A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos - e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado - alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos - era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos - e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio -
na noite, na neve -
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam - e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação - falava alguém. O ar passava -
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
17.10.15
16.10.15
barcos-casas
Certo dia de manhã encontrei na caixa do correio uma ordem da polícia do rio para me mudar. Esperava-se a visita do Rei de Inglaterra e não era agradável para um rei a vista de barcos-casas, a roupa a secar no convés, as chaminés e os depósitos de água ferrugentos, as pranchas escamoteadas e outras flores humanas nascidas da pobreza e da preguiça. Mandavam-nos, portanto, sair a todos, subir o Sena, ninguém sabia para onde porque a linguagem era demasiado técnica.
Um dos meus vizinhos, um ciclista zarolho, chegou a discutir as desocupações e a invocar leis que jamais tinham existido e que davam às casas fluviais direito de se fixarem, lodosas, no coração de Paris. O pintor gordo que viva no lado oposto do rio, sempre de camisa desabotoada e a transpirar, sugeriu que não nos mudássemos, como forma de protesto. Que podia acontecer?
Anais Nin, Debaixo de uma redoma
15.10.15
«A meia hora de sol»
Na manhã em que o vieram buscar - dois homens à porta e outros dois na rua - ele cerrou os dentes com força, recusando-se à emoção em altura tal, e só lhe disse:
- Espera por mim, Júlia!
Mas beijou-a, primeiro na boca e depois nas mãos, com devoção, como a desfazer-se em água de alma, que nem ele jamais se apercebera de que lhe queria também assim.
No isolamento da cela reinventava-a, rememorava dia a dia, minuto a minuto, os quatro anos percorridos lado a lado; lamentava o tempo que não lhe dava por esta ou por aquela razão; tinha-a, com toda a gama dos seus olhares, queixumes, suspiros, gritos e êxtases, em todos os alaridos raivosos da sua continência forçada. De noite, ele que briosamente velava, em face dos estranhos e de si próprio, pela sequidão dos seus olhos e pela nudez dos seus lábios, acordava debulhado em lágrimas, assistindo à agonia de ausência que ela, sozinha em casa, conheceria.
Depois foram as visitas - de cada vez meia hora de sol, mesmo que o sol exterior não luzisse no firmamento. Um vidro a separá-los, as palmas das mãos esposando-se, uma de cada lado dessa delgada, mas intransponível fronteira que os dividia. E quase nada conseguiam dizer. Falavam sobretudo pelos olhos, pelo tremer da boca, pelo pasmo atroz do final na ocasião de se separarem. A tarde que se seguia era de todas a mais dolorosa, mas ainda quente do calor de vida que ela trouxera. E sucedia-se o deserto de uma nova, longa, tórrida semana, contando os dias que faltavam para a luz breve de outra visita. Durante meses, e na perspectiva de anos iguais.
(...)
Contos da Solidão (1970), Urbano Tavares Rodrigues
«Línguas que não sabemos que sabíamos»
Num conto que nunca cheguei a publicar acontece o seguinte: uma mulher, em fase terminal de doença, pede ao marido que lhe conte uma história para apaziguar as insuportáveis dores. Mal ele inicia a narração, ela o faz parar:
— Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.
— Desconhecida? — pergunta ele.
— Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!
O marido se interroga: como se pode saber falar uma língua que não existe? Começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ganhando mais à-vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso. Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos.
Na nossa infância, todos nós experimentámos este primeiro idioma, o idioma do caos, todos nós usufruímos do momento divino em que a nossa vida podia ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um destino.
[E se Obama fosse africano?, Mia Couto]
13.10.15
«Los ríos y la mar»
No había agua en la selva de los chocoes. Dios supo que la hormiga tenía, y
se la pidió. Ella no quiso escucharlo. Dios le apretó la cintura, que quedó finita para
siempre, y la hormiga echó el agua que guardaba en el buche.
—Ahora me dirás de dónde la sacaste.
La hormiga condujo a Dios hacia un árbol que no tenía nada de raro.
Cuatro días y cuatro noches estuvieron trabajando las ranas y los hombres, a
golpes de hacha, pero el árbol no caía del todo. Una liana impedía que tocara la
tierra.
Dios mandó al tucán:
—Córtala.
El tucán no pudo, y por eso fue condenado a comer los frutos enteros.
El guacamayo cortó la liana, con su pico duro y afilado.
Cuando el árbol del agua se desplomó, del tronco nació la mar y de las ramas,
los ríos.
Toda el agua era dulce. Fue el Diablo quien anduvo echando puñados de sal.
