12.12.15
É esta insatisfação, lava ardente, suco, sémen, semente, esta inconstância só minha, que aqui me traz, quando a vida está lá fora, longe, lenta. Sonho com uma morte violenta, a quente, bala na têmpora, carro despistado, cara desfeita em contra-mão. Sonho com o vidro que me há-de perfurar a pele macia, quente, fêmea pronta em cio, cadela em ladeira esquecida, macho alfa de alcateia, sonho-me liberta de mim.
11.12.15
Amor VII
Amor VI
O que interessava Alexandra era menos ele [o pormenor, eu] do que o lado romanesco do encontro, o seu mistério, os beijos, o silêncio das árvores austeras, os meus juramentos... Nem por um momento se abandonou, desfaleceu, despiu a sua expressão de mistério. Se no meu lugar estivesse um Ivan Sidorytch ou um Sidor Ivanytch, ela ter-se-ia sentido igualmente bem. Como querem que em tais condições um homem saiba se é amado? E, em caso afirmativo, sê-lo-á de vez?
(...)
(...)
Amor, Anton Tchekhov
8.12.15
«O que passou, passou?»
Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria
e todo o mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ningém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria
e todo o mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ningém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
7.12.15
6.12.15
No Caminho, com Maiakóvski
(...)
Na primeira noite eles se aproximam
Na primeira noite eles se aproximam
e colhem uma flor
de nosso jardim
e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão
e não dizemos nada.
Até que um dia
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.
(...)
(...)
Eduardo Alves da Costa in O Tocador de Atabaque
Astérion
(...)
De nove em nove anos entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo o mal. Ouço os seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para os receber. A cerimónia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensanguente as mãos. Onde caíram, ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir umas galerias das outras. Ignoro quem são, mas sei que um deles, à hora da morte, profetizou que um dia chegaria o meu redentor. Desde então não me custa a solidão, porque sei que é vivo o meu redentor e por fim se há de levantar acima da poeira. Se o meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu daria pelos seus passos. Oxalá me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como será o meu redentor?, pergunto-me. Será um touro ou um homem? Será talvez um touro com cara de homem?
O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não restava nem um vestígio de sangue.
– Acreditarás, Ariadna? – disse Teseu. – O minotauro mal se defendeu.
A Marta Mosquera Eastman
Jorge Luis Borges, «A casa de Astérion», in O Aleph, QUETZAL
5.12.15
Piccolino, meu pequeno, que nasceste tão velho, como todos os anões.
Fiquei ali nu, desarmado, sem mais poder do que espumar de raiva. E a alguns passos de mim, impassível, ele pôs-se a estudar-me, a observar a minha deformidade com uma frieza implacável. Vi-me entregue sem defesa ao seu olhar cínico, que se apoderava da minha pessoa como se eu pudesse ser propriedade sua. Ser assim exposto aos olhos de outrem pareceu-me de um tão grande aviltamento, que ainda sinto a vergonha de o ter suportado. Recorda-me sempre o ruído que fazia no papel o seu lápis de prata, o mesmo talvez com que ele desenha as cabeças dissecadas dos criminosos e tantas outras abomináveis coisas. O seu olhar estava transformado, penetrante como a ponta duma faca, e dir-se-ia que ele me atravessava.
Nunca odiei tanto os homens como nessa hora horrível. O meu ódio exerceu uma tal acção em mim que me julguei prestes a desmaiar. Por momentos, tudo escureceu diante dos meus olhos.
O Anão - Pär Lagerkvist - Antígona Editora
4.12.15
Amor VI
Amor V
Entre as quatro e as cinco da tarde, fui ao recanto mais afastado do jardim público. Não se via vivalma e o encontro podia na verdade ter sido marcado mais perto, nas alamedas ou nos caramanchões. As mulheres, porém, gostam dos romances completos: se lhes dão mel, comem-no à colherada, se lhes propõem um encontro é preciso que ele se efectue no mais denso e impenetrável dos jardins, onde as pessoas se arriscam a dar com algum gatuno ou com algum burguês de grão na asa.
Quando me aproximei de Alexandra, estava ela de costas e achei um mistério danado essas costas voltadas. Dir-se-ia que as costas, a nuca e as manchas pretas do vestido, diziam: silêncio! A rapariga estava com um vestido de chita indiana, muito simples, sobre o qual pusera uma leve capa.
