21.9.15

20.9.15

«A prova de vida»

(...)

Existia nesses anos uma lei ridícula que obrigava os cidadãos a pagar uma licença cara pelo privilégio de usar isqueiro, só porque o fabrico dos fósforos era monopólio do Estado. Nas cidades havia «fiscais da licença de isqueiro», que vigiavam os cafés e as esquinas, impiedosos, prontos a multar. Nas aldeias era a Guarda encarregada desse controlo, e daí nasceu a ideia de que valeria a pena pregar um susto ao Jaime, a ver se sim ou não conseguiam que falasse.

Combinaram com o cabo. Na próxima visita da patrulha chamavam à taberna o «Calado» – era a alcunha que tinha – e sem ele dar por isso metiam-lhe um isqueiro no bolso.

Fizeram-se apostas. Com o medo falaria. Ou pelo respeito à farda. Outros mantinham que não: ia ficar como sempre, a sorrir, a encolher os ombros, a boca cosida.
– Se lhe dizem que o prendem, fala, ó se fala!
– Não fala. Nunca falou, não é agora que vai falar.
– E o medo? A multa?
– O «Calado» não é de medos.

Realmente não era. Na força dos trinta, seco, musculado, se havia desastre ou perigo era ele o primeiro a acudir. Pouco antes, no incêndio de uma corte, enquanto os outros gritavam e corriam desatinados com baldes de água inúteis, ele arrombara a porta aos pontapés e, sem se importar das queimaduras ou do risco, metera-se por entre as chamas a salvar as cabras do vizinho.

Formou-se uma roda em volta dele e do soldado que o revistava – tinham-lhe dito que houvera denúncia – todos a fingir de espantados quando o isqueiro apareceu.
– A licença? – perguntou o cabo, ríspido.
Jaime esboçou um sorriso, encolheu os ombros a mostrar que aquilo só podia ser brincadeira. Então, pobre como era, onde ia arranjar o dinheiro para um isqueiro?
– A licença? – insistiu o cabo.
Jaime teve o mesmo sorriso plácido, mas logo se retesou quando o cabo deu um passo em frente, a fazer-se furioso, e lhe segurou o braço:
– Então que temos? Falta de respeito? Hein? Falta de respeito?
E a cada palavra uma sacudidela, o corpo rígido, a palidez a aumentar, traindo a emoção. Os outros gritavam-lhe que falasse, negasse, assim que respondesse o cabo deixava-o em paz.
– Diz-lhe que não é teu.
– Mesmo que vendas a burra não te chega o dinheiro para a multa!
– Fala, sacana! Então não tens língua?

Cercavam-no aos empurrões, ele a suar, lívido, a boca escancarada, os braços paralisados. A taberna enchera-se de gente que tinha vindo ver, e os últimos a chegar, mal informados, julgavam que era a sério, mandaram que fossem avisar a mulher.

O cabo, razoável actor, demonstrava agora como se perde a paciência e, com grande autenticidade, num gesto terminante, deu-lhe voz de prisão. O Jaime arregalou os olhos, estremeceu, caiu fulminado.

(...)


in Os lindos braços da Júlia da Farmácia, José Rentes de Carvalho


Se nos picarem, não sangraremos?*

passeamos em tours pelos campos de Auschwitz ou Belzec, de lágrima no canto do olho, vemos Adrien Brody, quase cadáver, rebaixado à condição animal, fuçando no lixo, mas ainda assim, tocando piano pelas mãos de Deus. acalentamos o ímpeto bondoso que trazemos no coração, lendo Primo Levi e transcrevendo algumas passagens. somos bons, somos intrinsecamente bons, repudiamos os nazis assassinos e estamos sempre do lado dos judeus, os mais fracos. não permitiremos que algo do género se repita sob os nossos olhos, garantimos aos nossos filhos. que nenhum ser humano voltará a ser usado como objecto ou mercadoria. somos bons. melhores de que todos os outros, é isso que murmuramos quando apagamos a luz, antes de dormir. da cobardia, da malvadez, do desinteresse, que cuidem os fantasmas.