Memoria del fuego I Los nacimientos
se la pidió. Ella no quiso escucharlo. Dios le apretó la cintura, que quedó finita para
siempre, y la hormiga echó el agua que guardaba en el buche.
—Ahora me dirás de dónde la sacaste.
La hormiga condujo a Dios hacia un árbol que no tenía nada de raro.
Cuatro días y cuatro noches estuvieron trabajando las ranas y los hombres, a
golpes de hacha, pero el árbol no caía del todo. Una liana impedía que tocara la
tierra.
Dios mandó al tucán:
—Córtala.
El tucán no pudo, y por eso fue condenado a comer los frutos enteros.
El guacamayo cortó la liana, con su pico duro y afilado.
Cuando el árbol del agua se desplomó, del tronco nació la mar y de las ramas,
los ríos.
Toda el agua era dulce. Fue el Diablo quien anduvo echando puñados de sal.
Memoria del fuego I Los nacimientos
11.10.15
«natureza morta com louva-a-deus»
Foi o último hóspede a sentar-se
no topo da mesa, já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
- que maculava -
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.
no topo da mesa, já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
- que maculava -
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.
«Vista de fora, a tragédia chega a fazer rir.»
Torga, no dia 3 de Março de 1943:
[...]
[...]
É evidente que no espólio de qualquer época há sempre muito para condenar, corrigir, deitar fora, e até combater. Mas, na pressa com que vem, a rapaziada nova esquece que igual auto-de-fé há-de queimar no futuro parte da produção dos inquisidores de agora. (...).
Boa ou má, a obra que realizaram foi um esforço e um exemplo. Na maioria dos casos, foi nela, até, que os mesmos atacantes mataram a primeira sede. De maneira que não se chega a compreender a causa de tanta irreverência e muitas vezes tanto ódio.
Embora a imagem seja um bocado crua, depois de uma meditação serena sobre certas injustiças, é-se levado a pensar que há na base dessa feroz hostilidade aos velhos qualquer coisa de semelhante ao que acontece com aqueles bichos que, apenas fecundados pelo companheiro, se apressam a matá-lo e a devorá-lo. É como se cada geração, mal acabasse de sorver da anterior todo o sumo vital, indignada por não encontrar lá mais com que nutrir a insaciedade, passasse a odiar o favo que chupou, onde agora sòmente vê cera morta.
Por outro lado, é um fenómeno quase miraculoso encontrar no passado duma literatura um autor idoso com autêntica compreensão pela seiva naturalmente um pouco irresponsável de qualquer principiante.
Parece que a idade, a cultura, a maturidade, o incapacitam de se lembrar sequer dos bons tempos em que também ele era a mesma ânsia e obstinação.
[...]
in Diário, vol. II
«Coisas que não há que há»
Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...
Spanish Hunting Dogs
10.10.15
«Tentativa de simulação da demência precoce»
Quando era jovem, escondi Hércules na algibeira do meu fato
de marinheiro, quando era velho restituí-lhe a liberdade ao
fixar o seu resgate à minha pedra tumular em ricochetes. Ele
ria por baixo da minha mordaça, um riso de hera. Mas tarde,
como se levasse avanço fiz germinar miríades de ovos de
sapos provenientes de estrelas de cangurus no chapéu com
gavetas de Napoleão da minha cómoda com pés de trevo sem
folhas. Tenho como bisneta Cleo de Mérode, minha bisavó
que viaja no dorso de lobo juntamente com Carlos, o Temerário.
Ganhei um bilião de vezes a taluda à roleta jogando os nove
meses do ano. Expulsaram-me em triunfo de todas as salas de
esgrima porque queria apanhar mel. Foi nesse dia que compreendi
os sete mistérios da criação. Cleo de Mérode passava o seu tempo a
querer calçar o pé da mesa com o mais claro dos meus rendimentos.
Pus Cleo de Mérode na chancela do meu anel. Ela está tranquila,
ela desperta os mortos. Esterilizo todos os dados. O embrião mantém
a sua aparência de chave inglesa, o ímpio já não se faz fanfarrão.
Regulamentei a prisão por dívidas. É preciso mostrar carta branca
para entrar e não subestimar os guardas.
[André Breton & Paul Éluard, A Imaculada Concepção, estúdios cor, p. 54/55]
9.10.15
Amo um planeta. Plutão.
![]() |
| NASA |
Céu azul em Plutão, de Teresa Borges do Canto
[freud, esse malandro, haveria de saber explicar esta gaffe envergonhada de etiquetar incorretamente o nome da poeta(iza?), que canta no campo o céu azul em Plutão. mil perdões, Teresa. já "corrigi".]