Para aumentar ao mistério, tinha o rosto escondido com um veuzinho branco. A fim de não estragar a harmonia, tive de me aproximar em bicos de pés e começar a falar a meia voz.
Segundo hoje me parece, eu não era o essencial nesse encontro, mas um simples pormenor. (...)
Amor, Anton Tchekhov
3.12.15
«Quapropter et ego non parcam ori meo loquar in tribulatione spiritus mei confabulabor cum amaritudine animae meae»
a voz é de Teresa Salgueiro.
Amor V
Amor (IV)
Naquela letra grande mas cuidada, eu via o andar de Alexandra, a sua maneira de levantar as sobrancelhas quando ria, o movimento dos seus lábios... Mas o conteudo da carta não me satisfez. Em primeiro lugar não se responde assim a uma missiva poética; em segundo lugar, para quê ir a casa da Alexandra e ficar à espera de que a sua gorda mãe, os irmãozinhos e os comensais da casa, adivinhem que nos devem deixar sós? Talvez mesmo sejam incapazes de adivinhar que não pode haver nada mais odioso do que refrear o nosso entusiamo só porque está plantado ao nosso lado um objecto qualquer, do género velha meio surda ou garota perguntadora. Entreguei à criada uma resposta em que propunha a Alexandra escolher como local de encontro um jardim ou uma avenida. A minha proposta foi aceite de boa vontade. Eu tinha acertado, como se costuma dizer, em cheio.
(...)
Amor, Anton Tchekhov
2.12.15
o meu contributo para a época que se aproxima
o néctar da Flor
- 1 garrafa (750 ml) de vinho tinto (nada de zurrapa!)
- 350 ml de água
- 300 g de açúcar mascavado
- sumo de 2 laranjas
- sumo de 1 limão
- 2 paus de canela
- 4 cravos-da-índia
- 1 garrafa (750 ml) de vinho tinto (nada de zurrapa!)
- 350 ml de água
- 300 g de açúcar mascavado
- sumo de 2 laranjas
- sumo de 1 limão
- 2 paus de canela
- 4 cravos-da-índia
Numa panela, misture a água, o açúcar mascavado, os cravos-da-índia e os paus de canela. Quando a água começar a ferver, tire a panela do fogão e misture o vinho com muito carinho, o sumo do limão e o sumo das duas laranjas. Coloque o preparado novamente no fogão, mas apenas (atenção a este detalhe, ou ficamos com uma bebidinha para crianças!) para que o vinho aqueça, não o deixando ferver, ou lá se vai o álcool. No fim, retiram-se os paus de canela, junta-se alguma treta, tipo cascas/fatias de citrinos, passas ou amêndoa laminada, ou mantém-se simples e bebe-se com muita (boa) vontade.
Há quem junte anis, baunilha, rum, maçãs aos cubos, cuspidelas ou gengibre. Eu prefiro a coisa mais simples.
Há quem junte anis, baunilha, rum, maçãs aos cubos, cuspidelas ou gengibre. Eu prefiro a coisa mais simples.
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| imagem roubada da net |
[a felicidade natalícia será facilmente atingida, mantendo o ritmo diário de uma panela]
o meu anão
Tenho vinte e seis polegadas de altura, sou perfeitamente consistido e, proporcionado, salvo no que respeita à cabeça, que é um pouco grande. Os meus cabelos são ruivos, em vez de negros como os da maior parte das pessoas, e além disso muitas espessos e crespos; uso-os repuxados para trás nas fontes e ao alto da testa, que se evidencia mais pela largura do que pela altura. O meu rosto é imberbe; afora isso, parece-se com o de todos os homens. As minhas sobrancelhas unem-se. Tenho uma força física considerável, sobretudo se me encolerizo. Quando me obrigaram a lutar com Josaphat, alcei-o sobre as minhas costas, ao fim de vinte minutos, e estrangulei-o. Desde então, sou o único anão da corte.
A maior parte dos anões são bobos. Têm por obrigação dizer gracinhas e executar facécias que provocam o riso dos seus senhores. Nunca me rebaixei a semelhantes manifestações. Ninguém mesmo mo chegou a propor. Só o meu aspecto proíbe que façam semelhante uso de mim! A minha fisionomia não se presta a chalaças ridículas. E não me rio nunca.