[*O Mercador de Veneza, de Shakespeare, citado no filme O Pianista]


19.9.15

Lèlito

-- Eu queria estar contigo... porque sei como és. Queria animar-te, que diabo! Mas não via maneira. Andava por aí à espreita... Quem me trouxe aqui foi o senhor Maldonado, e sem eu me atrever a pedir-lho...
Era a primeira vez que Lèlito ouvia o nome do Caveira.
-- Tens de lhe agradecer a minha visita - continuou Pedro. -- Há gente boa que gosta de parecer má... Este mundo é reinadio! Os maus é que muitas vezes gostam de se fingir bons, os tolos de parecer inteligentes, assim por diante.  


Uma gota de sangue, José Régio, p. 178


[admito, nunca o teria comprado/lido, não fosse a vergonha que se me assomou, quando o livreiro correu atrás de mim, garantido-me a pérola literária, pechincha a dez euros, por ser primeira edição. faltou-me a coragem de dizer que não, por aquela altura, já pouca gente por ali passava, presumi-lhe a necessidade. às vezes fico assim, sensível ao mundo, que, sacana, se aproveita da minha fraqueza de mãe porvir. não me arrependo, não salv(ar)ei o mundo, mas é um bom livro.]

Gonçalo e Alexandra

(...)

-- Nunca te passou pela cabeça que eu, um dia, te enganasse?

Quantas vezes terei de ouvir isto durante a vida? As mulheres serão todas iguais? Nós, os homens, temos o nosso trabalho, a nossa vida, o nosso mundo. Para nós, o amor é uma de muitas coisas, como o trabalho, a política, o clube. As mulheres não fazem nada, e para elas o amor é tudo. Tudo o que têm. Atribuem-lhe um valor exagerado. Odeiam o nosso trabalho e tudo o que nos afasta delas. Ameaçam de nos retirar o amor... de nos enganar. Não percebem que sem o amor delas continuaríamos a nossa vida... Nada seria alterado. Julgam que o amor tem para nós a importância que tem para elas... 

Alexandra, sem tirar os olhos de Gonçalo, insistiu:
-- Diz lá, Gonçalo, já alguma vez admitiste a hipótese de eu, um dia, te enganar?

As regras do jogo ordenam que eu responda que não, que nunca admiti a hipótese de ela me enganar. As regras do jogo ordenam que eu fale agora na confiança que tenho nela. A Alexandra é uma pega e por isso o amor não está em causa. O que se discute é a aparência do amor. É um jogo pequeno dentro dum jogo grande. Nestas circunstancias as regras do jogo são inalteráveis: «há que tratar a aparência do amor como se de amor se tratasse».

-- Que farias tu se eu te enganasse, Gonçalo?

As mulheres raras vezes percebem que os homens que se entregam inteiramente ao amor, que fazem do amor e da mulher a sua vida, são precisamente aqueles que nada têm para dar, que nem têm vida nenhuma. É por isso que as paixões poéticas duram pouco. Os grandes amorosos são homens de segunda ordem, e ao fim de certo tempo as mulheres começam a compreender que fizeram um mau negócio.

-- Nunca pensei nisso.

(...)


Angústia para o jantar, Luis de Sttau Monteiro, p. 144, 145, 146

18.9.15

fever

by Manik n Ratan

Dos amigos: Irão

não sei explicar, é impossível não reconhecer um iraniano. sempre um olhar melancólico.

Soleyman Mahmoudi

Montedor

Apago a lamparina e sento-me à janela a fumar, olhando o rio a perguntar-me, sem ponta por onde pegue. Ir? Mas para onde? Para quê? O mais certo é agarrar-me à loja, ficar, sem perguntas, ser pai. O sonho, as grandezas? Enterrado. Paris? Quando o sogro esticar a bota, a mulher pendurada no braço e o fedelho. Eu que me via a dar cartas, pintando o futuro, correndo o mapa! A acreditar que há mais marés que marinheiros. Tretas. A maré não vem, faz-se, questão de saber com que manhas.