[freud, esse malandro, haveria de saber explicar esta gaffe envergonhada de etiquetar incorretamente o nome da poeta(iza?), que canta no campo o céu azul em Plutão. mil perdões, Teresa. já "corrigi".]
8.10.15
Nobel
a Elsinore manda dizer que posso ler Svetlana na minha língua materna, quando quiser, basta fazer o pedido. a Elsinore não sabe que eu me abstenho de leituras aos galardoados, durante um período nunca menor a trezentos e sessenta e cinco dias. o que eu queria mesmo, mas a Elsionore não sabe, era o Nobel para Adonis e poder lê-lo, (às escondidas), finalmente, em português europeu.
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo
Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito
Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo
Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema
Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim
E bebe
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo
Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito
Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo
Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema
Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim
E bebe
4.10.15
/E a donzela ainda consegue escapar-lhe.
1.
Há quem diga que, quanto voltamos a ler um livro, anos depois, não é o mesmo livro. É um fenómeno caro a Heraclito. A teoria diz que nós mudamos, aprendemos mais e quando relemos, fazemo-lo com outros olhos, mais experientes, mais sábios. Mas há a possibilidade, é só uma teoria, de, quando se fecha um livro numa prateleira, ele, febrilmente, trocar as suas próprias letras, tal como nós renovamos o sangue e vamos crescendo. Reescreve frases e parágrafos, acrescenta texto, elimina períodos, sublinha ideias. Ou como é que um objecto que pode conter tanta sabedoria, pode ter a vida de uma pedra, em vez da dum ancião de barbas? Ou como é que aquilo que contém inteligência pode não ser inteligente?
O Cavaleiro Ainda Persegue/ A Mesma Donzela, Afonso Cruz
3.10.15
- topas?
esfolo-te vivo, vadio, se me trazes outra vez versos desses,
assim tão às ordens de um modelo civil:
adorar a ginástica dos exemplos, ser diligente,
montar o seu negócio das tendências,
das trocas baldrocas das dedicatórias sempre óbvias,
assim tão presto prestáveis,
fortes não da sua profundeza e verdade primeiras
mas daquilo que convém à digestão,
ao optimismo ou pessimismo do mundo,
regras da realidade,
?mas o que é a realidade - perguntava o mais extremo de todos,
...
Poemas Canhotos, Herberto Helder
assim tão às ordens de um modelo civil:
adorar a ginástica dos exemplos, ser diligente,
montar o seu negócio das tendências,
das trocas baldrocas das dedicatórias sempre óbvias,
assim tão presto prestáveis,
fortes não da sua profundeza e verdade primeiras
mas daquilo que convém à digestão,
ao optimismo ou pessimismo do mundo,
regras da realidade,
?mas o que é a realidade - perguntava o mais extremo de todos,
...
Poemas Canhotos, Herberto Helder
que o Sonho de Wadja não deixe nunca de ser a nossa possibilidade
! O primeiro filme produzido dentro da Arábia Saudita e também a primeira longa-metragem dirigida por uma mulher na história da Arábia Saudita: Haifaa al-Mansour.
1.10.15
retalhos
Há dias em que a melancolia chove dentro de nós como num pátio interior, atapetado de jornais velhos. Não se ouve, não se sente - mas rebrilha na sujidade densa.
[Retalhos da Vida de Um Médico, Fernando Namora]
29.9.15
27.9.15
26.9.15
os ninguéns
As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
[Eduardo Galeano, O livro dos abraços]
7
Invariavelmente, logo na primeira noite do primeiro dia de temporada de ausência comercial do condómino caixeiro-viajante, chegava o seu substituto e era-me impossível dormir, pelo menos até o escape do carro lhe estrondear o gasóleo mal queimado da retirada, porque o quarto das cópulas era mesmo por cima do meu e as ilegítimas deveras mais barulhentas.
