18.9.15

Dos amigos: Irão

não sei explicar, é impossível não reconhecer um iraniano. sempre um olhar melancólico.

Soleyman Mahmoudi

Montedor

Apago a lamparina e sento-me à janela a fumar, olhando o rio a perguntar-me, sem ponta por onde pegue. Ir? Mas para onde? Para quê? O mais certo é agarrar-me à loja, ficar, sem perguntas, ser pai. O sonho, as grandezas? Enterrado. Paris? Quando o sogro esticar a bota, a mulher pendurada no braço e o fedelho. Eu que me via a dar cartas, pintando o futuro, correndo o mapa! A acreditar que há mais marés que marinheiros. Tretas. A maré não vem, faz-se, questão de saber com que manhas.

Quem te prendia? Havias de ver que não te corriam à perna, de certeza contentes de se verem livres de ti. Mesmo agora, quem te pega? As lérias dele? Se fazes a trouxa e sais porta fora, julgas que te segura? Desengana-te. O mal é que não tens trouxa e não se vai pelo mundo sem ela. É como se te fechassem a cadeado, e ele sabe-o melhor que tu, à espera que venhas ao rego, que percas a tesura.

Bom fim para tanta grandeza. Lábia, lábia! Pega na caixa, seis contos e duzentos, contados diante de ti antes da ceia, e ele com medo do escândalo não se queixa. Palavreado. Há os que passam e os que vêem passar. Tu vês passar. Pior: ficas de pedra e cal atrás do balcão. De lá é que hás-de enxergar os que não são de meias medidas, nem tomam por atalhos.

[Montedor, p. 155/156]

15.9.15

Agosto de 1910

Aos 23 do mês passado morreu meu pai amachucado, exausto e pobre. Encontrão dum, repelão de outro, assim foi até à cova. Tinha 67 anos incompletos. Não podia mais. Encontraram-lhe alguns cobres no bolso. Há muitos anos que se arrastava, e só tinha de seu uma alegria e um repouso: os domingos. Aos domingos metia-se no quarto, calçava uns chinelos, e toda a tarde chorava lágrimas sem fim sobre um velho romance de Camilo. Minha mãe pouco mais durou, com um olhar de pasmo. Lá ficou a velha casa abandonada...
Sobe a lua no céu, e a sombra no monte. Seis árvores, quatro paredes – tudo aqui me enche de saudades. A bica continua a correr, mas outras sedes se apagarão naquela água. Outros virão também sentar-se no banco de pedra... Só me resta a tua mão querida, que a meu lado segura a minha mão. Os mortos chamam por nós cada vez mais alto... Olho para ti e os teus primeiros cabelos brancos fazem-me chorar.

[Memórias]

AOS MORTOS

PREFÁCIO

Janeiro de 1915

Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões.
Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não sei – nem me importo – se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o para a cova, para remoer durante séculos e séculos, até ao juízo final.

[Memórias]

...





Aquele que Quer Morrer

A morte e a vida morrem 
e sob a sua eternidade fica 
só a memória do esquecimento de tudo; 
também o silêncio de aquele que fala se calará. 

Quem fala de estas 
coisas e de falar de elas 
foge para o puro esquecimento 
fora da cabeça e de si. 

O que existe falta 
sob a eternidade; 
saber é esquecer, e 
esta é a sabedoria e o esquecimento. 

[1978]

escrever?

Eu não espero para escrever, nem deixo de escrever para passar pelo exercício que produz a escrita; tudo é simultâneo e tem as mesmas raízes, escrever é o duplo de viver; poderia dar como explicação que é da mesma natureza que abrir a porta da rua, dar de comer aos animais, ou encontrar alguém que tem o lugar de sopro no meu destino.


Definição

Um corpo não é um fruto,
embora em tudo se assemelhem:
densa forma,
oculto gosto,
cinco letras
e um pressuposto
poder de vida.

Um corpo é mais que um fruto
que se plante,
que se colha
ou se degluta:

um corpo
é um corpo,
e um corpo
é luta.

Um corpo não é um potro,
embora assim se manifeste:
pêlos mansos,
membros ágeis,
sal na boca
e um desejo
verde pelos campos.

Um corpo é mais que um potro
que pelos prados
e currais se dome:
um corpo
é um corpo,
e um corpo
é fome.

Nem chama
que se anule,
nem espada
em duplo gume
ou máquina
de estrume.

Um corpo
é mais que tudo:
mais que a chave,
mais que a forma,
mais que o leme,
mais que o açude.