Quem te prendia? Havias de ver que não te corriam à perna, de certeza contentes de se verem livres de ti. Mesmo agora, quem te pega? As lérias dele? Se fazes a trouxa e sais porta fora, julgas que te segura? Desengana-te. O mal é que não tens trouxa e não se vai pelo mundo sem ela. É como se te fechassem a cadeado, e ele sabe-o melhor que tu, à espera que venhas ao rego, que percas a tesura.

Bom fim para tanta grandeza. Lábia, lábia! Pega na caixa, seis contos e duzentos, contados diante de ti antes da ceia, e ele com medo do escândalo não se queixa. Palavreado. Há os que passam e os que vêem passar. Tu vês passar. Pior: ficas de pedra e cal atrás do balcão. De lá é que hás-de enxergar os que não são de meias medidas, nem tomam por atalhos.

[Montedor, p. 155/156]

15.9.15

Agosto de 1910

Aos 23 do mês passado morreu meu pai amachucado, exausto e pobre. Encontrão dum, repelão de outro, assim foi até à cova. Tinha 67 anos incompletos. Não podia mais. Encontraram-lhe alguns cobres no bolso. Há muitos anos que se arrastava, e só tinha de seu uma alegria e um repouso: os domingos. Aos domingos metia-se no quarto, calçava uns chinelos, e toda a tarde chorava lágrimas sem fim sobre um velho romance de Camilo. Minha mãe pouco mais durou, com um olhar de pasmo. Lá ficou a velha casa abandonada...
Sobe a lua no céu, e a sombra no monte. Seis árvores, quatro paredes – tudo aqui me enche de saudades. A bica continua a correr, mas outras sedes se apagarão naquela água. Outros virão também sentar-se no banco de pedra... Só me resta a tua mão querida, que a meu lado segura a minha mão. Os mortos chamam por nós cada vez mais alto... Olho para ti e os teus primeiros cabelos brancos fazem-me chorar.

[Memórias]

AOS MORTOS

PREFÁCIO

Janeiro de 1915

Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões.
Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não sei – nem me importo – se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o para a cova, para remoer durante séculos e séculos, até ao juízo final.

[Memórias]

...





Aquele que Quer Morrer

A morte e a vida morrem 
e sob a sua eternidade fica 
só a memória do esquecimento de tudo; 
também o silêncio de aquele que fala se calará. 

Quem fala de estas 
coisas e de falar de elas 
foge para o puro esquecimento 
fora da cabeça e de si. 

O que existe falta 
sob a eternidade; 
saber é esquecer, e 
esta é a sabedoria e o esquecimento. 

[1978]

escrever?

Eu não espero para escrever, nem deixo de escrever para passar pelo exercício que produz a escrita; tudo é simultâneo e tem as mesmas raízes, escrever é o duplo de viver; poderia dar como explicação que é da mesma natureza que abrir a porta da rua, dar de comer aos animais, ou encontrar alguém que tem o lugar de sopro no meu destino.


Definição

Um corpo não é um fruto,
embora em tudo se assemelhem:
densa forma,
oculto gosto,
cinco letras
e um pressuposto
poder de vida.

Um corpo é mais que um fruto
que se plante,
que se colha
ou se degluta:

um corpo
é um corpo,
e um corpo
é luta.

Um corpo não é um potro,
embora assim se manifeste:
pêlos mansos,
membros ágeis,
sal na boca
e um desejo
verde pelos campos.

Um corpo é mais que um potro
que pelos prados
e currais se dome:
um corpo
é um corpo,
e um corpo
é fome.

Nem chama
que se anule,
nem espada
em duplo gume
ou máquina
de estrume.

Um corpo
é mais que tudo:
mais que a chave,
mais que a forma,
mais que o leme,
mais que o açude.

Um corpo
é mais que tudo:
é a própria imagem
que eu não pude.

2

O corpo é onde
é carne:

O corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

O corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

O corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

O corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.


Notes of a dirty old man


I've seen to many intellectuals lately. I get very tired of precious intellects who must speak diamonds every time they open their mouths.
I get tired of battling for each space of air for the mind. That's why I stayed away from people for so long, and now that I am meeting people, I find that I must return to my cave.


