quando me obrigaram a lutar com Josaphat, alcei-o sobre as minhas costas, ao fim de vinte minutos, e estrangulei-o. Desde então, sou o único anão da corte.

A maior parte dos anões são bobos. Têm por obrigação dizer gracinhas e executar facécias que provocam o riso dos seus senhores. Nunca me rebaixei a semelhantes manifestações. Ninguém mesmo mo chegou a propor. Só o meu aspecto proíbe que façam semelhante uso de mim! A minha fisionomia não se presta a chalaças ridículas. E não me rio nunca.

Não sou um bobo. Sou apenas um anão, nada mais.

Além disso, tenho uma língua mordaz, que pode agradar a certas pessoas do meu convívio. Não é a mesma coisa que ser o seu bobo.


O Anão  - Pär Lagerkvist - Antígona Editora

29.11.15

Amor (IV)

Amor (III)

... No dia seguinte, ao meio-dia, a criada de quarto de Alexandra traz-me a seguinte resposta: "Estou muito contente venha oje peço-lhe espero por si sem falta. Sua A." Nem uma vírgula. Aquela ausência de pontuação, o hoje sem h, toda a carta e até o longo e estreito sobrescrito onde ela fora metida, me enchiam a alma de enternecimento.

Amor, Anton Tchekhov

“Amor e Matemática”

Também já o ouvi dizer que a culpa de odiarmos matemática é sua e dos seus colegas. Eles não o detestam um bocadinho por dizer estas coisas?

Acho que alguns sim. Infelizmente alguns dos meus colegas parecem gostar de fazer parte de uma elite – de saber alguma coisa a que os outros não têm acesso. Acho isso escandaloso. Este conhecimento precioso pertence-nos a todos e nós, matemáticos, devemos partilhá-lo, torná-lo acessível a toda a gente. Na verdade, acho que a maioria dos matemáticos concordaria comigo neste ponto. 


anoitecer



Amor (III)

Amor (II)

É também um grande prazer para qualquer um fechar uma carta, vestir-se devagar e sair docemente de casa para ir levar aquele tesouro à caixa do correio. Já não há estrelas no céu; em seu lugar, no Levante, aparece por sobre as casas tristes uma longa faixa branca cortada, aqui e além, por nuvens e que inunda todo o céu de uma claridade pálida. A cidade dorme, mas os carros da água já saíram, a sereia de uma fábrica distante acorda os trabalhadores. Junto à caixa vê-se infalivelmente um porteiro enregelado, metido no seu grande capote em forma de sino e de pau na mão. Está em catalepsia: não dorme nem vela, o seu estado é intermédio...
Se as caixas de correio soubessem o número de vezes que lhes é pedido que resolvam a felicidade das pessoas, não teriam um ar tão tranquilo. Quanto a mim, quase beijei a minha, e, olhando-a, lembrei-me de que o correio é o soberbo bem!...
Convido todos os que já estiveram apaixonados, a recordarem-se de que, uma vez posta a carta na caixa, as pessoas se apressam a correr para casa, a deitarem-se e a puxarem para cima o cobertor, com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, não acordam sem logo se lembrarem da véspera, e de que hão-de olhar com entusiasmo para a janela por onde a luz do dia abre avidamente caminho, através das pregas dos cortinados...
Mas voltemos à nossa história...
(...)

Amor, Anton Tchekhov


28.11.15

a propósito dessa estranha febre consumista, que abre alas à detestável época natalícia, a black friday

Promoção, aproveitem
duas inutilidades são sempre
mais trágicas que só uma.
Sejam consumidores alerta
que em breve não haverá
nem um por dois nem cinco por três.
O segundo fica grátis, o primeiro não interessa. 
Sejam inteligentes,
ajudem o sofrido mundo das coisas
a desaparecer
a uma velocidade que rebente
os stocks do desespero
a fico tudo em cartão de pontos.

“Balada a Philip Muir”

Philip Muir cruza o Atlântico em seu navio.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
Pele de nácar, pintas de ouro, cabelo ruivo.
Philip Muir, de brancas unhas, correto e esguio,
é um puro lorde, pelo silêncio e pela altivez.

Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Espera as ordens. Não fita os olhos em ninguém.
Após dois dias, conhece todos os meus gostos
à mesa. E apenas corre com o olhar a lista inteira
da sopa à fruta. Nunca se esquece do chow mein.

Do lado do Norte, há sangue nas águas do Oceano.
E do lado de Leste. E nas terras. Sangue inglês.
E por baixo do mar andam as sombras sem passos…
Philip Muir, no meio do desastre humano,
serve champanhe, hoje. Amanhã, seu sangue, talvez.

Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Mais tarde, na noite, acende seu cachimbo e vem
ver as estrelas nascendo do amargo horizonte,
– ilhas dormentes, que o vento embala a noite inteira…
e muitas cenas – tão diferentes! – mais além.

Nenhum soldado será mais grave nem mais frio
que Philip Muir, se ainda chega a sua vez.
Coberto de lama, sangue, injúria, dor e morte,
Philip Muir partirá num outro navio,
navio de nuvem, mas com mastro de altivez.

Nem duque nem lorde: um simples homem da Britânia.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.