Um corpo
é mais que tudo:
é a própria imagem
que eu não pude.

2

O corpo é onde
é carne:

O corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

O corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

O corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

O corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.


Notes of a dirty old man


I've seen to many intellectuals lately. I get very tired of precious intellects who must speak diamonds every time they open their mouths.
I get tired of battling for each space of air for the mind. That's why I stayed away from people for so long, and now that I am meeting people, I find that I must return to my cave.


Notes of a dirty old man, Charles Bukowski



My Own Social Media


Sir: I haven’t got a computer, but I was told about Facebook and Twitter and am trying to make friends outside Facebook and Twitter while applying the same principles.

Every day, I walk down the streets and tell passers-by what I have eaten, how I feel, what I have done the night before and what I will do for the rest of the day. I give them pictures of my wife, my daughter, my dog and me gardening and on holiday, spending time by the pool. I also listen to their conversations, tell them I ‘like’ them and give them my opinion on every subject that interest me…whether it interests them or not.

And it works. I have four people following me; two police officers, a social worker and a psychiatrist.

– Peter White, Holbrook, Derbyshire

11.9.15

Famas, Cronópios e Esperanças

Quando os famas vão de viagem, têm por costume, ao pernoitar numa cidade, fazer o seguinte: o primeiro fama chega ao hotel e cautelosamente pergunta os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo vai à esquadra da polícia e lavra uma acta declarando móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital copiar a lista dos médicos de serviço e respectivas especialidades.
Terminadas estas diligências, reúnem-se os viajantes na praça principal da cidade, trocam as observações obtidas, entram num café para tomar um aperitivo. Mas antes dão-se as mãos e dançam. Esta dança tem o nome de ‘Alegria dos famas’.
Quando os cronópios vão de viagem, encontram os hotéis cheios, os comboios já partiram, chove a potes, os táxis não os querem levar ou querem imenso dinheiro. Os cronópios não desanimam, pois julgam que isto acontece a toda a gente e, quando se vão deitar, dizem uns aos outros: ‘Bela cidade, belíssima cidade.’ E toda a noite sonham que há grandes festas na cidade e que foram convidados. No dia seguinte levantam-se todos satisfeitos, e é assim que os cronópios viajam.
Sedentárias, as esperanças deixam-se viajar pelas coisas e homens, e são como as estátuas que é preciso ir ver porque elas não se incomodam.
Histórias de Cronópios e de Famas, Julio Cortázar

8.9.15

7.9.15

6.9.15

flores

Estava junto aos escombros do meu pai, com os restos dos nossos sentimentos à deriva. O meu corpo ainda dizia o nome dele muito baixinho, como se fosse sangue a correr nas veias. As lágrimas não caíam, ficavam suspensas numa antecâmara qualquer do coração ou lá de que lugar é esse onde as lágrimas são laboriosamente fabricadas.

   A Clarisse estava ao meu lado. Estávamos de braço dado, ela tinha a cabeça encostada ao meu ombro.

   Atrás dos meus óculos escuros via as pessoas no enterro, a Carla estava tão bonita, de preto, com a dor no rosto, os cabelos lisos e as coxas a sair do vestido curto, mas não podia pensar naquilo, era o enterro do pai, ainda por cima a Carla é minha prima direita. Os destroços da morte por todo o lado, nas caras das pessoas, nas recordações. A mãe gritou algumas vezes, Zé, Zé, Zé, era o nome do meu pai, e foi nessa altura que me caíram umas lágrimas, não tanto por ele, naquela serenidade de cadáver, mas pela dor da mãe, tão pungente e catártica, tão siciliana na sua forma de se manifestar, cada Zé que ela gritava era uma facada no ar, Zé, Zé, Zé.

   O calor era tanto, o suor escorria-me pelas costas abaixo, não, não era suor, era a língua da morte a lamber-me a coluna de cima para baixo, a arrastar-me para o chão, a língua quente dessa estranha entidade que nos transforma em terra, que transforma tudo em terra. Sentia-lhe o hálito a flores, porque ela não fede como seria crível, tem o bafo das coroas de rosas e margaridas e gladíolos com que enfeitamos os caixões e mais tarde as campas. Cheira tudo a flores, o fim das coisas cheira a flores, não é a esgoto e a podre. Zé, Zé, Zé, gritava a mãe, e a morte a lamber-nos as costas, sem parar, com a ponta da língua muito fina a passar pelos corpos dos vivos, como quem toma um aperitivo.

   E, enquanto o padre mandava o pó voltar ao pó, eu abençoava Deus com blasfémias.

