31.10.15

«Baleia Branca»

«Um dos meus passatempos favoritos é caçar baleias brancas. Desde que li Moby Dick que consigo ver cachalotes em muitos lugares e consigo perceber que também sou um bocadinho Ahab, que também tenho algumas monomanias. Tem a sua ciência, caçar baleias, pois é uma actividade exegética e sujeita a inúmeras interpretações, já que um cetáceo metafórico não se esgota facilmente. Saber ou conhecer é matar com um arpão, é destruir a selvajaria do desconhecido e torná-la objecto de museu. Moby Dick é cheio de metáforas e não me parece que a sua leitura possa ser fruída sem que o leitor saia do livro a coxear um pouco da alma como Ahab coxeava a andar com a sua perna de pau. Dantes, tinha o hábito de dobrar as pontas das páginas dos livros onde encontrava frases que valia a pena serem arpoadas*. Moby Dick é o livro que tenho com mais pontas de páginas dobradas, algo que não passa de mais uma forma de caçar baleias.»

(Hemingway, sobre Moby Dick) in Mar - Enciclopédia da Estória Universal -, de Afonso Cruz, p. 16

*eu também...

26.10.15

«Guia para viajar pelas florestas do sentido»


O que é o caminho?

anúncio de partida

escrito em folhas que o pó desenhou.



O que é a árvore?

lagoa verde cujas ondas são o vento.



O que é o vento?

alma que não quer

habitar o corpo.



O que é a morte?

carro que leva

do útero da mulher

ao útero da terra.



O que é a lágrima?

guerra perdida pelo corpo.



O que é o desespero?

descrição da vida na língua da morte.



O que é o horizonte?

espaço que se move sem parar.



O que é a coincidência?

fruto na árvore do vento

caindo entre as mãos

sem se saber.



O que é o não sentido?

doença que mais se propaga.



O que é a memória?

casa habitada só

por coisas ausentes.



O que é a poesia?

navios que navegam, sem portos.



O que é a metáfora?

asa aliviando

no peito das palavras.



O que é o fracasso?

musgo boiando no lago da vida.



O que é a surpresa?

pássaro

que escapou da gaiola da realidade.



O que é a história?

cego a tocar tambor.



O que é a sorte?

dado

na mão do tempo.



O que é a linha reta?

soma de linhas tortas

invisíveis.



O que é o umbigo?

meio caminho

entre

dois paraísos.



O que é o tempo?

veste que usamos

sem poder tirar.



O que é a melancolia?

anoitecer

no espaço do corpo.



O que é o sentido?

início do não sentido

e seu fim.



[Adonis, Poemas]

25.10.15

I'm Not Human At All




os três mafarricos

Danny Lyon, Three young men, Uptown, Chicago, 1965. 

os quatro gandulas

Danny Lyon, Four Youngsters, 1965.

esta noite, que é como quem diz, agora.

O que eu desejava, realmente, era ir, esta noite, morrer à tua porta. Mas mora lá tanta gente que tu podias pensar que eu não tinha morrido à tua porta. Se ao menos o teu quarto tivesse uma varanda. Ou se praticasse a técnica da transferência e vivesse as imagens da substituição… ou se sinceramente amasse a minha analista. Não sublimo os desejos por incapacidade. E recalco mais este. Não posso, como desejava realmente, ir morrer à tua porta. Fico a gemer. Se, ao menos, tu morresses!

Linha de Linho, Vila Real, 1983

24.10.15

Taro & Capa





«Como se diz isso que não perdura?»

Isso que queima
e que se torna lânguido
um momento depois de ter desligado,
como se diz o instante que vivemos
antes da notícia da morte,
tudo o que acontece entre os silêncios.


Como chamamos
ao espaço que fica na esfera
da caneta sem tinta?
Como se chama o filho que não tenho,
o livro que me livraria
daquele funesto amor?
-Como se diz quando se ama assim?-
Como se diz isso que nos falta,
agora mesmo,
amanhã, isso que falta e sempre falta
um dia antes, noutro sitio, noutro
quarto?


Isso que perseguimos toda uma vida em vão,
essa pequena estafa que nos move
e seduz e obriga a continuar,
cegos, loucos e sós.



23.10.15

carta a Oskar Pollak, de 27 de Janeiro de 1904

em português do Brasil:

No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos o trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. É nisso que acredito.