Não sou um bobo. Sou apenas um anão, nada mais.
Além disso, tenho uma língua mordaz, que pode agradar a certas pessoas do meu convívio. Não é a mesma coisa que ser o seu bobo.
O Anão - Pär Lagerkvist - Antígona Editora
1.12.15
29.11.15
Amor (IV)
Amor (III)
... No dia seguinte, ao meio-dia, a criada de quarto de Alexandra traz-me a seguinte resposta: "Estou muito contente venha oje peço-lhe espero por si sem falta. Sua A." Nem uma vírgula. Aquela ausência de pontuação, o hoje sem h, toda a carta e até o longo e estreito sobrescrito onde ela fora metida, me enchiam a alma de enternecimento.
Amor, Anton Tchekhov
Amor, Anton Tchekhov
“Amor e Matemática”
Também já o ouvi dizer que a culpa de odiarmos matemática é sua e dos seus colegas. Eles não o detestam um bocadinho por dizer estas coisas?
Acho que alguns sim. Infelizmente alguns dos meus colegas parecem gostar de fazer parte de uma elite – de saber alguma coisa a que os outros não têm acesso. Acho isso escandaloso. Este conhecimento precioso pertence-nos a todos e nós, matemáticos, devemos partilhá-lo, torná-lo acessível a toda a gente. Na verdade, acho que a maioria dos matemáticos concordaria comigo neste ponto.
Amor (III)
Amor (II)
Amor, Anton Tchekhov
É também um grande prazer para qualquer um fechar uma carta, vestir-se devagar e sair docemente de casa para ir levar aquele tesouro à caixa do correio. Já não há estrelas no céu; em seu lugar, no Levante, aparece por sobre as casas tristes uma longa faixa branca cortada, aqui e além, por nuvens e que inunda todo o céu de uma claridade pálida. A cidade dorme, mas os carros da água já saíram, a sereia de uma fábrica distante acorda os trabalhadores. Junto à caixa vê-se infalivelmente um porteiro enregelado, metido no seu grande capote em forma de sino e de pau na mão. Está em catalepsia: não dorme nem vela, o seu estado é intermédio...
Se as caixas de correio soubessem o número de vezes que lhes é pedido que resolvam a felicidade das pessoas, não teriam um ar tão tranquilo. Quanto a mim, quase beijei a minha, e, olhando-a, lembrei-me de que o correio é o soberbo bem!...
Convido todos os que já estiveram apaixonados, a recordarem-se de que, uma vez posta a carta na caixa, as pessoas se apressam a correr para casa, a deitarem-se e a puxarem para cima o cobertor, com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, não acordam sem logo se lembrarem da véspera, e de que hão-de olhar com entusiasmo para a janela por onde a luz do dia abre avidamente caminho, através das pregas dos cortinados...
Mas voltemos à nossa história...
(...)
Amor, Anton Tchekhov
28.11.15
a propósito dessa estranha febre consumista, que abre alas à detestável época natalícia, a black friday
Promoção, aproveitem
duas inutilidades são sempre
mais trágicas que só uma.
Sejam consumidores alerta
que em breve não haverá
nem um por dois nem cinco por três.
O segundo fica grátis, o primeiro não interessa.
Sejam inteligentes,
ajudem o sofrido mundo das coisas
a desaparecer
a uma velocidade que rebente
os stocks do desespero
a fico tudo em cartão de pontos.
duas inutilidades são sempre
mais trágicas que só uma.
Sejam consumidores alerta
que em breve não haverá
nem um por dois nem cinco por três.
O segundo fica grátis, o primeiro não interessa.
Sejam inteligentes,
ajudem o sofrido mundo das coisas
a desaparecer
a uma velocidade que rebente
os stocks do desespero
a fico tudo em cartão de pontos.
“Balada a Philip Muir”
Philip Muir cruza o Atlântico em seu navio.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
Pele de nácar, pintas de ouro, cabelo ruivo.
Philip Muir, de brancas unhas, correto e esguio,
é um puro lorde, pelo silêncio e pela altivez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Espera as ordens. Não fita os olhos em ninguém.
Após dois dias, conhece todos os meus gostos
à mesa. E apenas corre com o olhar a lista inteira
da sopa à fruta. Nunca se esquece do chow mein.
Do lado do Norte, há sangue nas águas do Oceano.
