26.12.14
24.12.14
23.12.14
solta-te
como se ainda fosses
um peixe a fugir da morte
e houvesse
por entre os dedos da noite
uma escada
de sereno veneno
por onde pudesses
mentir ao medo
e acordar numa hora
possível de dizer sim
um luminoso sim
e as marés
te olhassem nervosas
como se a palavra
ou o segundo
que tudo pode secar
te roesse a mão nua
e esse fosse
o instante da dor
ou o momento
de partir
[falso lugar, 2004]
como se ainda fosses
um peixe a fugir da morte
e houvesse
por entre os dedos da noite
uma escada
de sereno veneno
por onde pudesses
mentir ao medo
e acordar numa hora
possível de dizer sim
um luminoso sim
e as marés
te olhassem nervosas
como se a palavra
ou o segundo
que tudo pode secar
te roesse a mão nua
e esse fosse
o instante da dor
ou o momento
de partir
[falso lugar, 2004]
A espera
Numa turva manhã do mês de julho, despertou-o a presença de gente desconhecida (e não o ruído da porta quando a abriram). Altos na penumbra doo quarto, curiosamente simplificados pela penumbra (nos sonhos do temor haviam sido sempre mais claros), vigilantes, imóveis e pacientes, de olhos baixos como se o peso das armas os encurvasse, Alejandro Villari e um desconhecido tinham-no apanhado, por fim. Com um sinal pediu-lhes que esperassem e virou-se contra a parede, como se retomasse o sono. Fê-lo para despertar a misericórdia de quem o matava, ou porque é menos duro suportar um acontecimento assustador do que imaginá-lo e aguardá-lo sem fim, ou - e isto é talvez o mais verosímil - para que os assassinos fossem um sonho, como já o tinham sido tantas vezes, no mesmo lugar, à mesma hora.
Estava nesta mágica quando o apagou a descarga.
[O Aleph, Jorge Luis Borges, ed. Quetzal, p. 146]
14.12.14
Vim porque me pagavam, Golgona Anghel
Acordamos cedo
mas chegamos tão atrasados a nós mesmos.
[ed. Mariposa Azual, p. 79]
mas chegamos tão atrasados a nós mesmos.
[ed. Mariposa Azual, p. 79]
11.12.14
Cris (1953)
Elle m'aime égoïstement.
Elle aime que je boive ses salives nocturnes.
Elle aime que je promène mes lèvres de sel
Sur ses jambes obscènes sur ses seis effondrés.
[Joyce Mansour, oeuvres complètes, prose & poésie, ed. Michel De Maule, p. 291]
Elle aime que je boive ses salives nocturnes.
Elle aime que je promène mes lèvres de sel
Sur ses jambes obscènes sur ses seis effondrés.
[Joyce Mansour, oeuvres complètes, prose & poésie, ed. Michel De Maule, p. 291]
Poesia, escombros e nada
4.
A poesia é a respiração intensa. É a capacidade de sustermos a respiração quando mergulhamos em águas densas. Só se respira livremente e sentimo-nos salvos no fim do poema. É assim comigo. Escrevo um poema como se entrasse num espaço reduzido e moldado pelo meu próprio pensamento. Não há margens por onde possa escapar. A escrita de poesia exige-me que mergulhe debaixo dos escombros emocionais e retire somente aquilo que irá representar o mundo que me propus interpretar. É como se tivesse de me alimentar com a minha própria fome. Eu nunca digo: vou escrever um poema. Como um suicida não revela: hoje é um bom dia para me suicidar. É-se convocado. O poema já existe, da mesma forma que o fim do suicida lhe está destinado. O acto poético consiste em procurar e descobrir o poema que já existe. Mas até para isso é preciso coragem.
[Fernando Esteves Pinto, revista digital A Sul de Nenhum Norte MAL DITA]
9.12.14
Ode to a Nightingale [Ode a um Rouxinol]
Here, where men sit and hear each other groan;
Where palsy shakes a few, sad, last gray hairs,
Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies;
Where but to think is to be full of sorrow...
[Aqui, onde os homens se sentam a ouvir mútuos queixumes;
Onde a decadência agita um resto de cabelos tristes e grisalhos,
Onde a juventude se faz pálida, fina como a sombra, e morre;
Onde o simples pensar já é sofrer...]
[John Keats, 1819]
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