[in UMA HISTÓRIA DA LEITURA
Alberto Manguel
Companhia das Letras 2004]



no idioma de Sua Majestade:

Altogether, I think we ought to read only books that bite and sting us. If the book we are reading doesn’t shake us awake like a blow to the skull, why bother reading it in the first place? So that it can make us happy, as you put it? Good God, we’d be just as happy if we had no books at all; books that make us happy we could, in a pinch, also write ourselves. What we need are books that hit us like a most painful misfortune, like the death of someone we loved more than we love ourselves, that make us feel as though we had been banished to the woods, far from any human presence, like suicide. A book must be the axe for the frozen sea within us. That is what I believe.


o original:

Ich glaube, man sollte überhaupt nur solche Bücher lesen, die einen beißen und stechen. Wenn das Buch, das wir lesen, uns nicht mit einem Faustschlag auf den Schädel weckt, wozu lesen wir dann das Buch? Damit es uns glücklich macht, wie Du schreibst? Mein Gott, glücklich wären wir eben auch, wenn wir keine Bücher hätten, und solche Bücher, die uns glücklich machen, könnten wir zur Not selber schreiben. Wir brauchen aber die Bücher, die auf uns wirken wie ein Unglück, das uns sehr schmerzt, wie der Tod eines, den wir lieber hatten als uns, wie wenn wir in Wälder verstoßen würden, von allen Menschen weg, wie ein Selbstmord, ein Buch muß die Axt sein für das gefrorene Meer in uns. Das glaube ich.




[quem me conhece sabe da minha predilecção pelas idiossincrasias do tradutor, os seus dilemas morais.]

21.10.15

moeda de troca*

ALMA

I.
Inquilina del cuerpo
sin contrato de alquiler

II.
Esencia irrenunciable
del ser

III.
Moneda de cambio

[Itziar Mínguez Arnáiz, Wikipoemia]


* culpa da Cuca, a Pirata

19.10.15

por estes dias...

É preciso casar João,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

[Poema da Necessidade, in 'Sentimento do Mundo'] 

Female Competition

According to Joyce Benenson, a researcher at Emmanuel College in Boston, competition among women has three unique characteristics: first, because they have to protect their bodies from physical harm (so as not to interfere with present or future pregnancy and childbirth), women rely on veiled aggression towards other women (behind verbal gymnastics or under cover of the group) rather than physical confrontation. Second, high status and very attractive women need less help and protection from other women and are less motivated to invest in other women (who represent potential competition). Thus, a woman who tries to distinguish or promote herself threatens other women and will encounter hostility. According to Benenson, a common way women deal with the threat represented by a remarkably powerful or beautiful woman is by insisting on standards of equality, uniformity, and sharing for all the women in the group and making these attributes the normative requirements of proper femininity. Third, in extreme cases women may guard against potential competitors by means of social exclusion. If a new attractive woman shows up in the neighborhood (or school, or club), all the women in attendance may turn their backs on her, compelling her to withdraw from the scene, thus increasing their own chances with the surrounding males. (...)


Simone Bergantini

a aniquilação do género /ou auto-aniquilação?


18.10.15

«Loin des hommes»




filme baseado no conto de Albert Camus, O Hóspede (1957), que nunca li, com Viggo Mortensen e Reda Kateb nos principais papeis. a banda sonora ficou a cargo de Nick Cave & Warren Ellis.

um filme incrível sobre o dilema das origens. de onde somos?/ quem somos?/ a quem obedecemos? onde fica o nosso lugar, quando não queremos/ conseguimos escolher lugar nenhum?


sonhável

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitámos tão pouco. Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país, nessas regiões encontro gente que não sabe ler livros, mas que sabe ler o seu mundo, nesse universo de outros saberes, sou eu o analfabeto. Não sei ler sinais da terra, das árvores e dos bichos. Não sei ler nuvens, nem o prenúncio das chuvas. Não sei falar com os mortos, perdi contacto com os antepassados que nos concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que faço à savana, vou aprendendo sensibilidades que me ajudam a sair de mim e a afastar-me das minhas certezas, nesse território, eu não tenho apenas sonhos. Eu sou sonhável.