E do lado de Leste. E nas terras. Sangue inglês.
E por baixo do mar andam as sombras sem passos…
Philip Muir, no meio do desastre humano,
serve champanhe, hoje. Amanhã, seu sangue, talvez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Mais tarde, na noite, acende seu cachimbo e vem
ver as estrelas nascendo do amargo horizonte,
– ilhas dormentes, que o vento embala a noite inteira…
e muitas cenas – tão diferentes! – mais além.
Nenhum soldado será mais grave nem mais frio
que Philip Muir, se ainda chega a sua vez.
Coberto de lama, sangue, injúria, dor e morte,
Philip Muir partirá num outro navio,
navio de nuvem, mas com mastro de altivez.
Nem duque nem lorde: um simples homem da Britânia.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
De Poemas de viagem (1940-1964)
daqui: Autores e Livros
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
Pele de nácar, pintas de ouro, cabelo ruivo.
Philip Muir, de brancas unhas, correto e esguio,
é um puro lorde, pelo silêncio e pela altivez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Espera as ordens. Não fita os olhos em ninguém.
Após dois dias, conhece todos os meus gostos
à mesa. E apenas corre com o olhar a lista inteira
da sopa à fruta. Nunca se esquece do chow mein.
Do lado do Norte, há sangue nas águas do Oceano.
E do lado de Leste. E nas terras. Sangue inglês.
E por baixo do mar andam as sombras sem passos…
Philip Muir, no meio do desastre humano,
serve champanhe, hoje. Amanhã, seu sangue, talvez.
Diz-me: Good evening, endireitando-me a cadeira.
Mais tarde, na noite, acende seu cachimbo e vem
ver as estrelas nascendo do amargo horizonte,
– ilhas dormentes, que o vento embala a noite inteira…
e muitas cenas – tão diferentes! – mais além.
Nenhum soldado será mais grave nem mais frio
que Philip Muir, se ainda chega a sua vez.
Coberto de lama, sangue, injúria, dor e morte,
Philip Muir partirá num outro navio,
navio de nuvem, mas com mastro de altivez.
Nem duque nem lorde: um simples homem da Britânia.
Nem almirante nem corsário: copeiro inglês.
De Poemas de viagem (1940-1964)
daqui: Autores e Livros
Amor (II)
Amor (I)
(...) Não que eu quisesse fazê-la mais extensa, mais florida ou sentimental, mas porque sentia um desejo sem limites de prolongar o prazer de escrever, ali sentado no silêncio do escritório onde mirava a noite primaveril e conversava com os meus próprios sonhos. Entre as linhas via aquela imagem querida, e parecia-me que estavam ali, sentados à mesma mesa e também a escrever, espíritos como eu inocentemente felizes, mas sorrindo beatificamente. Eu escrevia sem deixar de olhar a minha mão ainda elanguescida por um recente aperto de mão, e, se me acontecia deitar um olhar de lado, via a grade do portão verde. Fora através dessa grade que Alexandra me olhara depois de eu lhe ter dito adeus. Nesse momento não pensava em nada e contentava-me com admirar a sua pessoa, como faz qualquer homem bem-educado diante de uma mulher bonita; mas quando, através da grade, vi os seus dois grandes olhos, compreendi de súbito, como numa inspiração, que estava apaixonado, que entre nós tudo esta definitivamente resolvido, e que só me restava respeitar as formalidades.
(...)
Amor, Anton Tchekhov
27.11.15
The Backwater Gospel
“As long as anyone can remember, the coming of The Undertaker has meant the coming of death. Until one day the grim promise fails and tension builds as the God fearing townsfolk of Backwater wait for someone to die.”
26.11.15
Amor
"Três horas da manhã. Das minhas janelas vê-se uma tranquila noite de Abril, em que as estrelas tremeluzem ternamente. Não durmo. Sinto-me bem.
Por todo o meu ser, da cabeça aos pés, há um sentimento bizarro e incompreensível. Não sei analisá-lo assim de repente, não tenho tempo nem pachorra para isso, e além disso, essa análise não interessa nada. Ora vamos! Irá o homem que se atira de cabeça do campanário de uma igreja ou o que sabe que ganhou 200 mil rublos procurar um sentido para as suas impressões? Tanto se lhe dá!"