«Ah, o susto que apanhei certa vez, a despensa abastecida e arrumada, o saco do lixo na mão - e eu, que competia comigo próprio pelo expediente mais silencioso, saindo na paz das desoras com o excesso de confiança dos bem sucedidos, a porta já fechada atrás de mim (uma obra de arte, havias de ouvir embora o ponto tenha sido exactamente a inaudibilidade), quando ouço ao descuido a do andar de cima a abrir, a luz das escadas acesa e imediatamente os passos descendo, expeditos, tarde demais para voltar a entrar e tarde demais para me pôr a descer à bruta, o homem a ver-me, parado a olhar para mim e eu feito pedra a olhar para ele, depois o sorriso lambão do que acabou de comer para o que julga ter acabado de comer também, o cheiro nauseabundo de um resto de colónia barata naufragado nos humores fortes da cópula, piscando-me o olho, dando-me passagem, e eu a custo reaprendendo a andar, pensando em cada degrau, o homem ainda de respiração funda do esforço fresco atrás de mim, eu abrindo a porta da rua e segurando-a cavalheiro para que ele saísse, Obrigado, apontando para a carrinha e perguntando se queria uma boleia, Não vale a pena, não vale a pena; moro aqui perto, até ao alívio da esquina dobrada, agora o gozo de estar fora da vista e os gestos espontâneos dos passos voltando a mim enquanto o homem de resistência quente começava a dar ao arranque, o gorgolejo macabro de tanto gasóleo em cilindros velhos, explodindo, explodindo pela madrugada fria e o que eu me ri, de mim para mim uma carrinha amarela e velha, a mais absurda ferramenta para a discrição do amante ilícito visitador. Mas com o moralismo fácil que corre por estes condomínios, ninguém alardeava escândalo?»
Imoral, mesmo imoral, só aquilo que afecta e descaracteriza a rotina, enfim, a originalidade que incomoda a mecânica relojeira da repetição dos eventos - e que só não é mais nefasta porque a rotina defende-se sendo um bicho voraz, super-omnívoro, que come e digere tudo o que lhe apareça à boca ou à distância da língua, ainda que nojento: comeu, naturalmente, o exercício amoroso da condómina esposa do condómino caixeiro-viajante e do amante de modo que, quando eu me mudei para o apartamento, já eles não eram novidade para ninguém; e não só os comeu e digeriu como os defecou e fez adubo e todo o condomínio passou a acertar a libido pela deles, espectáculo tão pouco diferente, debalde a diferença de décadas, do da minha rua da infância, os conterrâneos em noite de janela pela brisa fresca após o dia forte de estio vendo sair o conterrâneo adúltero, eles para elas e elas para eles Lá vai ele ter com a outra, toda a rua fedendo a colónia, eles machamente nostálgicos vendo a potência sumir-se nos farolins do carro curvando o cruzamento e elas espojadas descalças no sofá feio da sala como se fosse vermelho e o esperassem, o azul da televisão quase sem som e os condóminos do rés-do-chão que fingiam dormir acordando à chegada da carrinha, o apagamento do motor uma explosão como outra qualquer e o amante estrangeiro semi-condómino Sou eu no intercomunicador, ela sem voz de resposta abrindo a porta, Lá vai ele ter com ela e os bigodes húmidos preambulando o minete, Já deve estar de perna aberta, Não digas isso, malcriado, cócegas na barriga e beliscões marotos avivando a carne dormente de tanto tempo detergente, os condóminos esposos do rés-do-chão pondo-se agora em cima das respectivas condóminas esposas do rés-do-chão, funcionários bombando síncronos à esquerda e à direita, as bocas deles e delas abrindo e fechando como peixes vivos na lota até ao despejo dos dois sacos regulares, lubricidade que continuava à solta pelo dia seguinte, outro ânimo no trânsito das escadas, ditos brejeiros nos cumprimentos e em tarde de limpeza era ver os condóminos esposos do rés-do-chão entre o fim do almoço e o regresso aos serviços subindo à vez como quem precisa de ir às águas-furtadas só para se roçarem na Muda à passagem, apalparem-lhe o cu ou as mamas, o cu e as mamas, amiúde o tabefe da honra onde liam consentimento, e a excitação acrescida pela falta de voz para delatar.
Às vezes pensava como vivia o meu amor as cópulas do segundo esquerdo: masturbar-se-ia?
(...)
[O Condómino, António Gregório, p. 39, 40, 41]
25.9.15
onde se lê verborreia, leia-se, a puta da inveja que morde os testículos dos fodilhões com manias de génio que almejaram ser e descobriram que nunca o serão.
deixei Lobo Antunes de lado muito antes de lhe conhecer a verborreia de crítico literário. aborrecia-me de morte.
(…)
-No entiendo por qué volviste.
Y retira la mano. La mano de Mariano queda sola sobre la mesa, con la palma vuelta hacia arriba. Tiene la línea de la vida larga pero muy tajeada.
-No entiendo. Me habías dicho: “No nos vamos a ver más. Somos libres”. Yo me quedé muda mirándote la espalda y te perdiste en la esquina de la estación. ¿Qué esperabas? ¿Que te corriera atrás? ¿Que te llamara a gritos? ¿Para qué quería yo esa libertad que me regalabas? ¿Para qué la quería?