Notes of a dirty old man, Charles Bukowski



My Own Social Media


Sir: I haven’t got a computer, but I was told about Facebook and Twitter and am trying to make friends outside Facebook and Twitter while applying the same principles.

Every day, I walk down the streets and tell passers-by what I have eaten, how I feel, what I have done the night before and what I will do for the rest of the day. I give them pictures of my wife, my daughter, my dog and me gardening and on holiday, spending time by the pool. I also listen to their conversations, tell them I ‘like’ them and give them my opinion on every subject that interest me…whether it interests them or not.

And it works. I have four people following me; two police officers, a social worker and a psychiatrist.

– Peter White, Holbrook, Derbyshire

11.9.15

Famas, Cronópios e Esperanças

Quando os famas vão de viagem, têm por costume, ao pernoitar numa cidade, fazer o seguinte: o primeiro fama chega ao hotel e cautelosamente pergunta os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo vai à esquadra da polícia e lavra uma acta declarando móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital copiar a lista dos médicos de serviço e respectivas especialidades.
Terminadas estas diligências, reúnem-se os viajantes na praça principal da cidade, trocam as observações obtidas, entram num café para tomar um aperitivo. Mas antes dão-se as mãos e dançam. Esta dança tem o nome de ‘Alegria dos famas’.
Quando os cronópios vão de viagem, encontram os hotéis cheios, os comboios já partiram, chove a potes, os táxis não os querem levar ou querem imenso dinheiro. Os cronópios não desanimam, pois julgam que isto acontece a toda a gente e, quando se vão deitar, dizem uns aos outros: ‘Bela cidade, belíssima cidade.’ E toda a noite sonham que há grandes festas na cidade e que foram convidados. No dia seguinte levantam-se todos satisfeitos, e é assim que os cronópios viajam.
Sedentárias, as esperanças deixam-se viajar pelas coisas e homens, e são como as estátuas que é preciso ir ver porque elas não se incomodam.
Histórias de Cronópios e de Famas, Julio Cortázar

8.9.15

7.9.15

6.9.15

flores

Estava junto aos escombros do meu pai, com os restos dos nossos sentimentos à deriva. O meu corpo ainda dizia o nome dele muito baixinho, como se fosse sangue a correr nas veias. As lágrimas não caíam, ficavam suspensas numa antecâmara qualquer do coração ou lá de que lugar é esse onde as lágrimas são laboriosamente fabricadas.

   A Clarisse estava ao meu lado. Estávamos de braço dado, ela tinha a cabeça encostada ao meu ombro.

   Atrás dos meus óculos escuros via as pessoas no enterro, a Carla estava tão bonita, de preto, com a dor no rosto, os cabelos lisos e as coxas a sair do vestido curto, mas não podia pensar naquilo, era o enterro do pai, ainda por cima a Carla é minha prima direita. Os destroços da morte por todo o lado, nas caras das pessoas, nas recordações. A mãe gritou algumas vezes, Zé, Zé, Zé, era o nome do meu pai, e foi nessa altura que me caíram umas lágrimas, não tanto por ele, naquela serenidade de cadáver, mas pela dor da mãe, tão pungente e catártica, tão siciliana na sua forma de se manifestar, cada Zé que ela gritava era uma facada no ar, Zé, Zé, Zé.

   O calor era tanto, o suor escorria-me pelas costas abaixo, não, não era suor, era a língua da morte a lamber-me a coluna de cima para baixo, a arrastar-me para o chão, a língua quente dessa estranha entidade que nos transforma em terra, que transforma tudo em terra. Sentia-lhe o hálito a flores, porque ela não fede como seria crível, tem o bafo das coroas de rosas e margaridas e gladíolos com que enfeitamos os caixões e mais tarde as campas. Cheira tudo a flores, o fim das coisas cheira a flores, não é a esgoto e a podre. Zé, Zé, Zé, gritava a mãe, e a morte a lamber-nos as costas, sem parar, com a ponta da língua muito fina a passar pelos corpos dos vivos, como quem toma um aperitivo.