[E se Obama fosse africano?, Mia Couto]

17.10.15

Angry birds, por Mãe Preocupada

«As prostitutas da zona industrial, vazadouros de esperma, taras e solidão, também investem os tempos de pausa a dedilhar febrilmente no telemóvel.
Num exercício de imaginação, sento-me eu numa das suas cadeirinhas de lona, na berma da estrada, não sei há quantos anos estou a olhar para a mesma mata de eucaliptos com a humidade a roer-me os ossos, sou velha antes do tempo, tenho vícios, resignações, carnes frouxas, talvez não me lembre de a vida ser outra coisa nem sei do que será amanhã, se morro às mãos de uma besta desvairada, se me torno mãe de homens feitos que nunca pari. E neste tempo suspenso, neste abandono à margem do caminho, nesta desesperança crónica que não mata mas mói, cruzo a perna balofa, fumo um cigarro, tiro o telemóvel e acredito que os minutos voam enquanto extermino porcos de riso alarve com passarinhos a quem assaltaram o ninho.»

todos os elogios que lhe poderia fazer, são pequenos, para descrever o quanto gosto de a ler.

«A menstruação quando na cidade passava»

A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos - e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.

As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado - alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos - era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.

O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos - e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.

As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.

E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio -
na noite, na neve -
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.

As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.

Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam - e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação - falava alguém. O ar passava -
e pela noite, em silêncio,

a menstruação escorria pela neve.

16.10.15

barcos-casas

Certo dia de manhã encontrei na caixa do correio uma ordem da polícia do rio para me mudar. Esperava-se a visita do Rei de Inglaterra e não era agradável para um rei a vista de barcos-casas, a roupa a secar no convés, as chaminés e os depósitos de água ferrugentos, as pranchas escamoteadas e outras flores humanas nascidas da pobreza e da preguiça. Mandavam-nos, portanto, sair a todos, subir o Sena, ninguém sabia para onde porque a linguagem era demasiado técnica.
Um dos meus vizinhos, um ciclista zarolho, chegou a discutir as desocupações e a invocar leis que jamais tinham existido e que davam às casas fluviais direito de se fixarem, lodosas, no coração de Paris. O pintor gordo que viva no lado oposto do rio, sempre de camisa desabotoada e a transpirar, sugeriu que não nos mudássemos, como forma de protesto. Que podia acontecer?

Anais Nin, Debaixo de uma redoma

15.10.15

«A meia hora de sol»

 Na manhã em que o vieram buscar - dois homens à porta e outros dois na rua - ele cerrou os dentes com força, recusando-se à emoção em altura tal, e só lhe disse:
     - Espera por mim, Júlia!
     Mas beijou-a, primeiro na boca e depois nas mãos, com devoção, como a desfazer-se em água de alma, que nem ele jamais se apercebera de que lhe queria também assim.
     No isolamento da cela reinventava-a, rememorava dia a dia, minuto a minuto, os quatro anos percorridos lado a lado; lamentava o tempo que não lhe dava por esta ou por aquela razão; tinha-a, com toda a gama dos seus olhares, queixumes, suspiros, gritos e êxtases, em todos os alaridos raivosos da sua continência forçada. De noite, ele que briosamente velava, em face dos estranhos e de si próprio, pela sequidão dos seus olhos e pela nudez dos seus lábios, acordava debulhado em lágrimas, assistindo à agonia de ausência que ela, sozinha em casa, conheceria.
     Depois foram as visitas - de cada vez meia hora de sol, mesmo que o sol exterior não luzisse no firmamento. Um vidro a separá-los, as palmas das mãos esposando-se, uma de cada lado dessa delgada, mas intransponível fronteira que os dividia. E quase nada conseguiam dizer. Falavam sobretudo pelos olhos, pelo tremer da boca, pelo pasmo atroz do final na ocasião de se separarem. A tarde que se seguia era de todas a mais dolorosa, mas ainda quente do calor de vida que ela trouxera. E sucedia-se o deserto de uma nova, longa, tórrida semana, contando os dias que faltavam para a luz breve de outra visita. Durante meses, e na perspectiva de anos iguais. 
(...)
    
Contos da Solidão  (1970), Urbano Tavares Rodrigues

«Línguas que não sabemos que sabíamos»

Num conto que nunca cheguei a publicar acontece o seguinte: uma mulher, em fase terminal de doença, pede ao marido que lhe conte uma história para apaziguar as insuportáveis dores. Mal ele inicia a narração, ela o faz parar:

— Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.

— Desconhecida? — pergunta ele.

— Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!

O marido se interroga: como se pode saber falar uma língua que não existe? Começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ganhando mais à-vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso. Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos.

Na nossa infância, todos nós experimentámos este primeiro idioma, o idioma do caos, todos nós usufruímos do momento divino em que a nossa vida podia ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um destino. 