(Mariano escuchaba los ecos de sus propios pasos y llevaba la cabeza vacía por dolorosa victoria de la voluntad, pero al llegar a la estación del ferrocarril se le metió por los oídos el estrépito de la máquina aproximándose, y entonces supo que desde ahora le harían falta los navegantes misteriosos que tan a menudo se perdían, por puro gusto, en los desfiladeros de niebla de la memoria o la imaginación de esta muchacha. Trepó por los peldaños de fierro y supo que ella sería, desde ahora, una nuca entrevista en la muchedumbre o un perfil que se escapa, una voz adivinada entre otras voces. Que él se daría vuelta bruscamente y echaría a correr y tomaría a una mujer por el brazo: que se equivocaría siempre. Entró al vagón de pasajeros y se sentó en uno de los viejos asientos de paja de la época de los ingleses y supo que ella persistiría: escuchó el traqueteo de las ruedas sobre los rieles y supo que ella persistiría, persistirá: en verano, en los túneles de hojas, convertida en un sanantonio que te camina por el brazo, o en las noches de julio, llenando una silla vacía en la complicidad humosa de los cafés. Llegó a destino y se bajó, mareado, y seguía sabiendo que ella continuaría oliendo a sí misma en su memoria, deambulando desnuda por la región nochera de sus sueños: que ella sería, que será, una cicatriz que a veces hace cosquillas y a veces late y a veces arde y a veces duele. Y sintió la necesidad de volver y por lo menos decir: “Nunca nada”. Por lo menos decir: “Como esto, nunca nada”. Y no volvió.)
- Clara.
- Sí.
(…)
[Eduardo Galeano - La Canción de Nosotros]
24.9.15
22.9.15
in this moment
When you've kissed an angel and held her 'til she breaks
Tell me now what's more real than this moment
Dente por Dente
Outros antes de nós tentaram o mesmo esforço: dente por
dente: não, nunca olhar de soslaio e manter a cabeça escar-
late, o vómito nos pulsos por cada noite roubada; nem um
minuto para a glória da pele. Despertar de lado: olho por
olho: conservar a família em respeito, a esperança à distância
de todas as fomes, o corno de cada dia nos intestinos. Aos
dezoito anos, aos vinte e oito, a vida posta à prova da raiva e
do amor, os olhos postos à prova do nojo. Entrar de costas no
festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a
saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo
menos doentes exemplares.
Fora do meu reino toda a pobreza, toda a ascese que gane
aos artelhos dos que rangem os dentes; no meu reino apenas
palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de
paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu
relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa
dos sanguinários.
Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher
a tempo a nossa morte e amá-la.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
dente: não, nunca olhar de soslaio e manter a cabeça escar-
late, o vómito nos pulsos por cada noite roubada; nem um
minuto para a glória da pele. Despertar de lado: olho por
olho: conservar a família em respeito, a esperança à distância
de todas as fomes, o corno de cada dia nos intestinos. Aos
dezoito anos, aos vinte e oito, a vida posta à prova da raiva e
do amor, os olhos postos à prova do nojo. Entrar de costas no
festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a
saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo
menos doentes exemplares.
Fora do meu reino toda a pobreza, toda a ascese que gane
aos artelhos dos que rangem os dentes; no meu reino apenas
palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de
paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu
relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa
dos sanguinários.
Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher
a tempo a nossa morte e amá-la.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
21.9.15
20.9.15
«A prova de vida»
(...)
Existia nesses anos uma lei ridícula que obrigava os cidadãos a pagar uma licença cara pelo privilégio de usar isqueiro, só porque o fabrico dos fósforos era monopólio do Estado. Nas cidades havia «fiscais da licença de isqueiro», que vigiavam os cafés e as esquinas, impiedosos, prontos a multar. Nas aldeias era a Guarda encarregada desse controlo, e daí nasceu a ideia de que valeria a pena pregar um susto ao Jaime, a ver se sim ou não conseguiam que falasse.
Combinaram com o cabo. Na próxima visita da patrulha chamavam à taberna o «Calado» – era a alcunha que tinha – e sem ele dar por isso metiam-lhe um isqueiro no bolso.
Fizeram-se apostas. Com o medo falaria. Ou pelo respeito à farda. Outros mantinham que não: ia ficar como sempre, a sorrir, a encolher os ombros, a boca cosida.
– Se lhe dizem que o prendem, fala, ó se fala!
– Não fala. Nunca falou, não é agora que vai falar.
– E o medo? A multa?
– O «Calado» não é de medos.
