23.1.15

The Fragility of Time



Breve o dia, breve o ano, breve tudo. 
Não tarda nada sermos. 


21.1.15

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.


O Salva Vidas

Um lugar dentro deste bote não era muito diferente do que estar em cima de um cavalo bravo que, diga-se, não é muito mais pequeno. A embarcação erguia-se, empinava-se e lançava-se como um animal. À medida que cada onda se aproximava e ele se elevava, parecia um cavalo a saltar por cima de uma vedação altíssima. A maneira como se contorcia através destas paredes de água era algo místico e, para além disso, era por cima destas que se encontravam os problemas na água branca, a espuma que escorria com rapidez em cima de cada onda, exigindo um novo salto e um outro no ar.

[O Salva Vidas, Stephen Crane, Estrofes & Versos, p. 7]


16.1.15

15.1.15

efémero



11.1.15

«Que ninguém nos dome, que ninguém tente reduzir-nos ao silêncio branco da cinza, pois nós temos fôlegos largos de vento e de névoa para de novo nos erguermos e, sobre o desconsolo dos escombros, formarmos o salto que leva à glória ou à morte, conforme a harmonia dos astros e a regra elementar do destino.»




Citizen Kane (1941)

Leland: I can remember everything. That's my curse, young man. It's the greatest curse that's ever been inflicted on the human race: memory.




[ainda sobre o tempo da memória e a memória no tempo. ainda sobre a vida e se continua a ser vida, quando não há memórias a marcar o tempo. ainda sobre o sentido da vida ser o de coleccionar memórias. ainda sobre a arte de perder.]


10.1.15

The Gravedigger's Song






Dos filmes que me fizeram chorar: Still Alice





in Animais Cheios de Movimento no Inverno

Acendem-se
as mulheres sobre as tarolas aflitas
da seara as mais antigas

as que vão à janela

despedem-se antes do beijo
assentando o láudano nas cesuras infectas.

entreolham-se.

e passam a mão nas cãs e nas estrigas obsoletas
da madrugada.

e arqueiam o corpo sobre o corpo
obsoleto da aluvião.

correram muito muitas eras dando à luz na noite.

depois
depois de regressadas
às velhas casas

atearam o pânico nas leiras
e o riso no corpo.

e acreditaram ser possível rir infinitamente.

agora não.
estão como entontecidas estranhas mães de dezembro

lambendo nos pés a febre.


9.1.15

Je suis


First they came for the Jews

            and I did not speak out because I was not a Jew.

Then they came for the Communists

            and I did not speak out because I was not a Communist.

Then they came for the trade unionists

            and I did not speak out because I was not a trade unionist.

Then they came for me

            and there was no one left to speak out for me.


3.1.15

Dangerous Liaisons (1988)

Madame de Rosemonde: I'm sorry to say this, but, those who are most worthy of love are never made happy by it.
Madame Marie de Tourvel: But, why? Why should that be?
Madame de Rosemonde: Do you still think men love the way we do? No... men enjoy the happiness they feel. We can only enjoy the happiness we give. They are not capable of devoting themselves exclusively to one person. So to hope to be made happy by love is a certain cause of grief.

29.12.14

Queen






Sónia Silva, uma das minhas fotógrafas predilectas





Estas e outras fotografias podem ser vistas no blog pessoal da Sónia



Parked (2010)

Cathal O'Regan: Have you ever seen a leaf fall off a tree?
Fred Daly: What?
Cathal O'Regan: Have you ever seen the actual moment when that leaf breaks from it's branch?
Fred Daly: No, I can't say that I have.
Cathal O'Regan: It's a... It's a beautiful thing.