   E, enquanto o padre mandava o pó voltar ao pó, eu abençoava Deus com blasfémias.

Flores, Afonso Cuz


folk blues





ainda há canções para cantar do outro lado dos homens.




DESIERTOS (Fragmentos)

La muerte ha cambiado la forma de la ciudad.

Esta piedra es la cabeza de un niño

y este humo es un suspiro humano.


Alí Ahmad Said Esber (Adonis)
(poeta e ensaísta sírio)

5.9.15

a quem pertence a Europa?

(...) cette Europe multiculturelle será un retour aux sources, car l’Europe est née de l’appropriation du passé et de l’autre.

Edgar Morin, in Qu'est-ce que la culture ?(Yves Michaud)

4.9.15

O encontro inesperado do diverso / O ensaio de música

- Eleanora,           o que pensas, já o deixei de pensar. Não te deixes iludir porque pequenas palavras podem ter a sombra de grandes. Provavelmente, o movimento dessa força, que julgas imensa, é ainda quase inexistente.

- Não posso, Anna. Há uma voz, no exterior, que se cruzou com a minha,           a minha pobre voz sem lugar, e ainda tem força para           «onde estás, meu amor», perguntei, mas a minha intenção firme, e silenciosa, era deixar de pronunciar, definitivamente, qualquer destas palavras porque são um véu transparente que asfixia o meu discernimento,           mas não posso, Anna.

Lisboaleipzig

O livro é um morto que vive.


Louis le Brocquy

3.9.15

sinais ambivalentes

Transformar é o que a arte faz, mas a fotografia que testemunha o que foi uma calamidade ou o que é repreensível será muito criticada se parecer «estética»; ou seja, se se parecer demasiado com a arte. O duplo poder da fotografia - gerar documentos e criar obras de arte visual - originaram alguns notáveis exageros quanto àquilo que os fotógrafos devem ou não fazer. Ultimamente, o exagero mais comum é o que encara estes dois poderes como opostos. As fotografias que representam sofrimento não deviam ser belas, assim como as legendas não deviam moralizar. Segundo esta ideia, a beleza de uma fotografia desvia a a tenção da seriedade do tema e foca-a no meio utilizado, pondo desse modo em causa o estatuto da fotografia como documento. A fotografia envia sinais ambivalentes. «Parem com isto», apela. Mas exclama também: «Que espectáculo!»

Olhando o Sofrimento dos Outros, Susan Sontag

His master’s voice


2.9.15

Será?


As fotografias atrozes não perdem inevitavelmente a sua capacidade de chocar. Mas não são de grande ajuda quando o que se pretende é compreender. As fotografias fazem outra coisa: perseguem-nos.

Olhando o Sofrimento dos Outros, Susan Sontag

31.8.15

Tríade

O alívio que César terá sentido na manhã de 
Farsália, ao pensar: Hoje é a batalha.

O alívio que Carlos Primeiro terá sentido ao ver a 
aurora no vidro e pensar: Hoje é o dia do
patíbulo, da coragem e da acha.

O alívio que tu e eu sentiremos no instante que
precede a morte, quando a sina nos libertar do
triste hábito de ser alguém e do peso do
universo.


Os Conjurados

30.8.15

Podes ficar aqui?


Larry Lefever


Não vás embora,
precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,

eternidades para te esquecer…


26.8.15

A névoa disse à árvore:

tu, cedro, perdes a tua forma,
se eu te abraço. Disse
o cedro: o Sol ama-me mais,
toma o meu corpo inteiro
no seu corpo e dá-lhe
ser, figura.

[Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas]


Michael Lange

25.8.15

Ich bin der Welt abhanden gekommen




atravessei a cidade, acompanhada de Mahler. sorri a cada semáforo que fechava, obrigando-me a esperar. 


24.8.15

(Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986)

¿Cuál cree que puede ser el juicio de la posteridad en su caso?

No me interesa absolutamente nada. Yo espero ser olvidado, definitivamente.