De Poemas de viagem (1940-1964)


daqui: Autores e Livros

Amor (II)

Amor (I)

(...) Não que eu quisesse fazê-la mais extensa, mais florida ou sentimental, mas porque sentia um desejo sem limites de prolongar o prazer de escrever, ali sentado no silêncio do escritório onde mirava a noite primaveril e conversava com os meus próprios sonhos. Entre as linhas via aquela imagem querida, e parecia-me que estavam ali, sentados à mesma mesa e também a escrever, espíritos como eu inocentemente felizes, mas sorrindo beatificamente. Eu escrevia sem deixar de olhar a minha mão ainda elanguescida por um recente aperto de mão, e, se me acontecia deitar um olhar de lado, via a grade do portão verde. Fora através dessa grade que Alexandra me olhara depois de eu lhe ter dito adeus. Nesse momento não pensava em nada e contentava-me com admirar a sua pessoa, como faz qualquer homem bem-educado diante de uma mulher bonita; mas quando, através da grade, vi os seus dois grandes olhos, compreendi de súbito, como numa inspiração, que estava apaixonado, que entre nós tudo esta definitivamente resolvido, e que só me restava respeitar as formalidades.
(...)

Amor, Anton Tchekhov

27.11.15

The Backwater Gospel

“As long as anyone can remember, the coming of The Undertaker has meant the coming of death. Until one day the grim promise fails and tension builds as the God fearing townsfolk of Backwater wait for someone to die.”






26.11.15

Amor

"Três horas da manhã. Das minhas janelas vê-se uma tranquila noite de Abril, em que as estrelas tremeluzem ternamente. Não durmo. Sinto-me bem.
Por todo o meu ser, da cabeça aos pés, há um sentimento bizarro e incompreensível. Não sei analisá-lo assim de repente, não tenho tempo nem pachorra para isso, e além disso, essa análise não interessa nada. Ora vamos! Irá o homem que se atira de cabeça do campanário de uma igreja ou o que sabe que ganhou 200 mil rublos procurar um sentido para as suas impressões? Tanto se lhe dá!"
Era mais ou menos assim que começava uma carta de amor a Alexandra, uma rapariga de 18 anos por quem me tinha apaixonado. Cinco vezes a tinha recomeçado e outras tantas rasgara o papel, riscara folhas inteiras e copiara de novo. Essa carta tinha-me ocupado um longo momento, como um romance encomendado. (...)

Amor, Anton Tchekhov

instantâneos

O político engana o rato,
Cujas dentadas são rançosas
Naquela ferida de aloé.
O sol está no armário.

O sol está no armário.
Aquele criado desfaz o esqueleto,
E talha a mama científica.
Luz através do retrato.

Sombra através do retrato.
O anão da cave, irado
Como o arminho, periscopeia
A relojoaria da lua.

O vigário no seu jogo
Desenrola o fio de pesca,
Espera um charco nivelado.
Sombra através do armário.

1952

25.11.15

...

Stop The Draft Week, Oakland, 1967, Jeff Blankfort 


“It’s very frustrating. I’ve become very disillusioned with the American political situation. Taking photographs of someone having his head broken in by a police club? I’ve taken that so many times that I’m sick and tired of it. I mean you never become immune to the point of accepting it, but you become almost brutalised to the fact that you can stand by taking pictures quite calmly without your hands shaking while someone is having their head broken in by a police club. And you don’t go and stop that policeman from doing it.”



24.11.15

Um coração ardente

O  velho voltou-se para a janela que emoldurava o céu estrelado.
Sorriu. Tinha uma bela voz.
– Mas eu dizia que na minha juventude fui um escritor que acabou
enveredando por todos os gêneros literários, fiz poesia, prosa...
Na realidade, eu não tinha talento, mas tinha a paixão e daí meti-me
também na política, cheguei a escrever uma doutrina para meu
partido enquanto mergulhava na filosofia, ó Sócrates, ó Platão!...
Trazia na lapela do paletó o distintivo de filósofo, uma corujinha
de esmalte vermelho pousada num livro.
Calou-se. Acendeu um cigarro. Tinha no olhar uma expressão de
afetuosa ironia, zombava de si mesmo, mas sem amargura.
– Eu não tinha talento nem para a literatura e nem para a filosofia,
nenhuma vocação para aqueles ofícios que me fascinavam, essa é
a verdade, tinha um coração ardente, eis aí, tinha apenas um coração
ardente.

(continua aqui)


Um coração ardente, Lygia Fagundes Telles

Sem drama

Poucas pessoas gostam de poesia,
embora a maioria,
como é sabido, diga que sim.
É que a  poesia, erva ruim,
cresce sem pedir licença
e não precisa de jardim
para marcar presença.

Vicejando em qualquer lado,
há quem a ponha na lapela
para o encontro aprazado.
Outros mostram-na à janela
no lugar do cortinado.

Mas, sem que nisso haja drama,
raros são decerto aqueles
que a fazem dormir com eles
noite após noite na cama.

Rua de Camões

A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe


Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho


Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva


Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto


E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça


O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia


Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão


A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes


Não olhes para os rapazes
que é feio.