[E se Obama fosse africano?, Mia Couto]

13.10.15

«Los ríos y la mar»

No había agua en la selva de los chocoes. Dios supo que la hormiga tenía, y
se la pidió. Ella no quiso escucharlo. Dios le apretó la cintura, que quedó finita para
siempre, y la hormiga echó el agua que guardaba en el buche.
—Ahora me dirás de dónde la sacaste.
La hormiga condujo a Dios hacia un árbol que no tenía nada de raro.
Cuatro días y cuatro noches estuvieron trabajando las ranas y los hombres, a
golpes de hacha, pero el árbol no caía del todo. Una liana impedía que tocara la
tierra.
Dios mandó al tucán:
—Córtala.
El tucán no pudo, y por eso fue condenado a comer los frutos enteros.
El guacamayo cortó la liana, con su pico duro y afilado.
Cuando el árbol del agua se desplomó, del tronco nació la mar y de las ramas,
los ríos.
Toda el agua era dulce. Fue el Diablo quien anduvo echando puñados de sal.

Memoria del fuego I Los nacimientos

11.10.15

«natureza morta com louva-a-deus»

Foi o último hóspede a sentar-se
no topo da mesa, já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
- que maculava -
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.

«Vista de fora, a tragédia chega a fazer rir.»

Torga, no dia 3 de Março de 1943:

[...]

É evidente que no espólio de qualquer época há sempre muito para condenar, corrigir, deitar fora, e até combater. Mas, na pressa com que vem, a rapaziada nova esquece que igual auto-de-fé há-de queimar no futuro parte da produção dos inquisidores de agora. (...). 

Boa ou má, a obra que realizaram foi um esforço e um exemplo. Na maioria dos casos, foi nela, até, que os mesmos atacantes mataram a primeira sede. De maneira que não se chega a compreender a causa de tanta irreverência e muitas vezes tanto ódio.

Embora a imagem seja um bocado crua, depois de uma meditação serena sobre certas injustiças, é-se levado a pensar que há na base dessa feroz hostilidade aos velhos qualquer coisa de semelhante ao que acontece com aqueles bichos que, apenas fecundados pelo companheiro, se apressam a matá-lo e a devorá-lo. É como se cada geração, mal acabasse de sorver da anterior todo o sumo vital, indignada por não encontrar lá mais com que nutrir a insaciedade, passasse a odiar o favo que chupou, onde agora sòmente vê cera morta.


Por outro lado, é um fenómeno quase miraculoso encontrar no passado duma literatura um autor idoso com autêntica compreensão pela seiva naturalmente um pouco irresponsável de qualquer principiante. 

Parece que a idade, a cultura, a maturidade, o incapacitam de se lembrar sequer dos bons tempos em que também ele era a mesma ânsia e obstinação.

[...]

in Diário, vol. II

«Coisas que não há que há»

Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...

«al fine di migliorare il servizio…»


Mia madre è morta ma evidentemente telefona

Spanish Hunting Dogs


Martin Usborne

[o mesmo que fotografou dogs in cars]

10.10.15

“I wanted to make a film that was like visual poetry,” he says.*

e  Bahman Ghobadi conseguiu-o.



que suavidade, a do farsi.
que monica tão bela.


*sbs


blue



surripiado no bored panda

«Tentativa de simulação da demência precoce»

Quando era jovem, escondi Hércules na algibeira do meu fato
de marinheiro, quando era velho restituí-lhe a liberdade ao 
fixar o seu resgate à minha pedra tumular em ricochetes. Ele 
ria por baixo da minha mordaça, um riso de hera. Mas tarde, 
como se levasse avanço fiz germinar miríades de ovos de 
sapos provenientes de estrelas de cangurus no chapéu com 
gavetas de Napoleão da minha cómoda com pés de trevo sem 
folhas. Tenho como bisneta Cleo de Mérode, minha bisavó 
que viaja no dorso de lobo juntamente com Carlos, o Temerário. 
Ganhei um bilião de vezes a taluda à roleta jogando os nove 
meses do ano. Expulsaram-me em triunfo de todas as salas de 
esgrima porque queria apanhar mel. Foi nesse dia que compreendi 
os sete mistérios da criação. Cleo de Mérode passava o seu tempo a 
querer calçar o pé da mesa com o mais claro dos meus rendimentos. 
Pus Cleo de Mérode na chancela do meu anel. Ela está tranquila, 
ela desperta os mortos. Esterilizo todos os dados. O embrião mantém 
a sua aparência de chave inglesa, o ímpio já não se faz fanfarrão. 
Regulamentei a prisão por dívidas. É preciso mostrar carta branca 
para entrar e não subestimar os guardas.