People






21.8.15

refém do tempo, corro, clamo por respostas com anexos.


Hugues Erre

/O bom homem dormiu bem. E abriu a porta da segunda-feira de pé maiúsculo. A boa mulher dormiu bem. E caminhou dia adentro com o sol no peito. E eis que virá mais uma noite. E agora eu acho que acabei de ouvir um passarinho piar aqui na janela./

20.8.15

Admirável Mundo Novo (2)

- Sem falar no direito de envelhecer, de ficar feio e impotente, no direito de ter a sífilis e o cancro, no direito de não ter de comer, no direito de ter piolhos, no direito de viver no temor constante do que poderá acontecer amanhã, no direito de apanhar a febre tifóide, no direito de ser torturado por indizíveis dores de todas as espécies.
Estabeleceu-se um longo silêncio.
- Reclamo-os a todos - disse, por fim, o Selvagem. Mustafá Mond encolheu os ombros.
- Oferecemo-los da melhor vontade - respondeu.

Admirável Mundo Novo

- Nós preferimos fazer as coisas com todo o conforto.
- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
- Em suma – disse Mustafá Mond –, você reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja assim! – respondeu o Selvagem em tom de desafio. – Reclamo o direito de ser infeliz.

Aldous Huxley,  Admirável Mundo Novo

19.8.15

Sul/meu sol

Era verão, havia o muro. 
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.


coast


A boca na cinza

falo contra as palavras que se esvaem, paro no meio de uma frase e olho em volta, como se quisesse encontrar a palavra que me falta, como se as palavras fossem objectos. E fica a minha voz parada. Levanto a mão, a direita, frente aos olhos de quem me escuta, abertos, tão grandes que desaparece neles a intenção. E procuro, aflita.
As pessoas perguntam-me: que tens?,
e eu, calada, a sentir uma bola na garganta, feita das palavras todas de que não me lembro, tens bócio: diz-me o meu irmão: tens bócio como a nossa mãe, de repente lembro-me de que nunca mais me lembrei de minha mãe, e quero responder-lhe: não é bócio, são frases esquecidas, são letras que não se juntam, às vezes, os olhos dos outros param na minha boca, inquirem o meu silêncio e esperam que eu fale, e o silêncio aumenta, até todo o meu corpo ser a falta de uma palavra, começo então a suar, as mãos ficam viscosas, os lábios secos, e eles continuam a olhar-me: fala.
(voz cega, sobre a mulher que esconde o nome inarticulado do filho)
- que não tive, que não poderei ter

Rui Nunes, A boca na cinza

18.8.15

VERÃO COM JACQUES TATI






Internet:

Método de entretenimiento que nos permite navegar en el Vacío para ir al encuentro de la Nada.

AGUSTÍN MONSREAL,  Diccionario al desnudo


daqui: Internacional Microcuentista - Revista de lo breve

17.8.15

«É o tempo da ternurinha, de facto.»*



Porto, 4 de Junho de 1960 — Ri-me. Algumas das nossas ingenuidades não
merecem mais.
— Lá fomos a Paris tomar um banho de civilização...
Como se a civilização fosse uma lixívia!


*....

16.8.15

Viceversa

Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte 

tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte 

tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte 

o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


15.8.15

as vozes

A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta

- Quem é?
- É a mãe morta
- São coisas passadas
- Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficamos sós?

[Nenhuma palavra e nenhuma lembrança]

12.8.15

estrelas cadentes, esta noite, para mil desejos*



*dn ciencia

Quem me quiser maltratar

Quem me quiser maltratar;
maltrate-me agora,
pois é tarde, e cansado
de trabalhos e penas,
quem se defende a esta hora?

Quem me quiser renegar,
renegue-me agora,
porque o meu sono é tão grande
que tudo aceito - nem sinto
se alguém se for embora.

Quem me quiser esquecer,
esqueça-me agora:
que eu não lamento nem sofro,
tonta do dia excessivo.
Tão sem força, quem chora?

(Noite imóvel, noite escura,
forrada de sedas suaves,
pequeno mundo sem chaves,
quase como a sepultura.)