Era mais ou menos assim que começava uma carta de amor a Alexandra, uma rapariga de 18 anos por quem me tinha apaixonado. Cinco vezes a tinha recomeçado e outras tantas rasgara o papel, riscara folhas inteiras e copiara de novo. Essa carta tinha-me ocupado um longo momento, como um romance encomendado. (...)
Amor, Anton Tchekhov
instantâneos
O político engana o rato,
Cujas dentadas são rançosas
Naquela ferida de aloé.
O sol está no armário.
O sol está no armário.
Aquele criado desfaz o esqueleto,
E talha a mama científica.
Luz através do retrato.
Sombra através do retrato.
O anão da cave, irado
Como o arminho, periscopeia
A relojoaria da lua.
O vigário no seu jogo
Desenrola o fio de pesca,
Espera um charco nivelado.
Sombra através do armário.
1952
Cujas dentadas são rançosas
Naquela ferida de aloé.
O sol está no armário.
O sol está no armário.
Aquele criado desfaz o esqueleto,
E talha a mama científica.
Luz através do retrato.
Sombra através do retrato.
O anão da cave, irado
Como o arminho, periscopeia
A relojoaria da lua.
O vigário no seu jogo
Desenrola o fio de pesca,
Espera um charco nivelado.
Sombra através do armário.
1952
25.11.15
...
![]() |
| Stop The Draft Week, Oakland, 1967, Jeff Blankfort |
“It’s very frustrating. I’ve become very disillusioned with the American political situation. Taking photographs of someone having his head broken in by a police club? I’ve taken that so many times that I’m sick and tired of it. I mean you never become immune to the point of accepting it, but you become almost brutalised to the fact that you can stand by taking pictures quite calmly without your hands shaking while someone is having their head broken in by a police club. And you don’t go and stop that policeman from doing it.”
24.11.15
Um coração ardente
O velho voltou-se para a janela que emoldurava o céu estrelado.
Sorriu. Tinha uma bela voz.
– Mas eu dizia que na minha juventude fui um escritor que acabou
enveredando por todos os gêneros literários, fiz poesia, prosa...
Na realidade, eu não tinha talento, mas tinha a paixão e daí meti-me
também na política, cheguei a escrever uma doutrina para meu
partido enquanto mergulhava na filosofia, ó Sócrates, ó Platão!...
Trazia na lapela do paletó o distintivo de filósofo, uma corujinha
de esmalte vermelho pousada num livro.
Calou-se. Acendeu um cigarro. Tinha no olhar uma expressão de
afetuosa ironia, zombava de si mesmo, mas sem amargura.
– Eu não tinha talento nem para a literatura e nem para a filosofia,
nenhuma vocação para aqueles ofícios que me fascinavam, essa é
a verdade, tinha um coração ardente, eis aí, tinha apenas um coração
ardente.
(continua aqui)
Um coração ardente, Lygia Fagundes Telles
Sorriu. Tinha uma bela voz.
– Mas eu dizia que na minha juventude fui um escritor que acabou
enveredando por todos os gêneros literários, fiz poesia, prosa...
Na realidade, eu não tinha talento, mas tinha a paixão e daí meti-me
também na política, cheguei a escrever uma doutrina para meu
partido enquanto mergulhava na filosofia, ó Sócrates, ó Platão!...
Trazia na lapela do paletó o distintivo de filósofo, uma corujinha
de esmalte vermelho pousada num livro.
Calou-se. Acendeu um cigarro. Tinha no olhar uma expressão de
afetuosa ironia, zombava de si mesmo, mas sem amargura.
– Eu não tinha talento nem para a literatura e nem para a filosofia,
nenhuma vocação para aqueles ofícios que me fascinavam, essa é
a verdade, tinha um coração ardente, eis aí, tinha apenas um coração
ardente.
(continua aqui)
Um coração ardente, Lygia Fagundes Telles
Sem drama
Poucas pessoas gostam de poesia,
embora a maioria,
como é sabido, diga que sim.
É que a poesia, erva ruim,
cresce sem pedir licença
e não precisa de jardim
para marcar presença.
Vicejando em qualquer lado,
há quem a ponha na lapela
para o encontro aprazado.
Outros mostram-na à janela
no lugar do cortinado.
Mas, sem que nisso haja drama,
raros são decerto aqueles
que a fazem dormir com eles
noite após noite na cama.
embora a maioria,
como é sabido, diga que sim.