[André Breton & Paul Éluard, A Imaculada Concepção, estúdios cor, p. 54/55]

9.10.15

Amo um planeta. Plutão.

NASA

Céu azul em Plutão, de Teresa Borges do Canto

[freud, esse malandro, haveria de saber explicar esta gaffe envergonhada de etiquetar incorretamente o nome da poeta(iza?), que canta no campo o céu azul em Plutão. mil perdões, Teresa. já "corrigi".]

8.10.15

Nobel

a Elsinore manda dizer que posso ler Svetlana na minha língua materna, quando quiser, basta fazer o pedido. a Elsinore não sabe que eu me abstenho de leituras aos galardoados, durante um período nunca menor a trezentos e sessenta e cinco dias. o que eu queria mesmo, mas a Elsionore não sabe, era o Nobel para Adonis e poder lê-lo, (às escondidas), finalmente, em português europeu.

E verto o sangue para dentro das palavras

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

4.10.15

/E a donzela ainda consegue escapar-lhe.

1.
Há quem diga que, quanto voltamos a ler um livro, anos depois, não é o mesmo livro. É um fenómeno caro a Heraclito. A teoria diz que nós mudamos, aprendemos mais e quando relemos, fazemo-lo com outros olhos, mais experientes, mais sábios. Mas há a possibilidade, é só uma teoria, de, quando se fecha um livro numa prateleira, ele, febrilmente, trocar as suas próprias letras, tal como nós renovamos o sangue e vamos crescendo. Reescreve frases e parágrafos, acrescenta texto, elimina períodos, sublinha ideias. Ou como é que um objecto que pode conter tanta sabedoria, pode ter a vida de uma pedra, em vez da dum ancião de barbas? Ou como é que aquilo que contém inteligência pode não ser inteligente?

 O Cavaleiro Ainda Persegue/ A Mesma Donzela, Afonso Cruz

raízes





3.10.15

- topas?

esfolo-te vivo, vadio, se me trazes outra vez versos desses,
assim tão às ordens de um modelo civil:
adorar a ginástica dos exemplos, ser diligente,
montar o seu negócio das tendências,
das trocas baldrocas das dedicatórias sempre óbvias,
assim tão presto prestáveis,
fortes não da sua profundeza e verdade primeiras
mas daquilo que convém à digestão,
ao optimismo ou pessimismo do mundo,
regras da realidade,
?mas o que é a realidade - perguntava o mais extremo de todos,
...


Poemas Canhotos, Herberto Helder

que o Sonho de Wadja não deixe nunca de ser a nossa possibilidade

! O primeiro filme produzido dentro da Arábia Saudita e também a primeira longa-metragem dirigida por uma mulher na história da Arábia Saudita: Haifaa al-Mansour.




1.10.15

retalhos

Há dias em que a melancolia chove dentro de nós como num pátio interior, atapetado de jornais velhos. Não se ouve, não se sente - mas rebrilha na sujidade densa. 

[Retalhos da Vida de Um Médico, Fernando Namora]

29.9.15

Monk by the Sea

Caspar David Friedrich

27.9.15

Soupir Eternel



eterno.


é comprar, minha gente.

ainda me doem as costas, do tempo que estive quieta, sôfrega, a acabar de ler «O Condómino». que tremendo livro! há que tempos não me lambuzava assim numa história, aos tropeções nas frases, só para avançar mais depressa e descobrir os meandros, depois correndo atrás, porque, porra, as frases eram boas demais e mereciam era ser relidas e não puladas a correr. entre a ânsia de chegar, o tesão febril daquela laia de condóminos - que é domingo de manhã e a gente não é de ferro, tão pouco de papel, a carne dá de si, pede atenção -, e a boa escrita, (repito: boa escrita) cheguei ao fim com uma sensação agridoce, - nunca a omoleta de cebola! -, de que acabei de ler um grande livro. um daqueles que ficam cá a martelar no lobo temporal. do meu ombro altruísta, tocam cornetas, chamando-me a atenção para o facto de ser mais um - livro/ escritor - que nunca irá ser lido quanto merece. sem a máquina ruidosa a defecar marketing, o António não passará de um animal subterrâneo. talvez caia no goto de alguma editora comercial, que lhe encontre jeitos de um desses novos - grandes - escritores e a coisa mude. eu bem que o prefiro assim, sem propagandas, mas também sei que merece mais, muitos mais leitores.