Realmente não era. Na força dos trinta, seco, musculado, se havia desastre ou perigo era ele o primeiro a acudir. Pouco antes, no incêndio de uma corte, enquanto os outros gritavam e corriam desatinados com baldes de água inúteis, ele arrombara a porta aos pontapés e, sem se importar das queimaduras ou do risco, metera-se por entre as chamas a salvar as cabras do vizinho.
Formou-se uma roda em volta dele e do soldado que o revistava – tinham-lhe dito que houvera denúncia – todos a fingir de espantados quando o isqueiro apareceu.
– A licença? – perguntou o cabo, ríspido.
Jaime esboçou um sorriso, encolheu os ombros a mostrar que aquilo só podia ser brincadeira. Então, pobre como era, onde ia arranjar o dinheiro para um isqueiro?
– A licença? – insistiu o cabo.
Jaime teve o mesmo sorriso plácido, mas logo se retesou quando o cabo deu um passo em frente, a fazer-se furioso, e lhe segurou o braço:
– Então que temos? Falta de respeito? Hein? Falta de respeito?
E a cada palavra uma sacudidela, o corpo rígido, a palidez a aumentar, traindo a emoção. Os outros gritavam-lhe que falasse, negasse, assim que respondesse o cabo deixava-o em paz.
– Diz-lhe que não é teu.
– Mesmo que vendas a burra não te chega o dinheiro para a multa!
– Fala, sacana! Então não tens língua?
Cercavam-no aos empurrões, ele a suar, lívido, a boca escancarada, os braços paralisados. A taberna enchera-se de gente que tinha vindo ver, e os últimos a chegar, mal informados, julgavam que era a sério, mandaram que fossem avisar a mulher.
O cabo, razoável actor, demonstrava agora como se perde a paciência e, com grande autenticidade, num gesto terminante, deu-lhe voz de prisão. O Jaime arregalou os olhos, estremeceu, caiu fulminado.
(...)
in Os lindos braços da Júlia da Farmácia, José Rentes de Carvalho
Se nos picarem, não sangraremos?*
passeamos em tours pelos campos de Auschwitz ou Belzec, de lágrima no canto do olho, vemos Adrien Brody, quase cadáver, rebaixado à condição animal, fuçando no lixo, mas ainda assim, tocando piano pelas mãos de Deus. acalentamos o ímpeto bondoso que trazemos no coração, lendo Primo Levi e transcrevendo algumas passagens. somos bons, somos intrinsecamente bons, repudiamos os nazis assassinos e estamos sempre do lado dos judeus, os mais fracos. não permitiremos que algo do género se repita sob os nossos olhos, garantimos aos nossos filhos. que nenhum ser humano voltará a ser usado como objecto ou mercadoria. somos bons. melhores de que todos os outros, é isso que murmuramos quando apagamos a luz, antes de dormir. da cobardia, da malvadez, do desinteresse, que cuidem os fantasmas.
[*O Mercador de Veneza, de Shakespeare, citado no filme O Pianista]
19.9.15
Lèlito
-- Eu queria estar contigo... porque sei como és. Queria animar-te, que diabo! Mas não via maneira. Andava por aí à espreita... Quem me trouxe aqui foi o senhor Maldonado, e sem eu me atrever a pedir-lho...
Era a primeira vez que Lèlito ouvia o nome do Caveira.
-- Tens de lhe agradecer a minha visita - continuou Pedro. -- Há gente boa que gosta de parecer má... Este mundo é reinadio! Os maus é que muitas vezes gostam de se fingir bons, os tolos de parecer inteligentes, assim por diante.
Uma gota de sangue, José Régio, p. 178
[admito, nunca o teria comprado/lido, não fosse a vergonha que se me assomou, quando o livreiro correu atrás de mim, garantido-me a pérola literária, pechincha a dez euros, por ser primeira edição. faltou-me a coragem de dizer que não, por aquela altura, já pouca gente por ali passava, presumi-lhe a necessidade. às vezes fico assim, sensível ao mundo, que, sacana, se aproveita da minha fraqueza de mãe porvir. não me arrependo, não salv(ar)ei o mundo, mas é um bom livro.]
Gonçalo e Alexandra
(...)
-- Nunca te passou pela cabeça que eu, um dia, te enganasse?
Quantas vezes terei de ouvir isto durante a vida? As mulheres serão todas iguais? Nós, os homens, temos o nosso trabalho, a nossa vida, o nosso mundo. Para nós, o amor é uma de muitas coisas, como o trabalho, a política, o clube. As mulheres não fazem nada, e para elas o amor é tudo. Tudo o que têm. Atribuem-lhe um valor exagerado. Odeiam o nosso trabalho e tudo o que nos afasta delas. Ameaçam de nos retirar o amor... de nos enganar. Não percebem que sem o amor delas continuaríamos a nossa vida... Nada seria alterado. Julgam que o amor tem para nós a importância que tem para elas...