É que a poesia, erva ruim,
cresce sem pedir licença
e não precisa de jardim
para marcar presença.
Vicejando em qualquer lado,
há quem a ponha na lapela
para o encontro aprazado.
Outros mostram-na à janela
no lugar do cortinado.
Mas, sem que nisso haja drama,
raros são decerto aqueles
que a fazem dormir com eles
noite após noite na cama.
Rua de Camões
A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
Nota sobre Shakespeare
O erro deles, o erro em que a maior parte deles cai, é tentar calcular e determinar, com a mais fina aparelhagem, a origem da ferida.
Procuram, com a devida tenção, os espaços entre a aparência e o vazio que dela depende. Vão ao encontro da ferida com deferência, um bisturi, uma agulha e uma linha. Logo à entrada do bisturi, alarga-se o espaço. Com a utilização da agulha e da linha, a ferida coagula e atrofia-se-lhe nas mãos.
Shakespeare escreve pela ferida aberta e, por ele, sabemos quando está aberta e quando está fechada. Somos capazes de dizer quando pára de bater e dizê-la no ponto mais alto da febre.
Várias Vozes, Harold Pinter, ed. Quasi
22.11.15
...
A flor receia a morte?
Toca-a? Cheira-a?
Devolve o seu perfume
à ondulação profunda?
Vira-se para a luz.
A morte é a flor
quando se abre.
daqui: canal de poesia
Toca-a? Cheira-a?
Devolve o seu perfume
à ondulação profunda?
Vira-se para a luz.
A morte é a flor
quando se abre.
daqui: canal de poesia
Poeira
[Eduardo Jorge]: Poeira. Das cinzas saltamos à poeira. Certa vez a senhora comentou que a poeira a acompanha desde a infância. Seria a poeira uma espécie de convidada estrangeira?
[Maria Filomena Molder]: Poeira era a dedada do sol quando entrava na casa da minha infância. Percebi logo que ela era também de origem cósmica, quer dizer, pertencia a tudo o que estava em redor muito longe, longíssimo (traduzido agora, incontáveis anosluz): hostes de seres minúsculos que habitavam, trémulos, instáveis, o raio de sol numa agitação constante. Dizia para mim: “está tudo cheio de poeira e eu não sabia antes deste raio de sol entrar pela janela”, maravilhada e ao mesmo tempo perto de um terror que não provocava paralisia. Era uma coisa de infância, um anúncio, tanta coisa que existe sempre ao nosso lado, que enche a nossa boca quando a abrimos, penetra nos cabelos, rodopia à nossa volta e nós sem darmos dela. A luz descobriu-a. Esta poeira também pousava nos móveis, nas vidraças das janelas, mas aí não dançava, esperava pelos nosso dedos que abriam sulcos, desenhos, nesse estado chamava-se pó e limpava-se. Nunca tive a certeza de que fossem a mesma.
Zazie dans le métro
- Moi, déclara Zazie, je veux aller à l'école jusqu'à soixante-cinq ans. (...) Je veux être institutrice.
- Pourquoi que tu veux l'être, institutrice?
- Pour faire chier les mômes (...). Je serai vache comme tout avec eux. Je leur ferai lécher le parquet. Je leur ferai manger l'éponge du tableau noir. Je leur enfoncerai des compas dans le derrière. Je leur botterai les fesses.
- Tu sais, dit Gabriel avec calme, d'après ce que disent les journaux, c'est pas du tout dans ce sens là que s'oriente l'éducation moderne. C'est même tout le contraire. On va vers la douceur, la compréhension et la gentillesse. (...) D'ailleurs, dans vingt ans, y aura plus d'institutrices : elles seront remplacées par le cinéma, la tévé, l'électronique, des trucs comme ça.
- Alors, déclara-t-elle, je serai astronaute pour aller faire chier les Martiens.