Daring To Love





[ACTO II, CENA II
Jardim de Capuleto]

26.9.15

os ninguéns

As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

[Eduardo Galeano, O livro dos abraços]

7

Invariavelmente, logo na primeira noite do primeiro dia de temporada de ausência comercial do condómino caixeiro-viajante, chegava o seu substituto e era-me impossível dormir, pelo menos até o escape do carro lhe estrondear o gasóleo mal queimado da retirada, porque o quarto das cópulas era mesmo por cima do meu e as ilegítimas deveras mais barulhentas.

«Ah, o susto que apanhei certa vez, a despensa abastecida e arrumada, o saco do lixo na mão - e eu, que competia comigo próprio pelo expediente mais silencioso, saindo na paz das desoras com o excesso de confiança dos bem sucedidos, a porta já fechada atrás de mim (uma obra de arte, havias de ouvir embora o ponto tenha sido exactamente a inaudibilidade), quando ouço ao descuido a do andar de cima a abrir, a luz das escadas acesa e imediatamente os passos descendo, expeditos, tarde demais para voltar a entrar e tarde demais para me pôr a descer à bruta, o homem a ver-me, parado a olhar para mim e eu feito pedra a olhar para ele, depois o sorriso lambão do que acabou de comer para o que julga ter acabado de comer também, o cheiro nauseabundo de um resto de colónia barata naufragado nos humores fortes da cópula, piscando-me o olho, dando-me passagem, e eu a custo reaprendendo a andar, pensando em cada degrau, o homem ainda de respiração funda do esforço fresco atrás de mim, eu abrindo a porta da rua e segurando-a cavalheiro para que ele saísse, Obrigado, apontando para a carrinha e  perguntando se queria uma boleia, Não vale a pena, não vale a pena; moro aqui perto, até ao alívio da esquina dobrada, agora o gozo de estar fora da vista e os gestos espontâneos dos passos voltando a mim enquanto o homem de resistência quente começava a dar ao arranque, o gorgolejo macabro de tanto gasóleo em cilindros velhos, explodindo, explodindo pela madrugada fria e o que eu me ri, de mim para mim uma carrinha amarela e velha, a mais absurda ferramenta para a discrição do amante ilícito visitador. Mas com o moralismo fácil que corre por estes condomínios, ninguém alardeava escândalo?» 

Imoral, mesmo imoral, só aquilo que afecta e descaracteriza a rotina, enfim, a originalidade que incomoda a mecânica relojeira da repetição dos eventos - e que só não é mais nefasta porque a rotina defende-se sendo um bicho voraz, super-omnívoro, que come e digere tudo o que lhe apareça à boca ou à distância da língua, ainda que nojento: comeu, naturalmente, o exercício amoroso da condómina esposa do condómino caixeiro-viajante e do amante de modo que, quando eu me mudei para o apartamento, já eles não eram novidade para ninguém; e não só os comeu e digeriu como os defecou e fez adubo e todo o condomínio passou a acertar a libido pela deles, espectáculo tão pouco diferente, debalde a diferença de décadas, do da minha rua da infância, os conterrâneos em noite de janela pela brisa fresca após o dia forte de estio vendo sair o conterrâneo adúltero, eles para elas e elas para eles Lá vai ele ter com a outra, toda a rua fedendo a colónia, eles machamente nostálgicos vendo a potência sumir-se nos farolins do carro curvando o cruzamento e elas espojadas descalças no sofá feio da sala como se fosse vermelho e o esperassem, o azul da televisão quase sem som e os condóminos do rés-do-chão que fingiam dormir acordando à chegada da carrinha, o apagamento do motor uma explosão como outra qualquer e o amante estrangeiro semi-condómino Sou eu no intercomunicador, ela sem voz de resposta abrindo a porta, Lá vai ele ter com ela e os bigodes húmidos preambulando o minete, Já deve estar de perna aberta, Não digas isso, malcriado, cócegas na barriga e beliscões marotos avivando a carne dormente de tanto tempo detergente, os condóminos esposos do rés-do-chão pondo-se agora em cima das respectivas condóminas esposas do rés-do-chão, funcionários bombando síncronos à esquerda e à direita, as bocas deles e delas abrindo e fechando como peixes vivos na lota até ao despejo dos dois sacos regulares, lubricidade que continuava à solta pelo dia seguinte, outro ânimo no trânsito das escadas, ditos brejeiros nos cumprimentos e em tarde de limpeza era ver os condóminos esposos do rés-do-chão entre o fim do almoço e o regresso aos serviços subindo à vez como quem precisa de ir às águas-furtadas só para se roçarem na Muda à passagem, apalparem-lhe o cu ou as mamas, o cu e as mamas, amiúde o tabefe da honra onde liam consentimento, e a excitação acrescida pela falta de voz para delatar.