Flores, Afonso Cuz


folk blues





ainda há canções para cantar do outro lado dos homens.




DESIERTOS (Fragmentos)

La muerte ha cambiado la forma de la ciudad.

Esta piedra es la cabeza de un niño

y este humo es un suspiro humano.


Alí Ahmad Said Esber (Adonis)
(poeta e ensaísta sírio)

5.9.15

a quem pertence a Europa?

(...) cette Europe multiculturelle será un retour aux sources, car l’Europe est née de l’appropriation du passé et de l’autre.

Edgar Morin, in Qu'est-ce que la culture ?(Yves Michaud)

4.9.15

O encontro inesperado do diverso / O ensaio de música

- Eleanora,           o que pensas, já o deixei de pensar. Não te deixes iludir porque pequenas palavras podem ter a sombra de grandes. Provavelmente, o movimento dessa força, que julgas imensa, é ainda quase inexistente.

- Não posso, Anna. Há uma voz, no exterior, que se cruzou com a minha,           a minha pobre voz sem lugar, e ainda tem força para           «onde estás, meu amor», perguntei, mas a minha intenção firme, e silenciosa, era deixar de pronunciar, definitivamente, qualquer destas palavras porque são um véu transparente que asfixia o meu discernimento,           mas não posso, Anna.

Lisboaleipzig

O livro é um morto que vive.


Louis le Brocquy

3.9.15

sinais ambivalentes

Transformar é o que a arte faz, mas a fotografia que testemunha o que foi uma calamidade ou o que é repreensível será muito criticada se parecer «estética»; ou seja, se se parecer demasiado com a arte. O duplo poder da fotografia - gerar documentos e criar obras de arte visual - originaram alguns notáveis exageros quanto àquilo que os fotógrafos devem ou não fazer. Ultimamente, o exagero mais comum é o que encara estes dois poderes como opostos. As fotografias que representam sofrimento não deviam ser belas, assim como as legendas não deviam moralizar. Segundo esta ideia, a beleza de uma fotografia desvia a a tenção da seriedade do tema e foca-a no meio utilizado, pondo desse modo em causa o estatuto da fotografia como documento. A fotografia envia sinais ambivalentes. «Parem com isto», apela. Mas exclama também: «Que espectáculo!»

Olhando o Sofrimento dos Outros, Susan Sontag

His master’s voice


2.9.15

Será?


As fotografias atrozes não perdem inevitavelmente a sua capacidade de chocar. Mas não são de grande ajuda quando o que se pretende é compreender. As fotografias fazem outra coisa: perseguem-nos.

Olhando o Sofrimento dos Outros, Susan Sontag

31.8.15

Tríade

O alívio que César terá sentido na manhã de 
Farsália, ao pensar: Hoje é a batalha.

O alívio que Carlos Primeiro terá sentido ao ver a 
aurora no vidro e pensar: Hoje é o dia do
patíbulo, da coragem e da acha.

O alívio que tu e eu sentiremos no instante que
precede a morte, quando a sina nos libertar do
triste hábito de ser alguém e do peso do
universo.


Os Conjurados

30.8.15

Podes ficar aqui?


Larry Lefever


Não vás embora,
precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,

eternidades para te esquecer…


26.8.15

A névoa disse à árvore:

tu, cedro, perdes a tua forma,
se eu te abraço. Disse
o cedro: o Sol ama-me mais,
toma o meu corpo inteiro
no seu corpo e dá-lhe
ser, figura.

[Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas]


Michael Lange

25.8.15

Ich bin der Welt abhanden gekommen




atravessei a cidade, acompanhada de Mahler. sorri a cada semáforo que fechava, obrigando-me a esperar. 


24.8.15

(Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986)

¿Cuál cree que puede ser el juicio de la posteridad en su caso?

No me interesa absolutamente nada. Yo espero ser olvidado, definitivamente.

People






21.8.15

refém do tempo, corro, clamo por respostas com anexos.


Hugues Erre

/O bom homem dormiu bem. E abriu a porta da segunda-feira de pé maiúsculo. A boa mulher dormiu bem. E caminhou dia adentro com o sol no peito. E eis que virá mais uma noite. E agora eu acho que acabei de ouvir um passarinho piar aqui na janela./

20.8.15

Admirável Mundo Novo (2)

- Sem falar no direito de envelhecer, de ficar feio e impotente, no direito de ter a sífilis e o cancro, no direito de não ter de comer, no direito de ter piolhos, no direito de viver no temor constante do que poderá acontecer amanhã, no direito de apanhar a febre tifóide, no direito de ser torturado por indizíveis dores de todas as espécies.
Estabeleceu-se um longo silêncio.
- Reclamo-os a todos - disse, por fim, o Selvagem. Mustafá Mond encolheu os ombros.
- Oferecemo-los da melhor vontade - respondeu.