Raymond Queneau, Zazie dans le métro
O Fazedor
Nunca se havia demorado nos gozos da memória. As impressões resvalavam sobre ele, momentâneas e vívidas; o cinábrio de um oleiro, a abóbada carregada de estrelas que também eram deuses, a lua, donde tinha caído um leão, a lisura do mármore sob as lentas gemas sensíveis, o sabor da carne de javali, que gostava de dilacerar com dentadas brancas e bruscas, uma palavras fenícia, a sombra negra que uma lança projecta na areia amarela, a proximidade do mar ou das mulheres, o pesado vinho cuja aspereza era mitigada pelo mel eram capazes de abarcar por inteiro o âmbito da sua alma. Conhecia o terror mas também conhecia a cólera e a coragem, e uma vez foi o primeiro a escalar um muro inimigo. Ávido, curioso, sem outra lei que não a fruição e a indiferença imediata, andou pela variada terra e contemplou, numa e noutra costa do mar, as cidades dos homens e os seus palácios. Nos mercados populosos ou ao pé de uma montanha de cimo incerto, onde podia perfeitamente haver sátiros, fora-lhe dado ouvir complicadas histórias, que recebeu como recebia a realidade, sem indagar se eram verdadeiras ou falsas.
Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma obstinada neblina apagou-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estrelas, a terra tornou-se-lhe insegura debaixo dos pés. Tudo se afastava e se tornava confuso. Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estóico ainda não tinha sido inventado e Heitor podia muito bem fugir sem menosprezo. Não mais verei (sentiu) nem o céu cheio de pavor mitológico, nem essa cara que os anos hão-de transformar. Dias e noites passaram sobre esse desespero da sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem assombro) as nebulosas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que já lhe tinha acontecido tudo isso e que tudo isso havia encarado com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade. Desceu então àquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moeda debaixo da chuva, talvez por nunca a ter olhado, a não ser porventura num sonho.
A recordação era a seguinte: Um outro rapaz tinha-o injuriado e ele tinha corrido para junto do pai e contara-lhe a história. O pai deixou-o falar como se não lhe desse ouvidos ou não compreendesse e dependurou da parede um punhal de bronze, muito belo e carregado de poder, que o rapaz havia cobiçado furtivamente. Agora tinha-o nas mãos e a surpresa da posse anulou a injúria sofrida, mas a voz do pai fez-se ouvir: Que alguém saiba que és um homem. E havia uma ordem na voz. A noite cegava os caminhos; abraçado ao punhal, em que pressentia uma força mágica, desceu a brusca ladeira que rodeava a casa e correu até à beira-mar, sonhando-se Ajax e Perseu e povoando de feridas e de batalhas a obscuridade salobra. O sabor preciso daquele instante era o que de momento procurava. Queria lá saber do resto: as afrontas do desafio, o torpe combate, o regresso com a lâmina a sangrar.
Outra lembrança em que também havia uma noite e uma iminência de aventura, desprendeu-se daquela. Uma mulher - a primeira que os deuses lhe proporcionaram - esperava por ele na sombra dum hipogeu, e ele pôs-se à procura dela através das galerias que eram como redes de pedra e através de despenhadeiros que se dissolviam na sombra. Por que motivo chegavam até ele essas memórias e por que razão lhe chegavam sem amargura, como uma mera prefiguração do presente?
Não sem grave assombro compreendeu. Naquela noite, dos seus olhos mortais, a que agora descia, esperavam-no também o amor e o risco. Ares e Afrodite, porque já adivinhava (porque já o cercava) um rumor de glória e de hexâmetros, um rumor de homens que defendem um templo que os deuses não salvarão e de baixéis negros que procuram no mar uma ilha querida, o rumor das Odisseias e Ilíadas que era o seu destino cantar e deixar ressoando concavamente na memória humana. Sabemos estas coisas, mas desconhecemos as que sentiu ao descer à última sombra.
O Fazedor in Poemas Escolhidos, Jorge Luis Borges
Selecção e Trad. Ruy Belo, Ed. Dom Quixote, Lisboa
15.11.15
14.11.15
Paris, je t'aime.
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| Jean-Philippe Charbonnier, Les Amourex, Paris, 1950 |
Así habían empezado a andar por un París fabuloso, dejándose llevar por los signos de la noche, acatando itinerarios nacidos de una frase de clochard, de una bohardilla iluminada en el fondo de una calle negra, deteniéndose en las placitas confidenciales para besarse en los bancos o mirar las rayuelas, los ritos infantiles del guijarro y el salto sobre un pie para entrar en el Cielo.
O fanatismo...