Alexandra, sem tirar os olhos de Gonçalo, insistiu:
-- Diz lá, Gonçalo, já alguma vez admitiste a hipótese de eu, um dia, te enganar?
As regras do jogo ordenam que eu responda que não, que nunca admiti a hipótese de ela me enganar. As regras do jogo ordenam que eu fale agora na confiança que tenho nela. A Alexandra é uma pega e por isso o amor não está em causa. O que se discute é a aparência do amor. É um jogo pequeno dentro dum jogo grande. Nestas circunstancias as regras do jogo são inalteráveis: «há que tratar a aparência do amor como se de amor se tratasse».
-- Que farias tu se eu te enganasse, Gonçalo?
As mulheres raras vezes percebem que os homens que se entregam inteiramente ao amor, que fazem do amor e da mulher a sua vida, são precisamente aqueles que nada têm para dar, que nem têm vida nenhuma. É por isso que as paixões poéticas duram pouco. Os grandes amorosos são homens de segunda ordem, e ao fim de certo tempo as mulheres começam a compreender que fizeram um mau negócio.
-- Nunca pensei nisso.
(...)
Angústia para o jantar, Luis de Sttau Monteiro, p. 144, 145, 146
18.9.15
Dos amigos: Irão
Montedor
Apago a lamparina e sento-me à janela a fumar, olhando o rio a perguntar-me, sem ponta por onde pegue. Ir? Mas para onde? Para quê? O mais certo é agarrar-me à loja, ficar, sem perguntas, ser pai. O sonho, as grandezas? Enterrado. Paris? Quando o sogro esticar a bota, a mulher pendurada no braço e o fedelho. Eu que me via a dar cartas, pintando o futuro, correndo o mapa! A acreditar que há mais marés que marinheiros. Tretas. A maré não vem, faz-se, questão de saber com que manhas.
Quem te prendia? Havias de ver que não te corriam à perna, de certeza contentes de se verem livres de ti. Mesmo agora, quem te pega? As lérias dele? Se fazes a trouxa e sais porta fora, julgas que te segura? Desengana-te. O mal é que não tens trouxa e não se vai pelo mundo sem ela. É como se te fechassem a cadeado, e ele sabe-o melhor que tu, à espera que venhas ao rego, que percas a tesura.
Bom fim para tanta grandeza. Lábia, lábia! Pega na caixa, seis contos e duzentos, contados diante de ti antes da ceia, e ele com medo do escândalo não se queixa. Palavreado. Há os que passam e os que vêem passar. Tu vês passar. Pior: ficas de pedra e cal atrás do balcão. De lá é que hás-de enxergar os que não são de meias medidas, nem tomam por atalhos.
[Montedor, p. 155/156]
15.9.15
Agosto de 1910
Aos 23 do mês passado morreu meu pai amachucado, exausto e pobre. Encontrão dum, repelão de outro, assim foi até à cova. Tinha 67 anos incompletos. Não podia mais. Encontraram-lhe alguns cobres no bolso. Há muitos anos que se arrastava, e só tinha de seu uma alegria e um repouso: os domingos. Aos domingos metia-se no quarto, calçava uns chinelos, e toda a tarde chorava lágrimas sem fim sobre um velho romance de Camilo. Minha mãe pouco mais durou, com um olhar de pasmo. Lá ficou a velha casa abandonada...
Sobe a lua no céu, e a sombra no monte. Seis árvores, quatro paredes – tudo aqui me enche de saudades. A bica continua a correr, mas outras sedes se apagarão naquela água. Outros virão também sentar-se no banco de pedra... Só me resta a tua mão querida, que a meu lado segura a minha mão. Os mortos chamam por nós cada vez mais alto... Olho para ti e os teus primeiros cabelos brancos fazem-me chorar.
[Memórias]
AOS MORTOS
PREFÁCIO
Janeiro de 1915
Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões.
Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não sei – nem me importo – se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o para a cova, para remoer durante séculos e séculos, até ao juízo final.
[Memórias]
Aquele que Quer Morrer
A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.
Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.
O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.
[1978]
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.
Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.
O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.
[1978]
escrever?
Eu não espero para escrever, nem deixo de escrever para passar pelo exercício que produz a escrita; tudo é simultâneo e tem as mesmas raízes, escrever é o duplo de viver; poderia dar como explicação que é da mesma natureza que abrir a porta da rua, dar de comer aos animais, ou encontrar alguém que tem o lugar de sopro no meu destino.