Às vezes pensava como vivia o meu amor as cópulas do segundo esquerdo: masturbar-se-ia?

(...)


[O Condómino, António Gregório, p. 39, 40, 41]

25.9.15

onde se lê verborreia, leia-se, a puta da inveja que morde os testículos dos fodilhões com manias de génio que almejaram ser e descobriram que nunca o serão.

deixei Lobo Antunes de lado muito antes de lhe conhecer a verborreia de crítico literário. aborrecia-me de morte.


(…) 

-No entiendo por qué volviste.

 Y retira la mano. La mano de Mariano queda sola sobre la mesa, con la palma vuelta hacia arriba. Tiene la línea de la vida larga pero muy tajeada.

 -No entiendo. Me habías dicho: “No nos vamos a ver más. Somos libres”. Yo me quedé muda mirándote la espalda y te perdiste en la esquina de la estación. ¿Qué esperabas? ¿Que te corriera atrás? ¿Que te llamara a gritos? ¿Para qué quería yo esa libertad que me regalabas? ¿Para qué la quería?

(Mariano escuchaba los ecos de sus propios pasos y llevaba la cabeza vacía por dolorosa victoria de la voluntad, pero al llegar a la estación del ferrocarril se le metió por los oídos el estrépito de la máquina aproximándose, y entonces supo que desde ahora le harían falta los navegantes misteriosos que tan a menudo se perdían, por puro gusto, en los desfiladeros de niebla de la memoria o la imaginación de esta muchacha. Trepó por los peldaños de fierro y supo que ella sería, desde ahora, una nuca entrevista en la muchedumbre o un perfil que se escapa, una voz adivinada entre otras voces. Que él se daría vuelta bruscamente y echaría a correr y tomaría a una mujer por el brazo: que se equivocaría siempre. Entró al vagón de pasajeros y se sentó en uno de los viejos asientos de paja de la época de los ingleses y supo que ella persistiría: escuchó el traqueteo de las ruedas sobre los rieles y supo que ella persistiría, persistirá: en verano, en los túneles de hojas, convertida en un sanantonio que te camina por el brazo, o en las noches de julio, llenando una silla vacía en la complicidad humosa de los cafés. Llegó a destino y se bajó, mareado, y seguía sabiendo que ella continuaría oliendo a sí misma en su memoria, deambulando desnuda por la región nochera de sus sueños: que ella sería, que será, una cicatriz que a veces hace cosquillas y a veces late y a veces arde y a veces duele. Y sintió la necesidad de volver y por lo menos decir: “Nunca nada”. Por lo menos decir: “Como esto, nunca nada”. Y no volvió.)

  - Clara.

  - Sí.

 (…)


[Eduardo Galeano - La Canción de Nosotros]

22.9.15

in this moment



When you've kissed an angel and held her 'til she breaks
Tell me now what's more real than this moment


Dente por Dente

Outros antes de nós tentaram o mesmo esforço: dente por
dente: não, nunca olhar de soslaio e manter a cabeça escar-
late, o vómito nos pulsos por cada noite roubada; nem um
minuto para a glória da pele. Despertar de lado: olho por
olho: conservar a família em respeito, a esperança à distância
de todas as fomes, o corno de cada dia nos intestinos. Aos
dezoito anos, aos vinte e oito, a vida posta à prova da raiva e
do amor, os olhos postos à prova do nojo. Entrar de costas no
festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a
saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo
menos doentes exemplares.
Fora do meu reino toda a pobreza, toda a ascese que gane
aos artelhos dos que rangem os dentes; no meu reino apenas
palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de
paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu
relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa
dos sanguinários.
Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher
a tempo a nossa morte e amá-la.


António José Forte, Uma Faca nos Dentes