26.12.14

Hoje Preferia não Me Ter Encontrado

Desde as três da madrugada de hoje que escuto o tiquetaque do despertador: Intimidada, intimidada, intimidada... A dormir, o Paul atravessa a cama com um pontapé, recuando depois com um estremeção, tão repentino que, sem acordar, ele próprio se assusta. Já se tornou hábito. Foi-se-me o sono. Fico deitada, desperta, e sei que devia fechar os olhos para voltar a adormecer. Mas não fecho. Já tantas vezes desaprendi o sono e fui obrigada a reaprender como funciona. E funciona muito naturalmente ou não funciona de todo. Tudo dorme pela madrugada, até os cães e os gatos  só metade da noite vagueiam pelos latões do lixo. Quando se sabe que não se consegue dormir, é mais fácil pensar em algo luminoso no quarto às escuras, do que em vão cerrar os olhos com força. Com neve, troncos de árvores branqueados, salas brancas, muita areia, foi assim que espantei o tempo, mais vezes do que gostaria, até o dia clarear. Hoje de manhã podia ter pensado em girassóis, o que também fiz, mas não consigo esquecer que estou intimada para as dez em ponto.


[Hoje preferia não me ter encontrado, Herta Muller, ed. D. Quixote, p. 10]


...


24.12.14

...



23.12.14

solta-te
como se ainda fosses
um peixe a fugir da morte
e houvesse
por entre os dedos da noite
uma escada
de sereno veneno
por onde pudesses
mentir ao medo
e acordar numa hora
possível de dizer sim
um luminoso sim
e as marés
te olhassem nervosas
como se a palavra
ou o segundo
que tudo pode secar
te roesse a mão nua
e esse fosse
o instante da dor
ou o momento
de partir


[falso lugar, 2004]


...









A espera

Numa turva manhã do mês de julho, despertou-o a presença de gente desconhecida (e não o ruído da porta quando a abriram). Altos na penumbra doo quarto, curiosamente simplificados pela penumbra (nos sonhos do temor haviam sido sempre mais claros), vigilantes, imóveis e pacientes, de olhos baixos como se o peso das armas os encurvasse, Alejandro Villari e um desconhecido tinham-no apanhado, por fim. Com um sinal pediu-lhes que esperassem e virou-se contra a parede, como se retomasse o sono. Fê-lo para despertar a misericórdia de quem o matava, ou porque é menos duro suportar um acontecimento assustador do que imaginá-lo e aguardá-lo sem fim, ou - e isto é talvez o mais verosímil - para que os assassinos fossem um sonho, como já o tinham sido tantas vezes, no mesmo lugar, à mesma hora.
Estava nesta mágica quando o apagou a descarga.


[O Aleph, Jorge Luis Borges, ed. Quetzal, p. 146]


14.12.14

Vim porque me pagavam, Golgona Anghel

Acordamos cedo
mas chegamos tão atrasados a nós mesmos.

[ed. Mariposa Azual, p. 79]


11.12.14

Cris (1953)

Elle m'aime égoïstement.
Elle aime que je boive ses salives nocturnes.
Elle aime que je promène mes lèvres de sel
Sur ses jambes obscènes sur ses seis effondrés.

[Joyce Mansour, oeuvres complètes, prose & poésie, ed. Michel De Maule, p. 291]


Poesia, escombros e nada

4.
A poesia é a respiração intensa. É a capacidade de sustermos a respiração quando mergulhamos em águas densas. Só se respira livremente e sentimo-nos salvos no fim do poema. É assim comigo. Escrevo um poema como se entrasse num espaço reduzido e moldado pelo meu próprio pensamento. Não há margens por onde possa escapar. A escrita de poesia exige-me que mergulhe debaixo dos escombros emocionais e retire somente aquilo que irá representar o mundo que me propus interpretar. É como se tivesse de me alimentar com a minha própria fome. Eu nunca digo: vou escrever um poema. Como um suicida não revela: hoje é um bom dia para me suicidar. É-se convocado. O poema já existe, da mesma forma que o fim do suicida lhe está destinado. O acto poético consiste em procurar e descobrir o poema que já existe. Mas até para isso é preciso coragem.

[Fernando Esteves Pinto, revista digital A Sul de Nenhum Norte MAL DITA]


9.12.14

Ode to a Nightingale [Ode a um Rouxinol]


Here, where men sit and hear each other groan;
Where palsy shakes a few, sad, last gray hairs,
         Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies;
                Where but to think is to be full of sorrow...


[Aqui, onde os homens se sentam a ouvir mútuos queixumes;
Onde a decadência agita um resto de cabelos tristes e grisalhos,
         Onde a juventude se faz pálida, fina como a sombra, e morre;
                  Onde o simples pensar já é sofrer...]

[John Keats, 1819]