Definição
Um corpo não é um fruto,
embora em tudo se assemelhem:
densa forma,
oculto gosto,
cinco letras
e um pressuposto
poder de vida.
Um corpo é mais que um fruto
que se plante,
que se colha
ou se degluta:
um corpo
é um corpo,
e um corpo
é luta.
Um corpo não é um potro,
embora assim se manifeste:
pêlos mansos,
membros ágeis,
sal na boca
e um desejo
verde pelos campos.
Um corpo é mais que um potro
que pelos prados
e currais se dome:
um corpo
é um corpo,
e um corpo
é fome.
Nem chama
que se anule,
nem espada
em duplo gume
ou máquina
de estrume.
Um corpo
é mais que tudo:
mais que a chave,
mais que a forma,
mais que o leme,
mais que o açude.
Um corpo
é mais que tudo:
é a própria imagem
que eu não pude.
2
O corpo é onde
é carne:
O corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.
O corpo é onde
é chama:
O corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.
O corpo é onde
é luta:
O corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.
O corpo é onde
é cal:
O corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.
O corpo
é onde
e a vida
é quando.
embora em tudo se assemelhem:
densa forma,
oculto gosto,
cinco letras
e um pressuposto
poder de vida.
Um corpo é mais que um fruto
que se plante,
que se colha
ou se degluta:
um corpo
é um corpo,
e um corpo
é luta.
Um corpo não é um potro,
embora assim se manifeste:
pêlos mansos,
membros ágeis,
sal na boca
e um desejo
verde pelos campos.
Um corpo é mais que um potro
que pelos prados
e currais se dome:
um corpo
é um corpo,
e um corpo
é fome.
Nem chama
que se anule,
nem espada
em duplo gume
ou máquina
de estrume.
Um corpo
é mais que tudo:
mais que a chave,
mais que a forma,
mais que o leme,
mais que o açude.
Um corpo
é mais que tudo:
é a própria imagem
que eu não pude.
2
O corpo é onde
é carne:
O corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.
O corpo é onde
é chama:
O corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.
O corpo é onde
é luta:
O corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.
O corpo é onde
é cal:
O corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.
O corpo
é onde
e a vida
é quando.
Notes of a dirty old man
I've seen to many intellectuals lately. I get very tired of precious intellects who must speak diamonds every time they open their mouths.
I get tired of battling for each space of air for the mind. That's why I stayed away from people for so long, and now that I am meeting people, I find that I must return to my cave.
Notes of a dirty old man, Charles Bukowski
My Own Social Media
Sir: I haven’t got a computer, but I was told about Facebook and Twitter and am trying to make friends outside Facebook and Twitter while applying the same principles.
Every day, I walk down the streets and tell passers-by what I have eaten, how I feel, what I have done the night before and what I will do for the rest of the day. I give them pictures of my wife, my daughter, my dog and me gardening and on holiday, spending time by the pool. I also listen to their conversations, tell them I ‘like’ them and give them my opinion on every subject that interest me…whether it interests them or not.
And it works. I have four people following me; two police officers, a social worker and a psychiatrist.
– Peter White, Holbrook, Derbyshire
11.9.15
Famas, Cronópios e Esperanças
Quando os famas vão de viagem, têm por costume, ao pernoitar numa cidade, fazer o seguinte: o primeiro fama chega ao hotel e cautelosamente pergunta os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo vai à esquadra da polícia e lavra uma acta declarando móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital copiar a lista dos médicos de serviço e respectivas especialidades.
Terminadas estas diligências, reúnem-se os viajantes na praça principal da cidade, trocam as observações obtidas, entram num café para tomar um aperitivo. Mas antes dão-se as mãos e dançam. Esta dança tem o nome de ‘Alegria dos famas’.
Quando os cronópios vão de viagem, encontram os hotéis cheios, os comboios já partiram, chove a potes, os táxis não os querem levar ou querem imenso dinheiro. Os cronópios não desanimam, pois julgam que isto acontece a toda a gente e, quando se vão deitar, dizem uns aos outros: ‘Bela cidade, belíssima cidade.’ E toda a noite sonham que há grandes festas na cidade e que foram convidados. No dia seguinte levantam-se todos satisfeitos, e é assim que os cronópios viajam.
Sedentárias, as esperanças deixam-se viajar pelas coisas e homens, e são como as estátuas que é preciso ir ver porque elas não se incomodam.
Histórias de Cronópios e de Famas, Julio Cortázar
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