...é a morte da conversa. Não se consegue tagarelar com um candidato a mártir. Que dizer a alguém que se recusa a compreender os nossos argumentos e que, a partir do momento em que não nos inclinamos perante os seus, preferiria morrer a ceder? Antes os diletantes e os sofistas que, pelos menos, participam em todos os argumentos...
Do inconveniente de ter nascido, de E. M. Cioran, p. 104.
* * *
CAPÍTULO 62
1. Na cave do Elijah-o-impossível havia um mapa do mundo inteiro.
2. Para mim, olhar para ele era uma oração.
3. Uma oração que era do tamanho do mundo inteiro.
4. Quando cheguei a casa, fiz a mala, pus as minhas roupas lá dentro, a roupa interior, os sapatos, toalhas, o bilhete de autocarro de Houston (será que daria para viajar?), e peguei nela e andei pelo meu quarto.
5. Era uma viajante.
* * *
Mar - Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, p. 72
1. Na cave do Elijah-o-impossível havia um mapa do mundo inteiro.
2. Para mim, olhar para ele era uma oração.
3. Uma oração que era do tamanho do mundo inteiro.
4. Quando cheguei a casa, fiz a mala, pus as minhas roupas lá dentro, a roupa interior, os sapatos, toalhas, o bilhete de autocarro de Houston (será que daria para viajar?), e peguei nela e andei pelo meu quarto.
5. Era uma viajante.
* * *
Mar - Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, p. 72
13.11.15
Libya, Where Art Thou?*
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| /Dawn at Tripoli, Libya, photo © Naziha Arebi/ |
It’s so hard to get informed about Libya these days. It’s like Libya doesn’t exist for the mainstream media. Not even a glimpse of life there, not even a small peek. Where are you Libya, how are you?
*(cont.)
10.11.15
«Isso irrita-me imenso. Como se estivesse na nossa mão dominar a doença, o que faz com que as pessoas que morrem sejam culpadas disso.»*
Obrigada ao Plúvio, que partilhou no seu blog uma ligação para a entrevista da revista Sábado a Maria Filomena Mónica.
*resposta dada no seguimento da observação de Dulce Garcia: No livro Imortalidade, Christopher Hitchens revolta-se contra a ideia de que a força de vontade é fundamental para superar o cancro.
Olhe, preciso de dinheiro
![]() |
| Aoki Tetsuo |
Olhe, preciso de dinheiro.
Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio.
Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões.
Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.
A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas.
Já não tenho paciência.
Com esta idade, já viu o que é.
Sujeitar-se a todos os labregos.
Já tentei noutros bancos, sim.
Pedi também aos meus pais, é verdade;
disse-lhes que era para me casar.
Não, não tenho casa, nem automóvel.
Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo.
O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado.
É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal,
mas anda a mil.
E adiantado, não pode pagar nada como entrada?
Entrada, não sei.
Só se for o coração.
Golgona Anghel, Como uma flor de plástico na montra de um talho (Assírio & Alvim, 2013)
6.11.15
3.11.15
Domador de Caracóis
Quando for grande, quero ser
domador de caracóis.
É muito perigoso
-diz a mãe.
E pastor de libelinhas?
As libelinhas pastam na frescura do rio.
Sabes nadar sobre a água?
-diz a mãe.
Serei médico das árvores, é mais seguro.
Onde fica o coração das árvores?
-diz a mãe.
Vou aprender a arte de colecionar nuvens.
Choram muito...
-diz a mãe.
Sílvio, Domador de Caracóis, de Francisco Duarte Mangas
domador de caracóis.
É muito perigoso
-diz a mãe.
E pastor de libelinhas?
As libelinhas pastam na frescura do rio.
Sabes nadar sobre a água?
-diz a mãe.
Serei médico das árvores, é mais seguro.
Onde fica o coração das árvores?
-diz a mãe.
Vou aprender a arte de colecionar nuvens.
Choram muito...
-diz a mãe.
Sílvio, Domador de Caracóis, de Francisco Duarte Mangas
MESA
É apenas mais um dia na terra, dizes, e apresso-me de encontro
à menoridade de todos os começos: lírica, escura, pressurosa
métrica tomada de assalto pela luz de Inverno sobre
o vidro da mesa.
Depois da Música, de Luís Quintais
à menoridade de todos os começos: lírica, escura, pressurosa
métrica tomada de assalto pela luz de Inverno sobre
o vidro da mesa.
Depois da Música, de Luís Quintais
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