Admirável Mundo Novo

- Nós preferimos fazer as coisas com todo o conforto.
- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
- Em suma – disse Mustafá Mond –, você reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja assim! – respondeu o Selvagem em tom de desafio. – Reclamo o direito de ser infeliz.

Aldous Huxley,  Admirável Mundo Novo

19.8.15

Sul/meu sol

Era verão, havia o muro. 
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.


coast


A boca na cinza

falo contra as palavras que se esvaem, paro no meio de uma frase e olho em volta, como se quisesse encontrar a palavra que me falta, como se as palavras fossem objectos. E fica a minha voz parada. Levanto a mão, a direita, frente aos olhos de quem me escuta, abertos, tão grandes que desaparece neles a intenção. E procuro, aflita.
As pessoas perguntam-me: que tens?,
e eu, calada, a sentir uma bola na garganta, feita das palavras todas de que não me lembro, tens bócio: diz-me o meu irmão: tens bócio como a nossa mãe, de repente lembro-me de que nunca mais me lembrei de minha mãe, e quero responder-lhe: não é bócio, são frases esquecidas, são letras que não se juntam, às vezes, os olhos dos outros param na minha boca, inquirem o meu silêncio e esperam que eu fale, e o silêncio aumenta, até todo o meu corpo ser a falta de uma palavra, começo então a suar, as mãos ficam viscosas, os lábios secos, e eles continuam a olhar-me: fala.
(voz cega, sobre a mulher que esconde o nome inarticulado do filho)
- que não tive, que não poderei ter

Rui Nunes, A boca na cinza

18.8.15

VERÃO COM JACQUES TATI






Internet:

Método de entretenimiento que nos permite navegar en el Vacío para ir al encuentro de la Nada.

AGUSTÍN MONSREAL,  Diccionario al desnudo


daqui: Internacional Microcuentista - Revista de lo breve

17.8.15

«É o tempo da ternurinha, de facto.»*



Porto, 4 de Junho de 1960 — Ri-me. Algumas das nossas ingenuidades não
merecem mais.
— Lá fomos a Paris tomar um banho de civilização...
Como se a civilização fosse uma lixívia!


*....

16.8.15

Viceversa

Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte 

tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte 

tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte 

o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


15.8.15

as vozes

A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta

- Quem é?
- É a mãe morta
- São coisas passadas
- Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficamos sós?

[Nenhuma palavra e nenhuma lembrança]

12.8.15

estrelas cadentes, esta noite, para mil desejos*



*dn ciencia

Quem me quiser maltratar

Quem me quiser maltratar;
maltrate-me agora,
pois é tarde, e cansado
de trabalhos e penas,
quem se defende a esta hora?

Quem me quiser renegar,
renegue-me agora,
porque o meu sono é tão grande
que tudo aceito - nem sinto
se alguém se for embora.

Quem me quiser esquecer,
esqueça-me agora:
que eu não lamento nem sofro,
tonta do dia excessivo.
Tão sem força, quem chora?

(Noite imóvel, noite escura,
forrada de sedas suaves,
pequeno mundo sem chaves,
quase como a sepultura.)


11.8.15

na biblioteca

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’

[Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal]

10.8.15

Abtu e Anet

Segundo a mitologia dos egípcios, Abtu e Anet são dois peixes idênticos e sagrados que vão nadando à frente da nave de Rá, deus do Sol, para o advertirem de qualquer perigo. Durante o dia, a nave viaja pelo céu, de nascente para poente; durante a noite, por baixo da terra, em sentido inverso.

[O Livro dos Seres Imaginários,  Jorge Luis Borges, Quetzal Editores, p. 11]

9.8.15

Sunset, 1918






O Echo

Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?! 
Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta. 
Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras. 
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão. 
Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão. 
Foi-se triste para a tenda. 
Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma! 
E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe. 
- Outra que não Ella chamára tambem por Elle. 

a pedra




























Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a - Eu irrito o silêncio dos insetos.
b - Sou batido de luar nas solitudes.
c - Tomo banho de orvalho de manhã.
d - E o sol me cumprimenta por primeiro

The Match Factory Girl





















[que grande filme! ver "trailer".]